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Car Culture História

Matra MS670, o protótipo francês feito por uma fábrica de aviões que faturou Le Mans entre 1972 e 1974


Apesar de serem realizadas na França, as 24 Horas de Le Mans raramente foram vencidas por equipes francesas. A primeira vez foi com o Talbot-Lago Grand Sport, em 1950, e só depois de 22 anos o feito se repetiu. A responsável por isso foi a Matra, que quebrou o encanto com uma sequência de três vitórias entre 1972 e 1974.

A Matra (Mécanique Aviation Traction) foi fundada em 1945 e, como o nome dizia, concentrava suas atividades em aeronaves e, ao longo das décadas, também se envolveu na indústria bélica, na fabricação de equipamentos de defesa, na indústria aeroespacial e, no início dos anos 60, no automobilismo.

As primeiras conquistas da Matra no mundo das corridas foram os campeonatos europeu e mundial de Fórmula 2 e Fórmula 3, com seus monopostos construção monocoque. Destes o mais famoso era o o MS5, campeão de 1967 e o carro com que Jacky Ickx foi o terceiro mais rápido nos treinos de classificação do GP da Alemanha em Nürbugring – com seu tempo de 8:14, ele provou que o motor V8 Cosworth de 1,6 litro era capaz de andar junto com carros de motores maiores, de mais de três litros.

Sendo assim, quando a Matra anunciou em 1967 seus planos para levar o título do Mundial de Construtores e, principalmente, vencer as 24 Horas de Le Mans, quem acompanhava a equipe sabia que eles tinham boas chances – algo que veio a ser confirmado cinco anos mais tarde, quando o MS670 venceu as 24 Horas de Le Mans de 1972.

Mas vamos começar do começo: em 1967, quando anunciou seu programa para o WSC (o Mundial de Endurance), a Matra já havia participado do campeonato em 1966 com o M620, protótipos bastante semelhantes ao que havia na época, com estrutura tubular, carroceria de fibra de vidro e um V8 Ford atrás dos bancos. Para a temporada de 1968, porém, o presidente da Matra Jean-Luc Largadére planejava algo diferente.

Ele considerava uma vergonha ter um motor americano em um carro francês, e por isso encomendou à compatriota Moteur Moderne um novo motor – um V12 com deslocamento de três litros (exigência do regulamento), 60° entre as bancadas, comando duplo nos cabeçotes e quatro válvulas por cilindro. Não era um motor revolucionário, mas o foco da Moteur Morderne era outro: robustez e durabilidade, atributos essenciais para aguentar uma corrida de 24 Horas andando no limite praticamente o tempo todo.

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Matra MS630, de 1968. Leia tudo sobre ele aqui!

Além de tudo, era um motor relativamente potente: entregava 390 cv quando calibrado para provas de endurance (nas quais normalmente a potência é reduzida em favor da confiabilidade). De fato, a resistência do V12 foi o grande trunfo do motor em sua corrida de estreia, movendo o MS630 e levando a dupla de pilotos Henri Pescarolo e John Servos-Gavin firmemente até a 22ª hora, quando sofreram um acidente e abandonaram a prova. Por outro lado, a potência do motor da Matra era mais do que suficiente para oferecer risdo à Porsche e seu 908, equipado com um flat-8 de 350 cv.

Como você já deve saber se acompanha nossa série, em 1969 o vencedor das 24 Horas de Le Mans foi o Ford GT40, enquanto que em 1970 e 1971, foi simplesmente impossível para as outras equipes superar o monstruoso Porsche 917 (você pode ler a história toda aqui). Neste meio tempo a Matra comia pelas beiradas e aprendendo entre acertos e erros – em 1969, por exemplo, todos os três Matra inscritos abandonaram a prova depois de completar pouco mais de 70 voltas. O problema: anéis dos pistões danificados porque os motores tinham óleo demais.

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No ano seguinte, o problema foi calibrar o motor para entregar mais de 420 cv sem os devidos reforços: nenhum dos três carros conseguiu passar da oitava hora de corrida. Em 1971, apenas um carro foi inscrito: o MS660, que tinha como novidade uma nova carroceria, mais aerodinâmica, e construção monocoque em vez de chassi tubular. A dupla formada por Chris Amon e Jean-Pierre Beltoise, infelizmente, abandonou a prova por falta de combustível.

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Todas estas falhas seriam corrigidas no ano seguinte – até porque a Matra já corria com o mesmo motor havia sete anos, e não demoraria até que o V12 ficasse obsoleto. Assim, Largadére decidiu que o novo carro deveria tirar proveito de um motor conhecido e eficiente trazendo uma carroceria de aerodinâmica exemplar e estabilidade acima da média para que seus pilotos pudessem completar uma corrida de 24 horas com o mínimo de cansaço. Seria a estratégia do chefe da equipe: tentar vencer a força dos adversários, que usavam motores maiores e mais potentes, com resistência.

Em uma maré de sorte, em 1972 o regulamento para as 24 Horas de Le Mans mudou, banindo motores com deslocamento superior a três litros. Assim, os Matra acabaram com certa vantagem: diferentemente do que acontecia com seus rivais, o motor do Matra MS670 não foi desenvolvido às pressas, e poucos eram tão duráveis e eficientes quanto eles.

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O resultado: embora um dos carros – o de Chris Amon e Jean-Pierre Beltoise –, tenha abandonado a corrida por problemas mecânicos logo nos primeiros minutos, os outros dois MS670 conseguiram terminar com uma dobradinha: na ponta, Henri Pescarolo e Graham Hill; atrás deles, François Cevert e Howden Ganley.

Para garantir que a vitória de 1972 não havia sido um golpe de sorte, para o ano seguinte o carro sofreu algumas modificações importantes (passando a se chamar MS670B: o motor teve o limite de giro reduzido para 10.500 rpm e a potência foi limitada a 450 cv (no ano anterior, os carros tinham quase 500 cv) em busca de durabilidade. As rodas, que no ano anterior tinham 15”, foram substituídas por rodas de 13” com pneus mais generosos e geometria da suspensão retrabalhada. A carroceria era a de um roadster, com linha de cintura mais baixa para cortar o ar com mais facilidade e, consequentemente, ganhar mais velocidade nas retas.

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Henri Pescarolo e Gérard Larrousse foram os vencedores – depois de liderar por mais de metade da prova e alternar a ponta com a Ferrari 312PB – em 1973 e repetiram o feito no ano seguinte, com pequenas alterações feitas no carro, que foi rebatizado como MS670C (basicamente, freios inboard e uma asa traseira maior).

Àquela altura, porém, o V12 estava inevitavelmente ultrapassado. As outras fabricantes tinham optado por motores menores e turbinados (como o Porsche 911 Carrera e seu flat-6 de 2,1 litros), ou aspirados de maior deslocamento, como os V12 de 4,4 litros utilizados pela Ferrari.

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Largadére sabia que a hora de parar havia chegado, mas também tinha um bom motivo: a partir de 1974, a empresa decidiu focar-se em carros de rua. A missão da Matra, contudo, estava cumprida – dar aos franceses um motivo para comemorar em casa.

 

A sala sagrada da Matra

Em nossa visita ao Musée des 24 Heures du Mans, ficou fácil ver que eles guardaram o melhor para o final, exatamente ao lado do túnel escuro dos heróis da prova. Os apressados seguem hipnotizados pelas luzes da lojinha e se esquecem de olhar para trás, onde está uma das maiores jóias do espaço: uma sala reservada somente para a Matra, vencedora das 24 Horas de Le Mans de 1972, 1973 e 1974. Seu nome é uma abreviação de Mécanique Aviation Traction, que descrevia os ramos de atividade da empresa Parisiense – que construiu carros de corrida e de rua, armamentos e equipamentos aeronáuticos, bicicletas e até mesmo um computador pessoal (o Matra Alice, de 1983).

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Ao entrar nesta sala, o ronco vindo de Le Mans se silencia. O que surge são as memórias daquele que é considerado como um dos V12 mais musicais da história – para alguns, mais até mesmo do que os V12 das Ferrari 250 e 412 T1 (ouça a mágica desta orquestra italiana neste link). Os V12 de três litros da Matra berrando a quase 11 mil rpm – em especial do modelo 670 – possuem um som agudo, harmonicamente rico e de uma intensidade ímpar. Aumente o volume e deixe o vídeo abaixo como trilha sonora para o restante do post.

Abaixo, temos o Matra 670B de 1974 (esquerda), M620 de 1966 (direita), o Fórmula 1 MS 120 de 1970 (ao fundo) e uma pontinha do nariz do Matra D’Jet amarelo.

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Cockpit do 670B, vencedor das 24 Horas de Le Mans de 1972, 1973 e 1974 (670C)! Henri Pescarolo esteve ao volante nas três conquistas, marcando seu capacete verde nas páginas da história.

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Falando no capacete, que tal uma poltrona destas no escritório ou na sala de estar?

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Matra Djet 6 (ou Jet 6), o carro de rua projetado por René Bonnet – uma espécie de Lotus Elise francês. Extremamente leve (660 kg), sua carroceria de fibra de vidro era colada ao chassi tubular, uma mistura exótica de escolas do automobilismo. Motor Gordini central-traseiro, freios a disco e suspensão tipo duplo A nos quatro cantos davam um pequeno indício do que este carrinho era capaz de fazer em hillclimbs e em estradas nos alpes franceses. Este modelo de 1967 fazia parte da última geração dos Jet, lançado em 1962.

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O MS120 foi o carro da Matra para a temporada de 1970 da Fórmula 1. Ele tinha a dura missão de continuar o legado do campeão MS 80, que conquistou o título de 1969 com Jackie Stewart ao volante e o ainda revolucionário Ford Cosworth DFV atrás do piloto.

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O MS120 adotou o V12 de três litros da Matra, o Type MS12, com 2993 cm³ e 420 cv – e apesar de ser um dos carros com ronco mais belos do grid, pouco pôde fazer nas pistas: Jean-Pierre Beltoise terminou o campeonato em nono colocado, Henri Pescarolo em 12º.

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Talvez fosse motor demais para o conjunto leve e equilibrado que a Fórmula 1 sempre exigiu. O campeonato de 1970 foi conquistado postumamente por Jochen Rindt da Lotus, tragédia que acabou fornecendo a oportunidade para Emerson Fittipaldi brilhar na categoria. Mas não há dúvidas: o MS 120 tem o seu lugar na história – e talvez no seu desktop ou smartphone.

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A propósito, se você quiser conhecer melhor essa e outras histórias da corrida, não pode deixar de conferir o relato do nosso passeio pelo Museu de Le Mans, que conta com uma bela seleção de carros de competição e de rua!

A próxima vitória de uma equipe francesa em Le Mans veio quatro anos depois, quando o Renault-Alpine A442 venceu a corrida de de 1978. Mas esta história será contada mais adiante!

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