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Car Culture

Vida de engenheiro: a gambiarra


Toda categoria profissional já inventada, depois de regulamentada e reunida em entidades de classe, tende a se fixar em um objetivo comum que nunca é o da profissão em si. Médicos salvam vidas, arquitetos desenham prédios, e assim por diante; esses são os objetivos das profissões. Mas os médicos, arquitetos e engenheiros, como um grupo, só tem um objetivo real em comum: o de propagandear sua importância.

É uma tendência natural humana, essa. Não é lá moralmente muito legal, mas é uma tendência involuntária até. Vem do orgulho de ter feito coisas que poucos fora desta categoria sabem como é difícil realizar, vem do desejo de que esse trabalho, de alguma forma, apareça. Mas, inevitável mencionar, centrado no orgulho que é, que é pecado na maioria das religiões registradas. Estas, calçadas que são em aprendizados milenares de como funciona a felicidade, ensinam que não se faz coisas para sua glória pessoal, fama e fortuna. Se faz simplesmente porque é o que sabemos fazer. Não espere nada em troca; esperar reconhecimento é receita de frustração, é o que ensinam.

Seguir esses ensinamentos é difícil, claro, e ainda mais hoje em dia, época que milhões de assuntos e coisas brigam incessantemente pela atenção de todos, e sumir de evidência é sinal de decadência financeira próxima. Aumentar a própria importância virou questão de sobrevivência.

Por este motivo, companhias e pessoas tem medo de palavras como “gambiarra”. Não é à toa: o Aurélio define a gambiarra como “recurso geralmente provisório para resolver um problema”, algo de conotação não definitiva, nas coxas. Mas eu, e muitos colegas engenheiros, usamos o termo de uma forma mais generosa. Talvez por não ter uma palavra tão boa para definir nossas melhores ideias, talvez porque gostemos de usar o termo degradante como piada interna. O motivo não importa, o fato é que entre nós, pelo menos em minha experiência, a gambiarra é algo admirável. Não é um termo pejorativo, apenas engraçado; define uma solução não convencional para um dado problema. Não diz respeito a algo provisório, ou mal feito, como dá a entender o Sr. Holanda; diz respeito à criatividade! Quem nunca fez uma gambiarra, dizíamos, ainda não é engenheiro de verdade.

Empresas nunca usariam o temo gambiarra, oficialmente em documentos internos e/ou reuniões formais. Engenheiros nunca usariam esta palavra para definir o que criaram por escrito, ou em registros parecidos. Mas em particular, você sabe muito bem que já fez uma. E até, é orgulhoso dela, tenho certeza. Sem elas, sem a criatividade humana, todo trabalho seria chato demais para aguentar. A pior morte é a da alma, e nada assassina ela tão bem quanto um trabalho onde nenhuma criatividade (i.e. gambiarra) existe.

Quando se projeta qualquer peça em um veículo de produção seriada, algumas coisas básicas precisam ser conhecidas. A primeira, quanto dinheiro há para se investir de início, para fazer as ferramentas, moldes e fábricas necessárias para esta produção em série. Depois, qual é o volume de produção pretendido; na verdade algo que é usado para determinar o preço da tal peça. E por último, apenas na listagem, algo que devia sempre vir em primeiro lugar: seu desempenho.

Este último, o desempenho, é normalmente definido por normas e/ou requisitos a serem cumpridos. Quanto mais claramente se define esses objetivos, melhor será a peça, e, em última instância, o carro. Erre no que pediu, e o engenheiro lhe entregará algo extremamente bem projetado, mas inútil. Acerte, e tudo vai bem.

Esses requisitos, sejam ele de desempenho ou custo, determinam o sucesso e o fracasso do engenheiro em seu projeto. Se atingiu o desempenho no custo esperado, ou menor, chefe feliz. Se saiu caro, nem tanto. Se o desempenho não foi atingido, menos ainda! Se nada foi atingido, foi bem te conhecer. Hoje a indústria não gosta mais de deixar nada nas mãos de pessoas; existem procedimentos rígidos para cada passo do projeto. Desta forma, pretende ter a segurança de nunca errar. Consegue, mas às custas de zero criatividade, gente deprimida, e produtos que dão sono.

Antigamente o engenheiro era bem mais livre: dentro de seus parâmetros de custo e desempenho, ninguém queria saber como faria para chegar lá. O que importava era a salsicha: quantos e quais animais (ou outros materiais menos nobres) foram moídos para fazê-la, era melhor não saber. A responsabilidade era totalmente do engenheiro: errou, foi você que errou. Acertou, também. É engraçado notar como em muitas empresas, hoje o erro é sempre fugir do procedimento: o carro não anda, mas todos os procedimentos foram seguidos, então tudo bem, não há culpados. Outra coisa que alguns perseguem mais do que deveriam: segurança.

Mas divago; o que queria contar hoje é uma história minha, particular, de uma dessas gambiarras. Uma, que como muitas neste projeto, tenho muito orgulho de ter feito.

 

O VW Delivery

Estive na VW pela duração deste projeto, o primeiro VW Delivery, um veículo leve para os padrões de caminhão: um “5 ton” com rodado simples traseiro e freio hidráulico, novidade na fábrica, e um “8 ton”, com rodado duplo e freios a ar comprimido como todo pesado. A cabine era a antiga VW derivada do furgão LT alemão, ali em uma de suas últimas atualizações; ao mesmo tempo na Alemanha andava o projeto da nova cabine “Constellation”.

O Delivery atual

A cabine podia ser antiquíssima, mas num caminhão leve, tinha as dimensões corretas; a nova era muito grande para eles, como pode-se ver no Delivery atual. Parecia, um peru de Natal num pires, disse um gerente na época. Como os engenheiros de cabine estavam na Alemanha, fui contratado para o Delivery nessa função.

Nunca trabalharia tanto: eu e um estagiário, responsáveis por uma cabine inteira, acabamentos internos e externos juntos. Mas por isso mesmo, tinha total liberdade, sendo cobrado apenas por resultados; depois teria saudades disso.

O carro era todo novo, exceto a cabine bruta; mesmo ela acabou extensamente modificada, as únicas partes que não alterei foram o teto e as portas. Isso pelo simples motivo que como o chassi era todo novo e moderno, a cabine tinha que parecer nova também. Por fora, tudo era novo no acabamento. Por dentro, menos; o dinheiro não era infinito, e em algum lugar, tínhamos que economizar.

No painel de instrumentos, porém algo incomodava todo mundo, do Design VW, aos engenheiros e gerentes, passando também pelo Marketing, Planning e vendas. O instrumento central combinado, chamado na empresa de “Cluster”, era um desenho antigo, parecendo saído dos anos 1970, o que não deve estar muito fora da realidade. Era composto de três módulos separados, presos à uma moldura plástica. O central, velocímetro, era plano; os outros dois eram montados em ângulo à este plano. À esquerda, o tacômetro (sem tacógrafo, que era separado e digital nos VW), à direita, seis lugares para instrumentos diversos; poucas vezes todos os “buracos” eram usados ali.

O painel anterior ao Delivery

No Delivery, um caminhão novo, parecia fora de lugar. Nem em sonho podíamos fazer algo totalmente novo ali; o custo disso é enorme, monstruoso, um despropósito para aquele projeto. Todo mundo tinha idéias mirabolantes então. A mais maluca, claro que vou contar: usar o instrumento combinado do VW Fox.

Na Kombi: já pequeno demais.

O painel do Fox era um sucesso dentro da VW. Aqui fora, todo mundo o achava ridiculamente simples e pequeno, mas isso não era tão aparente para dentro dos portões da fábrica então. Era, seus criadores proclamavam aos quatro ventos (lembram do que disse sobre se fazer importante?) que era o “mais barato cluster de todo o mundo”. Se você já trabalhou na indústria, sabe como essas palavrinhas soaram forte para um certo tipo de pessoa. Virou uma febre: eventualmente Kombi e o Gol receberiam versões dele. E os caras queriam colocar aquela coisa minúscula no painel dos caminhões também.

O painel então corrente na VW caminhões.

Felizmente, uma alma caridosa com patente enxergou o absurdo da ideia, assim que o estilo preparou um protótipo artesanal. Naquele painel grande, o cluster parecia uma luz espia de tão pequeno…

Mas o problema permanecia. Os Delivery teriam apenas dois instrumentos no módulo direito, para redução de custo neste que pretendia ser um caminhão barato como todo VW. O enorme módulo parecia ainda mais feio e inútil nele.

 

Os módulos, separados.

Foi aí que eu e o designer residente da VW Caminhões, Fabio Heringer (o Design era na planta de São Bernardo do Campo; só ele os representava em Resende), um bom amigo que tinha uma vocação para humorista tão grande quanto para desenhar, nos reunimos na tela de CAD do Fujita, o “meu” desenhista-mor, para tentarmos inventar algo. Note que fazer isso foi idéia nossa e totalmente informal. Parece óbvio e corriqueiro, mas, de novo, a indústria mudou muito desde então: imagino o tanto de permissão necessária hoje, e a burocracia envolvida.

Como ficaram os módulos no Delivery: uma só caixa plástica integrada

Mas enfim, ficamos os três mexendo nos módulos virtualmente até acharmos uma solução. E chegamos nela. Era o seguinte: uma grande moldura plástica nova, plana, desenhada para ficar bonita e moderna. Nela, alinhados, no plano, três instrumentos: contagiro, velocímetro, temperatura e combustível, esses dois últimos pequenos.

A Moldura externa desenhada pelo Fabio.

Por trás desta moldura, iam os três módulos antigos, claro. O mais esquisito era o da direita: era inclinado para alinhar numa reta os dois instrumentos centrais. Claro que as faces dos instrumentos teriam que ser novas, mas isso era esperado. Tudo deveria ser recalibrado para esta posição torta também, mas perfeitamente possível.

O conjunto montado.

O investimento a mais, na verdade, era só da moldura plástica, e seu molde de injeção. Faríamos ela nova e bonita, algo que parecesse novo, moderno. Eureka!

 

O projeto

Todo mundo gostou da ideia e aprovou imediatamente. O Fabio desenhou ele mesmo a moldura, e apesar de restrições geométricas chatas e bem feias, conseguiu atingir o objetivo. Ficou bem legal! Infelizmente, as caixas plásticas completas do painel antigo, que pretendíamos usar montadas por trás, geometricamente não funcionariam; tivemos que criar uma caixa tripla nova, também plástica, onde montaríamos os mecanismos do cluster anterior.

O projeto do caminhão era enorme, e não existia tempo a perder. Assim que fizemos tudo isso, liberamos os desenhos, e fomos atrás do próximo problema, efetivamente esquecendo do Cluster. Mas o tempo passa rápido quando estamos ocupados, e um certo dia, o representante do fornecedor dos instrumentos aparece na minha mesa e joga em cima dela uma peça grande e azul. O cluster do Delivery! Eu e o Fugita, que como um ninja de repente apareceu na mesa, ficamos tão felizes que tiramos uma foto. Hoje olho para ela e rio de nossa felicidade boba; pais orgulhosos de um pedaço de plástico idiota. Incrível.

Mas a alegria, claro, duraria pouco. Peguei a peça e fui com o Fugita e o Fábio no caminhão ver como ficaria, certamente linda, um reflexo de nossa genialidade compartilhada. Mas não era para ser: a peça era MUITO menor que a abertura na qual devia encaixar perfeitamente. De volta à prancheta, camaradas…

O que aconteceu foi o seguinte: para projetar a moldura, pegamos o modelo CATIA em 3D do cluster antigo, e em cima dele, criamos o nosso. Em nenhum momento pegamos uma trena e medimos a peça real, para comparar; por algum motivo perdido na história, a abertura no painel era 15 mm maior, e o cluster de produção 15 mm maior em comprimento, que o desenho oficial. Só no comprimento: o resto das dimensões estavam iguais.

Parece algo bobo; mas podia ser um molde de injeção que valia o equivalente a 4 anos de salário meu no lixo. Por sorte, numa visita tensa ao fornecedor, conseguimos determinar que era possível modificar o molde existente. Ajudou que cheguei sem armas: eu errei e a VW vai pagar o conserto. Parece uma atitude óbvia, mas você ficaria surpreso com o que rola na realidade em situações assim…

No fim, qualquer boa-vontade da liderança para com nossa ideia genial foi para as cucuias, claro. O que ficou foi o erro e o custo em tempo em dinheiro. Mas tudo bem, mesmo. De verdade! Hoje o que me importa isso? Para mim, bom é a lembrança de um trabalho superlegal com dois caras divertidos. E a peça, que continua prestando serviços em caminhões Brasil afora.

Engenheiro existe para criar coisas, afinal de contas, e não para receber elogios e promoções; todo resto, embora também legal e importante, no final das contas, é mero barulho.

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