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Automobilismo

Isso é o que a Fórmula 1 perde com a aposentadoria de Kimi Raikkonen

É mesmo o fim de uma era. Kimi-Matias Raikkonen vai se aposentar ao final desta temporada — que ele nem esperou chegar para fazer o anúncio. Na tarde da última quarta-feira (01/09), ele divulgou uma nota em suas redes sociais, dizendo que esta é sua última temporada na Fórmula 1.

Kimi chegou à Fórmula 1 pela Sauber, mesma equipe pela qual se despede — realmente fechando um ciclo. Nestes 20 anos, ele disputou 19 temporadas (em 2010 e 2011 ele decidiu correr na NASCAR e no WRC) e se tornou o piloto que mais disputou Grandes Prêmios na história da F1. Como Rubens Barrichello e Fernando Alonso, Kimi disputou 19 temporadas, mas a maior parte de sua atuação foi na era das 20 etapas (ou mais) por temporada. Por isso, ele disputou de 344 Grandes Prêmios, superando Barrichello e Alonso por 18 Grandes Prêmios.

Kimi também é, atualmente, o piloto mais velho do grid. Ele nasceu em 17 de outubro de 1979, o que significa que ele terá 42 anos ao final desta temporada.

Campeão mundial em 2007, Kimi não demorou para se tornar um dos grandes nomes da Fórmula 1 por combinar uma personalidade marcante com um talento ímpar ao volante — duas características que lhe rendem comparações a James Hunt e Nelson Piquet. Como estes dois antecessores, ele também não se preocupa em escolher as palavras, é avesso à idolatria do público, e tem um título mundial no currículo.

É por isso que, embora a Fórmula 1 tenha mudado muito nos últimos anos quando se trata da postura dos pilotos, que já não precisa ter aquela rigidez corporativa do passado, caras como Kimi Raikkonen tornam tudo mais espontâneo, mais autêntico e mais divertido. É mais real.

E é por isso que a F1 não será mais a mesma sem Kimi Raikkonen. Um piloto de ponta — para muitos, o maior de todos da Finlândia —, um piloto de personalidade.

Aproveitando o momento, decidimos trazer alguns fatos e situações que corroboram esses dois lados de Raikkonen: o piloto autêntico e o mestre da pilotagem, campeão mundial.

 

Kimi é um meme em forma de piloto de F1

Poucos pilotos deram origem a tantos memes quanto Kimi Raikkonen. Pudera: ele já estava na F1 quando os memes se tornaram realmente populares e sua já mencionada personalidade “marcante” e alguns hábitos pessoais serviram de inspiração para dezenas de memes.

Suas expressões inabaláveis, por exemplo, renderam este aqui:

Sua capacidade de não estar ligando nem um pouco para o resto do mundo, algo recorrente em suas entrevistas, rendeu esse aqui:

Esse meme, aliás, resume bem Kimi Raikkonen: ele só fez o que tinha que fazer. Ele não tem culpa de ter criado uma piada só por ter escolhido um número qualquer, como pediram para ele escolher. Além disso, seus passatempos da vida de solteiro também ajudavam no negócio. Como esquecer das suas festas?

Mesmo quando ele não tenta ser indiferente, ele nos fornece material para memes. Já notou que ele sempre começa suas respostas com “BWOAH” ou “MWOAH”?

É claro que aquilo, nas mãos de um adolescente entediado diante de um computador vira isso:

Veja: que outro piloto de Fórmula 1 tem um vídeo de 10 minutos apenas sendo naturalmente engraçado?

 

E tudo isso acontece por que…

… ele não tem filtros

Filtro aqui é um filtro mental, do tipo “será que devo mesmo falar? Será mesmo que devo fazer?” Kimi não tem isso.

Quando questionado por Martin Brundle, em frente às câmeras da TV britânica, se havia visto a participação de Pelé no pódio do GP do Brasil, em 2006, Kimi sequer ficou vermelho ao explicar que não viu, porque “estava c4g4ndo”.

Quando foi convidado a ensinar Natalie Pinkham, apresentadora da Sky Sports, a pilotar na neve, ele, cumprindo apenas suas obrigações contratuais, simpaticamente entrou no carro e, questionado pela moça sobre o que fazer, ele explicou: “Não faça nada errado”.

Em seguida, desesperada, ela perguntou de novo o que fazer, e Kimi: “Faça o que quiser, não me importo!”. A moça então pergunta de outro jeito: “Me dê alguma dica!”. E ele: “Dirija rápido”. Então o inevitável acontece: a moça roda e o carro bate em um banco de neve. Kimi, que não tem filtros, simplesmente começou a rir da desgraça da pobre Natalie.

E aquela vez em que o engenheiro da Sauber dizia que não ouvia Kimi, mas respondia sempre que ele perguntava?

Kimi: “Você me ouve?”
Engenheiro: “Não. Não te ouço.”
Kimi: “Você me ouve ou não?”
Engenheiro: “Não te ouço.”
Kimi: “Então como você está respondendo?”

E ele fala o que muita gente pensa, mas não consegue/quer/pode falar:

 

Ele gosta do traçado antigo de interlagos. Acho…

Kimi é o único piloto da Fórmula 1 dos últimos 30 anos que pilotou um Fórmula 1 no traçado antigo de Interlagos. Ou quase isso.

https://fb.watch/7N2ziUgatH/

Pena que fecharam a saída. Teria sido uma volta memorável.

 

Mas o que importa mesmo, é que ele sabe o que está fazendo

Agora, temos que falar sobre o outro lado de Kimi. Quando ele se cala e faz o que sabe fazer de melhor.

Como fez no GP dos EUA, em 2018, quando se meteu na briga entre Max Verstappen e Lewis Hamilton, deixou os dois para trás e faturou o caneco naquela corrida — e foi para a entrevista coletiva com cara de “aprendam com o pai, garotos”:

Na ocasião, Kimi quebrou outro recorde — um recorde que nenhum piloto gosta de ter quebrado: aquela seria sua 114ª corrida sem vencer. Mas, depois de se classificar em terceiro, ele assumiu a liderança logo na primeira curva e lá ficou até o final da prova, defendendo-se dos ataques de Hamilton e Verstappen, segurando os dois até receber a bandeirada.

E se você ousar argumentar que ele tinha aquela Ferrari que despejava vapor de óleo aditivado na admissão do motor e, por isso, era mais potente, o GP de Portugal de 2020 mostra o que ele é capaz de fazer com um carro mediano na pista molhada — quando os carros acabam nivelados por baixo. Kimi é um dos grandes sob chuva. Ele deixou isso muito claro no GP do Brasil de 2003, quando ganhou (mas não levou) depois de fazer uma corrida agressiva debaixo do típico aguaceiro paulistano.

Mas seu melhor desempenho em pista molhada foi mesmo no ano passado, em Portugal: Kimi, de Alfa Romeo Sauber, largou em um modesto 16º lugar e iniciou uma escalada de posições que fez daquela volta, uma das melhores primeiras voltas da história: com os pneus mais adequados, ele fez nove ultrapassagens ao longo do primeiro giro, e entrou na segunda volta brigando pela quinta posição. No fim, Kimi terminou em 11º, onde normalmente têm terminado com o fraco Alfa Romeo, mas sua primeira volta foi suficiente para colocá-lo como um dos destaques da corrida.

A melhor fase de Kimi, contudo, aconteceu entre sua primeira vitória, em 2003, e seu título mundial, em 2007, com destaque especial para a temporada de 2005, quando foi vice-campeão com sete vitórias e outros cinco pódios em 19 corridas.

Naquela temporada, Kimi fez duas de suas melhores provas de toda a sua carreira. A primeira delas foi o GP de Mônaco, quando o finlandês foi impecável do começo ao fim do final de semana. Primeiro, no sábado ele arrancou 0,458 s do tempo de Fernando Alonso e conquistou a pole — meio caminho para a vitória no Principado.

No domingo, ele largou na dianteira e, pelo jeito, decidiu fazer a corrida de sua vida. Disputando diretamente com Fernando Alonso, na vigésima volta ele já tinha cinco segundos de vantagem e seguiu baixando seu tempo volta após volta. O problema é que na volta 23, Schumacher tocou o Red Bull de David Coulthard, quebrando a suspensão do piloto escocês. O carro parado na pista começou a colocar em risco os demais pilotos e o Safety Car foi acionado. Imediatamente Alonso entrou nos pits para fazer a troca de pneus e o reabastecimento, mas Kimi foi orientado pelo estrategista da McLaren a se manter na pista — afinal era cedo demais.

Com a relargada após a saída do Safety Car, Kimi começou uma série de voltas que o colocou insanos 34,7 segundos à frente de Alonso, que estava com o carro mais pesado pois tinha acabado de abastecer. Com isso, Kimi pôde entrar nos boxes, trocar os pneus, reabastecer e voltar à pista com 13 segundos de vantagem. E ali ele ficou até o final da prova, com seus 13,8 segundos à frente de Alonso, dominando a corrida de ponta a ponta.

A outra corrida histórica daquela temporada foi o GP do Japão, em Suzuka. Kimi largou em 17º, prejudicado pela chuva que deu as caras durante a classificação, assim como Schumacher, Alonso e Montoya, que largaram, respectivamente, na 14ª, 16ª e 18ª posições. Com uma estratégia perfeita de pit stops e uma sequência matadora de voltas rápidas, Kimi chegou ao terço final da prova em segundo lugar, com vantagem suficiente para fazer a pit stop e manter a posição.

De volta à pista ele iniciou sua caçada ao líder da prova, Giancarlo Fisichella, na penúltima volta. Kimi grudou na traseira de Fisico na reta principal, tentou o bote, mas o italiano defendeu a posição. Na abertura da última volta, Kimi tentou a mesma manobra mais uma vez, mas agora, conseguiu a posição de ataque na entrada da curva 1 e saiu dela como líder da corrida para vencer a prova.

Mas nenhuma corrida da carreira de Kimi foi mais memorável que o GP do Brasil de 2007. Kimi era o terceiro no campeonato, três pontos atrás de Alonso, o vice-líder, e sete atrás de Hamilton, o líder e favorito ao título. Na classificação, Felipe Massa foi o mais rápido, seguido por Lewis Hamilton, Kimi e Alonso.

Logo na largada, Massa se posicionou na reta bloqueando Hamilton, e Kimi pôde entrar no S na segunda posição, onde ele se manteve até a janela dos pit stops. Massa foi o primeiro a entrar, abrindo a pista para Kimi fazer uma série de voltas mais rápidas. Alonso parou em seguida e, depois, foi a vez de Kimi, que conseguiu voltar à frente de Massa, ficando com a primeira posição. Hamilton só parou seis voltas depois de Kimi, voltando na nona posição, mais de um minuto atrás de Kimi — o que é quase uma volta inteira em Interlagos.

Sem capacidade de reação, Hamilton terminou em sétimo, Alonso em terceiro e Kimi em primeiro, à frente de Felipe Massa. Com o resultado, Kimi tirou a vantagem de sete pontos de Hamilton e se tornou campeão por apenas um ponto de vantagem, na última prova da temporada.

Cansei. Agora só quero curtir a vida no meu iate sem nome