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O Opala SS V8 383 de Christian | FlatOut Street


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Realidade alternativa

O que teria sido da GM se Zora Arkus-Duntov jamais tivesse fugido dos nazistas logo após a ocupação da França em 1940? Se você não ligou os fatos, foi Zora quem convenceu a GM a desenvolver um motor V8 simples e barato, que pudesse ser popularizado pelos automóveis mais acessíveis da fabricante e, consequentemente, caísse nas mãos dos hot rodders, tornando-os admiradores e clientes da marca. Foi graças a uma carta sua, explicando aos engravatados da General Motors a dinâmica do mercado de preparação da época, que o motor V8 de bloco pequeno nasceu em 1954.

Foi também graças a este motor que o Chevrolet Corvette sobreviveu para se tornar o grande esportivo americano. Foi o V8 de bloco pequeno que inventou a perua esportiva (Chevrolet Nomad, lembra?) e foi ele quem permitiu à Chevrolet revidar o Ford Mustang com o Camaro.

Coincidentemente, o mesmo motor small block que pode ser considerado uma obra do acaso, nos permite propor outra conjectura: o que teria sido do Opala SS se a GM do Brasil o tivesse adotado como resposta aos modelos Dodge e ao Ford Maverick, em vez de partir para a briga com dois cilindros a menos?

Afinal, mesmo sendo um design brasileiro, o Opala tinha elementos de design dos muscle cars da GM na época. Por que não o motor V8?

No fim das contas, a GM resolveu seu problema com seu bom e velho (e robusto) seis-em-linha, recalibrado com um carburador mais generoso e um comando mais esperto. Mesmo sem um V8, o carro fez história e se tornou tão cultuado quanto seus rivais. Foi o que levou Christian Benite a comprar este SS laranja boreal das fotos — e, mais tarde, a sair do campo das especulações para descobrir na prática como seria um Opala V8.

Christian se apegou aos carros logo cedo. Filho de um mecânico, ainda criança ia à oficina do pai na Zona Leste de São Paulo para ver os carros e acabava ao volante, fingindo dirigir aquelas máquinas fascinantes. Mas foi na garagem da família onde ele aprendeu a gostar do Opala; seu pai teve vários exemplares do modelo, que sempre o atraiu pelo conforto e pelo visual ao estilo americano — especialmente a versão cupê e sua silhueta sem coluna B. Quando chegou a hora de escolher o seu, ele sabia exatamente o que queria: um SS legítimo da fase 1975-1979. O motivo? O visual que implora por um motor V8.

 

O Opala SS

Lançado em 1968, o Opala chegou conquistando o título de carro mais veloz do Brasil ao combinar a carroceria leve de origem europeia ao motor seis-em-linha de 3,8 litros feito para os pesados carros americanos. Ainda em seu primeiro ano de estrada, contudo, a Chevrolet perdeu a coroa da velocidade para a Dodge, que lançou no final do ano seguinte o Dodge Dart com o motor V8 de 5,2 litros, que chegava aos 171 km/h.

A resposta da Chevrolet veio em 1970, quando a marca apresentou a linha 1971 do Opala e nela incluiu um esportivo com um novo motor seis-em-linha ainda mais potente: o Opala SS.

Para fazê-lo, a Chevrolet deu ao motor 3.8 um novo virabrequim para aumentar o curso dos pistões de 82,5 mm para 89,7 mm. Com isso o deslocamento passou a 4.097 cm³ — o mesmo dos americanos Impala e Nova — e os 300 cm³ a mais ajudaram a elevar a potência para 140 cv brutos e 29 kgfm.

Além do motor maior, o modelo tinha bancos dianteiros individuais, volante esportivo de três raios e um novo câmbio de quatro marchas com alavanca no assoalho. O diferencial traseiro era autoblocante (o famoso Positraction) e os freios dianteiros usavam discos no lugar dos tambores. As rodas esportivas tinham tala mais larga e os pneus 7.35 tinham índice de velocidade de 180 km/h, mais adequados aos 169,5 km/h de velocidade máxima do SS. O desempenho ainda era inferior ao do Dodge Dart, mas o Opala era mais barato e mais econômico com seu motor de seis cilindros.

Em setembro de 1971 a Chevrolet apresentou a linha 1972 com sua primeira grande novidade desde o lançamento: o Opala cupê. Como o sedã, sua carroceria vinha do Opel Rekord, modificada com a dianteira e a traseira brasileiras, que deram ao carro um visual bem mais próximo dos americanos do que dos europeus. A traseira fastback e as portas sem molduras nos vidros reforçavam essa impressão e o pacote SS completava o aspecto de muscle car americano, ainda que ele mantivesse seu seis-em-linha de 4,1 litros.

Nem mesmo a chegada do Maverick com o motor V8 302  — e seu sucesso nas pistas brasileiras — fez a GM mudar de ideia a respeito de fazer um Opala de oito cilindros. A GM do Brasil, aliás, ignorou o automobilismo em um primeiro momento, até que percebeu como o Maverick construiu sua reputação esportiva usando as vitórias sobre o Opala nas pistas. Foi quando surgiu a resposta ao Maverick V8.

Mas em vez de produzir um esportivo com o motor small block americano, a GM do Brasil deu um jeito de resolver o problema com o que tinha em casa. Curiosamente, como o small block, o novo motor esportivo do Opala também teve a certa influência de uma carta.

Ela foi escrita por Bob Sharp (sim, o Bob Sharp do Autoentusiastas) em meados de 1974. Ele procurou a fabricante em busca de um motor mais potente para o Opala, e sabia que o regulamento permitiria a homologação desta configuração especial como variante opcional. Por coincidência o departamento técnico GM já planejava uma versão mais potente de seu motor 250 para enfrentar o Ford 302 do Maverick. O motor acabou aprovado e, assim nasceu o 250 Super, ou 250-S, que logo foi adotado no Opala SS e, mais tarde, em toda a linha Opala.

O Opala SS ainda ganharia uma versão econômica de quatro cilindros que o acompanharia por toda a década de 1970. Em 1980, no primeiro ano da nova geração do Opala, o SS deixou de ser produzido para nunca mais voltar.

 

O muscle car brasileiro

Embora não fosse rigorosamente um muscle car, o Opala SS tinha o visual de um, e sempre foi visto pelos entusiastas como uma espécie de “brazilian muscle”, apesar de ter dois cilindros a menos que o muscle car tradicional. Foi o que motivou Christian a comprar este exemplar 1978.

Originalmente dourado, Christian decidiu fazê-lo laranja boreal. A pintura usou tinta PPG e sete camadas de verniz para obter esse brilho das fotos. E foi durante a pintura do carro que Christian teve a ideia de transformá-lo em um muscle car de fato: conversando com um amigo do Sul do Brasil, ele soube que instalar um V8 small block era tarefa relativamente fácil.

Christian então começou a procurar um motor small block Chevrolet para o projeto e encontrou um 350 “four bolt” originalmente usado em um Corvette, porém sem os cabeçotes. Em seguida começou a compra das peças do carro. “Tudo o que havia de melhor no mundo para esse projeto foi comprado e instalado”, conta. A montagem começou logo após a pintura do carro.

Os cabeçotes são da Edelbrock com a tampa de válvulas da Chevrolet, os pistões são da Icon, enquanto virabrequim, bronzinas e bielas são da Scat — tudo faz parte de um kit stroker que elevou o deslocamento de 350 pol³ (5,7 litros) para 383 pol³ (6,2 litros). O comando de válvulas tem 276 graus de duração na admissão e no escape. Do tanque, a gasolina é levada para os cilindros por uma bomba Walbro 450 e o controle de ignição é feito pelo sistema digital Black Series da MSD, enquanto o ar é admitido pelo coletor Weiand idêntico ao usado nos motores GM da Nascar. A alimentação dispensa os carburadores e adota uma ECU FT500 da Fueltech.

A força do V8 é enviada ao diferencial Dana 44 pelo câmbio Tremec de cinco marchas, também oriundo de um Corvette, e que se acopla ao motor por uma embreagem multidisco nacional. Do eixo, a força passa pelas rodas originais do Opala SS, porém modificadas com tala larga para usar os pneus Cooper Cobra de seção 215 na dianteira e 275 na traseira, que recebem, no fim das contas, 400 cv e 53 kgfm para transformar gasolina em fumaça e velocidade.

Para conter esse ímpeto, Christian instalou um conjunto de pinças do Dodge Dart nacional, porém usou discos frisados e perfurados. O sistema hidráulico usa flexíveis metálicos de especificação aeronáutica. O controle da carroceria é feito pelo mesmo arranjo de suspensão original, porém com mais carga de molas e amortecedores.

O carro ainda tem um sistema de escape duplo, com um difusor que permite selecionar a passagem do fluxo pelos abafadores Flowmaster ou pelas saídas livres instaladas próximas ao eixo traseiro, de onde o ronco gutural do V8 americano sai sem restrição alguma.

No lado de dentro, Christian manteve o aspecto original, porém com upgrades discretos: os bancos trocaram o vinil por couro pelica, enquanto o quadro de instrumentos mantém os gráficos originais, mas são eletrônicos, feitos pela ODG, enquanto o sistema de áudio fica escondido no porta-malas e é todo da Rockford Fosgate.

O carro finalizado, com o V8 no cofre e seu visual de época, com as modernidades ocultas ou integradas discretamente ao visual do carro, poderia muito bem se passar por um modelo original de fábrica caso alguém que dormiu em 1973 e acordou em 2020 o visse pela primeira vez. “Então a Chevrolet caiu na real e fez um Opala V8?”, diria o incauto viajante do tempo.

Para nós, que conhecemos a história, o Opala SS de Christian responde, em parte, a segunda conjectura destas linhas: o que teria sido do Opala SS se a GM o tivesse feito com um motor V8? Olhe bem para as fotos e tente encontrar uma resposta diferente de “um dos mais belos muscle cars de todos os tempos”.


 

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