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Tem um motor de Porsche 962 escondido neste 911 Speedster

Quando se trata de restomods baseados nos Porsche, a californiana Canepa está em outro nível. Claro, gostamos muito dos Singer – a abordagem “neoclássica” e o capricho sobre-humano na construção e no acabamento de seus projetos faz com que cada um deles seja uma verdadeira joia. Mas, nos últimos anos, vimos tantos carros da Singer (e também projetos de outras empresas que surgiram depois com a mesma pegada) que acabamos ficando meio saturados.

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A Canepa, por outro lado, possui uma abordagem diferente. Eles preferem manter o visual dos carros mais próximo de algo saído da fábrica, e concentrar as modificações no que há por baixo da carroceria – motor, câmbio, suspensão, et cetera. Hoje, por exemplo, vamos falar de um projeto que a Canepa fez no começo da década de 1990, e que agora retornou à oficina para receber um belo trato e aguardar um novo dono: o Porsche Speedster 962 Twin Turbo. O que este nome significa? Basicamente, que é um Porsche 911 Speedster com a mecânica do Porsche 962.

O carro foi encomendado em 1990 por Gary Primm, dono de uma rede de cassinos em Las Vegas – e um cara que nunca fez concessões na hora de escolher seus carros. Um ano antes, em 1989, ele foi um dos 814 que compraram um Porsche 911 Speedster 964 – uma edição limitada criada para marcar a chegada do Porsche 964.

O Speedster era um carro curioso – ele tinha os para-lamas mais largos do Porsche 911 Turbo da época, mas era movido por um flat-six naturalmente aspirado de 3,2 litros e 230 cv. Em retrospecto, o Speedster de 1989 tornou-se meio que um renegado, ficando à sombra do Speedster lançado em 1994 e equipado com um motor mais potente, de 3,6 litros e 248 cv.

O 911 Speedster 964 original

 

Primm foi um dos que não gostaram muito do Speedster – ele aprovava o visual, mas seu desempenho e seu comportamento dinâmico, para ele, não estavam à altura do que o visual sugeria. E foi aí que Bruce Canepa entrou na história.

Naquela época a Canepa já era uma empresa conhecida no meio dos Porsche – suas conversões do 911 para slantnose (frente baixa, com faróis escamoteáveis) estavam muito populares. Na década de 1970, Bruce Canepa era piloto, e competia na IMSA e na Trans Am. Ele foi um dos primeiros a pilotar o Porsche 935 (seu carro favorito), já esteve ao volante do insano Porsche 917 e, quando deixou as pistas, passou a dedicar-se à empresa que leva seu sobrenome, vendendo, comprando, restaurando e modificando carros da Porsche.

Na época, Bruce Canepa tinha guardado em sua oficina o motor de um Porsche 962 – o protótipo com o qual a Porsche competiu no Grupo C da FIA entre 1984 e 1987, e que foi por mais alguns anos o favorito de várias equipes independentes no WSC e no campeonato da IMSA, nos EUA. Canepa correu com o Porsche 962 de Al Holbert por algum tempo e depois o vendeu, mas decidiu ficar com o motor reserva, a fim de utilizá-lo em algum projeto quando chegasse a hora.

A hora chegou quando, em 1990, Canepa e Primm se conheceram – os dois tinham contatos em comum na AMG – e começaram a conversar sobre a decepção que Primm teve com seu Speedster. Foi quando uma lâmpada acendeu sobre a cabeça de Canepa: ele havia encontrado o recipiente perfeito para seu motor de 962.

Projetado pelo lendário Hans Mezger, o motor do Porsche 962 derivava do flat-six utilizado pelo Porsche 935 de competição, e o desenho do bloco também serviu como base para o motor dos Porsche 911 de rua até a chegada do 991, em 2011. Entre as novidades do motor do 962 estavam o uso de um único turbocompressor KKK K37 (em vez dos dois turbos usados pelo Porsche 956, por exemplo) e a adoção de um cabeçote para cada cilindro. Com três litros de deslocamento e cerca de 600 cv, o motor do 962 garantiu, entre outras conquistas, duas vitórias nas 24 Horas de Le Mans em 1986 e 1987 e todos os títulos da IMSA GT entre 1985 e 1988.

Primm gostou da ideia, e deu seu briefing: ele queria um carro que fosse selvagem quando se pisava fundo, mas que tivesse bom torque em baixa e fosse utilizável no dia a dia. Ao mesmo tempo, ele desejava que seu Speedster fosse imediatamente reconhecível por quem olhasse.

Para resolver a questão da usabilidade, o motor do 962 foi totalmente refeito. O deslocamento foi ampliado para 3,3 litros (100 mm de diâmetro e 70,4 mm de curso) recebendo dois turbocompressores K26 – iguais aos do Porsche 959 – acompanhados de um novo sistema de escape feito sob medida para ajudar a mitigar o turbo lag. O sistema de injeção ganhou dois conjuntos de injetores sequenciais, e um intercooler fabricado especialmente para o projeto foi instalado. Docilidade em passeios pela cidade e selvageria nos retões das rodovias norte-americanas eram os objetivos – que foram cumpridos com sucesso. Com combustível de 110 RON e as turbinas operando em conjunto a 1,3 bar, o flat-six entrega saudáveis 650 cv a 6.500 rpm e 76 kgfm de torque a 4.000 rpm, moderados pela transmissão de cinco marchas do Porsche 911 turbo. Vale observar que o conjunto foi invertido – no 962, o câmbio ficava atrás do motor, enquanto no 911 ele fica na frente.

O motor exigiu a instalação de uma nova tampa traseira – uma peça com fendas, a fim de garantir o arrefecimento adequado. Com uma enorme asa, a tampa acabou levando Bruce Canepa a modificar o restante da carroceria para dar um aspecto mais harmônico ao Speedster.

Foi assim que ele decidiu utilizar o body kit do Porsche 934, composto do para-choque dianteiro e das molduras rebitadas nos para-lamas. Falando em para-lamas, sob eles foram instaladas rodas BBS GTP de 17×9,5 polegadas na dianteira e 17×13 polegadas na traseira, calçadas com pneus Goodyear 275/40 e 315/35, respectivamente – borracha que não acaba mais (hoje os pneus são Nitto, nas mesmas medidas). As rodas abrigam os mesmos freios do Porsche 959, e a suspensão utiliza um sistema com amortecedores ajustáveis Bilstein derivado do Porsche 935 de competição.

Apesar de todo o ímpeto e dos vários componentes de corrida, o Porsche Speedster 962 Twin Turbo foi pensado para uso em vias públicas com frequência. Por isto, todos os itens de conforto que vinham no carro foram mantidos, como ar-condicionado, CD-player e couro nos bancos foram mantidos. Os toques racecar são os cintos de competição TRW e o santo-antônio com gaiola parcial integrada que percorre todo o comprimento do carro e ajuda a reforçar também a região atrás dos bancos, melhorando sensivelmente a rigidez da carroceria.

O mais interessante é que, apesar da enorme quantidade de engenharia sob medida que foi empregada no projeto, o 911 Speedster 962 Twin Turbo tem acabamento e design que poderiam ter saído de Stuttgart – algo de que Bruce Canepa fazia questão, mais até do que o próprio dono do carro. Tanto que, fora os para-choques e alargadores nos para-lamas, a pintura vermelha “Guards Red” é original de fábrica, bem como o interior em couro caramelo.

Em 2013, depois de curtir bastante seu 911 modificado, Gary Primm devolveu o carro à Canepa – com pouco mais de 4.600 km rodados e nenhuma modificação além do que Bruce havia entregue. O carro então, passou por uma revisão extensiva (na qual Bruce Canepa optou por manter as coisas como estavam, sem melhorara nada) e, agora, foi colocado à venda.

Valores não foram divulgados, mas é aquela velha história: se você precisa perguntar, é por que não pode pagar.


 

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Hans Mezger: o engenheiro dos melhores motores Porsche dos últimos 50 anos

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A história do 962C, o último Porsche a vencer nas 24 Horas de Le Mans nos anos 80

Do 356 ao 997: a trajetória dos Speedsters da Porsche

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