A revista semanal dos entusiastas | jorn. resp. MTB 0088750/SP
FlatOut!
Image default
Project Cars Project Cars #33

Project Cars #33: a conclusão do meu Marea Weekend Turbo

Por Luca Belga, Project Cars #33

Esse é o último post, depois do clímax do post passado, venho em ar de graça e alegria pra escrever o final feliz dessa história toda! Sabemos que um Project car nunca tem fim, por conceito, chamar de projeto já está errado já que a definição de projeto é um esforço empreendido por um conjunto de recursos que possui início, meio e fim. Nunca tem fim, mas pelo menos temos metas. Reais, que não são dobradas!

E atingimos essa grande meta de deixar o carro andando, bonito e confiável. Escrevo esse post aproximadamente dez meses depois de ter voltado da Pardal Racing e utilizando o carro basicamente todos os dias. Vocês sabem; quem tem carro velho ou muito modificado, ou os dois, é uma relação de confiança onde cada dia mais, sinto uma tranquilidade de saber que vou entrar no carro, andar até onde eu quiser e voltar pra casa.

Como falei no último post, ele terminou com um ar típico de novela mexicana, sem uma conclusão concreta do último problema dele que foi a correia dentada que arrebentou no meu 3º dia de lua de mel com o carro após ele voltar pela primeira vez da Pardal Racing.

Bom, o carro foi – novamente – rebocado para minha casa, dessa vez como um cadáver gigante e azul. Pardal já ciente, fui dar a má notícia para o restante da casa, brigas, gritarias e xingamentos proferidos ao carro foram o que regeram a noite. E novamente foi questionado; será que valeria a pena levantar esse carro de novo dos mortos? Nessa altura nem eu queria mais. Era muito bom quando o carro funcionava, mas ele raramente estava rodando.

Pardal prontamente me fez uma proposta no mínimo interessante. Ele viria até o RJ, traria todas as ferramentas necessárias e ficaria o tempo que fosse preciso até o carro ser totalmente reparado. Isso diminuiria muito os custos de frete do carro o que me estimulou a dar mais uma chance pra esse sanhaço. Para adiantar o trabalho, eu mesmo retirei o cabeçote do carro em casa e mandei para a retifica para a troca das 20 válvulas que empenaram, troca da sede, retentores e uma plaina na superfície da peça, dessa forma o Pardal teria somente que verificar o serviço e remontar o carro.

Feito isso, Pardal passou cerca de quatro dias em minha casa com o carro desmontado na garagem e organizando tudo para o carro voltar pelo menos na mesma condição anterior. E deu certo, montamos, rimos, demos várias voltas com o carro e ele estava ‘perfeito’. Entre aspas pois você olhava o carro e ele estava feio, com cara de cansado, mal feito, mal montado. Tudo estava mal executado.

Nesse momento, mesmo com bom de mecânica, o carro estava com muitos problemas elétricos, ainda não me passava a confiança que buscava e que foi o pretexto de todo esse projeto. Confiabilidade. A partir daí, preferi deixar o carro parado e me recapitalizar. Fiquei cerca de 6 meses com o carro encostado, dando poucas voltas pelo quarteirão, mas nunca me aventurando a sair do bairro, e mesmo assim ele quis dar uma ou duas voltas de reboque, para não perder o costume. A causa? Chicote elétrico.

Em 26 de Janeiro de 2019, o carro embarca para a última etapa da sua jornada e é essa história que esse último post conta. Nesse dia, de manhã, o carro foi rodando até a Pardal Racing em São José dos Campos onde retornaria de lá somente depois de pronto. Digo isso me referindo a revisão elétrica, mecânica com direito a funilaria, pintura e até a troca do capo por um novo original da Marea Turbo. O carro voltaria de lá do jeito que ele foi idealizado.

Bom, como o cara trabalha sozinho, paciência é uma virtude obrigatória na hora de lidar com o Pardal, mas é aquilo, demora mas fica absolutamente perfeito, da até pena de usar o carro. Mas ele foi feito pra isso, hehe. Em dois meses o motor já estava fora do cofre e o carro estava pronto para ser enviado para a funilaria. Quero deixar meu agradecimento ao Fernando, vulgo Bin Laden (não é porque tem uma Marea que ele ganhou esse apelido, rs), pela sua extrema competência, digna de um serviço padrão Pardal Racing. Assim como o Pardal, ele também demorou em concluir o serviço. Foram cerca de 8 meses desde o momento que o carro chegou a oficina até a sua retirada, finalizado.

Pontuando aqui e registrado em fotos, a quantidade de serviços feitos nesse carro anteriormente de forma deplorável. O carro, a um primeiro olhar parecia um carro integro e alinhado, mas na fase de preparação da superfície foram descobertos diversos serviços extremamente mal feitos, serviço de porco mesmo. Felizmente a Marea estava nas mãos de um profissional competente e todos esses erros foram corrigidos.

O objetivo da funilaria desse carro era para recuperar a glória dos padrões originais que esse carro perdeu ao longo dos anos e dos donos. Não pedi tampouco paguei por um serviço padrão ‘show car’ absolutamente perfeito e por isso considero que o resultado atendeu e superou minhas expectativas como cliente. E depois de meses de pintado, a pintura ainda permanece com um brilho molhado maravilhoso. Aquela cor parecida com ‘olho roxo’ deu lugar ao verdadeiro Azul Leader I que cobriu esse carro no dia 15 de dezembro de 1998. Espetacular!

Bom, carro pintado, hora de voltar para a oficina e começar a remontar a mecânica. Aproveitamos que sacamos o motor fora e foi instalado o’rings no cabeçote, uma revisão geral em anéis e bronzinas que estavam perfeitos e fechamos o motor novamente. E começamos uma nova saga, onde eu não pouparia esforços para que tudo no projeto desse certo.

 

O maior desafio nessa etapa foi com a linha de combustível, onde a ideia inicial era utilizar o surge tank alimentando duas bombas externas e uma interna ao tanque do carro para alimentar o surge tank. O surge tank foi feito utilizando um pedaço de tubo de inox de 6 polegadas com 25cm de altura. Comprei as roscas para soldarmos e como estava com uma bomba nova na mão, da Quantum Fuel, cuja vazão é de 380 Lph (Litros por hora), decidimos usar somente uma delas e deixamos o furo do surge descentralizado, pois caso houvesse necessidade de instalar a 2ª bomba, já teria espaço pra ela.

A linha seria toda em nylon com conexões AN e na seção reta da linha, pelo assoalho do carro, foi confeccionada toda em aço inoxidável, dessa forma eu eliminei cerca de seis metros de mangueiras que podem se deteriorar com o tempo e ainda economizei uma grana com isso. O dosador de combustível permaneceu o mesmo da ‘Aeromotive’ (by Aliexpress), que funciona muito bem, a bomba interna foi trocada por uma Bosch de Astra Flex e uma infinidade de conexões de diversos tipos dos tamanhos AN6 (envio) e AN8 (retorno) foram utilizados.

As pinças foram repintadas de prateado (nada de vermelho), discos e pastilhas como estavam novos, permaneceram os mesmos, com direito ai center bore pintado também. As balanças (ou bandejas) da suspensão dianteira foram trocadas pelas originais Birth, coifas da homocinetica, famosas por rasgarem quando em alta velocidade foram trocadas por um jogo da SKF que um parente trouxe da Itália, de excelente qualidade.

O sistema de exaustão permaneceu inalterado, apenas uma flange soldada na saída da turbina pra facilitar a troca do filtro de óleo. As rodas eu consegui numa troca do meu parceiro Ruan as famosas Speedline italianas aro 17’’ do Stilo Abarth. Essas rodas são quase a versão das Orbitais dos Gol Quadrado nos Fiat Marea, todo mundo tem ou já teve um jogo equipando seu Marea. Confesso que torci o nariz de primeira mas casou tão bem as rodas com as calotinhas centrais em azul com o restante do carro, ficou perfeito, hoje não vejo outra roda que fique melhor.

E a principio o carro estava finalizado, com direito a gravação para um canal local do Youtube, o carro estava impecável, voltei extremamente feliz para casa, o carro em perfeito estado, pressão plena de turbo, cerca de 1,8Bar, tudo funcionando como deveria.

Mas (sempre tem um mas) depois de alguns meses, já aqui no RJ, em uma das tomadas eu dei uma esticada bem forte em uma reta de quase 1km. Rasguei a reta pela noite de primavera carioca a mais de 200km/h e no fim da reta o carro apaga. Sem muito saber a causa, 2h da manha numa cidade não tão maravilhosa, preferi não arriscar e com a ajuda de um bom samaritano, puxamos de corda o carro até um posto de combustível próximo e lá ele ficou.

Nos dois dias que se seguiram, meu amigo Ramon me ajudou se deslocando quase 40km só pra tentar fazer aquele carro voltar rodando pra casa. Os problemas primeiramente encontrados foram um sensor de rotação problemático e os 5 bicos travados. O carro ligava quadrado, falhando muito e com excesso, não conseguia um funcionamento regular.

De volta pra casa em cima de um reboque (de novo), com mais calma troquei os bicos, desisti do jogo de 210lbs da Bosch e aqui vai uma dica: para quem tem carro de rua, não compre e nem insista em bicos para gás natural, apesar de serem bem mais baratos e apresentarem uma vazão muito maior, não caiam no erro que o Tio Luca cometeu, paguem mais caro e paguem uma vez só. Com o prejuízo de injetores, recorri ao tradicional e já consagrado bicos do Dalton, agora com uma vazão bem menor, de 120lbs, consegui além de tudo um acerto muito mais fino e regular da baixa e média carga do motor do carro.

Com os bicos de 210lbs eu usava aproximadamente 30% dos bicos quando em alta rotação, ou seja, sobrava injetor demais, não precisava de injetores dessa vazão. Com os de 120lbs estou usando aproximadamente 70% dos injetores, ainda tenho margem de segurança com eles e agora tenho um controle muito mais preciso da quantidade de combustível injetada no motor por pulso de bico.

Bom, bicos trocados, Dalton pede que, quando instalado esses bicos, seja também feita a instalação de um filtro de combustível do Gol GTI, que por sinal é o mesmo da Audi RS6 V10 então eu posso considerar que é um filtro de uma excelente vazão (#ficaadica), porem a vazão máxima desse filtro é de 4L/min ou 240Lph, como minha bomba tem uma vazão de 380Lph eu não queria forçar a bomba com uma restrição a frente, então, a solução foi instalar 2 filtros em paralelo e dessa forma teria teóricos 8L/min ou 480Lph de vazão, não causando restrições na linha.

Agora com a linha de combustível reajustada com bicos e filtros novos, chegou a hora da verdade e reacertar a Fueltech para funcionar com os novos injetores. Nesse momento apareceram mais alguns problemas, o mais grave e que até hoje não consegui chegar a uma causa raiz foi a correia dentada. Ela simplesmente pulou cerca de 4 dentes em cada comando. A correia não arrebentou, o tensor não se soltou, a correia simplesmente pulou alguns dentes. Não o suficiente para interferir no pistão mas o suficiente para o carro não conseguir funcionar. Não se sabe até hoje as causas e as consequências desse fato.

No fim, optei por um mapa mais conservador, o carro foi acertado com menos pressão de turbo, cerca de 1,4bar, ignição com menos ponto para não gerar tanto calor na câmara de combustão (por consequência menos potencia) e a progressão do booster controller mais suavizada. Os bicos de 210lbs tiveram como destino os bicos responsáveis pelo controle de pressão de turbo assim realizado o seu papel principal, pulsar ar.

Nem por isso o carro ficou menos prazeroso de guiar, continua tendo uma pegada extremamente linear e gostosa, bastante torque em baixos regimes e bastante potencia em alta, agora girando seus 7300rpm (próximo dos 7.200 rpm originais) ele apresenta saudáveis 511 whp to me preocupar em voltar ou não pra casa mas respeito cada vez mais suas características e isso de certa forma joga a favor de ter um carro mais confiável. Lógico que ainda há alguns percalços a serem resolvidos mas posso dizer que o carro esteja em fase bem avançada de conclusão, no mais, as tarefas faltantes se resumem a perfumarias ou projetos de melhoria (tais como estofamento, peças de acabamento, talvez pneus, pastilhas e fluidos mais eficientes).

No mais, posso dizer que como qualquer Project Cars, temos dificuldades, muitos erros e acertos. Nessa jornada de quase quatro anos, foram criadas muitas amizades, cruzei com gente boa e gente ruim, aprendi como nunca aprenderia e, principalmente, amadureci muito tendo plena consciência de que eu tenho um carro que, sem prudência, pode acarretar em graves danos rapidamente.

Deixo aqui meu agradecimento para a equipe do Flatout pela oportunidade de poder concluir com louvor esse Project Cars que se iniciou há quase 6 anos e dizer que estou satisfeito e feliz com tudo o que aconteceu até o presente momento. Para quem deseja acompanhar mais sobre o carro, podem acessar a minha garagem no site do Flatouters que lá mantenho sempre atualizado sobre as novidades que aparecem no carro.

P.S. Não desistam de montar seus sonhos, o estresse se paga, inúmeras vezes pensei em desistir e vender, seria a saída mais fácil. Graças a Deus, meus amigos, família e namorada, recebi estímulos para concluir esse projeto que hoje muito me orgulha! É difícil mas não impossível!


Clique aqui para ver o índice dos projetos e acessá-los individualmente

Matérias relacionadas

Project Cars #187: a história do meu Honda Civic Coupe “S2000” com supercharger

Leonardo Contesini

Um V8 e um sonho de infância: conheça o Jeep Willys de William Filho, o Project Cars #141

Leonardo Contesini

Project Cars #12: ajustes finos e alívio de peso para colocar o Chevrolet Corsa 2.0 de F3 em mais um track day

Leonardo Contesini