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Gustavo e seu Corcel quatro-portas 1976 | FlatOut Classics

O quadro FlatOut Classics se dedica ao antigomobilismo e aos neocolecionáveis (youngtimers) estrangeiros e nacionais, dos anos 20 ao começo dos anos 2000. Carros originais ou preparados ao estilo da época.
São matérias especiais, feitas para serem saboreadas como as das clássicas revistas que amamos.

Confira o perfil deste carro em nossa rede social FlatOuters.

 

Entusiasmo além do óbvio

Se há carro antigo que representa perfeitamente a indústria automobilística brasileira, este é o Ford Corcel. Modelo endêmico do nosso País, ele foi desenvolvido pela divisão brasileira do Oval Azul, especialmente para nosso mercado, usando como base um projeto quase aleatório. Seu apelo entusiasta, do ponto de vista técnico, não é dos mais altos: ele não teve versões esportivas realmente potentes, não tinha tração traseira como seu rival, e não tem um amplo histórico de competição. O que ele tem? Robustez mecânica, motor econômico e um charme que não existe em sua versão francesa, o Renault 12.

Como se não bastasse este exemplar tem mais uma característica que reforça sua aura underdog: trata-se de um Corcel de quatro portas, o que lhe priva de uma das características mais interessantes do Corcel – o perfil “garrafa de Coca-Cola”, que dá à parte superior dos para-lamas traseiros linhas sensualmente sinuosas.

Gustavo é um antigomobilista de carteirinha e dono de um belo acervo de veículos brasileiros históricos. Se você perguntar a ele o que foi que o fez comprar um Corcel, os pormenores citados nas linhas acima não farão parte da resposta. Tem mais a ver com a experiência de ter um Corcel. E, claro, com um pouco de exotismo.

Este Corcel Luxo fabricado em 1976 até hoje mantém todas as características originais, mas,  diferentemente de tantas relações de entusiastas com seus clássicos, não estamos falando de uma herança de família, ou do final feliz de uma longa e tortuosa busca pelo carro perfeito. Este Corcel é uma celebração do acaso.

Gustavo conta que simplesmente olhava, de forma despretensiosa, os sites de classificados na Internet quando deu de cara com o carro. Marcou uma visita para ver o Corcel, gostou do que encontrou, negociou por uma semana e o colocou na garagem.

Nestes tempos caóticos e capazes de tornar complexo o ato de dar bom dia, é importante enxergar a beleza das coisas simples, das pequenas coincidências de se estar no lugar certo, no momento certo. Topar assim, de repente, com algo que nem estávamos procurando é algo raro. Há de se dar valor.

Além disso, não importam muito as circunstâncias quando se dedica a manter a originalidade de um carro antigo, totalmente “analógico”, na era dos híbridos e elétricos semi-autônomos. Especialmente com este alto nível de originalidade.

 

Máquina do tempo

Esta é uma cápsula do tempo em diversos aspectos. O mais óbvio é o fato de ele ter 44 anos de vida e de ter nascido em uma época na qual o Brasil ainda não tinha uma indústria totalmente consolidada. Ele foi o primeiro compacto fabricado pela Ford no Brasil, e só aconteceu por outra casualidade: estava sendo desenvolvido em parceria com a Renault quando a Ford decidiu comprar a Willys-Overland do Brasil.

Para o Velho Mundo, o resultado foi o Renault 12. Para nós, o Corcel — claramente derivado do mesmo projeto, porém com um design muito mais elegante e proporcional.

O Corcel de quatro portas, como poucos lembram, veio antes, em novembro de 1968. Foi uma decisão inusitada da Ford porque na época, o público brasileiro não era muito receptivo aos carros de quatro portas. Não havia uma razão lógica: acreditava-se que carros de quatro portas eram menos seguros em caso de colisão lateral, e que eram mais suscetíveis a roubos e furtos. Baixas vendas tiraram o Corcel de quatro portas de linha em 1977, quando foi lançado o Corcel II – outra razão para que o carro de Gustavo seja uma máquina do tempo.

Mas o tempo cura tudo – e, no caso do Corcel, a raridade do quatro-portas o tornou cobiçado entre os fãs do modelo.

 

Achado meio Perdido

Foi justamente isso o que atraiu Gustavo. Além da raridade, o carro estava muito original – ainda mais um exemplar de 1976, já com o facelift que deu ao Corcel uma dianteira mais parecida com a do Escort de primeira geração.

Era um carro visivelmente preservado, com diversos detalhes de acabamento originais e estrutura íntegra. Um único detalhe impediu que a negociação fosse concluída de imediato: o motor do carro, que havia sido substituído por um CHT mais moderno – cujo projeto deriva do motor do Corcel (que, por sua vez, nasceu na Renault) — impediria, por exemplo, a obtenção de um certificado de originalidade. Ao analisar a situação e analisar a disponibilidade de um motor correto no mercado de peças usadas, Gustavo decidiu que valia a pena arriscar.

Uma vez com o motor fora do carro, uma análise mais minuciosa confirmou que o Corcel 1976 era uma base excelente para uma restauração completa. O que doeu um pouco foi refazer a pintura Turquesa Laguna original, que apresentava imperfeições e bolhas por ter ficado submetido a um ambiente inadequado. O interior, por outro lado, estava preservadíssimo – o que inclui, por exemplo, o cobiçado rádio Philco Ford.

É possível ver que todos os detalhes originais estão presentes, e há apenas as pequenas imperfeições que vêm com a idade e com o uso, visto que o Corcel — apesar do estado de conservação — passa longe de ser uma garage queen. Foram dezenas de viagens longas nos últimos três anos e meio, desde que a restauração foi concluída. “É um baita companheiro”, diz Gustavo, conciso. “Confiável e econômico”, completa.

 

O valor da experiência

O Corcel é um caso interessante na paisagem de antigos brasileira, como dissemos, por não ter aquela veia entusiasta que modelos como o Chevrolet Chevette ou mesmo o Fusca esbanjam. Era um carro de família, que cativava pela economia de combustível, pelo conforto e pelo estilo. Sem tração traseira e sem herança das pistas, ele não era nenhum Escort. Na verdade, muitos entusiastas lamentam o fato de a Ford ter optado por criar o Corcel, e não fabricar aqui o Escort europeu.

Com sua mecânica simples e robusta, o Corcel é um carro resiliente, do tipo que aguenta trabalho pesado por décadas – no interior do Brasil ainda é comum vê-lo no batente, transportando todo tipo de ferramentas e materiais. O que ele faz muito bem, porém, é proporcionar uma experiência de direção orgânica, direta e sem filtros.

O tipo de direção que te leva de volta ao passado — nesta cápsula do tempo. Algo para curtir aos fins de semana com o quebra-vento aberto e o cheiro de gasolina invadindo os pulmões, andando sem pressa, apreciando a paisagem… simplesmente não dá para não admirar este Corcel.

O que explica relações como a de Gustavo, que envolvem paixão e dedicação ao modelo e à preservação de sua história. Afinal, os bons entusiastas conseguem enxergar potencial em lugares além do óbvio.

 

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