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História Zero a 300

Ford Corcel, 50 anos: as versões mais bacanas do clássico brasileiro

“Deus no céu, nóis no Corcel” é uma dos meus brasileirismos favoritos, ainda que, talvez, seja desconhecido por quem não mora no interior. Talvez porque, para mim, o Corcel seja um carro essencialmente brasileiro – mesmo que, como conta sua história, ele seja um projeto de raízes francesas, o Corcel foi desenvolvido exclusivamente para o Brasil.

O Corcel nasceu como o primeiro carro compacto fabricado pela Ford no Brasil. Nos anos 60, caso você quisesse comprar um Ford nacional, só havia uma opção: o grande, potente e opulento Galaxie. Havia também picapes e caminhões, mas era só isto.

Em 1967 a marca do oval azul comprou a Willys-Overland do Brasil, que por sua vez atuava de forma muito diversa no Brasil havia anos: além de vender por aqui o Jeep, que começou a ser montado no Rio de Janeiro em 1947, sob regime CKD (com peças importadas e montagem nacional), a Willys também fabricou no Brasil, sob licença, o pequeno Dauphine a partir de 1959. Em 1961 a Willys começou a produzir no Brasil o Interlagos, versão brasileira do esportivo Alpine A108, que era um esportivo francês com plataforma e mecânica Renault, feito com o apoio da fabricante.

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Foi o primeiro passo para que a Willys-Overland do Brasil começasse uma parceria com a Renault em 1965. A ideia era desenvolver um carro compacto que substituísse o Dauphine no Brasil e, na França, fosse o sucessor do Renault 8 – que pode ser encarado como uma evolução técnica do Dauphine, ainda com motor traseiro, porém mais potente e com carroceria mais retilínea para melhor aproveitamento de espaço.

O carro recebeu o codinome “Projeto M”, de carro médio, e seria essencialmente diferente de seus antecessores, tanto no Brasil quanto na França, por ter motor e tração na dianteira.

No meio do caminho a Willys-Overland do Brasil foi comprada pela Ford, que estava envolvida desde o início com o desenvolvimento do Jeep e viu potencial no projeto franco-brasileiro para preencher a lacuna dos compactos acessíveis em sua linha. Sob a batuta da Ford, o projeto nacional ganhou identidade própria com desenho inspirado pelos carros norte-americanos que, sem querer puxar a sardinha para nosso lado mas já puxando, era muito mais agradável que a proposta francesa, com uma dianteira mais imponente e uma traseira mais baixa e harmônica.

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O nome Corcel foi escolhido como referência ao Ford Mustang, por também ser relacionado com os cavalos. No caso, mustang é como se chamam os cavalos selvagens que descendem de cavalos domestivados; já corcel é um sinônimo de cavalo de raça.

Tamanha era a pressa da Ford em colocar o Corcel nas ruas que ele acabou ficando pronto antes da versão francesa. Em setembro de 1968 a produção começou na fábrica em São Bernardo do Campo/SP, e em novembro o Corcel estreava no Salão do Automóvel. A versão francesa, batizada Renault 12, só chegou às ruas em outubro de 1969.

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O Ford Corcel teve uma vida longa. Considerando as duas gerações e todas as variações de carroceria, ele durou 28 anos – o Corcel II, lançado em 1977, foi fabricado até 1986; a perua Belina e o sedã de luxo Del Rey foram fabricados até 1991 e a picape Pampa sobreviveu até 1997, quando foi substituída pela Courier, derivada do Fiesta. Se formos levar em conta apenas o Corcel, mais de 1,2 milhões de unidades foram fabricadas até 1986. Somando Del Rey, Belina e Pampa, o número passa de 2 milhões.

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Muitos destes carros ainda estão em atividade graças a sua mecânica simples e robusta. Especialmente no interior é muito comum ver todos eles sendo usados diariamente, seja para passeio ou trabalho. E é por isso que, para mim, o Corcel e seus derivados estão entre os carros mais brasileiros que existem, filosoficamente falando.

Para celebrar os 50 anos do Corcel, listadas aqui estão as versões mais bacanas que ele teve ao longo de sua carreira. E em tempo, não deixe de conferir a história do Corcel em vídeo no quadro FlatOut 56, gravado no Museu da Imprensa Automotiva, o MIAU:

 

 

Corcel GT (I e II)

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O motor usado pelo Corcel durante boa parte de sua vida era derivado do Renault 10 francês. Ficou conhecido no Brasil principalmente como CHT, tinha comando no bloco e não era lá muito potente, ainda que tivesse no baixo consumo de combustível e na durabilidade suas principais qualidades.

O que não impediu a Ford de lançar uma versão esportiva do carro em já em 1969, segundo ano de fabricação. O motor do Corcel comum, inicialmente com deslocamento de 1,3 litro, entregava 68 cv. No Corcel GT, inspirado pelo Mustang GT, o motor tinha fluxo retrabalhado e carburador de corpo duplo para entregar 12 cv a mais, chegando aos 80 cv. Também não era muita coisa, e sequer a suspensão foi retrabalhada. Mas o visual era bacana demais, com teto revestido de vinil preto, faixas decorativas na carroceria, rodas de desenho exclusivo, mostradores extras no console central e volante de três raios.

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Em 1971 o Corcel GT ganhou capô totalmente preto com tomada de ar, o que para alguns o tornava ainda mais bonito, e os faróis auxiliares, antes fixados no para-choque dianteiro, agora eram encaixados na grade. Mas a mudança mais interessante só veio no ano seguinte, quando o deslocamento do motor foi ampliado para 1,4 litro (o que lhe rendeu a sigla XP, de “eXtra Performance”) e a potência subiu para 85 cv brutos, suficientes para acelerar de zero a 100 km/h em 17 segundos. A exclusividade, porém, durou pouco: em 1973, com a primeira reestilização do Corcel, todas as versões ganharam o motor 1.4.

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Não foram realizadas grandes mudanças até 1977, quando a Ford lançou o Corcel II. Mantendo a mesma plataforma e mecânica, porém com desenho muito mais moderno graças às linhas retas, o Corcel II ficou mais espaçoso para os ocupantes graças a um aumento na largura, mas permaneceu com os mesmos 4.498 mm de comprimento.

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O Corcel GT passava a entregar… 76 cv. Sim, a potência diminuiu para dar ênfase à economia de combustível. Dito isto, o visual continuava sendo um ponto forte, com teto e capô pintados de preto, rodas pretas com sobre-aros cromados e suspensão ligeiramente mais baixa e firme, além de interior em tons escuros, painel com conta-giros e volante com três raios de metal.

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Em 1979 toda a linha Corcel, recebeu uma versão de 1,6 litro e 90 cv (brutos, 72 cv líquidos) do motor quatro-cilindros, que no caso do GT vinha acoplada a uma transmissão manual de cinco marchas, e não quatro como nas outras versões. Além disso, agora era a parte inferior da carroceria que vinha pintada de preto. O Corcel GT deixou de ser oferecido em 1981.

 

Corcel II Hobby

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A receita era simples: pegar uma versão básica, equipada com apenas o essencial, e dar a ela decoração esportiva inspirada em versões mais caras. A Dodge já havia feito isto com o Dart SE, que disfarçava sua natureza espartana com visual descolado e acabava atraindo os jovens com esta estratégia. Era transformar o despojado em descolado, e funcionava.

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A ideia do Corcel II Hobby era esta: lançado em março de 1980, ele eliminava os cromados e dispensava equipamentos como conta-giros para custar menos, incorporando os sobre-aros do Corcel GT e seus pneus radiais. Trazia também tecido houndstooth (ou pied-de-poule) nos bancos e volante com raios de metal.

 

Corcel II Série Campeões

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Também conhecido como Corcel II JPS, por causa das cores preto-e-dourado da equipe Lotus de Fórmula 1, o Corcel II Série Campeões era, de fato, uma homenagem à Fórmula 1: na época, a Ford a fornecedora oficial de motores da Lotus, e sua decoração remetia à famosa pintura da marca de cigarros John Player Special usada pela equipe britânica: carroceria preta com faixas laterais, frisos e rodas na cor dourado.

Além da decoração externa, tinha interior revestido de preto, volante de quatro raios, conta-giros, relógio digital no painel, luzes de cortesia nas portas e podia ter como opcionais ar-condicionado, rádio AM/FM e teto solar. O motor era o mesmo 1.6 das outras versões.

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O Corcel II Série Campeões foi lançado em 1983. Ironicamente aquele foi o último ano no qual a Lotus usou o V8 de três litros da Ford. E apenas o carro de Nigel Mansell, o Lotus 92, era movido por ele – o carro de seu colega de equipe, o italiano Elio de Angelis, usava um V6 turbo de 1,5 litro fornecido pela Renault. Por outro lado, o motor usado pelo Corcel é derivado de um projeto da Renault, então… até que fazia sentido.

 

Corcel e Belina “Cinco Estrelas”

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A Série Corcel II Cinco Estrelas foi oferecida em duas ocasiões diferentes, tanto para o Corcel II quanto para a Belina. Na primeira, lançada em 1982, usava como base na versão L. Era oferecida exclusivamente na cor Dourado Metálico (o que é meio redundante, afinal o dourado é, por definição, metálico), rodas de ferro de desenho mais arrojado, relógio digital e conta-giros.

Dois anos 1984, a série foi relançada. Desta vez a cor exclusiva era o verde metálico, e os acessórios incluíam vidros verdes, frisos e maçanetas pintados de preto, faixas laterais em vermelho e preto, bancos com novo tecido preto e as mesmas rodas esportivas usadas em 1982. No caso da Belina ainda era oferecido um bagageiro de metal no teto e tampão para o porta-malas.

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O motor era novidade: uma evolução do projeto anterior, chamada CHT. A sigla para Compound High Turbulence queria dizer que as câmaras de combustão do motor foram retrabalhadas para gerar turbulência na mistura ar-combustível, melhorando a eficiência da queima e, consequentemente, aumentando a potência. Com isto, a potência passava de 69 cv para 72 cv na versão de 1,6 litro.

 

Corcel e Belina Astro

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Esta talvez seja a versão especial mais desconhecida do Corcel, até porque foi a última: o Corcel II Astro, lançado em 1985. O intuito era celebrar a reestilização do Corcel, que recebeu o mesmo visual do Ford Del Rey na dianteira, com faróis menores e de desenho mais moderno, além de lanternas “lisas” (antes elas eram estriadas).

Seguindo a tendência das cores metálicas, o Corcel II Astro vinha nas cores Ouro Quartzo ou Prata Strato e, novamente, trazia como detalhes únicos as faixas laterais, molduras das janelas e para-choques pretos, relógio digital (desta vez no teto, item bastante cobiçado hoje em dia), calotas iguais às do Escort GL e tecido nos bancos inspirado pelo Escort XR3. A Belina também vinha com bagageiro no teto.

Foi, aliás, a chegada do Escort em 1983 que deixou evidente o quanto o Corcel já era ultrapassado naquela época – se antes os rivais como o Volkswagen Passat e o Chevrolet Monza ofereciam desenho mais moderno, interior mais aconchegante e desempenho superior, o Escort passou a oferecer o mesmo dentro de casa. Assim, o ano de 1986 foi o fim da linha para o Corcel.