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Um Porsche 996 Supercharged para o dia-a-dia | FlatOut Street


O quadro FlatOut Street se dedica aos carros preparados e customizados estrangeiros e nacionais, de todas as épocas e estilos.
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Gosto adquirido

Gosto adquirido, segundo a Wikipedia, é “a apreciação de algo que normalmente não seria apreciado por alguém que não teve exposição contínua a este algo em questão”. Em outras palavras, é alguma coisa que aprendemos a gostar com o tempo, depois de conhecer e provar. O hábito de fumar charutos, por exemplo, é um gosto adquirido, pois você não é naturalmente exposto ao sabor do charuto no dia-a-dia ou durante a formação de seu gosto natural, que normalmente acontece nos anos de desenvolvimento do corpo humano — ou seja: a infância e a adolescência.

Também é o caso de alguém gostar de carros esportivos sem ter crescido dentro deles ou sem contato direto com eles durante esses períodos da vida. Gostar de Porsche sendo filho de Ferdinand Porsche é natural. Gostar de Porsche sendo um advogado do sul do Brasil é gosto adquirido. Juliano Dias, um advogado do sul do Brasil, adquiriu o gosto pelos Porsche. E acabou com esse 996 Carrera supercharged na garagem.

Seu gosto por carros vem desde cedo, mas foi na vida adulta que ele começou a realizar seus sonhos motorizados: teve um Mercedes-Benz SLK200, depois um SLK250 e, mais recentemente, um GLA45 AMG. Depois veio o Jaguar F-Type S, o que despertou definitivamente seu interesse em ter um esportivo ainda mais purista.

Estudando as opções, decidiu que teria um Porsche 993. Era o último aircooled da marca, era a evolução máxima do Porsche tradicional, pouco uso de eletrônica, mais puro que isso, só um Porsche 911 clássico mesmo. Enquanto procurava pelo 993 ideal, Juliano viu a escalada de preços do modelo, que chegou a um patamar proibitivo para ele. Com o Porsche 911 na cabeça, ele se voltou aos demais modelos do 911. Em meados de 2020 encontrou um 911 SC 1979 manual e conseguiu realizar seu sonho. Ele agora era proprietário de um legítimo Porsche 911 aircooled e manual.

 

A vida é bem melhor no Porsche

Nos primeiros meses com o Porsche, Juliano dividia eu tempo ao volante entre o 911 e um Jaguar F-Type S — uma bela garagem com dois tipos de esportivo complementares: um clássico orgânico, e um moderno mais dinâmico. Apesar do contraste, a vontade de guiar o Porsche e o prazer ao volante só aumentavam. O Jaguar acabou ficando cada vez mais de lado na garagem. “O carro era maravilhoso, ronco, esportividade, beleza… mas a experiência com o Porsche me fazia olhar para as coisas de um jeito diferente”, explicou Juliano.

Até que certo dia, em um trackday, um 996 cruzou seu caminho pela primeira vez. Ele nunca havia olhado para o 996 com outros olhos, nem observado em detalhes aquele carro. Mas aquele 996 em especial era diferente. O carro tinha o conjunto aerodinâmico do GT3, era manual e andava forte na pista. Era um carro especial, diferente dos demais 996. “Não era um carro que eu gostava, ou tinha visto em detalhes, mas quando vi ela com todo o aerokit da GT3, e com a cereja do bolo, um câmbio manual de seis marchas. Foi amor à primeira vista. No dia acabei não conhecendo o proprietário, o que me deixou muito aborrecido, mas uma hora eu iria vê-lo, pois esse carro não passa despercebido”, contou.

 

O patinho feio de Stuttgart

Imagine-se na seguinte situação: sua empresa está com dificuldades financeiras. Para sair delas, você precisa renovar seus produtos, porém sem usar absolutamente nada do que você já produz. A legislação não permite que você continue usando. As novidades precisam ser desenvolvidas do zero, o que exige um grande investimento — apesar das dificuldades financeiras. E como se isso não fosse bastante, as novidades precisam romper uma tradição de sua empresa. Era esta a situação da Porsche nos anos 1990.

O dinheiro estava curto, o motor flat-6 arrefecido a ar já estava em seu limite de desempenho e emissões. Para piorar, as mudanças na legislação europeia de emissões, previstas para o final da década, o tornariam inviável. Então a Porsche precisava investir o dinheiro que não tinha, para fazer um motor que nunca havia feito, para um público que não estava muito propenso a aceitar mudanças.

O primeiro passo para essas mudanças drásticas que a Porsche precisaria executar, foi contratar a Toyota como consultora para implementação de processos mais eficientes de produção em escala. E foi assim que eles chegaram à conclusão de que desenvolver em conjunto dois modelos diferentes de segmentos diferentes, permitiria dividir os custos devido ao compartilhamento de sistemas mecânicos entre os dois produtos do mesmo projeto.

É daí que vem a relação tão próxima do Boxster 986 com o Porsche 996 — note que até o código dos projetos é semelhante. Os carros compartilhavam faróis, capô, para-lamas, suspensão dianteira, componentes internos e até o motor (embora com deslocamento diferente em cada um). O Boxster foi aclamado, tornou-se um sucesso de vendas e ajudou a Porsche a se recuperar financeiramente. O 911, por outro lado, foi alvo de críticas pela semelhança com o modelo mais barato. Isso foi amenizado após o facelift de 2002, que diferenciou os dois modelos.

As críticas também cessaram quando a Porsche lançou os modelos Turbo e GT, que calaram os críticos com suas qualidades como esportivos. Além disso, o tempo também fez bem ao 996, que vem sendo cada vez mais aceito pelos entusiastas da Porsche. Como na fábula, em que o patinho feio não era um pato, mas um cisne, o 996 cresceu e, finalmente, percebemos que ele não era um Porsche inferior, mas um animal diferente daquele que todos pensavam que ele fosse.

 

A descoberta do 996

Alguns meses se passaram e Juliano finalmente conheceu o proprietário do carro. O primeiro contato foi excessivamente formal, digamos, mas depois, em um encontro de carros antigos os dois conversaram e estreitaram a amizade. Em um dos encontros de clássicos, Juliano decidiu fazer a proposta de compra do carro… e foi ignorado. Na verdade ele foi ouvido, mas o proprietário do Porsche não prosseguiu a conversa.

Passados dois meses, o proprietário e Juliano se encontraram casualmente, mas agora o jogo virou: ele fez a proposta de venda do carro. Em duas horas Juliano estava com as chaves de seu segundo Porsche nas mãos. Uma volta com o carro, uma contra-proposta e Juliano voltou para casa com o 996. Assim rápido, sem pré-compra, sem nada.

Agora… o que o carro tinha de especial? Um kit supercharger da VF Engineering, originalmente projetado para extrair 420 cv do flat-six — um ganho de 120 cv em relação à potência original do Carrera 996. Contudo, o antigo proprietário usou um mapa de gerenciamento do motor mais conservador, então o carro tem “apenas” 384 cv — ainda um aumento de 84 cv em relação ao original. Fora isso, o carro tem o já citado kit aerodinâmico do 911 GT3 do mesmo ano.

 

O 911 de cada dia

Após a compra do carro, Juliano fez a manutenção preventiva — incluindo uma inspeção e troca do IMS, que causou muitas quebras de motor até que a Porsche solucionou definitivamente o problema do seu primeiro flat-6 watercooled.

Segundo Juliano, o carro é um ponto de equilíbrio entre o clássico e o moderno. “É muito forte, tem tudo aquilo que se espera de um carro moderno, mas com a pegada das gerações anteriores do 911. Não é tão largo, tem o motor mais recuado, teto solar, torque e potência de sobra”, conta.

Atualmente, o carro ainda está naquela fase de acerto pessoal. Juliano está cuidado do carro do jeito que pretende deixá-lo. As rodas, por exemplo, atualmente são da Cargraphic, mas serão substituídas pelas rodas originais do GT3. Além disso, ele fará um upgrade de freios e a instalação de um short shifter. Depois o carro será levado a São Paulo para uma revitalização interna.

Por ora, Juliano usa o carro em seu dia-a-dia porque decidiu usar seus Porsche assim. “A situação traz um pouco de espanto por serem carros clássicos, mas a vida é uma só, e ela é muito curta para não andar diariamente em um 911”, finaliza. Um 911 para o dia-a-dia, afinal, é o exemplo perfeito de gosto adquirido.

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