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Snake e Mongoose: a história dos pilotos que mudaram a história das drag races (e da Hot Wheels)

Ao lado da Nascar os campeonatos de arrancada da National Hot Rod Association (NHRA) formam a segunda categoria mais popular do automobilismo americano. São cerca de 750.000 espectadores pela TV, e outras dezenas de milhares de pessoas nas arquibancadas das drag strips atentas à disputa de mais de US$ 1 milhão em prêmios ao campeão da temporada.

Mas logicamente, isso não começou assim, como um fenômeno comercial. Na verdade, as drag races (ou arrancadas, se preferir) começaram com as tentativas de recordes de velocidade. Os hot rodders juntavam-se em leitos de lagos secos ou rodovias desertas e disputavam suas corridas em linha reta, tentando atingir a velocidade mais alta possível.

Isso começou a mudar em 1937 quando dois destes hot hodders, Wally Parks e Ak Miller, fundaram o Road Runners Club para reunir estes pilotos que buscavam velocidades cada vez maiores. A criação do Road Runners inspirou a criação de outros seis clubes locais e, ao final do ano, eles se juntaram para formar a Southern California Timing Association (SCTA), que foi a primeira entidade organizadora destas corridas de velocidade máxima. Na época cronometrava-se o tempo que cada carro levava para cobrir o intervalo entre dois pontos demarcados e assim se determinava sua velocidade máxima. Não era muito diferente das atuais corridas em Bonneville.

Wally Parks e seu Ford 1929

O primeiro campeonato foi realizado no início de 1938, e teve como campeão Ernie McAfee. Nos anos seguintes os campeonatos voltaram a ser realizados, com George Harvey campeão em 1939, Bob Rufi em 1940, e Vic Edelbrock (sim, aquele Vic Edelbrock) em 1941. Aí veio a guerra e tudo mudou — primeiro para pior, depois para melhor.

As corridas cessaram porque os hot rodders foram às luta. Mas muitos destes tiveram contato com a mecânica aeronáutica e aprenderam novas técnicas de preparação de motores e de eficiência aerodinâmica. Além disso, os componentes mecânicos remanescentes do conflito ajudaram na preparação dos carros de corridas, dando origem a máquinas como os Belly Tank Lakesters.

Wally Parks foi um destes corredores que foram à guerra. Em 1947, depois de servir o exército no Pacífico Sul durante a Segunda Guerra, ele voltou aos EUA e se tornou o diretor da entidade e, em 1949, criou a “Speed Week”, um evento anual realizado na planície de sal de Bonneville – a mesma Bonneville Sped Week que acontece até hoje.

Foi nessa primeira edição da Speed Week que os pilotos começaram a correr uns contra os outros. Em vez de buscar apenas velocidades mais altas, eles precisavam acelerar mais rápido que seus rivais. A modalidade fez sucesso e logo eles começaram a disputar essas corridas de arrancada por todo o país. Não demorou para que a primeira dragstrip dos EUA fosse criada: em 1950 nascia a “Santa Ana Drags”, que usou um antigo campo de aviação no Sul da Califórnia e tornou-se altamente popular devido aos seus instrumentos “computadorizados”.

Nessa época, Wally Parks tornou-se o editor da revista Hot Rod — a mesma que circula até hoje nas bancas americanas — e se viu com condições de formar uma associação nacional para unificar regras de disputa, premiações e normas de segurança que faltavam para validar as arrancadas como um esporte.

Assim, em 1951, Wally Parks fundou a National Hot Rod Association, ou NHRA como todos conhecem, tornando-se seu primeiro presidente. A primeira corrida organizada pela NHRA aconteceu em abril de 1953, há apenas 66 anos, em um estacionamento em Pomona, na Califórnia.

Apesar da organização por uma associação nacional, com eventos oficiais e premiações, as drag races ainda eram um esporte underground. Seus pilotos não apareciam em revistas, os campeões ficavam milionários, e os patrocinadores não pagavam grande coisa para expor suas marcas a uns poucos entusiastas. Para se ter uma ideia, os vencedores ganhavam US$ 100 (cerca de US$ 950 em 2019) e um kit de componentes ou lubrificantes. Isso obviamente não era suficiente para a profissionalização dos pilotos, que precisavam manter atividades paralelas ligadas ao mercado automobilístico.

Um desses pilotos era Don Prudhomme, mais conhecido como “The Snake” desde os tempos de colégio. Nascido em 1941, Prudhomme começou a correr na década de 1960. Ele trabalhava na oficina de pintura de seu pai durante a semana, e nos fins de semana levava seu dragster para a pista. Era um piloto extremamente talentoso, tanto no acerto de motores quanto ao volante.

Seu principal rival também era seu melhor amigo Tom McEwen (esse aí acima). Eles se conheceram em 1958, quando Prudhomme estava rebocando um dragster para a linha de largada quando McEwen, que já era piloto, pediu uma carona — que, curiosamente, foi negada. Apesar da situação, os dois acabaram se tornando grandes amigos naquele dia. Coincidentemente, McEwen era conhecido como “Mongoose”, a palavra inglesa para “mangusto”, o principal predador das cobras (“snakes”) dos desertos africanos.

Os dois formaram uma grande rivalidade durante os anos 1960 — ainda que Prudhomme vencesse mais corridas. Contudo, as perspectivas não eram as melhores. Com prêmios quase insignificantes e a vida adulta começando a cobrar mais caro com a chegada de esposas e filhos, Prudhomme e McEwen chegaram a pensar em abandonar o esporte.

 

O começo da virada

Um dia, em 1969, McEwen estava com seus filhos quando viu um dos carrinhos de brinquedo deles e vislumbrou a ideia que os tornaria ricos e famosos. Os carrinhos em questão eram os recém-lançados Hot Wheels, da Mattel, a grande fabricante de brinquedos americana.

Até então, todo o lucro da Mattel vinha das bonecas Barbie, que eram o grande filão de vendas da empresa. McEwen achou que poderia divulgar a nova marca em seus carros, formando uma dupla com Don Prudhomme e saindo em uma turnê de arrancadas por todo o país como “Snake and Mongoose”.

McEwen só precisou convencer o amigo e marcar uma entrevista com o diretor de marketing da Mattel, algo que parece impossível hoje, mas foi viabilizado por alguns contatos de seu pai. Na reunião eles convenceram a fabricante que poderiam vender muito mais carrinhos e torná-los tão importantes quanto as bonecas Barbie.

E assim eles fizeram. A Mattel bancou as despesas e os salários da dupla, que fez novos funny cars baseados nos Plymouth Duster e Barracuda, e caminhões para o transporte dos carros pelo circuito nacional — todos estilizados com o logotipo da Mattel e os logotipos de cada piloto.

O sucesso de Snake e Mongoose nas pistas catapultou as vendas dos brinquedos, tornando a Hot Wheels famosa como ainda é hoje. No catálogo da marca estavam, obviamente, os funny cars da dupla.

Ao mesmo tempo, com essa combinação de marketing agressivo, exposição de nomes e marcas  — e, claro, vitórias nas pistas –, outras marcas passaram a se interessar pelo esporte. Afinal, todos queriam estar em uma das ondas do momento. Isso ajudou a popularizar as arrancadas, e foi o início da transformação das drag races em um esporte altamente popular nos EUA.

Em 1973, a Hot Wheels decidiu interromper o patrocínio da dupla, mas já não importava mais. As drag races já estavam no mapa e havia dezenas de outras empresas loucas por um espaço de destaque nos funny cars de Snake e Mongoose.

Os dois continuaram correndo até a década de 1990. McEwen se aposentou em 1992, e venceu somente quatro eventos da NHRA, entre eles a US Nationals de 1978, em uma vitória dramática sobre Prudhomme conquistada somente quatro dias depois da morte de seu filho Jamie, que sofria de leucemia.

Dom Prudhomme por sua vez, tornou-se um dos maiores vencedores da história da NHRA, com quatro títulos nacionais (entre 1975 e 1978), e 49 vitórias em 68 finais com funny cars e 17 vitórias em 23 finais com top fuels. Ele também foi o primeiro piloto a ultrapassar os 400 km/h, e aposentou-se em 1994 para tornar-se dono de equipe.

Ambos estão no hall da fama do automobilismo mundial, e no top 20 da NHRA — Don “The Snake” Prudhomme em terceiro lugar, atrás apenas de Don Garlits e John Force; e Tom McEwen em 16º. A história de Snake e Mongoose e de como eles impulsionaram as arrancadas ao grande público americano foi a base da história para o filme “Snake and Mongoose“, lançado em 2013 nos EUA, porém inédito no Brasil.

Don Prudhomme e Tom McEwen continuaram amigos e conversaram todos os dias até 10 de junho de 2018, quando McEwen sucumbiu às complicações de uma cirurgia para retirada de um tumor maligno no cólon. Ele tinha 81 anos.

“Eu sentirei muito sua falta. Éramos uma atração, sabe? Dois personagens, dois garotos que encontraram um jeito de ganhar a vida nas pistas, e muito disso se deve à grande visão de marketing e autopromoção que ele tinha. Ele fez muito, não apenas por mim, mas pelas arrancadas. Ele mostrou a mim e a todos que estão correndo hoje que você poderia correr atrás de patrocinadores e transformar nosso esporte em um esporte de verdade. Ele foi um dos caras que fez as drag races darem certo.

Quando negociávamos com um patrocinador, fazíamos uma piada e o agente gostava. Éramos uma atração, um estimulava o outro. Mesmo nos últimos anos, quando íamos a uma coletiva ou algum evento, sempre fazíamos o público rir e se divertir. Toda vez que meu nome, Snake, for pronunciado, lembrarei de Tom porque havia um Mongoose unido ao meu nome. Estamos ligados para sempre.”  — Don Prudhomme