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Viagens e Aventuras

Overlanding: a arte de se perder propositalmente

A vida na civilização moderna não está fácil para ninguém. Crise econômica, crise climática, crise social – tudo isto afeta as pessoas, cada uma delas, e acaba causando crises individuais. Pode parecer papo de millenial (e, realmente, nós nascidos entre o fim da década de 1980 e o início dos anos 2000 somos a geração mais reclamona da história), mas calma: todo mundo está na mesma situação.

Quem lê o FlatOut e acompanha meus textos sabe que, recentemente, tenho usado a minha motocicleta como um meio de fuga – quando a rotina e os problemas apertam, meia hora em cima da moto, percorrendo as estradas de terra nos arredores da cidade, bastam para clarear as ideias e renovar os ânimos. Na minha situação, é para isto que a moto serve. E ela vem fazendo muito bem seu papel, diga-se.

O caso é que não foram poucas as vezes nos últimos anos em que considerei, mezzo sério, mezzo de brincadeira, entrar no carro (ou, mais recentemente, montar na moto) com uma mochila enorme e estender esta fuga por tempo indeterminado. Pegar a estrada meio que sem destino e ver onde ela dá, sobrevivendo por meus próprios meios ao longo do caminho, e fazendo o que for possível para adiar a volta para casa.

Pois esta ideia está ficando cada vez mais popular, especialmente entre as gerações mais jovens – que estão, de fato, colocando-a em prática. Não apenas a parte da fuga – que uma viagem de um ou dois meses pela América do Sul, por exemplo, seria capaz de suprir. O que se faz é levar a aventura e a exploração a outro nível, escolhendo sempre o caminho mais difícil e desafiador, e valendo-se apenas dos próprios recursos. O destino não importa tanto: o caminho até lá é o verdadeiro objetivo. E não tem problema caso você se perca – na verdade, isto é até desejado. Te dá a chance de explorar mais. Overlanding é isto.

Trata-se, na verdade, de uma prática bastante antiga: os primeiros usos do termo “overlanding” para referir-se a viagens de longa distância datam do início do século 20, na Austrália, quando comerciantes de gado atravessavam o país para transportar os animais, geralmente por trilhas rudimentares que exigiam a transposição de obstáculos como rios e pedreiras. Ao longo dos anos, e em especial nas décadas de 1940 e 1950, estes comerciantes acabaram construindo estradas para atravessar o imenso deserto do Outback e, de certa forma, ajudaram a ligar as duas extremidades do continente australiano.

Não muito mais tarde, o termo “overlanding” foi apropriado por aqueles que percorriam longas distâncias por lazer. E, como já disse ali em cima, uma viagem programada para sair da rotina, percorrendo milhares de quilômetros em rodovias asfaltadas, não é “overlanding”. Claro, existem roteiros de overlanding famosos – alguns até obrigatórios, como viagens à Patagônia na América do Sul ou ao deserto de Moab nos Estados Unidos. Mas estes roteiros passam longe de serem fáceis, bons para viagens em família. Eles exigem comprometimento, tempo e um veículo apropriado.

A definição clássica de “overlanding” é “uma viagem autossustentável na qual a jornada é mais importante que o destino”. E a porção “autossustentável” é a mais importante – idealmente, você leva tudo de que vai precisar no seu veículo. Incluindo, evidentemente, o local onde vai passar as noites. Reiterando: uma viagem de vários dias parando de hotel em hotel na beira da estrada pode até ser uma aventura divertida, mas não é overlanding. No overlanding, seu carro é seu hotel – ou talvez até sua casa, dependendo do tempo que você vai passar como nômade. Quanto menos você depender de outras pessoas (a não ser as que estão indo com você) ou de infraestrutura local, melhor.

Assim, não foi por acaso que o overlanding como o conhecemos hoje só surgiu depois que os utilitários com tração 4×4 começaram a ser vendidos ao público – ou seja, modelos como o Jeep Willys MB, o Land Rover Defender e o Mercedes-Benz Classe G, que até hoje são muito populares entre os praticantes do overlanding. Eles eram rústicos, resistentes e altamente customizáveis. E não por acaso, pois eles foram criados para uso militar, e por natureza já tinham diversas configurações diferentes.

Para muitos overlanders, aliás, preparar o veículo é grande parte da diversão – afinal, trata-se da parte mais entusiasta da aventura. Geralmente opta-se por um jipe old school por questão de packaging, primariamente pelo teto plano que acomoda perfeitamente uma barraca de teto reforçada (ou overlanding rig) em inglês – o que não elimina o uso de SUVs monobloco ou picapes (que podem acomodar a barraca na caçamba, por exemplo).

No porta-malas é importante ter ferramentas, mantimentos (se possível, em um compartimento refrigerado), um banheiro portátil e demais itens para uso pessoal. Pneus todo-terreno (como os BF Goodirch T/A), um guincho retrátil, iluminação auxiliar e suspensão com mais curso e vão livre são altamente desejáveis, também.

E existem alguns itens praticamente essenciais, como um deflator de pneus (para reduzir a pressão e obter mais aderência em trilhas), uma pá, um compressor de ar, galões de combustível extra e um rádio PX.

Quem quer algo mais “profissional” e não possui muita experiência com graxa pode comprar um veículo já preparado – neste caso, existem diversas opções, de utilitários equipados a veículos inteiramente modificados, que dispensam a barraca e oferecem acomodações mais sólidas, em uma caçamba adaptada com tudo o que é preciso para viver no agreste. Picapes maiores, como a Chevrolet Silverado, a série F da Ford, a Toyota Tacoma ou a Ram, são bastante populares para este tipo de conversão, bem como caminhões e vans com carroceria sobre chassi.

Não há uma regra que impeça o uso de um automóvel compacto com um trailer (como aqueles caracóis com cama e cozinha externa) ou algo mais clássico, como uma Kombi. Entretanto, há de se considerar sua desenvoltura em trilhas mais acidentadas e terrenos inóspitos – um jipe de entre-eixos relativamente curto é muito mais apropriado para escalar rochas (rock crawling) do que um SUV com um reboque.

Por outro lado, a definição de overlanding é flexível o bastante para permitir diferentes tipos de roteiro – você não precisa necessariamente se aventurar em uma trilha hardcore. Existem alguns roteiros bastante famosos que já fornecem desafio o suficiente sem exigir muita experiência – como as rotas cênicas do deserto de Moab, que te permitem sentir um gostinho do que é uma das mais emblemáticas trilhas do planeta mesmo em um veículo com tração traseira. É importante adquirir experiência antes de embarcar em algo mais complexo.

Isto posto, o grande barato do overlanding é o caminho até lá – não pegar um avião, mas ir dirigindo, passar alguns dias acampado em um local mais ermo e recarregando as energias, para depois seguir viagem. Não é por acaso que, nos veículos maiores, há espaço para bicicletas ou até mesmo uma moto: enquanto está estacionado, você pode explorar de uma forma mais ágil e envolvente. Se perder faz parte e, repetindo, é até desejável. E é por isso que a preparação é tão importante.

 

Com a popularização do overlanding nas últimas duas décadas, surgiram diversos encontros onde centenas, ou até milhares de adeptos saem em grupos. Entretanto, a meu ver, o aspecto mais interessante do overlanding é a possibilidade de embarcar em uma aventura em um grupo pequeno, ou talvez até sozinho – viver por algum tempo como nômade, sem ninguém para dar satisfação… e ninguém para te ajudar. O que até pode ser uma ideia ruim, pensando bem – mas isto é até parte do apelo.

Sugestão do FlatOuter Murilo Lino