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Car Culture

Wangan Midnight: este é o Devil Z da vida real

Initial D é bacana, icônico e tudo o mais, mas é só o primeiro anime (e mangá) sobre carros que todo mundo conhece. Depois das aventuras de Takumi Fujiwara pelas touge japonesas, o passo seguinte geralmente é Wangan Midnight. Em vez das estradas montanhosas do Japão, o cenário são é a famosa rodovia de Shuto Expressway, em Tóquio, também conhecida como Bayshore Route, ou Wangan em japonês. E o carro, em vez do AE86 preto e branco, é um Nissan S30 preparado conhecido como “The Devil Z” – que, de acordo com a lenda, é amaldiçoado.

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Com ele, Akio Asakura disputa corridas na Wangan – algo que já seria perigoso com um carro normal, com tráfego pesado e longas retas que permitem velocidades altíssimas, e é ainda mais perigoso com um carro muito rápido, extremamente difícil de dirigir, e que supostamente tenta matar qualquer um que se considere seu dono. Há quem considere Wangan Midnight uma série mais madura e sofisticada que Initial D.

Fizemos este pequeno resumo para falar de um carro específico – o carro usado nos filmes live action de Wangan Midnight. Trata-se de um S30 preparado de verdade, e não de um projeto cenográfico. Um hero car com mais de 600 cv, câmbio manual e possivelmente alguns milhões de ienes investidos.

Em 1991 estreou o primeiro filme live action de uma série que adaptava o roteiro do mangá para o cinema. Foram, no total, seis filmes lançados entre 1991 e 1994, e depois uma série de outros filmes contando partes específicas da história com mais detalhes – todos eles lançados diretamente em VHS, sem exibição nos cinemas. Por isto mesmo, até meados dos anos 2000 eles eram praticamente desconhecidos no ocidente, a não ser por quem já era fã dos mangás, entendia japonês e tinha uma boa conexão de internet.

O Devil Z de verdade foi feito pela Speed Shop Shinohara, também conhecida como SSS. Diferentemente de outras preparadoras japonesas que se tornaram icônicas fora do Japão, como Powerhouse Amuse ou a RE Amemiya, a SSS focou-se mais na cena japonesa e manteve-se mais conhecida em seu próprio país.

A Speed Shop Shinohara foi fundada em algum momento entre 1980 e 1982 por um mecânico preparador conhecido como Mr. Shinohara, que era especialista no motor L28 – o seis-em-linha de 2,8 litros do Nissan 280Z. Por volta de 1983 ele começou a disputar corridas e time attacks promovidos pela revista japonesa Carboy, quase sempre no autódromo de Fuji Speedway, e foi a partir dali que ele estabeleceu sua reputação na cena tuning japonesa. Os Nissan S30 preparados por Mr. Shinohara eram capazes de virar o quarto-de-milha nos 12 segundos baixos, por vezes chegando à casa dos 11 segundos.

Há quem duvide até mesmo que a SSS existiu – e, realmente, são muitas informações desencontradas, dados que não batem e histórias que não podem ser confirmadas. Entretanto, de acordo com os entusiastas na página Auto Team Retro no Facebook – que pesquisaram em revistas e mídia da época, além de conversar com pessoas que estavam envolvidas na cena – a SSS existiu mesmo. Infelizmente, porém, a preparadora fechou as portas em meados dos anos 2000, com a morte de seu fundador.

 

Mas vamos ao carro. Dado o conhecimento de Mr. Shinohara, era natural que o Nissan 240Z que serviu como base para o carro da série recebesse um L28 vindo de um 280Z turbo 1983 – ainda que pudesse ser chamado de “L31”, já que uma das primeiras coisas que a SSS fez no motor foi ampliar seu deslocamento para 3,1 litros.

Muito do que se sabe a respeito das especificações técnicas vem de fóruns, com informações cedidas por pessoas que viram o carro de perto durante a montagem do projeto e membros da equipe de produção dos filmes. Ainda assim, não há material impresso, por exemplo, ou um local para consultar informações direto da fonte.

Além do deslocamento ampliado, o carro tinha outros ingredientes explosivos debaixo do capô. O motor ganhou um novo cabeçote com melhor fluxo e um coletor de admissão feito sob medida. O sistema de alimentação mudou com o tempo – primeiro, três carburadores de 47 mm e depois, de 48 mm, com fluxo duplo e cornetas individuais. Mais adiante, foi instalado um sistema de injeção eletrônica com ITBs.

Os turbocompressores também mudaram – o Devil Z já teve dois Garrett T3/T04, e os trocou por dois IHI RHC-6 feitos sob medida (ou o contrário), sempre atuando juntos (e não sequencialmente).

Além disso, o carro tinha comando de válvulas de graduação mais nervosa, válvula blowoff HKS, bielas e pistões forjados (estes com revestimento de cerâmica). Era o bastante para entregar ao menos 620 cv e 77 kgfm de torque, moderados por um câmbio BorgWarner T-5, de cinco marchas, com embreagem Ogura de disco duplo. As rodas traseiras recebiam a força através de um diferencial R200 com autoblocante, vindo de um Nissan 300ZX 1987.

A suspensão usava amortecedores ajustáveis do tipo coilover e barras estabilizadoras feitos sob medida pela SSS, mantendo o arranjo original (MacPherson na frente e Chapman struts com braços triangulares inferiores atrás), porém com geometria específica. A rigidez do monobloco era amplificada por uma rollcage também feita sob medida – e que também garantia a segurança do piloto, bem como os cintos Takata de cinco pontos e os bancos de competição da Bride. Os freios usavam discos de 292 mm atrás e na dianteira, perfurados, e os dianteiros eram mordidos pelas pinças de quatro pistões do Nissan Skyline GT-R R32.

Você pode ver o carro em ação neste link – o primeiro filme na íntegra, disponível no Youtube, infelizmente sem qualquer tipo de legenda – e também no vídeo abaixo, um feature de 20 e poucos minutos que só traz cenas do carro acelerando e mais nada. Não que precise de mais alguma coisa…

Agora, se você por acaso almeja conferi-lo de perto, más notícias: depois que os filmes foram feitos e a SSS fechou as portas o Devil Z da vida real desapareceu do mapa sem deixar vestígio – e sequer é possível encontrar boas fotos ou outros vídeos. É um daqueles mistérios do Oriente que dificilmente serão solucionados – e talvez por isto seja tão emblemático.