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Car Culture

Scott Wade: o homem que transforma carros sujos em arte

“Lave-me por favor!” – atire a primeira pedra quem nunca topou com esta famosa frase no vidro de um carro sujo. É um vandalismo inocente, ainda que meio invasivo, e não muito criativo. É muito mais uma forma de expressão do que arte: o sujeito vê um carro sujo e, na ânsia de mostrar ao mundo o que pensa (“Caramba, que carro sujo!”, provavelmente), mete o dedo no carro dos outros e deixa sua marca. Que provavelmente não vai durar muito mais tempo. Mas o ser humano, essa criatura comunicativa e social, precisa se fazer ser ouvido.

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Existem, porém, outras maneiras de usar seu tempo livre com um carro sujo e empoeirado. Fazer arte, por exemplo – obras de arte complexas e muito bem feitas, beirando o inacreditável.

A “pintura” acima, que circulou na Internet há um tempo, é atribuída ao artista britânico Ruddy Muddy. Embora utilize de meios tradicionais para pintar retratos e paisagens, Muddy ficou mais conhecido por usar sua própria van, uma Ford Transit, como tela. Além de Murray Walker e Sabine Schmitz, que nos deixaram na semana passada e foram tema desta homenagem, Muddy já pintou outras personalidades do automobilismo, como Ayrton Senna e Lewis Hamilton, e também figuras como Steve McQueen e o elenco de “Velozes e Furiosos”. Isto ficando só nas celebridades ligadas aos carros – há também uma série de músicos, atores e outros personagens históricos.

O trabalho de Muddy traz uma estética estilizada, na qual as formas vêm do contraste entre preto e branco (luz e sombra) – não muito diferente de uma gravura feita com estêncil. Assim, apesar das proporções e contornos realistas, os elementos nela são relativamente simples, feitos usando os próprios dedos e pincéis para as formas mais finas e delicadas.

É possível, porém, criar obras ainda mais elaboradas, que exploram de forma ainda mais ampla e detalhada a poeira dos carros como meio artístico. É nisso que consiste o trabalho de Scott Wade, americano de Wimberley, Texas – um cara que transformou algo que poderia ser inconveniente ou incômodo em pura arte.

Wade nasceu em uma família de artistas – seu pai era cartunista e sua avó, sua mãe e sua irmã são ilustradoras. Como ele seguiria outra carreira? Desde sempre Wade ganhou a vida com desenhos, quadros e ilustrações, mas desenhar na poeira dos carros era algo que ele fazia por diversão. Wade cresceu em uma estrada afastada da cidade, em uma região dos EUA onde há muita areia e tempo seco. Então, os carros da vizinhança estavam sempre empoeirados – e viraram o lugar perfeito para que o pequeno Wade praticasse suas habilidades. Os vizinhos não ligavam, como é comum nestas cidades pequenas onde todo mundo se conhece. Na verdade, até incentivavam.

Foi só na virada dos anos 2000, quando a internet e as correntes de email (o Whatsapp de antigamente) já eram populares, que Wade começou a fotografar seus desenhos na poeira dos carros e mostrar para os mais chegados.

 

Acontece que um destes mais chegados era editor de um blog  em Austin, no Texas, e decidiu mostrar o trabalho de Wade ao mundo todo – em um dia, mais de 200.000 pessoas viram a publicação e, de repente, Wade estava relativamente famoso. Foi sua deixa para dedicar seu tempo livre à arte em carros sujos, e hoje este é seu principal meio de vida. Wade aparece em eventos, organiza exposições e recebe encomendas de retratos na sujeira de carros por todo o planeta. Rolou até uma encomenda da Mitsubishi em Portugal para fazer publicidade com poeira em carros usados.

O resultado de anos de prática é embasbacante. Muddy tem um estilo mais simples e direto, e seus retratos quase se parecem com carimbos. Wade, por outro lado, aposta em imagens realistas e detalhadas, com efeitos de luz e sombra que parecem inimaginaveis quando você se da conta de que aquilo é nada mais que poeira sobre uma superfície de metal ou vidro.

A técnica, segundo o próprio Wade, lembra uma escultura em 2D. Isto porque, em um desenho tradicional, você começa com uma tela em branco e acrescenta pigmento – seja grafite, carvão ou tinta – na forma desejada, aplicando mais ou menos pressão, escolhendo diferentes instrumentos para um traço mais fino ou mais marcado.

Wade, por outro lado, trabalha com remoção – ele remove a poeira e a área limpa é que forma os traços e contornos. Com mais pressão e um pincel mais espesso, o traço fica mais escuro e definido. Com menos pressão e um pincel mais fino, consegue-se traços mais sutis e sombreados. Fora isto, o processo é parecidíssimo com o de um desenho em papel, onde se começa com um esboço e, a partir deste esboço, acrescenta-se os detalhes.

O trabalho lembra um pouco obras de art deco, com traços mais grossos e sombreados mais delicados e detalhistas. Os temas favoritos de Wade são retratos, que podem ser de pessoas famosas ou do próprio dono do carro, sob encomenda; recriações de obras de arte icônicas; e paisagens urbanas ou naturais. Ele não costuma fazer arte com temática automobilística, porém – prefere que os carros sejam apenas o meio usado para a arte, e não a arte em si.

Apesar de serem obras detalhadas e complexas, o trabalho não é cansativo e demorado: leva algumas horas, e não dias. E a parte mais difícil, que é encontrar um carro sujo e empoeirado para desenhar, também pode ser resolvida facilmente – basta sujar o carro artificialmente usando um soprador a manivela, com o vidro ou a carroceria levemente úmidos para que a poeira grude melhor.

Isto também ajuda a arte a durar pelo menos até a próxima lavagem, reduzindo o ritmo no qual os desenhos se desmancham naturalmente. De todo modo, Wade prefere não se apegar aos trabalhos que faz, dada sua natureza efêmera. Ele completa uma ilustração, fotografa, coloca em seu site e vai procurar outro carro para desenhar. Simples assim.