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FlatOut Classics & Street

O BMW 325i MT do meu amigo Raul | FlatOut Classics


O quadro FlatOut Classics se dedica ao antigomobilismo e aos neocolecionáveis (youngtimers) estrangeiros e nacionais, dos anos 20 ao começo dos anos 2000. Carros originais ou preparados ao estilo da época.
São matérias especiais, feitas para serem saboreadas como as das clássicas revistas que amamos.
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Um carro e dois amigos

Esta é uma história diferente. A história deste BMW 325i manual E46 trata de uma das poucas coisas realmente importantes na vida: o valor da amizade fraterna. Ela também é uma história que esbarra na pré-história do FlatOut. E ela começa com um garoto chamado Raul, no ano de 2010.

Aquele foi ano em que começamos o Jalopnik Brasil. Eu e meu irmão estávamos muito ligados em carros. Fazíamos planos e projetos no papel, alguns se tornaram realidade, outros, foram para o lixo numa folha amassada. Um destes projetos, era a restauração de um Citroën AX GTi.

Na época o hot hatch francês havia sido redescoberto pelos entusiastas. Chris Harris, por exemplo, declaou ao diminuto Citroën, elogios normalmente reservados a carros de estirpe mais elevada. E eles eram baratos, muito baratos. Em um tempo no qual o carro mais barato do Brasil custava R$ 24.000, um AX GTi em estado de conservação razoável custava R$ 4.000. Pesquisando e aprendendo sobre o carro, meu irmão Tomás, encontrou um vídeo com a subida de giro quase motociclística de um AX indo além dos 200 km/h. E um dia ele mostrou o vídeo ao seu amigo Raul.

Raul tinha a idade do meu irmão, 20 anos. Os dois se conheceram no início do Ensino Fundamental, em 1997, quando ambos estavam prestes a completar sete anos. Ficaram amigos, e amigos continuaram. Raul ficou louco pelo carro. Por alguma razão ele desenvolveu gosto pelos carros franceses; deve ter sido por causa do primeiro carro, um 206 1.0. Ou foi só a vontade de ter um carro como aquele AX do vídeo. O fato é que o Raul acabou comprando um AX GTi. O carro, claro, tinha diversos problemas, dos quais o mais severo era o monobloco desalinhado — já esperado no AX GTi. Raul, então estudante de direito, usou o parco conhecimento que havia adquirido para pressionar o vendedor a ressarci-lo. Acabou ganhando outro AX GTi do cara. Dos dois, Raul faria um.

Durante a restauração, contudo, Raul fez uma uma visita tardia ao médico, por causa de dores recorrentes na região abdominal. O diagnóstico revelou que ele havia desenvolvido uma doença chamada Sarcoma de Ewing — um tipo de tumor maligno e raro, que afeta os ossos ou partes moles do corpo humano, e que acomete garotos e jovens adultos.

Os carros e os amigos entusiastas, os encontros no posto, a evolução do Citroën AX mantiveram Raul distraído. Apesar do AX GTi, ele tinha a vontade de ter um BMW e um BMW ele se pôs a procurar. Com os esforços de toda a família, Raul ganhou o dinheiro para comprar seu carro dos sonhos e começou a procurar um exemplar para arrematar. Encontrou um 325i ano 2002 com câmbio manual.

O carro estava anunciado por R$ 50.000. Raul tinha R$ 40.000 levantados pelos familiares. Apesar da diferença, fez a proposta 20% mais baixa. Foi chamado de louco pelo irmão. “O que eu tenho a perder?”, disse.

Na conversa, explicou ao vendedor sua condição de saúde e que um BMW manual como aquele era seu maior sonho. O homem respondeu solidário à situação de Raul, pois havia acabado de se recuperar de um câncer e, por isso, aceitou proposta.

O carro estava pouco rodado — mal havia completado 100.000 km — mas tinha alguma manutenção corretiva a ser feita. Raul encomendou as peças, mandou o carro para a oficina e esperou. O carro e sua recuperação.

O carro logo ficou pronto, mas na semana seguinte, Raul tinha agendada mais uma das intermináveis cirurgias para tentar conter a evolução da doença. Só pôde dar uma volta e ofereceu o carro ao Tomás, que recusou a compra negando a realidade. Para ele, Raul sairia do hospital naquele BMW. Não foi assim que aconteceu.

Os carros foram guardados. O pai e os irmãos não ousaram vendê-los. Eles eram a última coisa que o Raul havia feito. O AX e o BMW seriam uma parte da memória e só poderiam ser vendidos para a única pessoa fora da família para quem os carros significavam a mesma coisa: Tomás, o melhor amigo do Raul.

O problema é que pouca gente pode bancar um BMW raro e valorizado aos 25 anos de idade. A vida segue, um pouco mais triste no começo, mas nunca infeliz. Porque tristeza, afinal, é o antônimo de alegria, e não de felicidade. E o tempo fez bem ao Tomás. Além de se conformar com a perda do amigo, ele também conseguiu atingir uma situação financeira suficientemente estável para atender a ligação do irmão do Raul.

O irmão, agora casado, comprou um segundo carro e não tinha mais espaço em casa. No início de 2021, ligou para Tomás e pediu para que ele levasse o carro, cuidasse, e pagasse somente quando fosse possível.

 

“O carro do meu amigo”

O BMW 325i ficou parado de 2016 a 2021. Ele  fez umas poucas viagens entre Blumenau e Joinville com o irmão do Raul ao volante, e depois foi guardado na garagem como uma fotografia em uma caixa. Os cinco anos maltrataram demais o carro. Alguns sensores pararam de funcionar e o interior acabou dominado pelos fungos. “Abri o carro e ele estava verde por dentro, com um cheiro horrível. Limpei o mínimo, levei ao posto, abasteci com gasolina premium, calibrei os pneus e fui diretamente para a oficina”, conta Tomás. “No caminho já percebi que o motor estava falhando e que o sensor do ABS estava danificado”, completa.

O carro teve de passar por uma revisão geral, com troca de todos os fluidos, sensores danificados, velas e lubrificantes. Da oficina ele foi para a estética fazer a higienização completa e o polimento. O carro ainda não está 100%, é preciso refazer a forração do teto, que não resistiu à umidade e descolou. Tomás também pretende colocar rodas BBS CH de 17 polegadas, pois os planos de Raul eram colocar um jogo de AC Schnitzer, que ele comprou, mas nunca instalou, e ficaram como lembrança com seu irmão.

Por coincidência, hoje Tomás usa o carro com a mesma frequência com a qual os bons e velhos amigos se falam: “Às vezes uso uma vez por semana, outras vezes uso a semana toda. Ao menos uma vez por mês faço uma viagem com o carro”, conta.

É esse tipo de história, esse tipo de relação com os automóveis que os tornam mais do que meras máquinas. Eu sei que um par de óculos pode reviver as memórias de alguém, ou mesmo uma simples fotografia. Mas os carros têm algo diferente. Eles nos levam aos lugares que gostamos de ir, eles despertam sensações familiares e ajudam a materializar as lembranças. É isso o que faz o BMW do amigo do Tomás.

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