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Guia de Compra

Guia de compra Mercedes Classe C W202 – o que saber antes de comprar?


Em maio de 1993 a Mercedes lançou o sucessor do seu “Baby Benz” e, com sua chegada, inaugurou um novo sistema de nomenclatura que, finalmente, cria um nome para uma segmentação que já existia na linha Mercedes desde os anos 1930. O negócio funcionou bem até o dia em que os carros de entrada começaram a usar os mesmos motores que os modelos intermediários — que, por sua vez, também começaram a usar os mesmos motores dos modelos de topo. Como diferenciá-los? Com um sistema de classes assim denominadas: Classe C, Classe E, Classe S.

Na prática, o primeiro carro com o nome Classe C era a segunda geração da Classe C, e a prova maior disso era o código interno do carro: W202, sucessor do W201. A nova Classe C também foi o terceiro modelo da renovação da Mercedes para os anos 1990, seguindo o Classe S W140 e o roadster SL R129, e continuou o percurso de sua antecessora com motores de quatro e seis cilindros. Em seu lançamento, o carro estava disponível nas versões C180 (1.8 de 122 cv), C200 (2.0 de 136 cv), C220 (2.2 de 150 cv) e C280 (2.8 seis-em-linha de 193 cv), além, claro, do AMG C36.

No Brasil o W202 chegou logo após seu lançamento na Europa inicialmente nos modelos C180, C220, C280 e C36. Em 1995 veio o C230 Kompressor, com seu motor de 193 cv. Apesar da potência idêntica à do 2.8 de seis cilindros, o 2.3 sobrealimentado entregava a potência 300 rpm mais cedo, e tinha uma entrega linear de torque (que era 1 kgfm maior) entre 2.500 e 4.800 rpm.

Na época a Mercedes tinha três tipos de acabamento: Classic, Elegance e Sport. Os dois últimos deixam claro a proposta do carro: os modelos Elegance são mais sóbrios enquanto os Sport têm uma vertente esportiva. O Classic era limitado ao modelo C180 por ser o modelo de entrada da marca no Brasil, com uma proposta mais espartana. Naquele primeiro momento, apenas os Classe C de quatro cilindros tinham câmbio manual de cinco marchas, mas podiam ser equipados com o câmbio automático de quatro marchas, que era a única opção no C280 e no C36.

Em 1997 a Classe C passou por sua primeira mudança: o câmbio automático 5G-Tronic (ou 722.6) substituiu o antigo câmbio de quatro marchas e somente o C180 manteve o câmbio manual. No ano seguinte, 1998, o Classe C recebeu mudanças mais drásticas, que atualizaram seu estilo para encarar a reta final de seu ciclo, ganhando novas lentes para os faróis e lanternas, nova posição da antena, novas rodas e para-choques redesenhados, assim como parte do console central e volante.

Os modelos de quatro cilindros mantiveram o robusto motor M111, agora atualizado com um novo sistema de gerenciamento e novos itens de série. Já o seis-cilindros C280 trocou seu suave M104 seis-em-linha pelo novo M112 V6, um motor mais moderno, com centelha dupla, que também foi oferecido com 2,4 litros, dando origem ao C240, de 170 cv. O M112, aliás, era uma derivação do V8 M113, lançado naquele ano e adotado pela Classe C em sua nova versão esportiva, o C43 AMG, sucessor do C36. Ainda era possível adquirir opcionalmente o motor V8 com 5,5 litros, que transformava o C43 em C55, mas o preço do carro praticamente dobrava e, por isso, ele é raríssimo.

Em maio de 2000, depois de exatos sete anos de mercado, o W202 deixou de ser produzido e foi substituído pelo W203, a terceira geração da Classe C, que seria o modelo para os anos 2000. De toda a linha W202, o Brasil recebeu quase todos os modelos — a exceção foi o C200. Os demais têm, ao menos, um exemplar no País, caso do C55 AMG.

Por que comprar um Mercedes W202? O modelo, por ter chegado logo após a adoção do Plano Real e encontrar um mercado com inflação baixa e câmbio controlado, foi um dos mais bem-sucedidos da Mercedes no Brasil.

Também por isso ele é um dos mais abundantes no mercado de usados — o que faz dele extremamente atrativo para quem quer um novo-clássico alemão ou mesmo um carro para uso esporádico, visto que o W202 é um carro com recursos de tecnologia e dinâmica compatíveis com o que se espera de um carro em 2021, ainda que seu padrão de consumo não possa ser, de forma alguma, comparado ao dos motores downsized, evidentemente.

O modelo também é uma opção mais conservadora aos BMW E36, que tiveram seu boom no mercado de usados há cerca de dez anos e já estão avançados na rampa de valorização. O W202, com exceção das versões AMG (que serão tema de outro guia), ainda pode ser encontrado em condições razoáveis por valores relativamente acessíveis. Além disso, o sucesso do carro nos anos 1990, resultou em uma grande oferta de peças em desmanches — fora o fato de a Mercedes fornecer peças originais para o modelo até hoje em suas concessionárias, mesmo que por encomenda.

Colaboraram com este guia: Eduardo Luqueze (proprietário), Guilherme Bogossian (técnico certificado Mercedes), Leandro Vitor (técnico Mercedes)

 

Qual modelo comprar?

Considerando que tivemos seis modelos com sete configurações diferentes, tudo vai depender das suas aspirações em relação ao W202.

Se você quer esportividade, a pedida é o C230 Kompressor Sport com câmbio manual, eles não são muito raros, mas não há muitos e os bons exemplares já estão valorizados. A versão Sport tinha suspensão mais baixa e pneus mais largos, além da decoração interna inspirada pelo C36 AMG, com revestimento imitando metal texturizado no painel e nas portas. A versão Sport também saiu para o C280, mas o seis-em-linha era pareado apenas ao câmbio automático.

Se o seu negócio é pegar a estrada, a suavidade do seis-em-linha é o que você precisa, então a escolha é o C280 até 1997. O último ano com o motor em linha, aliás, é o que oferece a melhor combinação pois já vinha equipado com o câmbio de cinco marchas, mais robusto e melhor escalonado com a marcha adicional.

As demais versões dependem muito do que você espera, como dito mais acima. Os modelos dos últimos anos, tanto o C230 Kompressor quanto o C280, têm um acabamento renovado, com um volante e grafismos mais modernos, materiais renovados no interior desenhos de rodas mais variados e próprios da versão, além da chave sem lâmina, com transponder, e telecomandos, e do sistema de assistente de estacionamento Parktronic, com os sensores nos para-choques. Além disso, como acontece com qualquer modelo do final de uma geração, ele já tem os problemas (que veremos mais adiante) sanados e tendem a ser carros mais confiáveis.

O modelo C180 (acima) é o mais dissonante dos demais em termos de acabamento e desempenho. O motor 1.8, apesar de equipado com um bom câmbio manual de cinco marchas, tem apenas 122 cv — menos que o A190, por exemplo — e seu desempenho é bem mediano.

Alguns sequer têm rodas de liga leve e vieram com bancos de tecido (acima), uma configuração típica dos modelos de entrada, muito semelhante ao do Classe A Classic fabricado no Brasil. O modelo, contudo, tem seu apelo entre os admiradores da marca. Os exemplares do C180 pós-facelift (1998 a 2000) costumam ser muito mais caros que os pré-facelift.

 

Quanto custam?

Os Mercedes, por alguma razão inexplicável, não são carros que costumam atingir valores expressivos como modelos clássicos. Seus preços também variam mais de acordo com o estado de conservação do que pelo modelo em si — é comum, por exemplo, encontrar um C220 Elegance mais caro que um C280 Sport, ou mesmo um C180 pós-facelift mais caro que um C230 Kompressor Sport.

O que podemos dizer sobre os preços é que os modelos pré-facelift com entre 100.000 km e 150.000 km, em bom estado de conservação, variam entre R$ 17.000 e R$ 25.000. Os modelos pós-facelift nas mesmas condições variam de R$ 22.000 a R$ 30.000. Já os modelos com baixa quilometragem passam dos R$ 40.000, enquanto os Sport com câmbio manual já estão flutuando entre R$ 30.000 e R$ 40.000.

Os modelos menos conservados, com reparos a serem feitos, podem ser achado por até R$ 15.000 ou pouco menos. As peruas, por serem mais raras, também são mais caras e custam, em média, entre R$ 5.000 e R$ 10.000 a mais que um similar na versão sedã.

 

Em que ficar de olho?

Carroceria: sendo um carro moderno, você não terá que se preocupar com corrosão. Nos guias estrangeiros é comum mencionarem este tipo de problema, mas na Europa e EUA a corrosão ocorre devido à exposição prolongada da chapa à umidade da neve combinada ao sal usado para derretê-la nas ruas e estradas. No Brasil, isso não é algo que preocupa na hora da compra. Concentre-se na verificação padrão de todo carro usado: integridade do painel dianteiro, estrutura da base do porta-malas, as longarinas na parte inferior e o alinhamento de vincos e frisos das partes móveis da carroceria, assim como os para-choques.

Acabamento externo: aqui você precisa ser atento para não tropeçar nos carros modificados. Isso, porque o W202 teve dois tipos de para-choques, duas grades diferentes e três combinações de conjunto óptico. Todas têm o nome da versão no friso lateral, entre o arco do para-lamas e a porta dianteira (Sport, Classic ou Elegance).

A versão Classic foi a única vendida no Brasil com as lentes dos piscas na cor laranja. As demais versões sempre tiveram as lentes transparentes, com apenas a lâmpada laranja. Os modelos americanos, que não foram importados oficialmente pela Mercedes, têm as luzes de posição embutidas nos piscas, com um elemento âmbar sob a lente transparente. Os modelos pós-facelift também têm lanternas escurecidas (fumê).

Todos os modelos saíram com a mesma grade dianteira, porém a partir de 1999, com o lançamento da linha 2000 do C43 AMG, surgiu a grade “Avantgarde”, que também era oferecida como acessório de personalização, então alguns carros têm esta grade. Tecnicamente ela não é “period correct” nos carros anteriores a 1999/2000, embora seja uma modificação muito comum — especialmente porque é possível adaptar a grade do Classe E W210.

Grade original à esquerda, grade original à direita

Quanto aos para-choques, o W202 usou um modelo mais arredondado de 1993 até 1997, e um novo com mini-saias nas bordas laterais de 1998 a 2000. Nos modelos seis-cilindros é fácil identificar se eles estão corretos: se o motor for seis-em-linha, os para-choques precisam ser do tipo pré-facelift. Se o motor for quatro-cilindros, basta olhar para um outro elemento da carroceria: a antena do rádio. O facelift reposicionou a antena para o teto, tirando-a da lateral traseira esquerda. Se o carro tiver os para-choques novos, a antena precisa estar no teto, caso contrário, foi modificado.

Antena na lateral

Agora, há alguns pouquíssimos carros com bodykit AMG e Lorinser no Brasil. A AMG teve dois bodykits para o W202, um com ângulos mais retos usado pelo C36 AMG até 1997, e outro mais curvilíneo usado de 1998 a 2000 pelos C43/C55 AMG.

Rodas: o W202 teve cinco modelos de rodas de liga leve no Brasil, além das calotas do C180. De 1993 a 1995 a versão Elegance usou as rodas Deneb de 15 polegadas. A partir de 1996 ela passou a usar as rodas 10-Hole de 15 polegadas (veja a galeria abaixo).

 

A versão Sport usou as rodas 5-Hole de 15 polegadas de 1993 a 1995, e as rodas AMG II

de 15 polegadas de 1995 a 1997. Em 1998, com o facelift, a versão Sport adotou as rodas Lucida de 16 polegadas, enquanto a Elegance manteve as 10-Hole. As C180 foram oferecidas inicialmente com calotas, mas, após o facelift, elas foram equipadas com as rodas Deneb de 15 polegadas.

Motor: os motores M111 (quatro-cilindros) e M104 (seis-em-linha) estão entre os motores mais robustos e confiáveis produzidos pela Mercedes. Não há muitos segredos por aqui: verifique a aparência do motor, se ele está com todas as capas e tampas, se ele funciona corretamente em termos de ignição e ganho de velocidade (rpm). Verifique velas e estado das bobinas, e também a condição do lubrificante na vareta com o motor aquecido, pois estes dois motores, quando mal-conservados ou muito rodados podem apresentar vazamentos na junta da tampa de válvulas e próximo ao filtro de óleo.

Quanto ao motor M112, o V6, ele tem uma certa propensão à formação de borra, então é imprescindível que o carro tenha um histórico completo de manutenção. Verifique o funcionamento e a condição do lubrificante como no M111 e no M104. Após a compra, abra as tampas de válvulas e faça uma limpeza completa, assim como no corpo de borboleta.

Este motor V6 também tem um ponto fraco na polia do virabrequim, que tem um atenuador de vibração feito de borracha que, com o tempo, acaba ressecado. A peça não é cara, mas a mão-de-obra para sua substituição pode ficar salgada. Por último, se o carro já estiver próximo dos 100.000 km (ou mais), verifique o estado das bobinas de ignição. Elas podem estar ressecadas e prestes a trincar, o que exigirá sua troca — e elas não são baratas.

Transmissão: o câmbio manual de cinco marchas foi oferecido nos modelos C180 e C230 Kompressor. Aqui não há segredos: verifique os engates, o acoplamento da embreagem e o funcionamento da embreagem acoplada sob carga.

Câmbio 722.5

Os câmbios automáticos foram dois modelos diferentes: 722.5 e 722.6, o primeiro foi usado de 1993 a 1996, o segundo foi usado de 1997 a 2000. Você irá diferenciá-los pela grelha do seletor: o 722.5 tem o padrão 23DNRP por ter apenas quatro marchas; o 722.6 tem o padrão 1234DNRP por ter cinco marchas. Ele também tem o seletor W/S — “winter” e “standard” — que permite escolher se o câmbio arranca em segunda marcha (W) ou em primeira (S), uma função para pisos de baixa aderência, como o asfalto com neve/gelo do hemisfério Norte.

Câmbio 722.6

O 722.6 é um dos melhores câmbios já feitos pela Mercedes, e foi usado até o início dos anos 2010. Até mesmo o SLR McLaren foi equipado com ele. Isso, contudo, não desabona o 722.5. Ambos são muito robustos e dificilmente trazem problemas. Você só precisa verificar se as marchas funcionam perfeitamente sob carga, sem estalos ou trancos, e se a marcha à ré não demora mais de dois segundos para ser acoplada. Caso demore, isso pode ser um sintoma de desgaste no disco da ré. Pergunte ao proprietário sobre troca de óleo do câmbio, ela precisa ser feita entre os 70.000 e 100.000 km, imprescindivelmente.

Elétrica: este é um dos pontos mais críticos dos carros produzidos até 1996. Na época, o governo alemão instituiu a obrigatoriedade do uso de materiais biodegradáveis no revestimento dos fios elétricos — e isso incluía os fios do chicote dos automóveis. Com isso, os fabricantes estimaram uma vida útil para o material, porém os carros duram muito mais do que qualquer material biodegradável, então se o chicote ainda é original, programe uma reprodução do chicote original com fios mais resistentes porque a chance de problemas elétricos — e até incêndio — é relativamente alta. Os modelos 1997 em diante já não sofrem com este problema.

Acabamento interno: com exceção do C180 Classic pré-facelift, todos os W202 vieram para o Brasil com bancos de couro sintético, o famoso MB-Tex. A maioria na cor preta, embora existam alguns com interior azul combinando com a carroceria azul, ou cinza, mas estes são, normalmente, importados dos EUA.

Interior do Elegance

A decoração interna varia de acordo com o modelo e o ano, principalmente os comandos do ar-condicionado e o volante. Os modelos Elegance têm o painel com apliques de madeira, enquanto os Sport usam apliques simulando metal texturizado ou fibra de carbono. O acabamento se repete no topo do painel e nas portas. Além disso, a versão do carro é identificada na manopla da alavanca do câmbio automático.

Interior da versão Sport, porém com bancos de tecido

Entre 1993 e 1995 o ar-condicionado usava um arranjo de discos ou botões. A partir de 1996 ele passou a usar um módulo único com display digital e botões retangulares, mais moderno. Já o volante teve um desenho trapezoidal invertido nos modelos 1993 a 1995, um trapézio menor de 1996 em diante na versão Elegance e até 1997 na versão Sport, e um formato semi-elíptico nos Sport a partir de 1998 e um novo desenho compartilhado com a Classe SL em 1999 (veja a galeria abaixo). Ainda houve alguns modelos equipados com volantes opcionais da AMG Designo, com apliques de madeira e fibra de carbono, mais raros.

Todos têm revestimento de couro com apenas uma costura no aro, na marca das 6 horas. Essa costura ajuda a identificar os volantes que foram restaurados, pois nem todos seguem o padrão original por exigir pedaços de couro maiores.

Suspensão: verifique as buchas da suspensão dianteira ao passar por lombadas e “tachões”, ela não pode fazer rangidos nem batidas secas, embora a suspensão alemã tenha, tradicionalmente, um acerto mais firme. Verifique se há folgas nos terminais de direção — com o carro suspenso, balance a roda com movimentos curtos em seu eixo longitudinal, não pode haver folgas. Na traseira, verifique o estado geral das buchas das bandejas e, novamente, fique atento aos ruídos e pancadas secas. Em geral, a suspensão dos W202 não tem problemas crônicos ou pontos mais sensíveis que os citados.

 

Onde encontrar peças?

Como mencionei mais acima, a Mercedes-Benz oferece peças de reposição para todos os seus modelos de qualquer época. Nem sempre à pronta entrega, mas por encomenda você pode encontrar absolutamente tudo para o carro. É claro que isso tem seu preço, mas, ao mesmo tempo, permite que o carro seja restaurado exatamente de acordo com o padrão original.

Os catálogos de peças podem ser encontrados online e servem como uma excelente fonte de consulta para garimpar as peças — seja nas concessionárias ou nos desmanches. Estes, aliás, são uma alternativa pois o W202 foi um modelo muitíssimo bem-sucedido no Brasil e a oferta de modelos sucateados para doar peças é imensa.

Há dois fóruns de proprietários muito bem-conceituados, o Portal Mercedes e o Portal Mercedes Brasil. Lá é possível encontrar informações sobre as oficinas especializadas, peças e componentes, além de catálogos e manuais técnicos.

 

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