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Quando a Mazda transformou uma mala em um “carro” – e outros automóveis minúsculos

A ideia de uma mala motorizada não é exatamente novidade – não me é estranha a imagem de uma pessoa montada em sua mala, “dirigindo” pelo aeroporto para não cansar as pernas. Contudo, faz poucos meses que uma startup chamada Modobag ganhou certa atenção na mídia por um produto assim.

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Lançada no fim de 2019, a mala pesa 8 kg, tem um motor elétrico de 200 watts e, de acordo com a empresa, suporta até 117 kg. Ela tem velocidade máxima de 13 km/h, pode ser carregada em uma hora na tomada e ainda possui portas USB para carregar celulares ou laptops. Financiada em um site de crowdfunding – em uma campanha que arrecadou o equivalente a mais de R$ 4 milhões! – a Modobag custa US$ 1.495 (pouco mais de R$ 8.000 na cotação atual) e promete “mudar a maneira como o mundo viaja”. Ah, e também dá para colocar coisas dentro, claro.

Mas não foi a primeira vez que alguém criou uma mala motorizada. Na verdade, uma fabricante de automóveis teve essa ideia na década de 1990 – a Mazda. E, curiosamente, a fabricante tem muito orgulho de sua criação.

Os anos 1990 foram uma época muito boa para a Mazda: na virada da década, a fabricante lançou o MX-5, aquele que, ao lado do RX-7, é provavelmente seu carro mais icônico e seu esportivo mais bem sucedido – e praticamente unanimidade entre público e crítica. Tanto que hoje, trinta anos depois, ele está em sua quarta geração e segue à risca a mesma fórmula. De quebra, em 1991 a fabricante se tornou a primeira equipe japonesa a vencer as 24 Horas de Le Mans com o mítico 787B (que também foi o único carro com motor sem pistões a triunfar na corrida).

 

Para melhorar as coisas, em 1991 a economia do Japão estava em uma fase excelente – a bolha do mercado de ações ainda não havia explodido (isto aconteceu no ano seguinte, mas foi de surpresa), e as fabricantes de automóveis tinham dinheiro de sobra para gastar em projetos experimentais e de nicho que dificilmente gerariam lucro.

Em seu próprio site a Mazda diz que aquela era “a época perfeita para criar um carro dentro de uma mala”. E, de fato, em 1991 a empresa realizou um evento interno para os funcionários que quisessem demonstrar ideias inovadoras e mirabolantes – o Mazda Fantasyard.

Foi então que um grupo de sete engenheiros, todos membros do grupo de pesquisa e teste de câmbios manuais da Mazda, juntou-se para colocar a ideia em prática. Para isto, foi comprada uma mala da Samsonite – a maior que eles conseguiram encontrar – e uma mini-moto Pocket Bike, fabricada no Japão e equipada com um pequeno motor dois-tempos de 33,6 cm³ e 1,7 cv, além de rodas de quatro e seis polegadas.

A moto foi desmontada e a maior parte de seus componentes – motor, rodas e guidão, além de uma roda extra – foram reorganizados e colocados na mala usando um chassi de metal. Quando aberta, ela formava uma espécie de kart com três rodas e guidão, com direito a carenagens de fibra de vidro para deixá-la mais parecida um um kart de verdade. As rodas traseiras se desdobravam, e a roda dianteira “brotava” de uma tampa removível.

Segundo a Mazda, o carro era montado em menos de um minuto e andava como um kart, com velocidade máxima de 30 km/h. O que a fabricante não diz é quantos protótipos foram feitos – menciona apenas que o original acabou destruído pouco tempo depois do Fantasyard. Existe outro, porém – e, segundo a Mazda, ele funciona muito bem até hoje.

Se o carro-em-uma-mala da Mazda é mesmo um carro… bem, dá para debater bastante. Sem câmbio (a transmissão é direta), sem volante, sem suspensão e sem quadro de instrumentos, mas com faróis, lanternas e racing stripes, a invenção certamente embaça bastante as fronteiras entre carro e brinquedo. Por outro lado, existiram outros veículos minúsculos que se parecem mais com carros convencionais.

O melhor exemplo talvez seja o menor carro legalizado para as ruas do planeta – emplacado e vistoriado para circular nos Estados Unidos. Ele foi feito por um texano chamado Austin Coulson e inspirado pelo Chevrolet Bel Air – ao menos é o que ele diz.

A carroceria é uma peça pronta, feita para carrinhos de bebê, mas o carro tem um motor de verdade, rodas, pneus, faróis e lanternas funcionais, buzina, retrovisores, cinto de segurança e um para-brisa (feito de vidro certificado pelo departamento de trânsito do Texas) – tudo o que um automóvel precisa ter para circular pelo Texas em vias com velocidade máxima limitada em 40 km/h.

Seu tamanho é realmente impressionante: são 1,26 m de comprimento, 64,3 cm de largura e 64 cm de altura. Apenas uma pessoa pode andar no carro por vez, obviamente, e não há suspensão. Por outro lado, os pneus são de borracha com perfil bem alto, e as rodas são de liga leve. O motor é um monocilíndrico de 110 cm³ vindo de um quadriciclo, e com ele o carro consegue rodar até 36 km com um litro de gasolina. Com um tanque de combustível de 1,5 litro, a autonomia é de 54 km – suficiente para rodar o dia inteiro na cidade e ir até o trabalho, por exemplo. Só não é muito eficaz para fazer compras no mercado, pois não há porta-malas.

Em 2014, Austin conseguiu ser reconhecido pela Guinness World Records como o criador do menor automóvel legalizado para as ruas do planeta graças a seu carro, que tem pintura inspirada nos caças P-51 Mustang da Segunda Guerra Mundial.

De fato, existem incontáveis projetos de minicarros motorizados muito parecidos – como aqueles caras que colocam motores nos jipes da Barbie e vão disputar corridas offroad com eles. Só que nenhum deles se dispôs a passar por todo o processo de homologação. É loucura demais até para quem participa de um campeonato na lama usando um jipe de brinquedo!

Agora, se o assunto forem carros produzidos em série, talvez você até saiba a resposta: o menor carro de todos os tempos foi Peel P50, que ficou famoso no quadro do Top Gear no qual Jeremy Clarkson invade o prédio da BBC ao volante exemplar. Um clássico – saudades dos bons tempos do programa, aliás…

O Peel P50 foi fabricado entre 1962 e 1965 em Isle of Man, no Reino Unido. Ele era um projeto meio que experimental da Peel Engineering Company, cujo principal ramo de atuação eram embarcações e carenagens para motos esportivas, e contava com o mínimo exigido pela legislação britânica na época para circular nas ruas: um farol, um para-brisa com limpador (que era em essência um rodo preso a uma haste, atuado manualmente), uma porta, e espaço para “uma pessoa e uma sacola de compras”. Tinha 1,34 m de comprimento, 98 cm de largura, 100 cm de altura e 1,27 m de entre-eixos.

O Peel P50 era voltado para aqueles que queriam a praticidade de uma moto, mas dispensavam a emoção de conduzir uma – e sem tomar chuva. E, como uma moto, ele não tinha marcha à ré: de tão leve (pesava só 56 kg), para manobrá-lo havia uma alça na traseira. Era só segurar, erguer e colocar o carro onde se desejava. O motor era um dois-tempos DKW de 49 cm³ com 4,2 cv, moderados por um câmbio manual de três marchas. Era o bastante para chegar aos 61 km/h.

Por seu tempo de vida curto, deduz-se que o Peel P50 não passou muito de um experimento para sua empresa, que seguiu com os barcos e carenagens para motos até 1974, quando fechou as portas. Outra empresa foi aberta em 2011 com a ajuda de um programa de TV para trazer o P50 de volta – com direito a versões elétricas. Diferentemente do original, o P50 renascido tem a proposta de ser um projeto “do it yourself”, um kit car para quem quer sujar um pouco as mãos de graxa e, no final, ter um veículo para se divertir nos finais de semana, em vez substituir uma moto. Segundo sua fabricante, ele é mais popular nos Estados Unidos que no Reino Unido, e cerca de 15 exemplares são vendidos por ano.

Agora, talvez você esteja curioso para saber qual é o menor carro produzido em série atualmente, levando em conta projetos mais modernos. Pois este título vai para o Renault Twizy, que é razoavelmente popular na Europa e na Ásia – entre frotistas, inclusive. Para eles, a Renault oferece uma versão específica para transporte de carga, apropriadamente batizada Twizy Cargo.

Classificado como um quadriciclo, o Twizy tem duas opções de motorização elétrica: um de 5,4 cv (Twizy 45) e outra de 17 cv (Twizy 80). Ambas as versões têm as mesmas dimensões: 2,34 m de comprimento, 1,23 m de largura, 1,45 m de altura e 1,69 m de entre-eixos. O peso fica na casa dos 450 kg.

Os nomes das versões fazem referência à velocidade máxima em quilômetros. Contando ambas as versões, o Twizy já vendeu mais de 29.000 unidades, principalmente na Europa – onde foi o carro elétrico mais vendido em 2012, ano do lançamento.

Sugestão do leitor Luis Aurélio Surek

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