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Pensatas

Virtus vs. Chevette: 40 anos de evolução do sedã familiar

Quarenta e três anos separam um carro do outro. Eles podem compartilhar a mesma garagem, e o mesmo dono, mas são coisas muito, mas muito diferentes. É claro: vieram de mundos totalmente diferentes.

Quando o Chevette 1976 foi fabricado, telefone e televisão eram coisas estáticas, caras, que ficavam na sala de casa, imóveis, usadas apenas em ocasiões especiais, e crianças tinham que pedir permissão antes de usá-los. Se você tinha os dois em casa, sua família definitivamente era bem de vida; eram artigos de luxo. Especialmente se a TV fosse a cores, grande novidade tecnológica de então, a primeira transmissão colorida ocorrendo em 1972.

Não era todo mundo que tinha um automóvel particular na garagem, também; quando tinha, normalmente era um só e olhe lá. Ar-condicionado? A primeira vez que senti o geladinho do condicionador de ar foi no fim 1986, quando meu pai, para comemorar uma promoção, comprou uma Caravan básica 4 cilindros, 1982, mas com ar-condicionado; ninguém queria sair do carro no verão carioca de 1987. Era algo realmente incomum.

Enquanto escrevo aqui essas linhas para vocês, o faço alheio ao calor infernal que faz lá fora, que faria um Senegalês querer voltar para casa; aqui meu ar-condicionado split moderno silenciosamente mantém a temperatura de 22 graus. E não é o único aqui: todo mundo dorme de cobertor em casa, mesmo se lá fora o mundo ainda ferve. Televisão? Não dá para contar o número de telas conectadas aqui em casa, todas elas prontas para que você escolha um filme ou série do seu gosto, sem propaganda, a partir de uma biblioteca de exatamente 62394127471287927891928 títulos. Ou algo próximo disso.

Sim, o mundo moderno não é a desgraça que pandemias e guerras podem momentaneamente nos fazer pensar que é. Bom pelo menos não é para quem mora fora da Ucrânia, ou qualquer outra zona de guerra. Ou na África subsaariana. Ou no Haiti. Tá, tem muito lugar onde não melhorou, mas vocês me entendem: o que queria dizer é que o nível de conforto e facilidade que temos hoje em todos os aspectos da vida é incrível, extraordinário, principalmente para quem viveu o passado e sobreviveu para entender o mundo moderno.

Mas, é claro que nada é perfeito. Não existe ganho sem algum sacrifício infelizmente, nenhum progresso que não nos deixe saudade de algum aspecto da vida que, infelizmente, teve que ser deixado para trás na busca do tal progresso. É assim que a banda toca, infelizmente. O engenheiro é o cara treinado para entender isso; não existe ganho total, apenas o melhor compromisso entre milhares de fatores interdependentes em dado projeto.

Um carro mais confortável inevitavelmente traz isolamento, mais peso e com mais peso, menor eficiência energética. E assim por diante. Perfeição não existe, apenas escolhas diversas que, orientadas pelas vendas, são escolhas de uma maioria, da média da população, sobre o que e como um carro deve ser.

Durante muitos anos, porém, o progresso do automóvel sempre pareceu linear. O carro mais novo sempre era melhor que o mais velho, sem senões nem porquês. Pelo simples fato de que queríamos sempre mais: mais conforto, desempenho, tamanho. E conseguíamos. A impressão então é que o progresso continuaria assim: linear e indiscutível.

Mas de uns tempos para cá, não ficou tão claro assim. Se não conseguimos usar todo desempenho nem de um Sandero R.S. nas ruas, que dirá um supercarro de 2000 cv? E para onde iremos depois disso? 3000 cv? Alguém vai notar a diferença?

Mas divago; o fato é que, por esse exato motivo de dúvida quanto ao futuro, muitos começaram a olhar para trás. A acreditar que erramos em algum lugar e que a evolução não nos ajudou. O que talvez seja verdade quando se fala de supercarros ou mega-SUV’s, mas definitivamente esquece de enxergar a excelência do carro moderno. Principalmente os mais baratos e simples deles.

Por isso, olhando meus dois carros preferidos aqui de casa na garagem, pensei que seria interessante dividir uma comparação sincera com vocês. Afinal de contas, o Virtus 1.6 MSI 2019 que comprei zero km é um sedã baseado em carro pequeno, o Polo. E o Chevette 1976 também era um sedã “pequeno” em 1976. Ambos eram carros comuns, para famílias, sem muitas pretensões, quando novos. Transporte básico para famílias do terceiro mundo, era seu objetivo. É uma forma bem clara de se entender o que mudou, onde ganhamos e onde perdemos.

O meu Chevette não é exatamente original; seu desempenho definitivamente bem melhor que qualquer Chevette novo em 1976. Suas modificações basicamente tornam a comparação mais próxima: agora tem 1,6 litro (original 1,4) e cinco marchas (originalmente quatro), as únicas semelhanças com o Virtus. Isso, é claro, e o fato de que ambos têm 4 rodas.

 

Tamanho e espaço interno

As pessoas cresceram nos 43 anos que separam o projeto dos dois carros: a altura média da população, sem dúvida mais bem nutrida sempre, só aumenta. Assim, os caros tiveram que crescer também. Não há como comparar o espaço interno do Virtus com o do Chevette: meu filho de quase 1,9m de altura vai atrás de mim (tenho 1,92m de altura) com as pernas cruzadas no Virtus. E o porta-malas é tão grande que parece que com jeitinho, o Chevette inteiro é capaz de caber lá atrás.

Dois bancos de Chevette 88 em diante, no porta-malas do Virtus. Enorme.

Mas o aumento não foi só por motivos físicos, de aumento de altura da população. Esta população também é cada vez menos tolerante à riscos de toda forma; os carros tiveram que evoluir também neste sentido, de células de sobrevivência em caso de acidente.

É uma mudança radical de como o carro é construído. No Virtus, você deve ficar sempre dentro dele totalmente, vidros fechados, ar-condicionado ligado. Você está dentro dele, painel grande na sua frente, vidro dianteiro lá longe, portas distantes para dar espaço para airbags também de cortina e/ou laterais. No Chevette, parte do espaço para os cotovelos está fora do carro: a porta está pertinho e o vidro sempre aberto.

O porta-malas do Chevette é enorme também, mas relativo a seu tamanho. Bate alguns SUV modernos.

Como o Chevette, o Virtus é feito para ser barato, e não é tão complexo ou pesado como outros modernos. Na verdade, os pouco mais de 1100 kg são excelentes para o que é, na realidade uma verdadeira limousine do Polo. Não há como não perceber o ganho aqui.

Mas isso não quer dizer que o Chevette é ruim. Incrivelmente, o espaço para o motorista é grande e generoso; não há problema aqui nem para os mais altos. Atrás é pequeno, mas foi feito para crianças. E é possível levar quatro adultos nele; não muito confortavelmente lá atrás, mas é possível. Ponto alto do Chevette também é o porta-malas: imenso para o tamanho total do carro. Certamente é mais eficiente em espaço interno que o Virtus, mas por um motivo: preocupação bem menor com o que ocorrerá com os ocupantes em um acidente.

 

No dia-a-dia

De novo, não há como não ver o progresso aqui. O Virtus tem bancos que apesar de obviamente baratos, são excelentes em conforto e em segurar a gente na posição. Cintos retráteis de três pontos são práticos demais; ninguém lembra que saco era lidar com os sub-abdominais de 1976. Eu lembro, sempre que saio de Chevette.

E a central multimídia? Que coisa maravilhosa é isso. “Toque Led Zeppelin!” e ele coloca “Stairway to Heaven”. “Dirigir para casa!” e o Waze me coloca na rota mais rápida. Tem gente que não gosta, mas acho o ponto alto do carro moderno. Lembram de fitas cassete e mapas? Eu lembro e quero distância; em breve o Chevette ganha um receptor Bluetooth pelo menos. Mas nunca será igual á facilidade do carro moderno. O ar-condicionado e o isolamento do exterior também são excelentes para relaxar. Não há comparação possível, aqui só ganhamos.

É também incrível como anda bem, e é econômico. Numa hipotética situação de ter que chegar em algum lugar, rápido, iria com ele, sem dúvida. O desempenho é impressionante para um carro tão grande com um motor aspirado de apenas 1,6 litros, e também é impressionante a economia de combustível. Em estrada chega a fazer 17 km/l de gasolina à média de 100 km/h: algo que ainda custo a acreditar. A estabilidade também é impecável: não vou contar os carros de amigos que acompanhei em estradas truncadas por risco de perder credibilidade.

O Chevette é econômico para um carro de sua época; mas o é apenas por ser pequeno, leve, e sem nenhum acessório pendurado. Mesmo assim parece um Landau perto do Virtus: com só eu dentro, faz 11 km/l na estrada, na melhor das hipóteses. E o Virtus é, também, mais rápido em toda situação. Incrível.

Nem tudo que é Virtus, é ouro.

Tem outra coisa que preciso dizer: adoro dirigir o Virtus. Claro que isso não vale para todos: os com câmbio automático, sejam eles MSI, TSI ou GTS não me agradaram. A versão manual é tão melhor em espírito e comportamento que realmente me espanta. É literalmente outro carro. Não devia ser tão diferente, mas é.

Eu adoro o meu Virtus manual. Um carro moderno, aspirado e com câmbio manual, pode ser algo delicioso de verdade. Em pista fechada, track-days e afins tenho certeza de que não será grande coisa; não é para isso que foi feito, e ABS e controle de tração e estabilidade, imagino, entrarão em ação muito cedo. Já é assim em estradas truncadas, afinal de contas. Mas em 90% do tempo, tem barulho gostoso, anda muito, estica as marchas com vontade, nunca se perde numa curva e é uma delícia de andar. Gosto dele de verdade.

 

Moderno é melhor então?

É claro: o carro familiar moderno é objetivamente melhor em tudo que o de 1976. Então porque cargas d`água alguém teria um carro velho em casa? Nostalgia?

Eu tenho nostalgia com carros sim, mas não com Chevettes. Tive tantos deles, que não são coisa do meu passado: são parte da minha vida. Não, o motivo existe, e é bem real, apesar de não poder ser traduzido em números. O fato é que, se você realmente gosta de dirigir algo puro, direto, leve e simples, e não tem dinheiro para um carro esporte como um Lotus Seven, uma Alfa Romeo GTV ou um Miata, o Chevette é o carro para você.

Ah, um Weber de Bolonha! Lasanha à bolonhesa!

O Chevette primeiro é moderno em rigidez de carroceria: é rígido de uma forma moderna, onde todo trabalho de absorção é feito pelas suspensões, e não a carroceria, como era comum em 1970. Depois, faz curva de forma que agrada os especialistas, e protege os iniciantes: benigno, mas divertido. Tem aderência e freio de carro moderno. Depois, tem tração traseira, um controle a mais: o acelerador controla a atitude da traseira do carro, e os freios e direção a frente. A direção, embora um pouco pesada estacionando, é direta e pura em velocidade. O câmbio engata de forma sublime, diretamente em cima da caixa, operando os garfos internos diretamente sem cabos ou varões ou trambuladores.

O motor seria decepção se original; é fraco. Mas o meu, com comando e cabeçote que respiram alto e com volume, é uma delícia aqui também. Ele tem torque em baixa, e potência em alta; grita com força e vontade e anda pacas. O Virtus é mais veloz? Sim. Mas e daí? O Chevette acende o fogo da paixão na barriga, arrepia os cabelinhos da nuca, e faz algo no cérebro da gente que não devia ser permitido. “É fogo na cueca!” diria o saudoso José Resende Mahar.

Subjetivamente, o carro é uma delícia, um festival de sensações e respostas entusiasmantes que infelizmente não existe mais. Não existe mais: o cliente moderno simplemente não aceita tanta resposta. Tem que filtrar, diluir, deixar mais palatável. Se você gostava daquilo, nem adianta tentar achar em zero km: só no passado.

Não dá para ter tudo na vida, gente: são exatamente as coisas que fazem o Virtus ser um carro melhor, que o impedem de ser como o Chevette, tão cru, direto, sem filtro. Coloque ar-condicionado, direção assistida, vidro elétrico no Chevette e o faça pior; quanto mais leve e simples um Chevette é, melhor ele fica. Tem que tirar, não colocar coisa nele. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, já diria o mestre Rui Blanco.

Nem sempre quem chega primeiro, ganha.

O Chevette me liga diretamente à máquina, me faz um com o meu cavalo, ainda que a intensidade da experiência impeça-me de me perder em pensamentos em cima dele. Eu gosto mais e mais desse maldito carrinho a cada dia que passa; a lógica disso é inexistente, mas real mesmo assim. Mesmo debaixo de sol sem ar, nada abala esta paixão. Não gasto um fim de semana fazendo pequenas melhorias no Virtus; o Chevette sempre tem algo para se fazer para torná-lo melhor. Passar tempo com ele mesmo na garagem, é um prazer.

Não é só transporte: é uma extensão de mim, e uma mostra do que acredito que é importante num automóvel. Coisa que o Virtus, por mais que goste dele, jamais será.