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Pensatas

Felicidade improvável: minha paixão por dois carros comuns

Há sete anos, depois de muito tempo vivendo em um apartamento em São Paulo, nos mudamos para uma casa no interior. Mudar de cidade e modo de vida assim pode parecer interessante, mas só para quem não o fez várias vezes. Em minha modesta opinião, mudança constante é boa somente em livros de auto-ajuda: todo mundo quer, em algum ponto da vida, alguma estabilidade. Mas enfim, para amenizar a mudança, algo sempre traumático para crianças e adolescentes, perguntamos aos dois filhos se queriam algo em especial agora que moraríamos em uma casa. Ambos responderam em uma voz só: um cachorro.

Eu sei como a maioria das pessoas que conheço enfrentam esse tipo de coisa. Primeiro, escolhem uma raça depois de extensivas buscas na internet que detalham comportamento, tamanho, cuidados necessários, aparência, origem. Depois procuram um criador de reputação, visitam canis, descobrem o que querem e, findo o longo projeto, levam o bicho para casa. Mas eu não sou este tipo de pessoa. Não mesmo: eu gosto mesmo é de um bom vira-lata.

Mandei minha esposa ir com as crianças a um abrigo de cães abandonados na cidade escolher um. Assim, simples, problema resolvido. Esta é a maneira que gosto de fazer este tipo de coisa, deixando o acaso e o divino à vontade para operar. Soltar um pouco o controle de tudo, para que nossa vida não se torne um inferno de planejamento frio e chatérrimo.

O cachorro que escolheram, a Pipoca, acabou crescendo um bocado e ficando bem grandona e gordinha; bem maior do que minha esposa gostaria. Deu muito trabalho naquela primeira casa também, mas depois, quando mudamos definitivamente para um quintal maior, acalmou: precisava só de mais espaço. Mesmo assim se provou um cachorro dos melhores. Boa, tranquila, agradável, bonachona, e caçadora de pragas no jardim. E o principal: uma companheira incrivelmente fiel; ela continua aqui comigo, deitada esquentando meus pés, enquanto digito furiosamente três mil palavras todo dia.

Não é um cachorro muito social com humanos, e nem muito educada; temo tê-la mimado demais. Mas jamais a trocaria por um animal de raça e pedigree, com suas doenças diversas derivadas de séculos de manipulação genética e incesto, e sua vida prévia tranquila e estável. Cachorros abandonados sofrem antes de serem adotados, e, quando encontram amor, são claramente gratos por isso. E sua genética não tem interferência humana, seguindo as leis de seleção natural e sobrevivência do mais forte: são cães parrudos, que quase nunca ficam doentes. Adoro um bom vira-lata, e nem ligo que outros achem ele feio. Nem ligo também, claro, com a sua imagem de “coisa de pobre”.

Virtus GTS: uma surpresa ruim.

Com automóveis, porém, essa nossa constante busca de conhecer sempre mais e mais, me faz diferente. Meio elitista, pedante até, as vezes. Imersos em BMW antigas, chiques Alfa-Romeo e mesmo Chevettes bem-acertados ou modificados, começamos a desprezar o mundano e normal do dia-a-dia como coisa inferior. Andar de Ferrari ou Porsche é pior ainda: por um bom tempo estraga a maioria das outras coisas por aí. Com automóveis, precisamos de pedigree, gostamos de coisas bem precisas e especiais, e desprezamos veementemente esse monte de vira-latas cuspidos aos milhões pela indústria, para gente que não sabe nada sobre como criar carro, o que faz um carro bom, e que compra essas porcarias automáticas inertes em suaves prestações mensais fixas e sem entrada. Com carros sou muito mais exigente.

Mas confesso que, um par de vezes, fui pego de surpresa por alguns vira-latas automotivos por aí. E mais incrível, totalmente por acidente, pois quando os escolhi fui pragmático e desinteressado, escolhendo algo por preço e considerações práticas apenas. Uma prova que felicidade pode vir lugares totalmente inesperados, e que o acaso, esse desconhecido meio pelo qual tudo de bom ou ruim acontece com a gente,  é muito mais importante do que os planejadores compulsivos querem nos fazer acreditar.

 

O Palio

Em 2001 estava naquela situação que todo mundo odeia: sem carro. Ok, tínhamos um carro, na verdade: o Tempra da esposa. Carro novo e confiável para ela e nossa filha recém-nascida. Mas para mim restava a maior sensação de escravidão do mundo moderno: o maldito transporte coletivo e a servidão aos seus horários fixos, itinerários inflexíveis e companhias indesejáveis. Amaldiçoei meu destino cruel enquanto esperava todo santo dia no ponto, debaixo do guarda-chuva, assistindo meus semelhantes passarem livres e sequinhos em seus automóveis particulares. Quem já enfrentou isso sabe: o clima de vagão de gado a caminho do matadouro do transporte público devia ser banido por lei: é a maior fonte de revolta já criada pela civilização humana. Se todo mundo tivesse seu próprio Landau, o mundo seria muito mais calmo e pacífico. Minha receita para paz mundial: Landau para todo mundo. O homem que tem Landau não quer guerra com ninguém, já disse o poeta.

Meu Palio. Feio, barato e simples. Mas adorável mesmo assim.

Mas daí consegui um dinheiro, suficiente para comprar um carro barato, zero-km. Precisava de transporte confiável e não diversão; na hora resolvi esquecer ideias de outro Opala ou Chevette velho. Andar de ônibus faz isso a você: não queria ver oficina por um tempo. Ia comprar um Uno, então o mais barato carro nacional, mas acabei com um Palio Young: com o lançamento do novo motor Fire, existiam alguns Young Fiasa 2001 ainda em estoque, mais baratos que o Uno (também já ali com o novo motor). Por insistência da esposa, que achava o Palio mais socialmente aceitável, fui eu então alegre e faceiro buscar meu novo carro em uma concessionária no Butantã, num sábado de manhã.

Como disse, não esperava nada além de transporte. O carro era um duas-portas super simples e básico: nem retratores nos cintos traseiros tinha. Ar-condicionado e direção hidráulica? Não me faça rir. Para subir os vidros, existia um estranho sistema sem botão nenhum: uma pequena manivela plástica tinha que ser rodada várias vezes para o vidro lentamente subir ou descer. Minha felicidade naquele dia estava ligada apenas à conquista da liberdade antes perdida. O carro era apenas a ferramenta para conquistá-la, e nada mais.

Mas no momento que coloquei o Palio em movimento naquele dia, para dentro do trânsito caótico de São Paulo, vi que tinha algo inesperadamente especial nas mãos. O carrinho se movia leve, solto, como se não existisse inércia. Seu motor não era muito forte, mas girava suave, solto, alegre. O câmbio e a embreagem pareciam se conhecer a séculos, um adivinhando o próximo movimento do outro. A suspensão era firme, mas não desconfortável, e o carrinho tinha uma aderência inacreditável para algo montado em pneus de seção de 155 mm. Ali, naquele dia mesmo, ri de gargalhar sozinho dentro do carro feito bobo. Ao mesmo tempo que ziguezagueava pelo trânsito feito louco, ignorando totalmente qualquer procedimento de amaciamento.

Eu sei que muita gente torce o bico quando falo isso, e sei que nem todo Palio é bom assim. Mas não estou nem aí, porque o que experimentei era real: aquele Palio era simplesmente sensacional. Não no papel: seu motor tinha só 61 cv, não era nem o mais rápido e nem o mais econômico de sua época. Sua excelência estava apenas no subjetivo.

Rodei mais de 30.000 km com ele, a maior parte do tempo sozinho. Em estrada, numa época com poucos radares, era incrivelmente estável, tranquilo e feliz, mesmo a velocidades impublicáveis. Meus recordes de tempo em viagens ainda são quase todos dele, pois passei a viajar muito a trabalho, sozinho, de madrugada, e realmente pedia tudo que ele tinha para dar. Nunca experimentei corte de injeção por rotação em última marcha tantas vezes como com este carrinho. Foi para mim mais que transporte e diversão: foi um companheiro fiel e extremamente agradável. Quase humano.

O câmbio era tão gostoso que me via brincando de trocar marcha sem embreagem, raramente arranhando, mesmo com minha habilidade pífia na manobra. Eu sei que não devia fazer isso, mas parado no sinal forçava a primeira, os sincronizadores colocavam o carro lentamente em movimento (olha como era leve!) e a brincadeira era sincronizar o sinal verde com a entrada da primeira, sem embreagem, e continuar. O carro me incentivava a brincar, a me divertir, todo dia que usava ele. Lembrando aqui de sua agilidade, estabilidade, de seu motor extremamente alegre e girador, sou completamente avassalado por uma saudade danada. E com um sentimento de surpresa ainda presente: como algo tão barato e comum, “de pobre” mesmo, pode ser tão satisfatório? Incrível.

A reclamar? Muito pouco. A direção, apesar de sem assistência em um carro leve, não era das melhores. O volante ficou branco em pouco tempo, denunciando baixa qualidade, e seu aro grosso não fazia meu tipo. Mas acho que só. O carro deu zero problemas, só indo para oficina em revisões periódicas, e para consertar uma encostada de uma moto. Tá, o carro era tão pelado que não tinha nada para quebrar. Mas mesmo assim, digno de nota.

Não reclamo da falta de equipamentos; o simples fato de ser extremamente ascético como um guru indiano, além de torná-lo barato suficiente para mim, ajudava no baixo peso, certamente o cerne do que fazia o carro tão bom de dirigir. Tenho é saudade de carros simples como este, num mundo hoje preso a um ciclo de aumento de complexidade sem fim. Como se estivéssemos todos ricos para aceitar apenas luxo em nossos carros…

 

O Virtus

Achei que nunca mais um carro me surpreenderia como aquele Palio, e realmente demorou para acontecer. Mas provando que aquilo não foi algo impossível de repetir, aconteceu novamente.

A história é estranhamente parecida: de novo uma época difícil e complicada da vida, onde perdi o emprego e me vi novamente sem carro. Desta vez tinha algum dinheiro e tempo para escolher, porém. Não precisava mais usar o carro para ir e voltar do trabalho, mas este seria também o carro da família: nada de Berlingo ou BMW velhas. Resolvi ser totalmente pragmático: comprar carro usado com um ano de idade, mais barato e ainda confiável. E indo completamente contra minha alma apaixonada e impulsiva com carros, atender requisitos bem definidos, lógicos e calculados. Espaço no banco traseiro para dois filhos agora com mais de 1,8 m de altura, câmbio automático para deixar patroa feliz, econômico em combustível, e um carro usado para não perder dinheiro demais com depreciação.

Claro que falhei em quase tudo, lógico. Comprei um carro zero, com câmbio manual, mas pelo menos com espaço para os marmanjos atrás. Exatamente como no caso do Palio, comprei o carro querendo apenas transporte: tínhamos escolhido um Virtus 200 TSI usado por atender todos meus requisitos pré-estabelecidos. Mas descobri que um Virtus MSI zero-quilômetro em promoção, com motor 1.6 litro aspirado e câmbio manual, saia mais barato que o 200TSI usado. Levei minha esposa para andar nele, para ela ver que a “embreagem é molinha” (eu mereço!), e comprei o carro.

Foi, como no caso do Palio e de tantas outras vezes menos memoráveis na vida, uma compra sem emoção. Estes não são carros para deitar a cabeça no travesseiro e sonhar; são ferramentas de transporte e provedores de liberdade, apenas. Algo para respeitar, e dar felicidade por bons trabalhos prestados. E pronto. Meu Virtus é branco, pelamordedeus; todo mundo pensa que virei Uber.

Mas de novo, inesperadamente, adorei o carro. Mesmo. Cada vez mais, a cada passeio me sinto mais ligado a ele. Tinha antes andado de 200 TSI apenas: um carro eficiente, silencioso, suave, mas completamente esquecível. Meu carro é totalmente diferente.

O que chama a atenção logo de cara, para mim, acostumado em carros de família no idioma moderno, é de novo a simplicidade extremamente agradável. O freio de mão é uma alavanca ligada a um cabo físico que vai até os tambores traseiros, coisa que nem sabia que sentia falta. O câmbio é manual, e é sensacional: um trambulador a cabo com contrapesos nas alavanquinhas em cima do câmbio, que tem um movimento sem esforço, bem pensado, delicioso. A alavanca em si está posicionada perfeitamente, alta, onde se espera, é um primor ao se operar. Um sistema tão bem feito e perfeito que um amigo imaginou ser artificial, criado em laboratório, remoto: não, são cabos ligados direto ao câmbio mesmo. O câmbio é tão bom que, como no Palio, me pego as vezes a trocar de marcha sem embreagem. Esses dois carros estão estranhamente ligados, de formas que não pretendo entender.

Outra surpresa agradável: uma chave de verdade! Como é bom colocar uma chave no buraco dela e girá-la para ligar o carro. O que tem de difícil nisso? Em que o botão é melhor? E onde se enfia a chave quando não se tem lugar para ela? Posso parecer um velho ranzinza, mas depois de três carros em que as chaves ficavam jogadas no console, e ver como o sistema antigo do Virtus é melhor, sou um convertido. Outra coisa que nem sabia que tinha saudade.

Mas o melhor é como o carro anda. O motor não é tão liso e girador como o do Palio, para ficar na referência aqui, mas é legal pacas: gira bem, principalmente num mundo de motores pequenos turbo, todos verdadeiros simuladores de motor diesel. Até sua pequena aspereza é apaixonante: em desaceleração a admissão ruge um raááaáaáaá alto, que incomoda a esposa e me coloca um sorriso no rosto. Um motor que parece vivo, alegre, bravo quando se pede, e silencioso e tranquilo andando com a família a baixas rotações.

Os bancos são de tecido, simples, sem motores elétricos, mas com regulagem de altura também. Para mim, mesmo com a direção fixa sem regulagem, fazem uma posição de dirigir perfeita, e são confortabilíssimos, e com laterais suficientemente pronunciadas para segurar em curvas. Freia muito bem também, de novo muito bom em todos seus comandos primários.

O carro é muito estável e seguro em toda situação, mas não é esportivo: tem o subesterço benigno e seguro de carro alemão, sempre. A direção elétrica também não é muito informativa, apesar de leve, precisa e gostosa no dia-a-dia. O controle de tração e de estabilidade eu não escolheria se pudesse: este carro é totalmente seguro por meios mecânicos, relativo a seu desempenho. Mas hoje, somos obrigados a pagar por isso, sabe-se lá por quê.

Não é, definitivamente, um carro esporte. É, sim, um carro excepcionalmente gostoso de se usar no dia-a-dia. A terceira marcha é um exemplo: tem um buraco grande para segunda, perceptível quando se dirige esportivamente. Mas no dia-a-dia é uma marcha útil. Dirigindo a 8/10 (rápido, mas abaixo do limite), quase se usa somente ela, tirando o pé e acelerando, em giro alto. Não é um carro esporte, mas mesmo assim é uma delícia de dirigir.

É um carro grande por dentro, mas leve e ágil. É um pouco barulhento para ser algo de luxo, mas eu particularmente adoro sentir algo acontecendo, algum som, vibração e aspereza. Faz parecer que estamos no mundo real, e não numa câmera de isolamento sensorial, como a maioria dos carros modernos mais caros. E ar-condicionado, travas elétricas com controle remoto na chave, e uma boa central de infotainment, são tudo que espero de amenidades.

Podia ser mais potente? Claro que sim. Acima do limite de velocidade das estradas fica um pouco barulhento demais, obrigando um ritmo mais calmo. Não é perfeito, mas é algo extremamente bom, inesperadamente. Gosto mais dele a cada vez que ando, e as vezes me vejo com vontade de sair por aí sem destino, só para experimentá-lo de novo. A marca mais clara de algo realmente bom. Se me virasse para olhá-lo mais uma vez ao me afastar, seria algo deveras apaixonante. Mesmo assim, ainda não acredito a sorte que tive: consegui muito mais que esperava.

Já tive muitos carros, e experimentei inúmeros outros, e na maioria das vezes eles apenas confirmaram o que já sabia, mesmo antes de sentar a busanfa na cadeira do motorista. Hoje tenho que confessar que andam bem previsíveis, e muito parecidos entre si. A maioria das surpresas, quando acontecem, infelizmente, são para o outro lado: o mundo está cheio de carros que prometem muito e dão nada de interessante em troca. Mas tanto o Palio em 2001 como o táxi branco-geladeira hoje, provam que nem tudo está perdido. Devem existir mais coisas assim por aí, tenho certeza. E se não fosse a esperança de encontrá-los, com certeza o mundo de hoje seria chato demais para aguentar.