FlatOut!
Image default
Guia de Compra

Gol GTi: tudo o que você precisa saber antes de comprar o seu

O primeiro VW Gol com motor 2.0 e injeção eletrônica. O mais desejado, procurado e valorizado. Para muitos entusiastas, o mais bonito e mais icônico membro da família. E, hoje em dia, um dos carros mais polêmicos que se pode comprar. Estamos falando do VW Gol GTi – o primeiro, com “i” minúsculo, lançado em 1988, apresentando a belíssima cor Azul Mônaco.

Os fãs da Volkswagen – ou ao menos a maior parte deles – consideram o Gol GTi lançado em 1988 como o Santo Graal dos VW da família BX (os Volkswagen “quadrados”). E você talvez esteja pensando em comprar o seu, apesar de toda a valorização que o GTi sofreu recentemente.

Se estiver, você veio ao lugar certo: neste guia de compra, elaborado com a ajuda de proprietários e especialistas não apenas no Gol GTi, mas nos Volkswagen brasileiros clássicos em geral, vamos explicar tudo o que você precisa saber antes de colocar um exemplar deste ícone na garagem.

Este guia de compra foi elaborado com a ajuda de Luciano Gonzalez, Ricardo Pereira, Raphael Sachs e dos membros do grupo Família Quadrada.

 

Por que considerar o VW Gol GTi?

Comparativos da época quase sempre constatavam que, no conjunto da obra, o GTi era superior aos concorrentes. Eram poucos os carros que o superavam em aceleração, e na velocidade final ele só perdia para o Chevrolet Kadett GSi, lançado em 1992 também com motor 2.0, injeção eletrônica e 121 cv, devido à aerodinâmica superior – o coeficiente de arrasto do Gol GTI era maior que 0,40. Mas isto é só um detalhe.

A questão é que, além de ser um carro pioneiro e trazer o melhor desempenho entre os esportivos da época, o Gol GTi é simplesmente um clássico, é relativamente raro e encontra-se em um momento de valorização expressiva. Pode-se considerá-lo um investimento (o que é meio indigesto para os entusiastas que só querem curtir o carro, mas faz parte do jogo), mas também existem os que sempre sonharam com um Gol GTi desde que ele foi lançado e só agora podem comprar um.

Na prática, ninguém precisa ser convencido a comprar um Gol GTi – geralmente é uma paixão antiga, um sonho de consumo. Tarefa muito mais árdua é fazer com que alguém desista de comprar um.

 

Características e mudanças ano a ano

O Gol GTi, como contamos nesta matéria, foi apresentado no Salão do Automóvel de 1988 como modelo 1989 – e roubou todos os holofotes para si. Além da belíssima pintura Azul Mônaco, exclusiva do modelo, ele conseguiu a primazia de ser o primeiro carro brasileiro com injeção eletrônica. Inicialmente, planejava-se apenas 2.000 exemplares como série especial. O número não foi escolhido por acaso: na época, havia a chamada Lei da Informática, que restringia a importação de componentes eletrônicos para o Brasil em uma tentativa de estimular o desenvolvimento de tecnologias nacionais – e isto incluía sistemas de injeção eletrônica de combustível. Contudo, a Volkswagen conseguiu permissão especial para importar um lote de 2.000 unidades do kit de injeção eletrônica LE-Jetronic da Bosch.

O colecionador e entusiasta Luciano Gonzalez, fundador do grupo Família Quadrada no Facebook e profundo conhecedor da história dos Volkswagen brasileiros, afirma que a VW decidiu manter o GTi em linha devido ao sucesso do carro – mesmo com o preço 56% maior que o do Gol GTS com motor 1.8.

Com o gerenciamento eletrônico da ignição e injeção de combustível ele produzia 120 cv e 17,5 kgfm no motor de dois litros, que levavam os 950 kg do modelo aos 100 km/h em 8,8 segundos e à máxima de 190 km/h, segundo dados de fábrica. Este mesmo motor foi empregado depois no Volkswagen Santana EX, ou Executivo, lançado em 1990 como despedida da primeira geração do sedã. Já o câmbio tinha as mesmas relações de marcha do Gol GTS: 1— ª 3,45:1, 2ª – 1,94:1, 3ª – 1,29:1, 4ª – 0,97:1, 5ª – 0,80:1, ré – 3,17:1, diferencial – 4,11:1.

O conjunto mecânico do Gol GTi não mudou ao longo dos anos. Ele foi fabricado entre 1988 e 1994. Os exemplares feitos em 1988 como modelo 1989 são os mais raros  – alguns até duvidam de sua existência, mas Gonzalez lembra que os primeiros exemplares com placa preta surgiram em 2018, ao completar trinta anos. Em 1991 o Gol ganhou um facelift sutil, que deixou os faróis mais estreitos e a dianteira mais arredondada. Os exemplares anteriores a 1991, mais desejados, são conhecidos como “frente alta”, enquanto os posteriores são os chamados “chinesinhos”.

Além do facelift, as mudanças ano a ano concentram-se nas cores, acabamentos, rodas e equipamentos de série. Ricardo Pereira, colecionador de carros da Volkswagen e proprietário de dois exemplares do GTi (um 1993 e outro 1994), explica as combinações de pintura e revestimentos do Gol GTi.

 

Pintura da carroceria

1988 a 1990: Azul Mônaco
1991: Azul Astral e Cinza Nimbo
1992: Vermelho Daytona, Vermelho Colorado, Cinza Andino e Cinza Nimbo
1993: Vermelho Sport, Amarelo Sunny, Cinza Spectrus e Branco Nacar
1994: Vermelho Sport, Preto Universal, Vermelho Stylus e Branco Nacar

 

Para-choques e grade

1988 a 1992: Parte superior dos para-choques preta, na cor do plástico, sem pintura. Parte inferior pintada de Cinza Prata, bem como as laterais inferiores da carroceria. Grade de plástico preto.

1993 e 1994: Parte superior superior dos para-choques cinza, na cor do plástico, sem pintura. Parte inferior pintada de Cinza Prata, bem como as laterais inferiores da carroceria. Grade de plástico cinza.

 

Acabamento

1988 a 1990: Acabamentos dos bancos em Tear Listrado cinza/azul. Até 1989, a inscrição “RECARO SPORT” nos bancos é emborrachada e cinza. Em 1990, é bordada com linha branca. Nos revestimentos de porta internos, o detalhe do friso é em azul.  Os frisos externos tanto dos pára-choques quanto dos frisos das portas também é azul. Os frisos dos pára-choques são feitos de alumínio, enquanto os frisos das laterais são de borracha.

1991: Acabamentos dos bancos com tear Laguna Amarelo, e a inscrição “RECARO” bordada em amarelo. Revestimentos de porta com detalhe do friso em azul. Para-choques com frisos azuis de alumínio e laterais com frisos azuis de borracha.

1992: Nos carros Vermelho Daytona e Vermelho Colorado, bancos com tecido tear Laguna Amarelo e bordado “RECARO” em amarelo. Revestimentos internos das portas com friso preto. Frisos dos para-choques e laterais em vermelho.

Nos carros Cinza Nimbo e Cinza Andino, os frisos dos para-choques e laterais são azuis.

1993: Nos carros Vermelho Sport e Amarelo Sunny, bancos com tecido tear Laguna Vermelho e bordado “RECARO” branco. Revestimentos internos das portas com friso vermelho. Frisos dos para-choques e laterais em vermelho.

Nos carros Cinza Spectrus, bancos com tecido tear Laguna Azul e bordado “RECARO” branco. Os revestimentos de porta tê,  friso azul. Frisos dos para-choques e laterais azuis.

Nos carros Branco Nacar, revestimentos dos bancos em tear Laguna Vermelho ou Tear Laguna Azul, sempre com os bordados “RECARO” brancos. Os frisos dos revestimentos de porta sempre acompanhavam a cor do revestimento interno.

1994: Nos carros Branco Nacar, os acabamentos internos e externos repetiam a configuração de 1993. Os carros Preto Universal adotavam os mesmos acabamentos, também com a opção entre vermelho e azul.

Nos carros Vermelho Stylus, o tecido dos bancos era tear Laguna Vermelho com bordados “RECARO” brancos. Os frisos dos para-choques e das laterais eram sempre vermelhos.

 

Rodas

Foto: André Jacquillat

1988 a 1990: modelo Silverstone (popularmente conhecidas como “pingo d’água”)
1991 e 1992: modelo Orbital (também conhecidas como “Futura”)
1993: modelo Orbital de série, BBS RS opcionais
1994: BBS RS de série

Em todos os casos, as rodas são de 14 polegadas.

 

Toca-fitas

1988 e 1989: Bosch Rio de Janeiro PLL
1990 e 1991: Volksline ETR T
1992: Volksline ETR TS
1993: Volksline Etr TII
1994: Volksline FIC

 

Outros detalhes

  • Apenas os Gol GTi fabricados em 1993 e 1994 tinham o emblema 2000 na tampa traseira.
  • O tampão traseiro (cobertura do porta-malas) trouxe revestimento de carpete a partir de 1991.
  • A tampa traseira dos carros fabricados até 1990 tem um vinco vertical na chapa, enquanto os carros produzidos até 1991 têm somente o vinco superior horizontal (repare as fotos acima). Isto vale não apenas para o GTi, mas para todas as versões do Gol.
  • Apenas os carros fabricados em 1994 têm direção hidráulica de série.
  • Os carros fabricados entre 1988 e 1991 traziam ar-condicionado como opcional. A partir de 1992, o equipamento passou a ser item de série.
  • Todo Gol GTi produzido entre 1988 e 1994 tinha revestimento de couro no aro do volante e na coifa do câmbio, sem exceção.
  • Os faróis e setas dos GTi vinham de fábrica com marca Arteb ou Cibié, independentemente do ano. Devido aos encaixes se o farol for Arteb, a seta também deverá ser Arteb; o mesmo se aplica aos Cibié. Isto vale para todos os exemplares, de 1988 a 1994.
  • Faróis de neblina (nos para-choques) são Arteb em todos os exemplares, assim como as lanternas traseiras.
  • Os faróis de milha circulares dos carros fabricados até 1990 têm lente lisa com a marca Rossi. Já nos carros produzidos entre 1991 e 1994, as lentes são estriadas com a marca Lucas. Confira nas fotos abaixo:

Se você chegou aqui, pode-se considerar informado sobre todas as características de cada ano-modelo do Volkswagen Gol GTI. Agora, podemos passar ao próximo tópico.

 

Quanto custa?

Eis a parte polêmica do Volkswagen Gol GTi de primeira geração: o preço. O recente caso do exemplar vendido em um leilão por quase R$ 120.000 corrobora a opinião geral dos proprietários consultados para este guia: sendo um carro antigo muito procurado, quem está vendendo um exemplar bem conservado pode colocar o preço que quiser.

Luciano Gonzalez diz que é possível encontrar um bom exemplar na faixa dos R$ 45.000 a R$ 50.000 – leia-se, um carro bem conservado, com boa parte das características originais, mas que inevitavelmente precisará de cuidados e talvez até uma restauração leve. “Não é impossível encontrar um exemplar mais baratos, de R$ 15.000 ou até R$ 10.000. Mas são carros ruins, com problemas estruturais, que precisam de muito trabalho”, observa Luciano. “Prepare-se para gastar muito, muito mais que isso em uma eventual restauração.”

 

No que ficar de olho?

Em essência, estrutura e acabamentos.

A parte estrutural do VW Gol GTi é delicada – e qualquer um que tenha o mínimo de contato com os modelos da família sabe o motivo: o risco de trincas no túnel. “Alguns dizem que não, mas é um problema que realmente existe”, diz Luciano Gonzalez, que trabalha no departamento de protótipos da Volkswagen. “É uma deficiência inerente ao projeto, até mesmo devido à época em que o Gol de primeira geração foi feito”. Mas a solução é simples, segundo ele. “Existem barras de reforço que podem ser instaladas usando os mesmos pontos de fixação do subchassi – você prende elas na parte debaixo do carro, e previne trincas de forma eficaz.” Ele ainda acrescenta: “Há quem também instale mais uma barra na parte de cima, entre as torres da suspensão. Mas eu tenho minhas reservas: para instalar estas barras, é preciso furar a lata, e os furos podem se tornar pontos de trincas se não forem feitos corretamente”. 

Luciano observa que um carro com o túnel trincado não é um caso perdido: “A maior parte dos proprietários — diria que 99% — solda o túnel de transmissão. Existe uma solução alternativa: encontrar um carro doador e fazer a troca do túnel – mas o custo da mão de obra sobe bastante.

É importante verificar também o sistema de injeção eletrônica, único componente mais problemático na mecânica do Gol GTi. Caso tenha problemas, o melhor é partir para uma injeção programável – como fez Raphael Sachs, que tem muita experiência com um Gol GTi 1989. O único calcanhar de aquiles, desde a época de lançamento do GTi, é a injeção eletrônica. É a chamada injeção ‘burra’, analógica. São três módulos que ‘conversam’, mas comumente precisam de regulagem. A mão de obra para consertar estes módulos é específica. Consertei o meu por duas vezes, mas acabei instalando uma injeção FuelTech,” revela Raphael. “Isso acaba desvalorizando um pouco o veículo, mas torna o carro mais liso, é mais fácil extrair potência, e ganha-se mais confiabilidade para viagens, que era meu principal objetivo.”

Caso o proprietário faça questão de manter o sistema LE-Jetronic original, os proprietários recomenda a LE-Jetronic Center, em Rio Claro (SP), que tem no sistema da Bosch sua especialidade.

Os acabamentos, obviamente, merecem atenção – para-choques, revestimentos dos bancos e portas, spoiler traseiro (que é diferente da peça encontrada no Gol GTS) e rodas devem estar em seus devidos lugares, exceto se a intenção for uma restauração completa.

Raphael Sachs, que restaurou um Gol GTI 1989 Azul Mônaco por seis anos (entre 2013 e 2019), dá outras dicas:O quadro de instrumentos do GTi só ele utilizava. Quem quiser restaurar um painel desses, com tudo funcionando, o reloginho com o cristal líquido em ordem, vai gastar cerca de R$ 1.000 ou mais.” Do lado de fora do carro, também há pontos a se considerar: “Os batentes do parachoque dianteiro dos GTi ‘frente alta’ são diferentes dos ‘chinesinhos’. Os ‘frente alta’ não têm o recorte de suporte dos faróis auxiliares, pois os eles são presos em outra posição, diretamente na chapa da carroceria do carro. Já nos 1991 em diante a peça é recortada para encaixar o suporte dos faróis circulares. Outra coisa chata de alinhar nos ‘frente alta’ são os frisos (bigodes) superiores e inferiores da grade. Estas peças, quando genéricas, não se alinham. É necessário colocar as originais.”

“Os frisos dos parachoques e spoilers dos GTi são de alumínio e, para instalar, dá bastante trabalho. Há frisos de plástico dupla face que encaixam perfeitamente, são muito mais simples de encaixar, e visualmente ficam OK”, continua Raphael. Os spoilers laterais com o tempo, no sol, vão deformando. Onde há ponto de fixação na lata fica preso, mas entre estes pontos formam-se ‘barrigas’. O processo de alinhamento destes frisos é trabalhoso, caro, porém dá outra vida para o carro e o valoriza muito. Um carro com funilaria perfeita e estes frisos ondulados dá impressão de que é um carro ruim de lata.

“Além disso, o para-lama dianteiro do lado esquerdo (motorista) do GTi é diferente dos demais Gol. Ele é liso, sem o furo da antena, já que no GTi a antena ficava no teto.”

 

Onde encontrar peças e mão de obra?

Componentes mecânicos, com sorte, ainda podem ser encontrados em concessionárias. Ricardo Pereira dá a dica: “Ainda se consegue achar algumas peças em concessionárias do interior, que têm menos movimento e um estoque que não gira tão rápido. Mas não é fácil assim – é preciso garimpar”, diz ele. “Algumas lojas de auto peças vendem peças da Bosch e da Cibié, por exemplo”, completa.

Luciano Gonzalez cita alguns bons canais para peças de acabamento. “Existem empresas como a The Volks Shop, em Atibaia (SP), que foi pioneira nesse segmento – compro deles há mais de 10 anos. Pela Internet, tem a OEM Folks, que vai varrendo estoques antigos de lojas autopeças e concessionárias para fornecer componentes originais.” 

No caso das rodas, não há como fugir do garimpo e das negociações em grupos. Luciano Gonzalez diz que não é tão difícil encontrá-as porque não são componentes exclusivos do GTi, mas recomenda fugir de réplicas. “Existem algumas réplicas que são bonitas, mas muito ruins.”

Caso seja preciso fazer uma repintura, encontrar a tonalidade correta não é tão difícil. “Antigamente na concessionária tinha um demonstrativo de cores com os devidos códigos”, observa Ricardo. “Hoje em dia, em casas de tinta automotiva é possível reproduzir a tinta de acordo com o código. E em último caso, quando não há o código, pega-se uma peça do carro com a pintura original e refaz-se a tonalidade da tinta.” 

Mas Luciano dá a dica: “Tanto tapeçaria como acabamentos, o lance é tentar recuperar o que der. Com os profissionais certos, você consegue salvar quase tudo. O problema é a mão de obra, mas um bom modelador consegue recuperar as peças plásticas com maestria.” Ricardo Pereira diz que isto também vale para a tapeçaria. “É até possível encontrar os tecidos originais, mas na hora de refazer os bancos, por exemplo, é preciso um excelente profissional para que o trabalho fique no mesmo nível do acabamento de fábrica.”

 

Depoimentos dos proprietários

Raphael Sachs (@raphasachs) – Gol GTi 1989

Eu tenho um Gol CL 93 que foi meu primeiro carro, que vendi em 2011, recomprei em 2013 e mandei realizar uma reforma. O CL era um carro muito íntegro e estava só com a pintura e partes plásticas desbotadas. Não era um carro que necessitava grandes intervenções e em um mês basicamente o carro foi praticamente gabaritado. Com a falsa ilusão de que seria simples restaurar um GTi, sonho de consumo, resolvi ir atrás de um GTi Azul Mônaco. Fui até a cidade de Bicas (MG), em maio de 2013, no interior de Minas Gerais buscar o tão sonhado GTi 1989 pela bagatela de R$ 10.000, negociado. Veja como era o carro no dia em que comprei:

O carro era bonito, tinha os Bancos Recaro originais em bom estado, ar gelando, andava super bem, enfim… parecia ser um negócio da China! Excelente aquisição! No dia seguinte fui na casa da minha sogra com ele e ouvi a seguinte expressão por parte dela: “Nossa, que carrão!”

Mas nem tudo eram flores. Naquela época de 2013 um GTi em bom estado era possível de ser comprado na faixa de R$ 25.000. Um em excelente estado era na faixa de R$ 35.000 a R$ 40.000. Conforme mencionei acima, tinha tido uma experiência simples com meu CL, então imaginava que para deixar o GTi em excelente estado, gastaria por volta de R$ 20.000, afinal não era um carro de todo ruim.

Ao longo do processo fui entendendo dolorosamente as diferenças entre um CL e um GTi. O GTi é um carro cheio de detalhes o qual é preciso pesquisar bastante para entender, buscar ajuda em grupos específicos, semelhante ao Família Quadrada, que em 2013 ainda não existia.

A primeira máxima que aprendi com o GTi, que vale para antigos em geral, é que de fato vale mais a pena pegar um carro em melhor estado, e pagar mais um pouco, do que pegar um carro para fazer “barba, cabelo e bigode”.

Na porta do carona, havia reparo com fibra de vidro junto a lata! Uma restauração hoje em dia, bem feita, custa caro, porque o bom profissional precisa desfazer erros/gambiarras que foram realizados no carro ao longo de toda uma vida automotiva. No caso dos primeiros GTi, 30 anos de gambiarra! É muita coisa! O GTi não tem um tratamento antiferrugem como um carro alemão, por exemplo. Sofre bastante com corrosão da lata, trinca túnel, até porque a maioria sofreu muito ao longo da vida e resistiu bravamente.

Ao longo do tempo, fui descobrindo que achar uma chave de luz, da época, era raríssimo… e deixei de lado este item. A intenção era ter um carro funcional. Outro item que abri mão foi o estepe com pneus P600, de época, cobiçados. Porém não faz sentido nenhum, para mim, andar com um estepe ressecado para contar pontos em concurso de raridades, ou colocar no anúncio para vender o carro a R$ 100.000 no futuro.

Os para-choques descobri que nenhuma das marcas paralelas ficavam com o alinhamento correto, e fui atrás dos originais sem uso. Encontrei o traseiro por R$ 500 e o dianteiro por R$ 1.000 e comprei. Hoje em dia um par desses sem uso, tal qual os meus, é algo surreal. Eu achava que R$ 1.500 já era um absurdo, porem não há limites para especulação, e já que pagam… Atualmente, por R$ 1.500 não se acha nem somente um deles sem uso, que dirá um par!

Hoje em dia há a empresa Ifcar que fez parceria com a Arteb para reprodução de lanternas e faróis. Os Ifcar saem com logo Arteb na lente, inclusive. Os meus procurei novos, estoque antigo, e para encontrar em um preço bacana. E também não foi tarefa fácil.

Depois foram feitos pintura, montagem do motor (comprei pistão, biela, tudo standard), elétrica, tapeçaria e montagem final. Gastei o triplo do que achava que gastaria inicialmente, e achei que o carro estaria pronto em um ano… mas a restauração levou cinco anos!

Vendi meu GTi em agosto de 2019, na sua melhor fase. Foi um carro que fiz para ser meu, me fazer feliz, não para ter lucro. Cumpriu sua missão. E, diante dos valores pedidos hoje em dia, vendi muito
barato – bem abaixo do que gastei nele, inclusive. É um carro que deixou saudades.

 

Ricardo Pereira (@gti2500kms) – Gol GTi 1993 e 1994

O primeiro GTi que eu comprei foi em 2009, foi um Azul Mônaco 1989. Ele era bastante original – procurei o mais original possível, porque um carro restaurado nunca fica igual ao original. Depois, em 2010, comprei o Branco Nacar que tenho até hoje. Ele é todo original, tem 68.000 km e veio todo revisado. Depois fui comprando outros GTi – comprei um cinza, pouco rodado, com cerca de 25.000 km. Depois que achei este outro cinza de 2.500 km, vendi o anterior. O carro de 2.500 km é possivelmente é o mais original do Brasil.

Como o carro rodou muito pouco, o combustível corroeu o tanque de combustível, mas consegui encontrar um tanque original, sem uso, em uma concessionária do interior. Hoje em dia é difícil encontrar peças assim – bem mais que há cinco anos atrás. Mas ainda é possível encontrar algumas coisas, especialmente as peças compartilhadas com outros carros da família, como os Gol quadrados mais comuns, Voyage ou Parati.

O funcionamento do carro é impressionante, como um relógio suíço. O ar-condicionado gela como novo, e nunca precisei mexer. Os pneus são originais, e eu não pretendo mexer neles – são da época e, como não uso o carro, não preciso trocá-los. Mas o motor funciona perfeitamente – eu deixo a bateria desligada e, quando ligo, ele pega de primeira e não falha.

Em manutenção não tem segredo. Qualquer mecânico consegue mexer em um motor AP, e peças não são difíceis de encontrar. Já tive cerca de dez GTi, e nunca tive problemas mecânicos impossíveis de resolver – só vendi os outros porque quis diversificar a coleção. Até penso em comprar mais um, talvez vermelho, mas é muito difícil encontrar um carro a um preço razoável.”