FlatOut!
Image default
Carros Antigos FlatOut Classics & Street

Lucas e seu Puma P-018 “Al Fassi” conversível | FlatOut Classics


O quadro FlatOut Classics se dedica ao antigomobilismo e aos neocolecionáveis (youngtimers) estrangeiros e nacionais, dos anos 20 ao começo dos anos 2000. Carros originais ou preparados ao estilo da época.
São matérias especiais, feitas para serem saboreadas como as das clássicas revistas que amamos.
Clique aqui para acessar o índice com todas as matérias do quadro.

 

O carro que não existiu

Em 27 de abril de 1987, a agência de notícias Associated Press publicou uma nota curta sobre a nova empreitada de Muhammad Ali: uma marca de automóveis. Aposentado desde 1981, ele passou o restante da década dividido entre seu ativismo político e pequenas incursões no mundo dos negócios. Entre elas estava a Ali Vehicle Industry, que pretendia lançar um carro capaz de “flutuar como uma borboleta e ferroar como um zangão” (“Flutter like a butterfly, sting like a bee”, o slogan que definia seu estilo de luta, com movimentos sutis e golpes precisos e potentes).

Em busca de parceiros para produzir este automóvel, que seria batizado Ali Stinger, ele acabou encontrando a Araucária Veículos Ltda. então detentora da marca Puma. O encontro não foi casual: o advogado de Ali era amigo do representante legal da Puma nos EUA, Kevin Haynes, também advogado e proprietário da importadora Inter American Ltd. Interessado em manter a marca viva, Haynes recomendou a Puma ao advogado de Ali, que veio ao Brasil em 1987 para formar uma joint-venture com a fabricante brasileira.

A intenção era fabricar as carrocerias completas no Brasil, depois enviá-las para os EUA, onde seriam instalados motor e câmbio Porsche. Parte dos carros seriam destinados ao mercado americano, e parte exportada para a Europa e Arábia Saudita, onde vivia um autointitulado xeque chamado Muhammad Al Fassi que, dizem, financiou parte do projeto e foi o primeiro distribuidor do esportivo, que acabou rebatizado como Al Fassi by Muhammad Ali.

O comunicado enviado à imprensa, na época, dizia que a Ali Vehicle Industry seria sediada em Campinas, que a fabricante já havia produzido 20 exemplares e que o pugilista ia testar os carros pessoalmente naquela mesma segunda-feira em que a notícia foi publicada.

Os carros que Ali testou eram versões modificadas do Puma P-018, um projeto do final dos anos 1970 que visava modernizar a Puma para a década seguinte, mas que acabou não vingando devido aos problemas financeiros que a marca enfrentava na época. Também não havia 20 carros prontos; apenas dois: um cupê e um roadster que apareceram nas fotos de divulgação da época.

A Ali Vehicle Industry chegou a receber uma encomenda de 400 unidades do esportivo, porém ela jamais foi iniciada: o estilo de vida excêntrico de Al Fassi e sua decisão estúpida de apoiar Saddam Hussein acabou fazendo com que ele tivesse que abandonar a Arábia Saudita às pressas, inviabilizando o negócio dos carros. O Puma Al Fassi jamais foi fabricado.

 

Perdidos no tempo

O fim do esportivo que sequer começou acabou fazendo com que sua história acabasse perdida no tempo. A vinda de Muhammad Ali e a parceria com a Araucária Veículos Ltda. acabaram bem documentados, mas os detalhes dos automóveis se perderam com o tempo.

Por muitos anos houve conflitos de informação sobre o total de unidades produzidas para a empreitada. Até 2011 era tido como certa a produção de três exemplares: o modelo cupê e o roadster branco usados na foto com Ali, e um terceiro exemplar desconhecido.

Mais recentemente, Newton Masteguin confirmou que seu pai, Milton Masteguin, sócio da Puma envolvido diretamente no projeto P-018, havia construído cinco carrocerias conversíveis do modelo, porém nem todas haviam sido finalizadas. Estima-se que somente um P-018 conversível tenha sido completado pela fabricante, o chassi número 004.

 

O chassi 004

Assim como a informação de ter havido somente três exemplares do Puma Al Fassi, o paradeiro dos demais modelos também era desconhecido — o que era compreensível, visto que somente um modelo havia sido completado pela fábrica, segundo os rumores.

Em 2011 os P-018 conversíveis começaram a aparecer. Primeiro um exemplar radicalmente modificado que foi restaurado por Rubens Rossatto e é o único a ostentar o nome Al Fassi, embora esteja registrado como um GTS 1989. A explicação pode estar no fato de as carrocerias não terem sido finalizadas e o carro ter sido montado sobre um GTS homologado para fins de licenciamento.

Depois, o finado Felipe Nicoliello encontrou o P-018 branco, de chassi 004, o mesmo que aparece nas fotos com Muhammad Ali. Sua história entre 1987 e meados dos anos 1990 é desconhecida, mas quando as fotos foram publicadas por Nicoliello, Sandro Fonseca, filho de um dos proprietários do chassi 004 contou a história de sua família com o exemplar. O carro acabou comprado por seu pai Sílvio Pereira Fonseca e foi modificado sutilmente na época, com as rodas BBS do Santana Executivo e com lanternas do Monza Classic 1990, mais largas. Sandro mais tarde descobriria que o modelo era o único concluído com todas as peças originais de fábrica quando precisou fazer reparos no carro e não encontrou peças compatíveis de outros Puma.

A história do Puma P-018 #004 tem outra lacuna entre a venda do carro por Sílvio e a compra por Paulo Porto Jr. Não se sabe se a venda foi feita diretamente a Paulo, ou se ele trocou de mãos antes de seu segundo proprietário identificado. O que sabemos é que ele chegou ao seu atual proprietário, Lucas Agottani, ainda sem restauração e por indicação de Nicoliello, que parece tê-lo escolhido como guardião deste pedaço da história da Puma.

 

O elo perdido encontrado e conservado

Lucas Agottani não nasceu dentro de um Puma. Não tem uma grande história de infância com os Puma. Nem é um fã de longa data da marca. Seu interesse nestes fora-de-série nacionais surgiu há pouco mais de uma década, em 2009, quando deparou-se com uma foto de seu pai com um Puma Spyder 1972 na praia de Enseada, em Santa Catarina. Intrigado e interessado pelo carro, Lucas começou a perguntar sobre o modelo a seu pai e acabou se tornando um grande fã da marca.

Na verdade, eu estaria sendo impreciso ao chamá-lo de grande fã da marca. Lucas é um verdadeiro curador da história da Puma. Depois de adquirir um GTC 1982 com seu pai, eles restauraram o carro completamente “com tempo e muita paciência”, segundo conta. Com a restauração ele acabou se aprofundando e conhecendo mais sobre a Puma. Descobriu os modelos raros, os espartanos, o significado das Spyder 1972, os modelos de exportação, o P-018 cupê e, finalmente, de seu próprio P-018 roadster.

Ao longo destes 11 anos, Agottani e seu pai não apenas conservaram a história da Puma em arquivos, mas também com uma invejável coleção de 22 exemplares da marca. Respire fundo e acompanhe a lista: Puma de corrida 1970, Puma GTS 1972 e 1974, GTE 1975, GTS 1976 e 1979, GTE turbo 1980, GTE 1981, GTE 1982, GTI 1984 exportação, P-018 cupê 1985, um AM1 vermelho bordô feito por encomenda, um AM2 preto com 16.000 km, um AM3 azul com interior azul, o AM4 chassi #002, dois GTB S1 (1978), dois GTB S2 (1980 e 1983) e um AMV 1989.

O carro foi levado de São Paulo a Curitiba, onde vivem os Agottani, e estava exatamente como Sandro e seu pai Sílvio haviam deixado: com as rodas BBS e lanternas de Monza Classic 1990, porém com todo o restante original.

Sem muitas referências sobre aquele carro que, até então, não existia, a restauração não foi tarefa das mais fáceis — não apenas pelas informações, mas também pelos componentes originais. As rodas, por exemplo, são raras e têm 14 polegadas na dianteira e 15 na traseira. Com ajuda de Rubens Rossato e Maneco, ambos conhecidos ex-funcionários da Puma, eles chegaram a um razoável padrão de originalidade, alterando somente a tala das rodas traseiras, agora com nove polegadas, e alguns detalhes da cabine. Rádio, antena, manopla do câmbio, instrumentos, teclas do painel, formato dos bancos são, todos, originais.

Estima-se que haja ao menos outros dois P-018 conversíveis, mas o fato de este ser o único conhecido, o torna uma espécie de porta-voz da história da Puma — especialmente por ser a evidência de um carro que escapou da existência, um rascunho da história materializado em fibra de vidro e embalado pelo velho flat-4 a ar.


Para ler mais

Puma Lumimari: os detalhes e as primeiras imagens da versão de rua do novo Puma GT

ESTE Gol GTS 1.8
PODE SER SEU!

Clique aqui e veja como