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Car Culture

Kawasaki GPz900R Ninja: a moto do Maverick em Top Gun


 

I feel the need… the need for speed!!! – Pete “Maverick” Mitchell, 1986

Eu gostaria, sinceramente, que fosse diferente. Mas ainda hoje, nesta época de protagonismo feminino, os veículos de transporte pessoal como as motocicletas, automóveis, aviões e outros, continuam uma obsessão na grande maioria masculina. Existem mulheres tão obcecadas por eles quanto homens, claro; mas é uma ínfima minoria, comprovada pela audiência de publicações dedicadas a veículos: é mais de 90% masculina.

Claro que gostaria que fosse diferente; termos mais aliados nesta época de hoje seria ótimo. Acredito que está mudando; é um processo longo, mas está mudando. O mundo no futuro será diferente do que se planeja só por isso: elas vão querer o que aprendemos a gostar. Com elas do nosso lado, famílias andarão de Mustang e Porsche até as crianças fazerem 10 anos de idade, e não num enorme SUV de 8 lugares. O mundo vai ser melhor, e diferente de hoje.

Mas existe algo em filmes como “Top Gun”, e a simplesmente sensacional continuação “Top Gun-Maverick” que está agora nos cinemas, que aproxima elas de nossa obsessão. Talvez sejam as cenas sensacionais de pilotagem, realizadas sem CGI, no mundo real, com jatos de caça militares de alta performance: qualquer um fica de queixo caído com isso.

Talvez seja o baixinho, mas ainda bonitão e simpático Tom Cruise. Talvez sejam as cenas homoeróticas de homens musculosos jogando vôlei na praia. Não sei o motivo, mas o fato é que elas gostam do filme. Muito. E é um filme que, vamos falar a verdade, é basicamente sobre stuff. Man stuff. E os feitos de pilotagem super-humana que eles tornam possíveis.

Não viu o filme ainda? Vou fazer o possível para não estragar a história para você, mas não contar uma coisa ou outra é impossível. Aconselho ir lá e ver, e ler depois. A gente espera; este texto aqui não vai a lugar nenhum.

Ainda está aqui? Então tá. O filme é basicamente sobre aviões e pilotos, claro, mas especificamente o Capitão Pete “Maverick” Mitchell, piloto de caça que é alter ego de nosso amigo Cruise desde o filme original de 1986. Aviões, claro, de F18 a P51 Mustang. Mas os automóveis têm uma crucial participação na montagem dos personagens, ainda que o tempo de tela deles seja pequeno. No fundo do hangar onde Maverick guarda seu P-51 Mustang, pode-se ver um Aston Martin DBR1. E sua namorada dirige um belíssimo Porsche 911 S de 1973.

Mas a participação especial mais interessante é a da moto que Maverick usou no primeiro filme. Numa cena sensacional no início, ele tira a capa de cima da moto, agora velha e usada, e a revela causando um sorriso nos fãs. É a mesma Kawasaki GPz900R, a Ninja original de 1984, que usou no primeiro filme! A primeira superbike moderna, a moto que mudou tudo. Ele ainda a tem! Quase faz adulto chorar.

Mais tarde, quando volta à escola Top Gun agora como instrutor, Maverick evolui, claro, e chega com uma novíssima Kawasaki Ninja H2 Carbon. A moderna H2 é uma fera:  um 4 cilindros em linha Supercharged de 998 cm³ que produz nada menos que 231 cv. É, de fato, a versão mais mansa do H2R apenas para pista, uma moto que já foi cronometrada a 400 km/h. Esta moto pode facilmente superar o F18 Super Hornet no quarto de milha. Até o avião tirar as rodas do chão, como a GPz900R fazia com o F14 Tomcat no primeiro filme.

Fala a verdade; ao ler isso aparece na sua cabeça a música tema, composta por Harold Faltermeyer. O filme original, agora em companhia deste, são mais que filmes: são fenômenos culturais indelevelmente marcados em nossos cérebros. Todo mundo conhece, e adora.

Mas divago; o tema de hoje é justamente a Ninja original; uma moto importantíssima mesmo antes de sua participação nos dois filmes. À ela.

 

A superbike moderna: nasce a Ninja

Pense nisso: Ninja era para ser o nome, para o mercado americano, de somente uma moto, a GPz900R. Só isso. Mas desde então, toda e qualquer moto esportiva da Kawasaki é uma “Ninja”. Este é o poder da moto original: se tornou sinônimo de algo especial, e virou uma submarca.

A GPz900R Ninja, 1984

O nome H2, da moto moderna de Maverick, tem origem histórica também: originalmente a Kawasaki era uma marca de motos dois tempos, e ficou famosa como uma marca de alta performance com uma série de tricilíndricos dois tempos refrigerados a ar, uma linha de motocicletas chamada justamente de H2.

A Kawasaki H2 de 1972

E o que tem a ver um tricilíndrico dois tempos refrigerado à ar com um quatro em linha refrigerado à água com um compressor mecânico? O espírito. A nova H2 queria ser uma moto tão assustadoramente potente como foi a H2 em 1972. A H2 Mach IV (irmã da H1 mach III, de 500 cm³) era uma 750 cm³ dois tempos com 74 cv a 6800 rpm, capaz de 190 km/h e uma “máquina de wheelie”. O wheelie é o andar “empinado”, somente na roda traseira, coisa que na época se dizia ser involuntário na H2.

Um belo casal de meia idade numa H2 moderna: Top Gun Maverick

A H2 moderna, com 231 cv, busca a mesma sensação de embasbacamento de sua antepassada, mas não compartilha nada mecanicamente com ela a não ser o fato de serem ambas veículos de duas rodas. O que mostra como a motocicleta mudou desde então.

Mas voltando ao fio da meada, e ao ano de 1972,  a Kawasaki logo abandonaria os dois tempos. Mesmo mais veloz e mais leve, não podia competir com a Honda e sua CB750 de quatro cilindros em linha em refinamento e status, e por isso, junto com a H2, lançou um trunfo: a lendária Z1.

A Ninja H2 moderna.

 

A H2 competiria com a CB750, mas a Z1 estaria acima dela, por não muito dinheiro a mais. Era uma moto também de quatro cilindros em linha refrigerada a ar como a Honda, fixando o conceito que chamamos hoje de SJB, “Standart Japanese Bike”. A Z1, porém, tinha 900 cm³, e um cabeçote DOHC; coisa exótica, de competição, então. Quando foi lançado, apenas o MV Agusta 750 S usava esse sistema; era uma máquina de produção limitada muito cara, a Ferrari das motos, e a Kawasaki, custava menos da metade do seu preço. E andava mais, claro.

Z1, 1972: início

A Z1 foi um incrível sucesso, que continuou com suas sucessoras, a KZ900/Z900 de 1976, e a Kz1000/Z1000 de 1977. Mas embora a Kawasaki mantivesse absoluta confiança em seus motores de 4 cilindros e 2 válvulas refrigerados a ar, eles tiveram que admitir que o apelo da tecnologia do Z1 estava começando a empalidecer.

Uma decisão foi tomada em 1980: desenvolver uma motocicleta de última geração, novinha em folha, de alto desempenho, aplicando tudo o que os engenheiros da Kawasaki aprenderam com suas experiências com a Z1.

Após alguns estudos com um seis em linha derivado do quatro em linha da Z1, a empresa resolveu fazer um novo quatro em linha, mais moderno, eficiente e compacto.  O resultado é um motor refrigerado a água, pequeno, mas de alta cilindrada, quatro cilindros em linha, DOHC e com 4 válvulas por cilindro e vela central.

A Ninja original, 1984

No final de 1982, exatamente dez anos após a introdução do Z1, o primeiro deste motor foi para o dinamômetro. A corrente de acionamento dos comandos, central na Z1, foi para o lado esquerdo para tornar o motor mais compacto, e camisas úmidas foram usadas. O resultado é um motor que até hoje parece moderno em tamanho, extremamente compacto e leve para sua cilindrada e potência altas. Media 72.5 × 55 mm, para um total de 908 cm³, e dava incríveis 115 cv a 9500 rpm.

Este desenvolvimento secreto de seis anos aproveitou as pequenas dimensões do novo motor para criar uma moto lendária em volta dele. O quadro usava o motor como elemento estrutural, e embora sua estrutura de aço, rodas dianteiras de 16 polegadas e rodas traseiras de 18 polegadas, suspensão e garfos anti-dive fossem bastante comuns na época, o motor estreito e compacto foi montado muito mais baixo no chassi, permitindo que a moto elevasse o desempenho das superbike japonesas para um novo nível.

O desenho da moto também era extremamente inovador para 1984; a GPz900R era quase totalmente carenada, e o desenho de estúdio foi apurado por muito trabalho em túnel de vento: afinal esta 900 cm³ deveria superar todas as motos de 1 litro ou mais da concorrência. No final, o Cx resultou em ótimos 0,33.

Era uma moto com entre-eixos de 1495 mm, 780 mm de altura de banco, e pesando apenas 228 kg; ainda assim tinha 115 cv. Na  traseira era bandeja monoamortecida, e os freios eram discos duplos na frente e simples atrás, calçava pneus 120/80-16 e 130/80-18, frente/trás respectivamente.

A resposta no lançamento foi incrível. Onze anos após a introdução da Z1, outra Kawasaki 900 pode novamente reivindicar o título de “a mais rápida do mundo”. Sua velocidade máxima registrada foi superior a 254 km/h e seu tempo de aceleração de 0 a 400 m foi de 10,976 segundos. A Kawasaki apresentou a moto ao público no Salão de Paris de 1983.

Seis meses depois, três motos GPz900R correram no Isle of Man Production TT terminando em primeiro e segundo lugares. Em janeiro de 1984, as vendas do GPz900R começaram em todo o mundo com a palavra “Ninja” adicionada como prefixo ao seu nome para o mercado norte-americano. Não demorou muito para que a GPz900R se tornasse a moto mais vendida do mundo

Ai, chega 1986. Um piloto de F-14A Tomcat em sua decolagem liga para a torre, “Uh torre, aqui é o Ghostrider 211, temos um idiota andando de motocicleta pela pista.” Era, claro, Pete “Maverick” Mitchell, o alter ego de um jovem Tom Cruise no primeiro filme Top Gun. Esta foi a nossa primeira introdução ao lendário Kawasaki Ninja GPz900R. Aqui as importações eram proibidas, então só sabíamos daquela moto por fotos em revistas, estáticas e sem som. Ver ela acelerar com o F14, era demais. E o som!

moto do maverick

Trinta e seis anos depois, um Maverick envelhecido, mas ainda bem, põe sua jaqueta de aviador e puxa a lona, revelando a mesma moto, com os mesmos adesivos, inclusive o com o “55” cortado, significando que não se manteria no limite nacional de velocidade americano de então. Eu confesso que uma furtiva lágrima escapou pelo olho esquerdo sem que pudesse impedi-la. Como Maverick, já não somos mais jovens; o mundo ao nosso redor foi adiante e nos considera dinossauros. Mas em cima de nossas máquinas incríveis, cuidadosamente preservadas, podia ser 1986 de novo.

Como nas ruas com a ameaça dos carros autônomos, um dos temas do filme é que os pilotos de caça serão extintos, substituídos por drones. O grisalho General interpretado por Ed Harris diz a Maverick, agora instrutor de voo, que seus dias de piloto estão no fim. “O fim é inevitável, Maverick. Sua espécie está a caminho da extinção.” Ao que Maverick responde:

“Pode ser, senhor. Mas hoje, não.”

 

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