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Gustavo e seu caminhão FNM 1965 | FlatOut Classics

O quadro FlatOut Classics se dedica ao antigomobilismo e aos neocolecionáveis (youngtimers) estrangeiros e nacionais, dos anos 20 ao começo dos anos 2000. Carros originais ou preparados ao estilo da época.
São matérias especiais, feitas para serem saboreadas como as das clássicas revistas que amamos.
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Herança de família

A esta altura você já conhecer Gustavo, um dos personagens da nossa série FlatOut Classics. Da última vez em que falamos dele, o tema era seu belo Ford Corcel quatro-portas 1976 – último ano da carroceria, que pode não ter o mesmo charme do duas-portas, mas tem seu valor entre os colecionadores.

Naquele texto, falamos como Gustavo topou com o Corcel em uma busca despretensiosa nos sites de classificados – ele bateu os olhos no anúncio, percebeu o potencial e, quando viu, já estava de viagem marcada para ver o carro de perto, fechando negócio dias depois. Quem gosta de carro antigo por vezes dá dessas (não raro, para desespero dos familiares e entes queridos).

E Gustavo gosta mesmo. “Eu já perdi a conta de quantos Estados brasileiros já conheci viajando”, ele me contou em uma de nossas conversas. “E nenhum deles de carro novo. Sempre de carro velho.” Quem está envolvido neste meio sabe perceber quando “carro velho” é um elogio.

O caso é que nem todos os veículos do acervo de Gustavo foram comprados assim, de repente, quase por acaso. Seu caminhão FNM, por exemplo, está na família há muito, muito tempo – desde 1965, quando seu pai o comprou (quase) zero-quilômetro.

 

Um pouco de história

A Fábrica Nacional de Motores foi fundada em 1942, por iniciativa do coronel Antônio Guedes Muniz, que já em 1939 sugeriu ao governo brasileiro a criação de uma fábrica de motores aeronáuticos. O momento era propício – estamos falando do início da Segunda Guerra Mundial, e a entrada do Brasil como um dos Aliados garantiu incentivos vindos dos Estados Unidos.

Acontece que a produção levou um tempo para começar – e, quando o primeiro avião com motor FNM (na verdade, um radial Curtiss-Wright R-975 feito sob licença) ficou pronto, em 1946… já não havia Segunda Guerra Mundial. A demanda esfriou e, por algum tempo, havia uma fábrica novinha em Duque de Caxias  (RJ) sem ter o que produzir. E, com o fim do governo Getúlio Vargas e o subsequente desânimo com a industrialização do Brasil, a FNM corria o risco de ter de fechar as portas antes de ter seu potencial explorado.

O coronel Muniz propôs, inicialmente, expandir sua atuação e fabricar de maquinário industrial a itens domésticos. Entretanto, uma ideia melhor surgiu depois de um acordo com a italiana Isotta Fraschini, fabricante de carros de luxo e caminhões. A fábrica foi reativada em 1949 e produziu cerca de 200 exemplares do “bicudo” D-7.300, com motor a diesel. Mas a Isotta estava em maus lençóis, financeiramente falando, e o acordo acabou encerrado prematuramente.

Então, em 1951, outra italiana entrou em cena: a Alfa Romeo, que na época ia bem melhor – e acabou por salvar a FNM com seus caminhões “cara-chata” de câmbio cruzado. Eles foram fabricados no Brasil entre 1951 e 1978, e acabaram conquistando adeptos por décadas – não apenas quem ganhava a vida na boleia.

Design carismático, a associação com uma das fabricantes de automóveis mais passionais de todos os tempos e, claro, o exotismo da transmissão, são fatores que contaram bastante para isto.

 

“Só uma ferramenta de trabalho”

Gustavo diz que o caminhão de seu pai foi a ferramenta primordial para o sustento de sua família – e por muito tempo, de 1965 a 2000 nas mãos do pai de Gustavo, e até 2010 com um de seus primos. “Foi esse FNM que ajudou a me criar e a criar meus irmãos”, ele conta, nostálgico. “Não digo que ele é meu favorito, mas com certeza ele seria o último de que eu me desfaria caso precisasse vender meus carros.”

Em 2010, o pai de Gustavo decidiu vender o caminhão, enfim – algo de que Gustavo discordava completamente e, assim começou a insistir para que seu pai passasse o FNM para ele. Quando Gustavo me contou esta parte da história, perguntei se ele considerava, então, que de seu pai que ele herdou o gosto por veículos antigos.

 

“Não, não, meu pai nunca incentivou”, foi a resposta. “Pelo contrário, ele sempre foi contra. Para ele caminhão era uma ferramenta de trabalho, e só.” Acontece que o vírus da ferrugem já havia infectado Gustavo muito antes – “desde sempre, nem sei quando foi que começou esse meu gosto por carro velho”, observa. Depois de pesquisar sobre o FNM na Internet e de conversar com amigos que também tinham seus próprios FNM, ele estava determinado a ter um caminhão por lazer. “Loucura, de certa forma, mas eu insisti e consegui mostrar para ele que um caminhão também servia para passeio.”

 

Gustavo conta que hoje em dia seu pai, já de idade avançada, mal consegue subir no caminhão. “Mas agora ele até gosta”, conta. “Fui eu quem decidiu que aquele caminhão era uma relíquia, e hoje ele até demonstra reconhecimento e tem certo carinho por isto”.

 

Como era antigamente

Gustavo não queria que o FNM 1965 ficasse idêntico ao que era quando zero quilômetro. Para ele, também era importante preservar a história do caminhão – mesmo que quase não tenha viajado com ele durante a infância, visto que, quando seu pai aposentou-se, ele tinha só seis anos de idade.

Assim, ele decidiu restaurar a estrutura e a carroceria, bem como toda a mecânica – afinal, o plano era fazer longas viagens –, mas preservar o estado da cabine o quanto fosse possível. Nota-se pelas fotos: por fora, o FNM está praticamente impecável, e recebeu também alguns itens de personalização period correct, como os protetores de para-choque Bepo, os mudflaps pintados e as calotas.

Por dentro há alguns sinais de desgaste que transpiram personalidade e história – pequenas falhas na pintura, alguns descascadinhos nas molduras dos instrumentos (que, charmosamente, possuem a escrita em italiano), marcas de pátina… além de algumas customizações comuns em caminhões antigos, como a bola transparente no câmbio, as cortinas na parte de trás da cabine, a coifa de tecido macio na base da alavanca… todos toques de época.

Dá para dizer que este caminhão é uma volta no tempo – não como o Corcel, por exemplo, que parece ter saído da fábrica. O FNM 1965 é algo mais orgânico, que traz não só um bom estado de conservação, mas uma carga emocional bem grande e deixa claro que já passou por muita coisa.

O motor – seis em linha, diesel, 150 cv – e o câmbio cruzado, com uma alavanca para as marchas normais e outra para acionar as reduzidas, são mantidos rigorosamente em ordem para garantir uma experiência de condução sem imprevistos. A caixa seca exige uma sincronia perfeita das duas alavancas – e, como diz um dos letreiros pintados no caminhão, não é para qualquer um. “Depois de algum tempo com ele você pega o jeito. Mas é como diz a velha frase: tem que estar no sangue.”

Talvez o pai de Gustavo tenha demorado para perceber, mas Gustavo já sabe há muito tempo que, no caso dele… sim, está no sangue.

 

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