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História

Moonshiners : como os contrabandistas de bebidas ajudaram a fundar a NASCAR

Hoje em dia todo mundo sabe que não se deve beber antes de dirigir. Só idiotas fazem isto. Os EUA do começo do século passado, contudo, eram mais radicais: em 1920, o governo do país colocou em vigor a Lei Seca, proibindo certos tipos de bebidas alcoólicas de serem produzidos e comercializados. Boa parte dos estados, porém, decidiu por uma medida mais radical, proibindo o consumo e até mesmo a posse de álcool.

Acontece que o consumo de álcool é extremamente popular desde que o homem descobriu que certas frutas fermentadas podiam te deixar embriagado. Sendo assim, não demorou para que a população buscasse e encontrasse alternativas para conseguir encher a cara.

A mais famosa delas ficou conhecida como moonshine: bebidas destiladas feitas com milho e cereais, produzidas em destilarias clandestinas de propriedades rurais — especialmente na região da Appalachia, no sudeste dos EUA — sempre à noite para diminuir as chances de serem pegos (daí o nome). Em pouco tempo, a produção clandestina de destilados também se tornou uma fonte de renda extra aos agricultores, que passaram a distribuí-las pelos pontos de comércio das redondezas.

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Mas alguém precisava levar estas bebidas de um lugar para outro. E esse “alguém” eram os moonshine runners. Eles também corriam à noite, e usavam carros leves e compactos (para os padrões da época) para facilitar a fuga dos homens da lei. Não demorou para que começassem a modificar seus carros, preparando os motores , aliviando o peso e retrabalhando a suspensão, e desenvolvessem um gosto por dirigir rápido pelas estradas sinuosas nas montanhas da Appalachia.

O carro favorito era o FordCoupe, especialmente os modelos de 1939 e 1940. Eram carros compactos para os padrões da época, com motoresde seis cilindros em linha e V8 que recebiam carburadores maiores, comandos mais agressivos e tinham a cilindrada ampliada com aumento no curso dos pistões e diâmetro dos cilindros. Alguns até trocavam o motor — e um dos engine swaps mais comuns envolvia trocar o V8 Flathead da Ford por um motor Cadillac. Por sorte, o conceito de “heresia automotiva” não era tão difundido como hoje.

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Acabou se formando uma forte cena de moonshiners, que durante a noite transportavam bebidas e fugiam da polícia e, nas horas vagas, testavam suas habilidades ao volante e a potência de seus carros em corridas clandestinas. Mas não eram apenas pilotos: mecânicos também acabavam ganhando a vida trabalhando nos carros dos transportadores de bebida.

Contudo, foi questão de tempo até o governo dos EUA perceber que a proibição do álcool havia sido um fiasco, revogando a Lei Secaem 1933. Desse modo, os serviços dos moonshiners automaticamente não seriam mais necessários, correto? Nem tanto: a população acabou por aprender a gostar do moonshine, e por esta razão a produção continuou — e a clandestinidade também, mas desta vez porque as bebidas não pagavam impostos. Os carros continuaram evoluindo e melhorando, enquanto os pilotos ficavam cada vez melhores no que faziam.

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Na década de 40, a cena de corridas estava ainda maior. As provas passaram de simples rachas disputados em circuitos ovais improvisados em plantações a eventos relativamente organizados que serviam como forma de entretenimento para os sulistas. Em pouco tempo — especialmente depois do fim da Segunda Guerra, em 1945, as corridas acabaram se tornando o foco principal de quem antes transportava ou comercializava bebidas ilegais, e haviam se espalhado para outras regiões dos EUA.

Contudo, um homem foi o responsável por transformar todas estas corridas espalhadas e organizá-las em uma única categoria. Ele promovia competições de automobilismodesde meados nos anos 30 em Daytona Beach, na Flórida, e viu potencial nas competições dos moonshiners. Além de tudo, também era um piloto. Seu nome era William France, Sr., também conhecido como Big Bill.

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France sabia que as pessoas gostavam de ver os “stock cars” correndo — mas ele também sabia que a organização das provas não era das melhores. Não era raro os promotores dos eventos ficarem com todo o dinheiro gerado pelas provas, incluindo o pagamento dos pilotos. Ele sabia que esta situação só poderia melhorar com uma organização formal, com regras padronizadas, agenda regular e um campeonato de verdade. E no fim de 1947 ele resolveu colocar este plano em prática.

Ele começou a conversar com pilotos e promotores de eventos influentes e endinheirados em busca de apoio e patrocínio para uma nova categoria de automobilismo. Depois de três meses de negociações — e acordos com gente de calibre de Erwin “Cannonball” Baker, ex-piloto de motocicletas, carros e monopostos que ficou famoso por atravessar os Estados Unidos várias vezes — ele fundou a National Association for Stock Car Auto Racing, ou NASCAR.

1948 NASCAR race on Daytona Beach

A primeira corrida oficial aconteceu no dia 15 de fevereiro de 1948 em Daytona Beach. Boa parte dos pilotos que competiam haviam sido moonshiners no passado, e os anos de fugas da polícia com bebidas ilegais no porta-malas faziam deles os melhores nos ovais de terra.

Uma das filmagens mais antigas da NASCAR, de 1952 — a categoria ainda tinha só três anos

Nos primeiros anos da NASCAR, os ex-contrabandistas de bebidas ainda eram malvistos por parte do público e pelos moradores das cidades por onde as corridas passavam. Contudo, atualmente o passado da NASCAR é reverenciado até mesmo pela própria organização, que faz questão de reafirmar sua origem no moonshine

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