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“Eu queria ser Chico Landi”, o documentário que vai contar a história do primeiro grande piloto brasileiro

Os caras que são loucos o bastante para tentar ganhar a vida no automobilismo (se você é um deles, parabéns) hoje em dia, aqui no Brasil, são inspirados por Ayrton Senna, um dos maiores pilotos de todos os tempos. No entanto, a geração de Senna e Nelson Piquet tinha outro ídolo — Emerson Fittipaldi, que em 1972 foi o primeiro brasileiro a se tornar campeão mundial de F1.

Emmo saiu da Fórmula 1 com 14 vitórias e dois títulos (1972 e 1974) para entrar na Fórmula Indy, onde venceu mais 22 provas e foi campeão em 1989. Seu sucesso ajudou a abrir várias portas na Europa para a geração seguinte. Mas quem foi que abriu caminho para Emerson Fittipaldi?

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Francisco Sacco Landi. Ou melhor, “Seu” Chico Landi, o cara que mostrou ao mundo que o Brasil também tinha bons pilotos. Ele é o ídolo de Fittipaldi, e pode ser considerado o piloto que começou tudo, mesmo que não tenha conquistado um título ou sequer uma única vitória na Fórmula 1. Até porque a carreira de Chico Landi nas pistas começou lá na década de 1930, na era dos Grand Prix— os mesmos que, nos anos 1950, deram origem à Fórmula 1 como conhecemos hoje.

E, aparentemente, será exatamente esta a veia do documentário “Eu queria ser Chico Landi”, que está sendo feito pela produtora independente Ebisu Filmes, sob responsabilidade de Paulo Pastorelo e Guga Landi. Com depoimentos do próprio Emerson Fittipaldi, além de Bird Clemente, Toni Bianco, Miguel Crispim Ladeira e outras figuras importantes na história do automobilismo nacional, o documentário deverá ser uma excelente forma de apresentar a história de Chico Landi às gerações mais novas e despertar nostalgia nos mais velhos.

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Isto porque, por ter acontecido há tanto tempo, a carreira de Chico Landi é bastante conhecida, mas as informações que existem são, em sua maioria, escritas — há pouquíssimos registros visuais, como imagens e vídeos, e os detalhes são escassos. Ouvir o que aqueles que conviveram com ele (e acabaram se tornando lendas por causa dele, direta ou indiretamente) acaba sendo uma bela forma de descobrir o que torna Chico Landi uma lenda.

Chico Landi nasceu em 1907 em São Paulo/SP, filho de imigrantes italianos. Seu pai veio de Nápoles em 1890 e, em pouco tempo de Brasil, conseguiu se tornar-se um bem sucedido empresário no setor de construção civil. A situação financeira da família era boa, mas tudo mudou com a morte do patriarca em 1911, sucumbindo ao tifo.

Foi assim que Chico Landi e os irmãos precisaram deixar os estudos para trabalhar. O irmão mais velho, Quirino, tornou-se assistente de mecânico, e logo o próprio Chico seguiu pelo mesmo caminho. Ele começou a consertar carros em uma oficina especializadas nos americanos Hudson, pegando gosto pela coisa. Mas foi vendo as corridas disputadas nas ruas da cidade — que valiam muito dinheiro apostado entre os próprios donos de oficinas e motoristas de táxi.

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Tornando-se um mecânico melhor com o passar do tempo, Chico Landi conseguiu um emprego na Ford e depois na Chevrolet, trabalhando na linha de montagem. E foi lá que ele comprou seu primeiro carro, um Chevrolet 1928 (o famoso “cabeça de cavalo”), e logo tratou de aprender a correr. Assim que se viu capaz, Chico Landi começou a participar dos rachas que ele assistia quando era mais novo. E ele era bom no que fazia.

No entanto, sua carreira nas corridas ilegais não durou muito. Já em 1934 ele havia dado um jeito de conseguir um carro e participar do II Grande Prêmio do Rio de Janeiro, realizado no clássico circuito de rua da Gávea — o mesmo que, em 1952, viu Chico Landi estabelecer um recorde ao percorrer seus pouco mais de 11 km em 7m03s.

Chico Landi sempre foi um piloto independente, que entre as décadas de 1930 e 1950 competiu em diversos Grand Prix usando carros fornecidos pela Alfa Romeo, Ferrari e Maserati — no caso desta última, em nome de sua pequena escuderia, a Equipe Bandeirantes. Sua primeira vitória veio no Grande Prêmio de Bari de 1948, na Itália, ao volante de uma Ferrari.

Em 1951, Chico Landi foi o primeiro a participar de uma corrida de Fórmula 1, de fato — o GP de Monza, novamente com uma Ferrari. Ele disputou seis Grandes Prêmios que valiam para o campeonato entre 1951 e 1956, sendo que ao chegar em 4º lugar em sua última prova na F1, o GP da Argentina, Chico conquistou 1,5 ponto e se tornou o primeiro brasileiro a pontuar na categoria.

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Foi a partir dali que começou outra fase importante na carreira de Chico Landi: as corridas de carreteras, carros de corrida “híbridos”, construídos com peças de carros de outras marcas, componentes feitos à mão e mecânica com preparação pesada — as carreteras com motores V8 americanos, dizem, tinham algo entre 300 e 400 cv, o que era muita coisa para a década de 1950.

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Usadas nas Mil Milhas Brasileiras, no Autódromo de Interlagos, as carreteras foram responsáveis por alguns dos momentos mais espetaculares da carreira de Chico Landi. Como a primeira edição da corrida, em 1956, quando Landi dividiu o volante com Jair de Mello Viana e pilotou por mais de nove horas seguidas, parando apenas para abastecer e trocar pneus, e a dupla terminou na segunda posição. Ou o ano seguinte, quando Landi e o colega José Gimenez Lopes venceram a corrida mas foram desclassificados por um defeito nas luzes traseiras que demorou a ser resolvido.

Chico Landi, ainda com o FNM, em 1962

A primeira vitória de Chico Landi nas Mil Milhas veio em 1960, quando ele dividiu o volante de um FNM JK 2000 com  Christian “Bino” Heins — vale notar que foi a primeira vez que um carro brasileiro venceu a prova, e não uma carretera feita com peças de carros importados. O ano seguinte, 1961, foi o último que viu Landi disputar a prova de longa duração em Interlagos.

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No entanto, sua relação com o Autódromo José Carlos Pace ainda durou muito tempo — até 1974, Chico Landi participou de várias outras provas, incluindo as 25 Horas de Interlagos, e em 1986 assumiu a direção do Autódromo. Sua administração foi vital para que, em 1990, o circuito voltasse a integrar o calendário da Fórmula 1. Infelizmente, no entanto, Landi não viveu para ver este sonho realizado: ele morreu no dia 7 de junho de 1989, aos 81 anos, vítima de um infarto.

Estamos ansiosos para ver que rumo vai tomar o documentário “Eu queria ser Chico Landi”. Poderá ser uma bela forma de relembrar a carreira de um dos maiores ícones do nosso automobilismo.