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Rafael e seu Oggi CSS 1984 | FlatOut Classics


O quadro FlatOut Classics se dedica ao antigomobilismo e aos neocolecionáveis (youngtimers) estrangeiros e nacionais, dos anos 20 ao começo dos anos 2000. Carros originais ou preparados ao estilo da época.
São matérias especiais, feitas para serem saboreadas como as das clássicas revistas que amamos.
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“Comfort Super Sport”

Na hora de definir quem faria cada pauta no cronograma dos nossos quadros especiais FlatOut Classics FlatOut Street, sempre fico incumbido dos Fiat – e agradeço por isto. Porque assim tenho a oportunidade de conhecer carros como o Fiat Oggi CSS do Rafael Pereira, entusiasta e FlatOuter de Brasília (DF). Um dos automóveis mais bacanas já feitos no Brasil, e também um dos mais raros. Só fizeram 300 carros – o número mínimo necessário para homologá-lo nas competições de turismo brasileiras na década de 1980.

Sim, o Oggi CSS (de Comfort Super Sport) foi um especial de homologação de verdade, da mesma forma que alguns dos nossos esportivos europeus favoritos como o Mercedes-Benz 190E Cosworth ou o Peugeot 205 T16. Quer dizer, não exatamente da mesma forma, mas sob as mesmas condições: era preciso que o carro de competição fosse baseado em uma versão produzida em série, que qualquer um pudesse comprar. Como a Fiat não oferecia o Oggi com cilindrada superior a 1.300 cm³, o Oggi CSS nasceu para resolver este problema.

Acabei tendo uma conversa de horas com um entusiasta verdadeiramente apaixonado por carros antigos, e muito dedicado à preservação dos clássicos brasileiros em especial. E mais do que isto: um cara que tem a sorte de ter uma família toda dedicada ao antigomobilismo. Rafael, aliás, faz questão de deixar claro que a paixão pelos antigos é “mal” de família, e que boa parte dos carros adquiridos pelos Pereira foi uma aquisição conjunta, envolvendo seu pai, sua mãe e o irmão.

 

“Before it was cool”

Está no sangue. O pai, José, e a mãe, Renata, corriam em ralis de regularidade disputados em Brasília e nos arredores quando eram jovens – Rafael diz que é muito provável que sua mãe estivesse grávida dele em alguma destas provas. Depois as crianças nasceram e os dois sossegaram um pouco. Mas, por volta de 1997 – quando Rafael tinha seus 11 ou 12 anos de idade – um conhecido colecionador brasiliense passou por um divórcio meio traumático e teve de desfazer-se dos carros. De cara, os Pereira compraram três: um Dodge Charger nacional 1975, um Fusca 1969 e um Karmann Ghia TC. Carros que hoje valem pequenas fortunas mas que, na época, não tinham muito valor com colecionáveis. “Na época os colecionadores não tinham muito interesse nos antigos nacionais. Eles queriam os importados – Charger americano, Bel Air, essas coisas.”

Aqueles três primeiros carros foram só isto mesmo – os primeiros. Porque, a partir dali, iniciou-se uma jornada para preservar os clássicos nacionais que dura até hoje. Inicialmente a ideia era ter um exemplar de cada um dos principais clássicos brasileiros, começando pelos Volkswagen a ar e depois partindo para outras fabricantes. Com o tempo, porém, foi ficando difícil conseguir alguns nomes – como o Karmann Ghia conversível e o SP2, por exemplo. Além disso, era inviável ter todos os carros.

Assim, os Pereira mudaram o foco: a coleção, a partir dali, daria prioridade a versões especiais, esportivas e raras dos carros brasileiros. Certamente o Oggi CSS encaixa-se nas três categorias, e especialmente na última.

 

Privilégio

O Oggi CSS é um dos mais recentes da coleção – foi comprado em 2013, e passou por uma restauração de dois anos. Ele estava na lista por razões que hoje são óbvias. Primeiro, ele é um dos poucos especiais de homologação brasileiros, nascido em um período peculiar da indústria automobilística brasileira – havia poucas fabricantes nacionais (Ford, Fiat, Chevrolet e Volkswagen dominavam) e cada uma delas tinha cinco ou seis modelos diferentes. Segundo, por causa da raridade. Das 300 unidades que forma feitas em 1984 (já como modelo 1985), devem rodar poucas dezenas por aí. “Antes de comprar este carro, nunca havia visto um pessoalmente”, diz Rafael. “E até hoje nunca vi outro – só na Internet.”

O carro estava anunciado em um site de classificados, e foi encontrado pelos Pereira em uma daquelas rotineiras “sessões de pesquisa” que conhecemos tão bem. Ele estava em Porto Alegre (RS) e foi até Brasília de carreta. O CSS foi vendido zero-quilômetro em dezembro de 1984 na Bahia, de lá foi para Santa Catarina, e de Santa Catarina para Curitiba, no Paraná, antes de terminar na capital do Rio Grande do Sul.

Estava íntegro, mas com a aparência desgastada pelo tempo, e por isso passou por uma restauração abrangente, mas que preservou o que podia ser preservado. “Gosto muito de carros originais”, diz Rafael, “porque eles carregam a memória de uma época que já passou. É importante para que nós, que gostamos de carro, no futuro possamos ver como as coisas eram”.

No caso do Fiat Oggi CSS, ter um exemplar torna-se uma rara oportunidade de conhecer os detalhes de um automóvel obscuro. Embora os entusiastas mais hardcore, os fãs da Fiat, e os que viveram a época já conheçam bem a série limitada, o público em geral só “redescobriu” este carro há dez anos ou pouco mais, com o aumento na popularidade dos fóruns e blogs automotivos. E há pouco material de época amplamente acessível a respeito do Oggi CSS.

Fichas técnicas existem aos montes por aí. É fácil saber, por exemplo, que o Oggi CSS foi o primeiro Fiat nacional com motor maior que 1,3 litro – mais precisamente 1.415 cm³, obtidos através do aumento do curso dos pistões de 71,5 mm para 78 mm (o diâmetro dos cilindros era mantido em 76 mm). Os carros de competição tinham deslocamento ainda maior, de 1.490 cm³ – o regulamento do campeonato Marcas e Pilotos permitia motores de até 1,5 litro. Era preciso explorá-lo ao máximo para tentar bater o VW Voyage (que acabou vencendo naquele ano de 1984).

E é fácil notar sua decoração esportiva, com spoiler na dianteira, uma pequena asa na tampa do porta-malas, rodas de liga leve de 13 polegadas e faixas adesivas vermelhas sobre a carroceria preta.

Há pormenores, porém, que só quem já teve contato com o Oggi CSS sabe – como o fato de capô e tampa do porta-malas serem um pouco mais leves que as peças de um Oggi comum. Ou que os bancos com encosto inteiriço – exclusivos da versão – tinham o assento mais alto que os bancos normais do Oggi.

 

Do jeito certo

O processo de restauração foi longo, mas não por dificuldades técnicas – as peças estavam todas à mão, o motor estava em ordem, e havia muitos registros de manutenção enviados pelo dono anterior, que cuidava muito bem do carro.

O problema foi conseguir trazer de volta todos os detalhes estéticos: levou um tempo para que Rafael topasse com fotos de um exemplar zero-quilômetro (que ficou famoso na web há poucos anos, aliás) que pudesse utilizar como referência. “Antes disto houve muitas dúvidas – revestimentos de porta, por exemplo, já vi três ou quatro diferentes no CSS”. Os adesivos da carroceria foram refeitos no padrão original, e o volante foi importado da Itália. “É uma peça genuína do Fiat X1/9, que também foi usada no Dardo nacional”, conta Rafael. “Só o botão da buzina é que não está certo – o original tinha o emblema vermelho da Fiat no meio”. Os cintos de segurança vermelhos nunca saíram do lugar, e os bancos originais vieram junto com o Oggi.

A forma de montar o spoiler dianteiro também é curiosa: “ele veio junto com o carro, mas não estava instalado – demoramos para descobrir que ele se encaixa por trás do para-choque, e o efeito estético é muito bom.” Mas com a estrutura íntegra e a mecânica em boa saúde, “a restauração não foi das piores”, segundo Rafael.

São poucos os que podem dizer que já dirigiram um Oggi CSS. “Tem algo nesse carro, apesar da ergonomia ridícula, que o torna extremamente agradável de guiar”, diz Rafael. “Ele é fácil de dirigir, e a sensação é mais próxima de um carro moderno. Os bancos muito altos atrapalham um pouco, as pernas encostam no volante e você dá a seta com o joelho – o dono anterior tinha instalado bancos concha San Marino na dianteira que tornavam tudo bem mais fácil”. Com 78 cv e 11,4 kgfm, o motor é esperto e sobe de giro rápido. O câmbio tem engates firmes e precisos para um Fiat dos anos 80. A suspensão mais dura e com cambagem mais negativa na dianteira, além da caixa de direção com relação mais direta, certamente contribuem para esta impressão.

Rafael compara muito a tocada do Oggi à do Uno, que para ele também trouxe uma dinâmica muito atual. E ele pode falar com propriedade – por muitos anos a família participou de provas de regularidade com o Uno, e também com um dos Fiat Palio de rali que competiram nos anos 2000. Ou seja: o mundo dos Fiat esportivos e de competição permeia a trajetória de Rafael há tempos. E não para no Oggi CSS: uma das mais recentes aquisições da família Pereira foi um Fiat Uno 1.5R amarelo da primeira leva.

Esta dedicação não beneficia apenas Rafael e sua família, mas a toda a comunidade entusiasta – afinal, não é sempre que você topa com fotos tão detalhadas de um dos únicos especiais de homologação brasileiros. Deleite-se!

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