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Mégane R.S. Trophy-R testado: o recordista de Nürburgring é tão divertido quanto um Porsche 911?

São poucas as pessoas que têm a oportunidade de acelerar, como se deve, um superesportivo de alto calibre e que seja o supra-sumo da engenharia automotiva nas pistas – do nível do Porsche 911 GT3 RS.  Hot hatches são esportivos bem mais acessíveis mas, a princípio, tendemos a pensar que suas limitações inerentes tornam impossível conseguir o mesmo nível de envolvimento e de aproveitamento do potencial do conjunto nascido para isso como em um GT3 RS.

Por limitações, falamos das características inerentes a um hot hatch. Sua base é de um veículo de produção comum. O motor e a tração na dianteira tornam o equilíbrio dinâmico ideal mais difícil de conseguir. A potência, por questão de custo e de balanço dinâmico, tende a ficar na casa dos 300 cv baixos (exclua-se, por bem da narrativa, “mega hatches” com tração nas quatro rodas como o recém-revelado Mercedes-AMG A45). A aerodinâmica de um supercarro é muito superior, por mais eficientes que sejam os aparatos nos para-choques, saias laterais, difusores, e outros apêndices de um hatchback esportivo. Mesmo o mais radical deles.

E, ainda assim, há especialistas da imprensa britânica afirmando que o mais novo Renault Mégane RS Trophy-R consegue ser tão preciso, envolvente e bem acertado quanto um Porsche 911 GT3 RS – mesmo que, obviamente, não seja tão rápido quanto ele. É uma afirmação ousada. Será?

O GT3 RS, com seu glorioso flat-six aspro de quatro litros e 500 cv, câmbio PDK de sete marchas e tração traseira, conseguiu virar 6min56s4 em sua mais recente volta cronometrada em Nürburgring Nordschleife, no ano passado. O Mégane RS Trophy-R, 40% menos potente, virou 7min40s1 em abril de 2019 e, naquele momento, tornou-se o recordista entre os carros de tração dianteira. O que, por si só, já diz muita coisa.

Antes do Mégane RS Trophy-R, o recordista FWD em Nürburgring era o Honda Civic Type-R, que em abril de 2017 virou 7min43s8. Ao tomar seu posto, o Renault tornou-se, aos olhos de muitos, o melhor hot hatch do mundo. E assim será, até que algum rival o supere – apostas?

Mas, afinal, como é que anda o tal do Mégane RS Trophy-R? Bem, ainda não tivemos a chance de andar nele – hot hatches, claro, são mais acessíveis que supercarros… mas nem todos são vendidos em todo lugar. Contudo, algumas publicações britânicas já tiveram a chance de guiá-lo na pista, seu lugar favorito.

O Mégane RS Trophy-R está no topo da família, que também compreende o Mégane RS 280 nas variantes Sport e Cup, e o RS 300 Trophy (sem “R”). O RS 280, como fica evidente pelo nome, possui uma versão de 280 cv do motor 1.8 turbo. A versão Sport é mais voltada para quem procura um hot hatch rápido mas, ao mesmo tempo, previsível e confortável para uso diário, enquanto o Cup traz elementos como suspensão consideravelmente mais firme e diferencial de deslizamento limitado para oferecer uma experiência mais crua. O RS 300 Trophy, claro, tem 300 cv no motor 1.8 turbo, acompanhados de excelentes 42,8 kgfm de torque – e usa a suspensão Cup, invariavelmente.

Todos eles oferecem esterçamento nas rodas traseiras, a escolha pelo câmbio manual ou de dupla embreagem, ambos com seis marchas, e suspensão inspirada nos carros de rali. Então, temos o Trophy-R, que não acrescenta muita coisa – e ainda se livra de alguns quilos. Este, na verdade, é seu grande trunfo.

O Trophy-R perde, no total, 130 kg em relação ao Trophy comum. Para isto, ele passa por uma dieta balanceada, que consiste em remover o banco traseiro (menos 25 kg) e instalar bancos concha fixos mais leves na dianteira (menos 14 kg), capô de fibra de carbono (menos 8 kg) e um vigia traseiro mais fino (menos 1 kg). O sistema de escape é de titânio, 7 kg mais leve. E até mesmo a tela de 8,5 polegadas da central multimídia é substituída por uma menor, de 7 polegadas, para economizar 250 g. Para chegar aos 130 kg a menos, também é preciso optar pelas rodas de fibra de carbono e pelos freios de carbono-cerâmica, que juntos enxugam mais 18 kg.

No entanto, talvez a remoção mais importante do RS Trophy-R seja o sistema de esterçamento das rodas traseiras – sem ele, o Trophy-R perde outros 40 kg. Seu peso total é de 1.306 kg, em ordem de marcha.

Outras características exclusivas do R são os amortecedores Öhlins ajustáveis em rigidez, compressão e retorno, e a cambagem dianteira ligeiramente negativa, aproveitando melhor a área de contato dos pneus nas curvas. Por outro lado, motor e câmbio são idênticos aos do Trophy normal – a propósito, o Trophy-R vai de zero a 100 km/h em 5,4 segundos, com máxima de 262 km/h.

Foi esta combinação de fatores que, aparentemente, trabalhou de forma perfeita para fazer do RS Trophy-R um carro tão bom, em certos aspectos, quanto um Porsche 911 GT3 RS, de acordo com Matt Prior, da Autocar. Dizem eles que, levando tudo em consideração:

O Mégane RS Trophy-R é um carro que, na pista, com a suspensão mais baixa e amortecedores ajustados para mais firmeza, passa totalmente a sensação de ser tão bom e comunicaivo quanto um Porsche 911 GT3 RS, exceto que com menos aceleração e tração dianteira. Ele tem a mesma sensibilidade, finesse, aderência e um caminhão de tração.

E eles vão além:

Apropriadamente aliviado, o Trophy-R é cru e barulhento, e completamente envolvente. O volante de Alcantara telegrafa tudo o que os pneus estão fazendo, com um peso médio-leve. Com um pouco de esterçamento por torque aqui, um chiado na frenagem ali, você vai conseguir saber quais pneus estão destracionando, e onde, e como.

Não que eles o façam com tanta frequência. Se esse carro tivesse a capacidade de entregar o dobro da potência, seu nível de aderência certamente o ajudaria a virar um tempo de volta tão rápido quanto o mais puro dos supercarros.

Esta percepção do carro fez com que, para a Autocar, o RS Trophy-R seja, obviamente, o melhor de todos os Mégane, e tão bom quanto um Civic Type-R, um VW Golf R ou um Focus RS. O teste foi feito no autódromo de Zolder, na Bélgica, em condições ideais de piso, o que deve ter facilitado bastante o trabalho dos pneus Bridgestone Potenza S007 – exatamente iguais aos usados no carro recordista de Nürburgring.

Por outro lado, James Taylor e James Dennison, da Car Magazine, encontraram alguns pontos de crítica. Poucos, é verdade: ao câmbio, que é bom mas não tem a mesma precisão de engantes do Civic Type R, por exemplo; e o fato de (ainda) não terem testado o carro no mundo real, mas estradinhas sinuosas e irregulares do interior da Inglaterra. Com isso, eles não puderam dizer que, de fato, o Trophy-R é o melhor de todos os Mégane.

Mas isto não significa que eles não gostaram do carro – ao contrário:

A impressão inicial foi boa. Muito boa. O Trophy-R deixou claro a eles que está um degrau acima do Trophy, mas ainda assim traz de volta as sensações dos hot hatches analógicos da velha escola.

Talvez seja a omissão do 4Control (que é eficiente, mas às vezes é artificial), ou apenas a boa e velha perda de peso, mas o caso é que o Trophy-R entrega uma boa capacidade, ao estilo dos TCR de competição, com uma camada a mais de diversão. Não são emoções brutas e incontroláveis – em vez disso, o carro é mais focado em satisfazer o piloto através da precisão e da controlabilidade. (…) Ainda dá para fazer a traseira escorregar como um pêndulo descontrolado, mas o Trophy-R fica mais feliz ao girar sua derrière delicadamente na entrada de uma curva, e deixar que você trabalhe com o diferencial Torsen de deslizamento limitado enquanto retoma velocidade.

Repare que, até agora, ninguém citou os tempos de volta do carro – ainda que 7min40s em Nürburgring com “apenas” 300 cv não sejam um feito a se ignorar. A questão é que, lendo as avaliações, percebemos que muito do que faz o Mégane RS Trophy-R tão bom transcende os números. Trata-se de uma combinação rica de sensações, de respostas físicas do carro aos comandos do piloto, e do feedback que ele devolve…. e, como o recorde mostra, de entregar resultados.

Isto também fica claro no review do Top Gear, testado por Stephen Dobie, que deixa esta pegada emocional do Trophy-R bem explícita – e traz uma informação bacana sobre a forma como a própria Renaultsport enxerga sua obra:

Os engenheiros da Renault descrevem [o Mégane RS Trophy-R] como um carro declaradamente feito para puristas – entusiastas de track days que sabem dirigir – e por isto a precisão de seus comandos e a efervescência de sua performance vêm ao custo de qualquer coisa que possa se intrometer. Não há punta-tacco eletrônico nas reduções, mas uma sensação de trepidação nas frenagens em frenagens mais fortes e uma traseira bastante exibida caso você seja abrupto demais nos freios durante uma curva, sem querer ou não.

(…) A sensação física que este carro passa a seu piloto chega a ser intoxicante. Depois de umas poucas voltas em Zolder, eu já estava freando com toda minha força, usando cada centímetro das zebras e correndo atrás das rotações mais altas.

O que todos criticaram foi o preço: cada um dos 500 exemplares custa, no mínimo, £ 50.000 – pouco mais de um terço do que custa um GT3 RS no Reino Unido (a partir de £ 142.000). No entanto, de acordo com a própria Renault, entre o público-alvo do Trophy-R estão os ratos de pista que já têm supercarros na garagem, e só querem acelerar algo mais simples e leve, que possa ser levado ao limite com menos culpa e ofereça nível semelhante de diversão e envolvimento.

Nosso veredicto, infelizmente, vai ter de esperar – por enquanto, não sabemos de nenhum brasileiro que tenha encomendado um Mégane RS Trophy-R e possa nos emprestar o seu. E é provável que nenhum destes cenários aconteça. Mas ficamos felizes em ver que ainda se fabrica hot hatches com esta pegada mais clássica – e capazes de entregar performance de gente grande.