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Pensatas

Por favor, parem de coletivizar as “soluções de mobilidade”

Há pouco mais de 20 anos, quando eu estava no Ensino Médio, nosso professor de matemática teve um infarto e precisou se afastar do trabalho por seis meses. Em seu lugar veio, ironicamente, seu antecessor, um sujeito baixinho, de quase 80 anos que nos ensinou a usar o Microsoft Messenger tão bem quanto ensinou os números complexos. Era um gênio incompreendido, o velho Paulinho.

Na primeira prova com ele, um colega, mais malandro que estudioso, perguntou se poderíamos usar calculadora. “Pode, vocês não sabem matemática mesmo”, foi a resposta.

O velho mestre tinha razão: não adiantava usar uma calculadora sem conhecer a teoria por trás dela. A calculadora, evidentemente, não ajudou ninguém a tirar uma nota superior a nove. A turma sabia usar a calculadora para fazer as operações básicas, mas elas eram apenas uma parte do assunto. A formulação destas operações, a teoria e a lógica que as formavam era o que estava sendo colocado à prova. Se soubéssemos colocar isso na calculadora, seria justo tirar um 10. Se não soubéssemos, a calculadora não faria diferença.

Um exemplo prático deste ponto de vista do meu antigo professor são as estatísticas despejadas no noticiário dezenas de vezes por dia. Números são apenas números se você não atribui significados a eles, mas as estatísticas vão além disso.

Recentemente uma consultoria chamada Kantar divulgou um estudo global chamado Mobility Future, no qual entrevistou mais de 20.000 pessoas de 31 cidades e 53 especialistas para formular uma perspectiva da mobilidade ao longo desta próxima década. Segundo o estudo 25% dos habitantes “gostariam de usar um modo de transporte diferente atualmente” e “10% irão, de fato, mudar sua forma de transporte”. Em São Paulo, o percentual de cidadãos que efetivamente mudará seu meio de transporte chegará a 21%. Com base nisso, sites de notícias divulgaram que o uso do carro em São Paulo irá diminuir 28% até 2030.

O problema é que o dado foi divulgado isoladamente: ou seja, não há um contexto que permita sua interpretação. É mais ou menos como minha turma com a calculadora em mãos sem saber o que fazer. Temos os números, temos uma ferramenta, mas não sabemos como aplicá-los à realidade.

Pare por um instante, releia a afirmação “25% dos habitantes gostariam de usar um modo de transporte diferente atualmente” e responda a si mesmo o que ela significa.

Ela não significa nada além da disposição das pessoas em mudar a forma de se locomover na cidade, mas o que isso significa de fato? Absolutamente nada, porque não há um contexto. Eles estão dispostos a mudar para qual meio de transporte? Em quais condições eles estão dispostos a mudar? Por quais razões eles querem mudar? O que precisa acontecer para que a mudança ocorra?

75% não quer mudanças

Ao mesmo tempo o estudo fala que 43% dos usuários de transporte coletivo gostariam de encontrar uma alternativa de transporte. As perguntas de contextualização também se aplicam aqui. Por que as pessoas que usam o transporte coletivo estão dispostas a mudar seu meio de locomoção?

Com base nestes dados — talvez em outros não divulgados — os especialistas acreditam no potencial de crescimento de novas modalidades de transporte em todo o mundo porque as pessoas estão dispostas a mudar. Mas… a mudança, apesar de ser uma característica humana, não é o nosso estado normal.

Estamos dispostos a mudar quando não estamos satisfeitos. Sem o contexto que aponte a insatisfação das pessoas, como os especialistas e analistas chegaram à conclusão de que motoristas deixarão de dirigir e passageiros de ônibus irão em busca de outras modalidades de transporte?

Não parece estranho que as perspectivas sobre o transporte do futuro não considerem os anseios das pessoas? Ok, sabemos que elas querem mudar, mas por que querem mudar? Quais os motivos? Será que só existe uma solução para estes anseios da população?

Finja surpresa: quanto menos motorizado, menos satisfeitos. Por que será?

Será que um motorista quer deixar seu carro porque ele acha o carro caro demais? Será que ele acha que seu carro destrói o meio-ambiente? Ou ele acha que perde tempo demais no trânsito? Ele continuaria disposto a mudar seu meio de transporte se em vez de perder 1 hora no deslocamento para o trabalho, gastasse apenas 20 minutos?

O mesmo vale para o passageiro do transporte coletivo: qual o motivo da insatisfação? Superlotação? Horários? Distância do ponto de ônibus? Falta de desodorante? Tarados de plantão?

São perguntas quase nunca respondidas pelos profetas da mobilidade, que preferem atacar o automóvel, o urbanismo, o suposto egoísmo das pessoas que optam pelo transporte individual — como se o egoísmo fosse sempre uma coisa ruim.

Quem disse que estar no carro é necessariamente ruim?

Olhando mais adiante, o estudo fala que 39% dos motoristas vão ao trabalho sozinhos em seus carros. Parece um número alto, não? Mas 39% significa que a cada 100 carros que saem das garagens diariamente, 39 têm apenas uma pessoa e 61 tem duas ou mais. Isso significa que estes 39 motoristas poderiam estar em um ônibus? Significa. Mas também significa que eles podem se inscrever em um programa de caronas pagas e passar a levar um passageiro diariamente.

Só que a solução não será encontrada com especulações — especialmente sobre sistemas teóricos nunca testados anteriormente. Ela será encontrando pela pergunta fundamental: por que estes 39 motoristas saem sozinhos em seus carros? Por que eles não têm um passageiro? Por que eles não optaram pelo transporte coletivo?

Talvez a pergunta não seja feita por uma razão muito simples: ela individualiza as causas. Como atender 39 interesses diferentes com uma única solução — que é a proposta de todo grande projeto visionário para a mobilidade? Você vai obrigar as pessoas a desejarem a mesma coisa? Vai proibir uma pessoa de ter preguiça de caminhar, se esse for o caso? Vamos obrigar as pessoas a fazer o que elas não gostam em nome de uma utopia?

Não. Obrigar não. Mas vamos convencê-las de que seu comportamento é socialmente inaceitável. E sem que elas percebam.

Vamos taxá-la por querer ficar presa no trânsito do centro da cidade em horário comercial. Vamos tributar seu carro para que ele se torne tão caro para que você decida comprá-lo somente em caso de extrema necessidade. Vamos proibir as pessoas terem vagas de garagem em suas casas, vamos fingir que todos querem morar em apartamentos empilhados em dezenas de andares próximos às linhas de ônibus e estações de metrô e que ter uma casa em uma rua pacata no subúrbio é uma má ideia. E vamos fingir que esse empilhamento de gente perto dos corredores de transporte é sustentável. Vamos considerar o transporte individual o grande vilão da qualidade de vida — ainda que ele traga um pouquinho de qualidade para cada pessoa que optou por ele.

Vamos basear nosso futuro em abstrações e estatísticas sem nexo causal. Como estudantes do ensino médio sem saber como usar calculadoras na prova de matemática, iremos modificar nossas cidades, nossa mobilidade em nome de um bem-estar que, na melhor das hipóteses irá elitizar o transporte individual e irá limitar a liberdade das pessoas em usar o próprio tempo.

Viveremos em um mundo melhor, mas… melhor para quem?