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História Zero a 300

Oldsmobile: a história de uma das fabricantes mais inovadoras de todos os tempos – Parte 2

Há alguns dias, começamos a contar aqui no FlatOut a história da Oldsmobile, que foi a primeira fabricante de automóveis dos Estados Unidos e a quarta mais antiga do planta. A Olds existiu entre 1897 e 2004, atuando por 107 anos, e desde o início até os anos 80, tinha a imagem de uma marca moderna e inovadora. Então, vieram os anos 90 e tudo mudou.

Mas a gente vai por partes. Na primeira parte deste post, passei pelo início da Oldsmobile, por sua compra pela GM e por suas primeiras grandes inovações: a invenção da linha de montagem, o primeiro carro produzido em série e o primeiro carro com câmbio automático – e ainda nem chegamos aos anos 50.

 

O primeiro cupê sem colunas

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Até os anos 50, os Oldsmobile eram batizados de acordo com o número de cilindros e o tamanho da carroceria. Os motores tinham seis e oito cilindros em linha e as carrocerias tinham os tamanhos 6, 7, 8 e 9 (da menor para a maior). Desse modo, os Oldsmobile iam do 66 ao 98.

Então, em 1949 a Oldsmobile causou uma pequena revolução ao apresentar o motor Rocket, primeiro V8 norte-americano lançado depois da Segunda Guerra Mundial. Sendo um motor em V, tinha tamanho compacto e permitia melhor distribuição de peso que os compridos oito-cilindros em linha, sem comprometer a potência. Na verdade o motor da Olds era um dos mais potentes disponíveis nos EUA. Para destacar-se ainda mais, a Oldsmobile começou a nova década promovendo mudanças no visual de seus carros, que ganharam linhas mais fluidas e cheias de curvas, ficando também visualmente mais largos e baixos.

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Um dos frutos mais importantes desta mudança foi a versão cupê hardtop do Oldsmobile 88, chamada Holiday. Isto porque ele foi o primeiro carro a ter uma capota rígida fixa, bem destacada da carroceria, e portas sem molduras – ele foi um dos primeiros cupês sem colunas do planeta. Não demorou para que a Buick e a Cadillac apresentassem suas próprias versões, chamadas Riviera e Coupe De Ville.

Em 1954, o Oldsmobile 88 Holiday Coupe também foi o primeiro a ter um para-brisa envolvente, com as colunas “A” bastante recuadas e inclinadas em direção ao bico do carro. Entre 1953 e 1964, toda fabricante americana teve um carro com este tipo de para-brisa em algum momento.

 

Um dos primeiros carros turbinados do planeta

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Justiça seja feita: o primeiro carro produzido em série com motor turbinado do planeta foi o Chevrolet Corvair, em 1962. Era uma resposta direta ao motor V8 de 260 pol³ (4,2 litros) e 164 cv oferecido pelo Ford Falcon naquele ano. O boxer de seis cilindros e 2,3 litros entregava 96 cv com a ajuda do turbocompressor.

No entanto, em paralelo ao desenvolvimento do Corvair turbinado pela Chevrolet, a Oldsmobile também estava preparando um motor sobrealimentado, que estreou nas concessionárias poucas semanas depois do Corvair. Dá quase para dizer que foi um empate técnico.

O motor V8 de 215 pol³ de 3,5 litros, opcional para o Oldsmobile Cutlass, entregava 215 cv a 4.600 rpm e 41,8 mkgf de torque  e respirava com a ajuda de uma turbina Garrett T5 operando a 0,35 bar. A taxa de compressão era de 10,25:1, e o motor era alimentado por um carburador de corpo simples.

Como a tecnologia ainda estava fresca e era relativamente desconhecida, a verdade é que um motor turbinado ainda não era uma ideia muito boa em 1962: o sistema superaquecia o ar que era admitido pelo motor, o que reduzia a eficiência da queima quando se exigia um pouco mais do acelerador.

Para contornar a situação, a partir de 1963 a Oldsmobile introduziu um sistema que borrifava água destilada e metanol no coletor para resfriar o ar admitido pelo motor. A mistura era chamada de “Turbo-Rocket Fluid”, mas os proprietários, não acostumados com o novo recurso, geralmente esqueciam de completar o reservatório, o que ocasionava os mesmos problemas. Por isto, muitos dos carros tinham o sistema removido e recebiam um carburador de corpo quádruplo e um coletor comum em seu lugar. Os turbos ainda demorariam alguns anos para serem adotados em massa, mas Olds e a Chevrolet deram o primeiro passo.

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Oldsmobile Cutlass Holiday Coupe 1967

Além disso, a Oldsmobile estava muito bem na fita: seus carros mais convencionais, como o Cutlass e o Vista Cruiser – perua que tinha a porção traseira do teto feita de vidro e tinha mais de 5,5 metros de comprimento – fizeram um sucesso tremendo nos anos 60 e 70. O Cutlass fazia o papel de muscle car na linha da Oldsmobile, e foi o carro mais vendido nos EUA em 1976.

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O primeiro carro de tração dianteira dos Estados Unidos (depois de 30 anos)

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Olhe bem para este cara: seu nome é Oldsmobile Toronado, vendido entre 1967 e 1970. Ele não parece um belo muscle car? Bem, na verdade ele fazia parte de um nicho chamado personal luxury – carros com visual bacana, relativamente rápidos (ainda que não fossem considerados esportivos de fatos), cheios de equipamentos e preço mais elevado. O Ford Thunderbird era um bom exemplo, e o principal representante deste segmento.

Agora, por definição, um muscle car americano é um cupê com motor V8 na dianteira e tração traseira. O Oldsmobile Toronado, com aquele tamanho todo (eram 5,45 metros de comprimento e 1,99 metro de largura) e um V8 de pelo menos sete litros e 390 cv debaixo do capô, tinha tração dianteira.Mas vai dizer que você não teria um?

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O último carro com tração dianteira produzido nos Estados Unidos foi o Cord, cuja fabricante fechou as portas em 1937. Na Europa, a tração dianteira se popularizara já em 1934 com a chegada do Citroën Traction Avant, primeiro carro produzido em série a contar com construção monobloco, tração dianteira e suspensão independente.

A verdade é que a Oldsmobile já estava planejando um carro de tração dianteira desde 1958. Como foi um processo demorado e caro, fazia sentido colocar o sistema (que consistia em um transeixo dianteiro Hydramatic de três marchas). Só no desenvolvimento da nova plataforma de tração dianteira que seria usada no Toronado foram investidos sete anos.

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O Toronado também foi o primeiro carro da General Motors a usar um subchassi. A estrutura de metal servia de suporte para a suspensão dianteira, o conjunto de motor e câmbio e todo o assoalho, garantindo que o habitáculo ficasse mais isolado dos impactos em pisos irregulares e da aspereza do motor. Também servia de ponto de fixação às molas semielípticas, elemento elástico da suspensão traseira por eixo rígido. A dianteira usava barras de torção, primeira aplicação do sistema em um carro norte-americano.

O estilo do Toronado dava certa ideia de como o Chevrolet Camaro e o Pontiac Firebird, os primeiros pony cars da GM, seriam. Ambos foram introduzidos no ano seguinte. As formas eram genuinamente agradáveis, com um capô longo e uma traseira relativamente curta, o que dava ao cupê um certo ar de grand tourer. 

Um detalhe interessante era o velocímetro “caça-níqueis”: uma linha vermelha na face do instrumento indicava o número impresso em um tambor rotativo: os números iam subindo atrás da linha.

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O motor de sete litros deu lugar a um 7,5-litros (455 pol³) em 1970, que na versão W-34, com carburador de corpo quádruplo e comando de válvulas de perfil mais agressivo, entregava 405 cv. A velocidade máxima, aliás, era de 217 km/h, o 0-100 km/h era cumprido em 7,5 segundos e o quarto-de-milha era percorrido em 15,7 segundo a 144 km/h. E olhe que estamos falando de um carro de 2.300 kg!

Apesar de não ser capaz de escorregar a traseira com a facilidade dos tração dianteira, o Toronado não exibia características de manejo muito diferentes dos rivais semelhantes em porte com tração traseira. Na verdade, em situações de emergência o Toronado foi descrito por publicações da época como um carro “mais responsivo” e “mais estável” do que a concorrência.

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Oldsmobile Toronado 1981

O Oldsmobile Toronado foi vendido de 1967 a 1992, ao longo de quatro gerações – todas elas com tração dianteira. Ao longo destes 25 anos, ter as rodas motrizes na frente tornou-se a norma da indústria. Não é o que os entusiastas gostam de admitir, mas a tração dianteira costuma garantir benefícios na eficiência energética, no aproveitamento da potência do motor, na economia de combustível e até mesmo no processo de desenvolvimento e fabricação dos automóveis, pois permite medidas como as plataformas modulares, que se adaptam aos vários tamanhos de carro existentes no mercado partindo de um mesmo “núcleo”. A plataforma MQB da Volkswagen, aproveitada por toda a linha da marca, é o primeiro exemplo que vem à mente.

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Firenza, o Monza da Olds: repare no formato das portas

Dos anos 70 aos anos 80 a Oldsmobile se estabeleceu como uma das marcas mais queridas pelos americanos. A Olds sobreviveu à invasão dos japoneses dos anos 70 e às crises do petróleo, encontrando um lugar na garagem de todos aqueles que se recusavam a abandonar suas máquinas feitas de american iron. Mesmo na segunda metade dos anos 80, com a chegada do “carros globais”, era mais honroso comprar um Oldsmobile Firenza do que um Cadillac Cimarron ou um Chevrolet Cavalier. Todos eles eram interpretações americanas da plataforma que nos deu o Opel/Chevrolet Monza, e considerados alguns dos carros mais deprimentes já feitos nos Estados Unidos.

No entanto, depois do primeiro carro de tração dianteira, a Oldsmobile deixou de ser a divisão inovadora e experimental da GM, que começou a dedicar-se mais a suas outras subdivisões. Os Oldsmobile da década de 1990 perderam muito em personalidade, e sua linha perdeu o destaque em relação às outras fabricantes sob o guarda-chuva da General Motors.

Com a segunda invasão de marcas japonesas no fim do anos 80 – especialmente aquelas que foram criadas especialmente para o mercado norte-americano, como a Acura (divisão norte-americana da Honda), a Lexus (Toyota) e a Infiniti (Nissan) – a GM decidiu reposicionar a Oldsmobile como uma arma contra os importados. O resultado foram carros com o Aurora, com linhas arredondadas como as dos rivais vindos do oriente. No entanto, com seu preço relativamente baixo, construção robusta e mecânica moderna e confiável, os automóveis japoneses haviam chegado para ficar.

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Oldsmobile Aurora, produzido de 1994 a 1999

Na década de 1990 as vendas foram caindo e caindo. Dizem que a Oldsmobile encontrou seu fim por causa de uma campanha publicitária infeliz. O slogan introduzido no fim dos anos 80 era “not your father’s Oldsmobile”, que pode ser traduzido literalmente como “não é o Oldsmobile do seu pai”, querendo dizer que os novos modelos eram carros jovens e descolados, para quem queria algo parecido com os japoneses sem abrir mão da tradição americana. Os fãs da marca defendem que foi justamente esta campanha que acabou com a imagem da marca, pois boa parte do seu público consistia de caras cujos pais tiveram um Oldsmobile, e procuravam algo que tivesse o mesmo espírito: inovador, confiável, confortável e atual, mas ainda assim um Oldsmobile.

Nem a presença de Ringo Starr adiantou

A canibalização pela Buick e pela Chevrolet, que faziam o papel de marca de luxo “de entrada” e marca de baixo custo muito bem, acabou derrubando a Oldsmobile de uma vez. Apesar de se arrastar por ainda mais alguns anos, a primeira fabricante de automóveis aberta nos Estados Unidos fechou as portas em 2004, encerrando de forma melancólica um ciclo de mais de um século de inovações.