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Fernando e o Gol GT 1986 do Vô Natal | FlatOut Classics


O quadro FlatOut Classics se dedica ao antigomobilismo e aos neocolecionáveis (youngtimers) estrangeiros e nacionais, dos anos 20 ao começo dos anos 2000. Carros originais ou preparados ao estilo da época.
São matérias especiais, feitas para serem saboreadas como as das clássicas revistas que amamos.
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O carro que sempre voltou

Um dos grandes clichês da cultura automobilística é a ideia de que os carros, às vezes, escolhem seus donos. Mas… como diria um velho amigo, clichês funcionam, ou não se tornariam clichês. E, neste caso, não há forma melhor de descrever a relação deste Gol GT com a família Silotto. Ele parece mesmo tê-los escolhido como condutores de sua história.

Uma história que começou em São Paulo, no distante 1986, quando “Seo” Natal entrou em uma concessionária Volkswagen e, de lá, saiu com este Gol GT preto ônix zero-quilômetro. O acaso tentou separá-los em apenas seis meses, quando o carro foi roubado no centro da cidade. Um carro roubado em São Paulo. Quais as chances de recuperá-lo?

Não muitas. A seguradora certamente tentou, mas, sem sucesso na busca, acabou indenizando Natal. Ele poderia voltar à concessionária Volkswagen e arrematar um novo exemplar se não fosse uma infeliz coincidência: àquela altura o Gol GT já não era mais produzido. E foi assim que ele acabou inconformado com um Chevette na garagem. Pudera: imagine finalmente comprar um carro esporte e, seis meses depois, ser forçado a comprar um dos sedãs mais populares do país.

Aqui é o momento em que nosso clichê começa a ser construído: um mês após a compra do Chevette, a seguradora encontrou o carro. Como a indenização já havia sido paga, o carro foi leiloado. Natal, claro, estava presente e comprou seu carro pela segunda vez.

A história de Fernando com este Gol começa a partir desta segunda vinda do GT. Neto de Natal, foi também a bordo dele que seu gosto por carros acabou desenvolvido, não apenas por ser o carro do avô, mas pelo que aconteceria com o carro na década seguinte.

 

A nova geração

Após recomprar o carro, Natal teve um certo receio de continuar usando o esportivo em São Paulo. Ele temia que o carro fosse roubado novamente e acabou usando-o em suas viagens a Paranapanema, a cerca de 270 km da capital, para onde estava se mudando.

A cidade interiorana, contudo, se mostrou pouco hospitaleira para o GT. Ruas de terra e estradas esburacadas acabariam com o esportivo que insistiu em voltar para Natal. O carro acabou guardado em São Paulo, aos cuidados de seu outro neto, o irmão mais velho de Fernando. Nesse período, os irmãos começaram a usar o carro esporadicamente para viajar a Paranapanema para visitar o avô, mas na maior parte do tempo o carro ficava guardado — bem-cuidado, porém parado. E assim ficou até 1999, quando Fernando, agora motorista, criou coragem, pediu ao avô se poderia cuidar do carro e acabou substituindo o irmão na tarefa de guardá-lo.

Com Fernando o carro voltou a rodar e até chegou a ser usado diariamente durante um certo período em que ele ficou sem outro carro para o dia-a-dia. Essa rotina de cuidados e passeios, contudo, se encerrou em 2004, quando a empresa da família passou por um momento delicado financeiramente e Natal pediu que vendessem o Gol para ajudar na solução do problema.

Na época o Gol GT ainda não havia ganhado o status de clássico nacional, tampouco Fernando ou seus familiares poderiam imaginar que aquele Gol GT se tornaria tão valioso anos mais tarde. E assim o Gol se foi, os problemas da empresa foram solucionados e Fernando continuou curtindo carros em modelos mais novos. Até que um outro carro despertou o famoso “vírus da ferrugem”.

 

O Gol GT 1986

Dizem que o Gol GT foi o carro que salvou o Gol. Lançado em 1984 com um inédito motor a água, de 1,8 litro e comando de válvulas do Golf GTi, ele deu ao então novo hatchback da Volkswagen uma nova personalidade e o transformou em objeto de desejo — algo que o modelo com o “motor de Fusca” jamais teria se tornado.

Era uma variação mais leve e mais ágil do Passat GTS, equipada com bancos Recaro, rodas de liga leve, escape esportivo, volante exclusivo, instrumentação completa e um belo conjunto de faróis auxiliares que lhe davam um visual algo semelhante ao dos carros de rali da época.

Os números declarados pela Volkswagen eram os mesmos para qualquer Gol GT: 99 cv a 5.400 rpm e 14,9 kgfm de torque a 3.200 rpm – o bastante para, de acordo com a VW, ir de zero a 100 km/h em 9,7 segundos, com velocidade máxima de 180 km/h. Os números de desempenho são estes mesmos, mas a potência, na prática, era pouca coisa maior — algo entre 105 cv e 110 cv. A razão pela qual ele (e muitos outros carros da época) tinha 99 cv “declarados”, era a faixa de tributação do IPI, que impunha uma alíquota maior para carros com 100 cv ou mais.

Sendo um exemplar de 1986 — um dos últimos do GT, portanto —, o Gol de Fernando já vinha equipado com o novo câmbio de cinco marchas lançado em 1985. Apesar das relações completamente diferentes, encurtadas a partir da primeira marcha, a Volkswagen não alterou os dados de desempenho declarados. Na prática, o carro era ainda mais ágil que sua versão inicial de 1984.

 

O clássico do cinema

Após a venda do Gol GT, Fernando continuou curtindo seus carros modernos até que, em 2013, o DeLorean de um vizinho cruzou seu caminho. Na época Fernando ainda não pensava em ter um clássico, embora seus colegas de banda (um deles o proprietário da Caravan SS 1979 do FlatOut Classics) tentassem o convencer a entrar no universo dos carros antigos.

“Comecei a me interessar por carros clássicos depois que vi o DeLorean do vizinho. Quem viu esse carro primeiro foi o vocalista da minha banda, o Daniel. Ele sacou que o carro coberto por uma capa era o DeLorean. Um dia o vizinho tirou a capa e eu fiquei em choque”, conta Fernando.

A partir dali Fernando começou a procurar um DeLorean e se envolveu com os carros clássicos. “Antes de ter carros antigos eu era aquele cara que não entendia o porque de eles sofrerem com os antigos e mesmo assim curtirem tanto”. O DeLorean entrou em sua garagem três anos depois, em 2016, em uma triste coincidência com o ano da partida de seu avô.

O envolvimento com o DeLorean o levou a participar dos encontros de clássicos. O interesse pelos carros antigos aumentou e, em certo momento, em um dos encontros, Fernando viu um Gol GT vermelho que reavivou os momentos com o GT do Vô Natal. Foi quando ele decidiu que teria um GT igual ao do avô — ou pelo menos o mais parecido possível.

 

A terceira vinda do GT

Enquanto procurava um GT preto ônix, Fernando fez uma visita ao Museu da Imprensa Automotiva, o MIAU, e encontrou um amigo entusiasta do Gol e começou a conversar sobre o modelo e sobre sua busca por um Gol igual ao do avô. O amigo então lhe disse que, com a placa do carro, ele poderia localizar o Gol GT vendido em 2004. No dia seguinte Fernando recebeu o endereço do proprietário do Gol de seu avô.

Novamente com uma boa dose de cara-de-pau, Fernando abordou o proprietário, contou a história do carro e pediu ao homem que lhe procurasse se um dia fosse vender o GT.

E aqui, leitores, é quando comprovamos que o clichê era mais que necessário para apresentar o carro: o então proprietário do Gol havia sofrido um grave acidente de moto e topou vender o GT pois precisava comprar um carro automático. Depois de alguma negociação, o Gol GT 1986 do Vô Natal retornava à família Silotto pela terceira vez.

 

Em casa, enfim

Quando o Gol voltou para sua casa, ele já não estava em seus melhores dias. A pintura, ainda original, estava desgastada, a suspensão fora rebaixada, as rodas originais trocadas por outras de 15 polegadas e o revestimento dos bancos estava danificado. Ao menos todo o restante do carro — incluindo os raros itens de acabamento —, estavam no lugar.

Fernando então começou o processo de reversão do carro ao seu estado original. A primeira medida foi a troca das rodas pelas originais. Depois, o carro ganhou um banho de tinta e uma forração nova para os bancos Recaro usando o tecido original. Havia também alguns faróis e lanternas de marcas alternativas, não originais. Fernando também fez questão de trocá-los pelas marcas corretas.

Com o carro completo — e com o visual que mantinha em sua memória — Fernando finalmente voltou a usá-lo, usando para encontros, eventos, passeios com a família e até para levar e buscar seus filhos na escola, usando o carro com a frequência que gostaria quando mais novo, e como seu avô pretendia quando o tirou da concessionária naquele distante 1986.

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