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Jeep Cherokee Sport XJ: Tudo o que você precisa saber para comprar o seu | Guia de Compra FlatOut

Faz mais de 70 anos que os SUV estão entre nós. Os primeiros deram as caras no fim dos anos 1940, e eram mais utilitários do que esportivos, mas já tinham os elementos que caracterizam esse tipo de carro: maior capacidade de rodar em superfícies irregulares combinada a um interior confortável e espaçoso para o transporte de passageiros. Mas foi somente em 1983 que ele se tornou um sonho de consumo para o motorista comum, o que iniciou a revolução dos SUV ou “a SUVização do mundo”.

Foi naquele ano que a AMC, então proprietária da marca Jeep, lançou a segunda geração do Cherokee, seu utilitário de entrada. Ele mantinha todas as características desejáveis em um carro desse tipo, mas com uma diferença fundamental que se tornou sua maior qualidade: ele era construído com o chassi integrado à carroceria. Um monobloco em vez do tradicional arranjo de carroceria sobre chassi escada.

Isso podia até parecer um detalhe insignificante para o grande público, ou mesmo um downgrade para os entusiastas dos modelos da marca. Mas essa característica mudou o jogo. Ao adotar a construção em monobloco o Jeep Cherokee subiu alguns metros da trilha do conforto e da qualidade de rodagem. Sem um chassi transferindo seus movimentos para a carroceria por meio de coxins elásticos, que quase nunca estavam em harmonia com a frequência da suspensão, o carro passou a sacolejar muito menos. Na verdade, ele começou a rodar como um carro de passeio comum, mas com uma suspensão elevada e com maior curso.

O Jeep Cherokee XJ mudou a regra do jogo dos SUV, e definiu como eles seriam dali em diante. Depois dele, a Jeep nunca mais usou o antigo arranjo de carroceria sobre chassi, e as demais fabricantes, aos poucos, adotaram o mesmo arranjo mecânico.

Mas não foi apenas no método de construção que o Jeep Cherokee XJ revolucionou o segmento. Seu design é atemporal, combina na medida certa o aspecto robusto ao refinamento que se espera de um carro de passeio convencional. Patrick Le Quément, atual diretor de design da Renault, chegou a dizer que o XJ é o design de SUV perfeito. É difícil discordar do francês quando se olha para um Jeep XJ hoje, depois de quase 40 anos, para admirá-lo. O carro envelheceu muitíssimo bem — não foi por acaso que sua produção durou até 2001, praticamente sem alterações visuais.

 

Por que você quer um Cherokee Sport?

O carro é o arquétipo do SUV de raiz. Sua história o tornou um potencial clássico desde o dia em que deixou de ser produzido. Agora, com os primeiros modelos trazidos para o Brasil chegando à casa dos 25 anos e já está se tornando um modelo colecionável e, por isso, está começando a subir a ladeira da valorização. Ele também teve uma fase de “alternativa barata para off-road”, e também pode ser uma opção caso seu negócio seja cair na trilha aos fins de semana.

Falando dos aspectos objetivos do carro, ele tem um padrão de conforto e desempenho muito atual, justamente devido à sua configuração mecânica. O motor 4.0 é um dos motores mais populares da história e, embora tenha um consumo digno dos EUA dos anos 1980, tem números razoáveis para um SUV deste porte ainda hoje: com seus 190 cv e 31 kgfm ele vai do zero aos 100 km/h em 10 segundos e chega aos 190 km/h.

Acima de tudo, porém, o Cherokee XJ é um ícone automobilístico, um pedaço da história do carro americano, dos SUV, da marca Jeep que ainda é acessível a boa parte dos entusiastas em busca de um carro para lazer. Além disso, o carro é robusto, não costuma quebrar sem avisar e tem manutenção simples — sem contar a abundância de peças no mercado norte-americano.

Colaboraram com este guia: Davi Savicki (proprietário), Daniel Roiha (proprietário), Aldrim Favoretto Cristino (proprietário e técnico especializado no modelo)

 

Qual versão escolher?

O Jeep Cherokee XJ veio ao Brasil a partir de 1997, sempre importado da Argentina (VIN iniciado por 8) e somente nas versões Sport e Rubicon. A maioria das unidades veio equipada com o lendário 4.0 AMC straigh-6 de 190cv, mas algumas unidades vieram com o pouco celebrado 2.5 turbodiesel VM Motori, um motor que normalmente é substituído pelo Maxion 2.5 Tdi.

Todos os Cherokee Sport foram equipados com vidros elétricos, travas elétricas, bancos de couro, rádio, rodas de liga leve e alarme. Opcionalmente você poderia equipá-las com um console de teto que incluía o computador de bordo básico. O pacote Rubicon incluía quebra-mato, faróis de neblina e painel de quatro botões, estribos, protetores de lanterna e defletor sobre o para-brisa traseiro. As duas versões podiam ser equipadas com câmbio automático de quatro marchas ou manual de cinco marchas, mas o motor a diesel era combinado somente ao câmbio manual.

Até o modelo 1997, os Cherokee Sport usavam a caixa de transferência NP-231 combinadas ao diferencial Chrysler 8.25 e não eram equipadas com ABS. Em 1998 as versões automáticas passaram a usar a caixa de transferência N-242 e os diferenciais passaram a ser sempre da Dana, modelo 35 em 1998 e 44 a partir de 1999.

Dito isso, a versão diesel embora possa parecer atraente por conseguir rodar mais quilômetros por litro, não é das mais desejadas devido à complexidade de manutenção de seu motor. Os modelos a gasolina, apesar do consumo mais elevado, ainda são as preferidas. A Rubicon, por ser mais equipada é naturalmente mais valorizada, mas isso depende muito do estado do carro. Os modelos com diferencial Chrysler tendem a ser mais caros para se reparar devido à necessidade de importação das peças do diferencial, enquanto o Dana 44 é o mais simples e mais robusto.

 

Quanto custam?

Infelizmente a fase dos Cherokee Sport na faixa dos R$ 20.000 já faz parte do passado. Agora, para colocar um destes na garagem você terá que desembolsar ao menos R$ 25.000, que é o preço dos modelos que necessitam de revisões mais extensas e até alguns pequenos reparos. Um exemplar em bom estado já parte da faixa dos R$ 25.000 a R$ 30.000, com as melhores unidades se aproximando dos R$ 40.000.

 

Em que ficar de olho?

Motor: o 4.0 é um dos motores mais robustos usados nos Jeep e chega facilmente aos 400.000 km antes de precisar de uma retífica. Um problema comum está nos retentores de válvulas: quando desgastados, o motor expele mais fumaça escurecida, como se estivesse queimando óleo. O sensor de rotação também é uma peça sensível. Quando falha, causa uma pane geral, fazendo parecer um problema maior do que realmente aconteceu. Muitos proprietários usam o sensor de marcas paralelas

O motor também pode apresentar vazamento de gasolina na flauta da injeção. “As conexões Quick Disconnect vazam com o tempo. Cerca de R$250 resolvem o problema”, explica Daniel Roiha, proprietário de um Cherokee Sport 1998.

Verifique também sistema de arrefecimento: ligue o motor e espere que ele aqueça até a ventoinha ser ativada, observando o termômetro no quadro de instrumentos. Peça para o mecânico que fará a inspeção verificar se a válvula termostática está funcionando (você pode verificar comparando a temperatura das mangueiras de entrada e saída do radiador, mas é preciso ter um mínimo de experiência). O reservatório de expansão do fluido de arrefecimento não pode conter apenas água, deve ter sempre aditivo de etilenoglicol.

Por último, verifique se os chicotes estão íntegros e se todo o conjunto elétrico-eletrônico funciona.

Transmissão: verifique se o nível do óleo do câmbio está correto (ela tem marcação para óleo frio e óleo quente e nível deve estar de acordo com a temperatura do lubrificante). O óleo jamais pode ser completado; a manutenção exige a drenagem completa do lubrificante, incluindo a reserva, e substituição por óleo novo. Converse com o proprietário sobre isso e tente descobrir se ele completou ou trocou o óleo. Se tiver completado, apenas, há o risco de problemas nos rolamentos e engrenagens.

Verifique o funcionamento: se a rotação subir demasiadamente nas trocas de marcha, demorar para trocar ou sair da marcha, como se estivesse na posição N, o câmbio pode estar danificado ou com o nível de óleo baixo. O teste é feito com o kickdown em quarta marcha: a 80 km/h alivie o acelerador e, em seguida, afunde o pedal de uma só vez. A marcha tem que ser reduzida com suavidade. Se sentir um tranco, o cambio já está danificado.

Suspensão: por ser um carro frequentemente usado em trilhas, muitos proprietários instalaram suspensões elevadas em seus Cherokee Sport. Para verificar se o modelo já teve a suspensão modificada, verifique se há furos não utilizados próximo aos pontos de fixação da suspensão. Estes furos extra são usados para afixar os componentes das suspensões off-road e mesmo se preenchidos, deixam vestígios. Fora isso, atente apenas aos ruídos durante o uso.

Acabamento interno: não há muitos problemas aqui. Verifique apenas se os displays do quadro de instrumentos estão funcionando corretamente, se o interruptor dos faróis funciona em todas as posições e se os comandos dos vidros e travas elétricas estão funcionando corretamente. O vidro do motorista é o único com modo de descida com um clique. Nos modelos mais antigos o forro do teto pode estar se soltando, então verifique se ele está firme ou se já foi reparado.

Monobloco: o único ponto crítico do monobloco é a eventual infiltração de água pelo para-brisa. Com o tempo a cola do vidro resseca, e a flexão da carroceria pode abrir fendas no adesivo, permitindo infiltração de água. O reparo é simples, mas envolve a retirada do para-brisa e reposição do adesivo.

Caixa de direção: é importante ficar de olho em trincas onde a caixa de direção vai parafusada. Muitos donos não sabiam, mas ao arrancar com a roda virada, o pneu arrasta e acaba forçando a caixa. Com o tempo, o suporte da caixa no monobloco acaba trincando.

 

Onde comprar peças?

Os proprietários do Cherokee recomendam a RCA 4×4, loja de Caieiras/SP especializada nos modelos Jeep. Além dela, há a americana Rockauto, também especializada em utilitários. Componentes de desgaste natural e insumos mais comuns são encontrados no Mercado Livre. “Mesmo importando, os preços não são absurdos”, explica Davi Savicki proprietário de um Jeep Cherokee Sport 1998.

 

Depoimentos

Daniel Roiha, proprietário de um Cherokee Sport 1998 automático “Black Cherry”

Sou nascido em SP e moro na baixada Santista. Sempre gostei de carro de motor grande e escolhi como diarista a Cherokee XJ. O que me levou a querer um carro desse? Primeiro, é americano. Todo carro americano das fabricantes tradicionais tem abundância de peças, o que facilita a manutenção e te dá a certeza de que você não vai ficar com o carro parado três meses numa oficina por falta de peças. Tudo se encontra na internet e em site de peças, mas é bom também ter o contato de um importador.

Por ser um Chrysler você é meio órfão de fabricante. Então pra ter um XJ é bom ter um conhecimento de mecânica para não ser enganado.

O carro em si, original, é muito robusto. Você pode superar qualquer obstáculo no dia-a-dia com ele. Você pode desviar de um bloqueio passando por uma ilha ou canteiro em emergência. Pode atravessar um pequeno alagamento, subir uma ladeira íngreme com pouca aderência, onde carros comuns destracionam. Um toque de mão você tem o 4×4 engrenado. O carro nunca decepciona.

Ele é muito confortável de dirigir, embora seja pequeno por dentro. Você se sente muito seguro para rodar por aí. A tração da XJ é fantástica. Dependendo do ano e da caixa de transferência, você pode rodar com 4×2, 4×4 para asfalto, 4×4 blocado ou 4×4 com reduzida. Este último ajuste te dá uma força fantástica no carro, possibilita a subida de inclinações muito fortes.

Mas nem tudo são flores na Cherokee Sport. O maior problema dela é o consumo. Num país com o combustível caro como temos hoje, dói encher o tanque. E ela, por ter um powertrain grande, por ter um peso elevado, o consumo vai ser, na melhor das hipóteses 5,5 km/l na cidade e 8,5 km/l na estrada. E na estrada você vai ter que manter velocidades conservadoras, no máximo 110 km/h. Não dá para rodar como aqueles SUV modernos andam.

No Jeep Cherokee, o legado do Jeep raiz mesmo, o MJ, o CJ, está presente no carro. Os eixos rígidos fazem o carro sentir mais as diferenças da pista. Mas quando você sai do asfalto o eixo te dá muito mais capacidade de transpor os obstáculos. Sem contar a resistência dele. É um carro off-road que também roda on-road. Costumo dizer que a minha XJ está preparada para levar minha filha pra escola, mas também posso levá-la para a Patagônia ou para o Pantanal.

Uso ela todos os dias, sempre que necessário. Vou para o trabalho e volto. Ela não me deixa na mão e sempre me acompanha nas viagens que preciso sem transtornos, o porta-malas é espaçoso, o ar-condicionado é bom, o aquecimento é bom. É um carro feito para climas temperados, então ela tem essa capacidade. O clima tropical judia um pouco do carro, então o arrefecimento é um ponto que exige atenção, não dá para descuidar. Ele não vai avisar se você descuidar: o problema vai crescendo silenciosamente até o carro parar e ficar muito caro. Então é um carro que precisa ser cuidado como seu pai cuidava do carro: uma vez por semana tem que abrir o capô, verificar o nível dos fluidos, verificar o desgaste dos pneus, prestar atenção à temperatura de operação, tensão do alternador, pressão de óleo.

É importante conhecer o carro. Não dá pra usar um Cherokee Sport igual a um Hyundai HB20 e achar que ele vai continuar lá, pronto para usar. A XJ tem alma. É engraçado pensar assim, mas quando você conversa com outros proprietários, os problemas são parecidos, mas cada carro se comporta de um jeito. Quando você começa a conhecer seu carro e começa a se acostumar com ele, ele começa a te corresponder da mesma forma. Eu me sinto assim com a minha. Gosto muito de dirigi-la, de viajar com ela. Sei dos problemas que ela tem, alguns problemas já aconteceram comigo — o vidro e a caixa — mas eu já solucionei e o carro está aí.

 

Davi Savicki – proprietário de um Cherokee Sport 1998

É um carro muito forte, um carro que não quebra fácil e, além de tudo, é confortável. Se você colocar perto de uma Hilux ou um carro nessa pegada, o Cherokee é bem mais confortável. Talvez seja o que eu esperava de um carro, é um jipe mesmo, bem robusto, bruto, simples mas tem tudo o que um carro moderno tem.

Eu acho que o principal problema dele são os problemas elétricos, você precisa de um mecânico e eletricista de confiança. Não é um carro qualquer, se você pegar trânsito na cidade ele vai rodar 4,5 km/l. Se for uma cidade menor, com trânsito livre, ele chega a 6,5 km/l. Para o dia-a-dia é um pouco pesado.

Mas eu acho que ele funciona muito bem para ser um carro esportivo de aventura e de cidade. Ele se comporta bem de acordo com essas classificações.