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O Karmann Ghia Type 34 da família Heller | FlatOut Classics



O quadro FlatOut Classics se dedica ao antigomobilismo e aos neocolecionáveis (youngtimers) estrangeiros e nacionais, dos anos 20 ao começo dos anos 2000. Carros originais ou preparados ao estilo da época.
São matérias especiais, feitas para serem saboreadas como as das clássicas revistas que amamos.

Confira o perfil deste carro em nossa rede social FlatOuters.

 

A missão diplomática

A origem deste raro Karmann-Ghia está precisamente registrada nos documentos de época guardados pela família Heller. Não tão clara é história de seus proprietários originais, o casal alemão Joachim Kurt Bolle e Gerlinda Elfriede Auguste Bürger Bolle, ambos radicados no Brasil.

Não se sabe ao certo de que cidade vieram, nem quando desembarcaram nestas terras sul-americanas. O que se sabe, é que em 5 de julho de 1967 a sra. Gerlinda recebeu uma carta da Volkswagen, com a confirmação de disponibilidade de seu Karmann Ghia Type 34.

Apesar de já haver uma filial brasileira da Volkswagen, a encomenda deste Karmann Ghia foi feita diretamente da fabricante por duas razões interligadas: a sra. Gerlinda vivia no Paraguai, não no Brasil. E ela viva no Paraguai pois trabalhava na embaixada alemã naquele país. Sendo uma cidadã em missão diplomática, ela fez a compra diretamente da fábrica e a importação livre de impostos.

Além da confirmação, a carta da Volkswagen ainda alertava que o carro teria que ser equipado com o pacote M 240, além dos solicitados M 256 e M 047. A razão era a gasolina oferecida no Paraguai na época, com baixíssima resistência à detonação. O pacote M 240 consistia em um conjunto de pistões de cabeça côncava, para reduzir a taxa de compressão do motor. Os outros dois eram, respectivamente, o para-brisa laminado e o conjunto de luzes de ré. Além disso, a combinação de cores também foi escolhida a dedo: Lotusweiss para a carroceria e Indianrot para o interior de couro sintético.

Apesar da comunicação direta entre Gerlinda e a fábrica da Volkswagen, foi necessário formalizar a compra em uma concessionária paraguaia chamada Diesa. O pedido foi feito em 7 de outubro de 1967 e, em 17 de novembro daquele mesmo ano, o carro deixou a linha de produção em Wolfsburg com destino ao porto de Hamburgo, onde embarcaria para o Novo Mundo.

Depois de 49 dias, o carro desembarcou em Buenos Aires, na Argentina, de onde seguiu para Assunção, a capital paraguaia. Em 5 de janeiro de 1968, o belo Type 34 novinho em folha foi entregue à sra. Gerlinda.

 

O Type 34

Lançado em 1961, o Karmann Ghia Type 34 não foi o sucessor do Karmann Ghia original (Type 14) como muitos poderiam pensar. Eles foram oferecidos ao mesmo tempo como opções distintas para quem procurasse um Volkswagen esportivo. Para diferenciá-los, o modelo original ficou conhecido como “kleine Karmann Ghia” e o Type 34 como “grosse Karmann Ghia”.

Isso porque, além de ser o Volkswagen mais caro da época, o Type 34 não era baseado no chassi do Fusca como oType 14, mas na plataforma Type 3, que deu origem aos VW Fastback, Squareback e Notchback — as versões europeias dos nossos TL, Variant e VW1600.

Sendo o modelo mais caro, era natural que ele também fosse mais potente e mais refinado que o outro Karmann Ghia. Em vez do motor 1200 de 34 cv, ele usava o novo 1500 plano, com carburação simples e 45 cv. Além disso, o motor mais compacto liberou espaço para um porta-malas traseiro, que ampliava a capacidade de carga do esportivo, tornando-o mais versátil para longas viagens.

Ele ainda tinha portas e painel revestidos de couro sintético, relógio elétrico, faróis de neblina, apoio de braço acolchoado e teto solar opcional. Esta primeira versão era capaz de chegar aos 137 km/h, o que fazia dele o Volkswagen mais rápido de seu tempo.

No final de 1963, já como modelo 1964, veio o motor 1500 S, com carburação dupla e taxa de compressão mais elevada, o que exigia o uso de gasolina premium. Com ela o motor passava a produzir 54 cv e podia levar o Type 34 aos 150 km/h. A inconveniência de exigir apenas gasolina premium levou a Volkswagen a modificar o motor mais uma vez para a linha 1966, mas agora aumentando o deslocamento para 1600 cm³ e reduzindo a taxa de compressão para que ele pudesse produzir os mesmos 54 cv com gasolina comum — e continuar atingindo os 150 km/h.

Também naquele ano o Typ 34 ganhou freios a disco na dianteira. Em 1967 veio o sistema elétrico de 12 volts e, em 1968, uma nova suspensão traseira por braços semi-arrastados, e um câmbio automático de três marchas como opção ao manual de quatro marchas, além de injeção eletrônica Bosch K-Jetronic, também opcional. Apesar de produzido em 1967, o Type 34 de Gerlinda era um modelo 1968, o que significa que ele já contava com todas as evoluções daquele ano-modelo, exceto os dois opcionais.

 

A mudança para o Brasil

Depois de rodar dois anos no Paraguai, o Karmann Ghia foi transportado para o Brasil em fevereiro de 1970. Gerlinda fora transferida para a embaixada alemã em Brasília e o carro, claro, veio junto. No Planalto Central os três alemães ficaram até a aposentadoria de Gerlinda. Ao encerrar sua missão diplomática no início dos anos 1980, o casal se mudou para o interior do Paraná, e ambos se estabeleceram no município de Castro, região de Ponta Grossa, a cerca de 160 km da capital Curitiba.

Na nova cidade o Type 34 se tornou mais próximo da população que seus proprietários. Já aposentados e com idade avançada e sem filhos, eles moravam afastados do centro da cidade e acabaram não se envolvendo com a comunidade, embora o carro sempre fosse visto pelas ruas locais. Diferente de todos os Volkswagen da época, ele acabou marcando a memória dos castrenses.

Passados 30 anos Gerlinda se foi e seus bens passaram todos ao seu marido Joachim. Quando ele morreu, por volta de 2006, seus herdeiros mais próximos eram parentes distantes  Tão distantes quanto a pessoa que indicou o carro aos atuais proprietários, a família Heller, de Curitiba/PR: a esposa de um sobrinho da finada Gerlinda, que não era seu herdeiro. Agora a história fica um pouco confusa.

Como Gerlinda morreu antes de Joachim, o marido herdou o carro. O sobrinho de Gerlinda não é um parente direto de seu marido, por isso não tinha direito à herança e o carro acabou herdado por um primo distante de Joachim. Ao saber do carro, a esposa do sobrinho de Gerlinda avisou o atual proprietário, seu cliente em uma corretora de seguros, sobre um Karmann Ghia com 37.000 km de único dono. Três informações que despertam o interesse de qualquer antigomobilista.

Foi assim que os Heller iniciaram a busca e as negociações do carro. Inicialmente eles sequer sabiam que se tratava de um Type 34 — acham apenas que tinham encontrado um excelente exemplar do Karmann Ghia Type 14. Foi somente ao receber uma foto do carro ao lado do casal que eles descobriram estar negociando um dos Volkswagen mais raros no Brasil. A negociação durou quase dois anos, e envolveu também a compra do segundo carro do casal, uma Variant 1971 Bege Alabastro com bancos vermelhos originais de fábrica — um pedido especial feito à própria fabricante, também aproveitando a posição de Gerlinda na embaixada —, que acabou vendida posteriormente.

 

Que aposentadoria?

Ao receber o carro os Heller encontraram todos os documentos que embasaram esta narrativa até aqui — desde a carta-resposta da Volkswagen, enviada antes mesmo da fabricação do carro, até o programa de manutenção nas autorizadas da Volkswagen no Paraguai, onde o carro fez sua revisão de 5.000 km em 1º de julho de 1969, e no Brasil, onde o carro fez a revisão de 10.000 — em 6 de outubro de 1971, na concessionária Disbrave de Brasília/DF.

Apesar da baixa quilometragem, o carro aparentemente era usado em viagens pelo casal, como evidenciam o conjunto original de ferramentas e uma série de acessórios de época para viajantes, como um hodômetro manual, um calibrador manual, e um conjunto de pá e calços para desatolar o carro. Além disso, o carro estava com o estepe original de 1968 — que é conservado até hoje pelos Heller.

Seguindo um dos princípios do antigomobilismo — de respeitar a história do carro — nos quase 15 anos que  o Type 34 pertence, ele foi usado majoritariamente em viagens e já rodou em todos os países do Conesul — Uruguai, Paraguai, Chile e Argentina — além de rodar por todo o Brasil.

Desde então o carro já acumulou mais 12.000 km, marcando pouco mais de 55.000 km em seu cinqüentenário hodômetro alemão, que segue registrando cada viagem desta “missão diplomática” sem data para terminar.

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