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Car Culture

Z28, Z06, ZR1: quando o opcional vira nome


Processos minuciosamente definidos. Controles numéricos detalhados. Camadas e mais camadas de administradores cujo trabalho é definido por autorizar e controlar minuciosamente o que outros fazem. Códigos, procedimentos, tabelas e planilhas. Documentos, reuniões, apresentações e agendas. Burocracia.

Não é só na indústria do automóvel que tudo isso é normal, corriqueiro, parte da vida diária; qualquer corporação moderna é assim. Uma máquina de gerar trabalho repetitivo que não se importa com o que é produzido e vendido, o real motivo de sua existência. Uma burocracia só se importa em eternizar a si própria, a esconder em meio a procedimentos e regras diversas qualquer vestígio de improviso. Seu objetivo é acabar com todo acidente, imprevisto ou fagulha de criatividade; apenas a segurança e previsibilidade dos números e dos documentos assinados, da responsabilidade tão minuciosamente compartimentalizada que culpa é impossível de ser colocada numa pessoa somente. Um mundo burocrático é previsível e controlado de uma forma somente possível na imaginação do próprio burocrata.

Uma empresa com uma burocracia realmente eficiente, na verdade, se orgulha de nem saber o que produz. Afinal de contas, não é importante; a burocracia em si é suficiente para justificá-la. “A burocracia se expande para atender as necessidades da expansão burocrática.” Não acredita? Uma empresa que declara seu objetivo máximo é acidente zero, emissão zero, zero congestionamento produz o quê? Certamente não automóveis; talvez uma burocracia que garanta que eles não existam mais.

Mas é esta a missão atual da GM, a tradicionalmente mais bizantina organização produtora de automóveis que já existiu. Criada originalmente por Alfred Sloan durante o início do século passado, inicialmente esta organização nunca antes tentada foi um sucesso enorme, estrondoso, culminando num gigante duas vezes maior que qualquer concorrente.

Mas, como sempre acontece, depois que os concorrentes alcançaram a eficiência burocrática dela, vem diminuindo de tamanho desde então. Comitês e subcomitês são formados para descobrir o motivo, procedimentos para incentivar criatividade e novas maneiras de agir aparecem, mas de alguma forma, impedem a parada do processo. Procedimentos para ser criativo; somente uma burocracia poderia inventar tamanho paradoxo.

É salva basicamente por seu corpo técnico, as poucas, mas decisivas pessoas que usam os recursos e a longa história e expertise da companhia para ainda produzir veículos de primeira linha. A maioria desses veículos interessantes, porém, carregam não nomes, mas siglas. Normalmente alfanuméricas, como o novo Corvette com motor DOHC: será o Z06.

A gente tenta não fazer piada, mas é impossível não notar a contradição. Mesmo quando escapa das amarras da burocracia sufocante para criar alguns dos mais incríveis e criativos veículos que o mundo já viu, a GM não os dá um nome, mas sim uma sigla interna que define o código opcional do referido veículo.  Para uma burocracia, nada mais óbvio; se o mundo lá fora não o entende, deveria, ora bolas.

Este código alfanumérico de três dígitos é o hoje famoso “RPO”, que significa somente, opcional de produção regular. São três dígitos alfanuméricos que em si só não significam nada. Esta é a parte mais estranha de uma burocracia tão bem-organizada como a GM: seus códigos não são lá muito lógicos. Começando pelo número de peça: os alemães usam números inteligentes, sendo possível entender o carro, o tipo de peça e subconjunto somente olhando-se o número. Na GM, os números são sequenciais, começando do um, e hoje na casa dos bilhões. O número de peça 101 pode ser um motor, e o 102 uma arruela na lanterna traseira; sem lógica.

Os RPO, alfanumérico de 3 dígitos para funcionar nos computadores onde foi criado, foram listados inicialmente em série também, começando com o AAA (ajuste manual em 4 vias do banco dianteiro) e seguindo-se adiante. Imagina-se que se pudesse, por exemplo, usar o “A” inicial somente para opcionais de bancos, mas isso subestima a criatividade das pessoas criando opções diferentes. Os Z por exemplo são muito usados em pacotes de alta performance, mas originalmente existia para tipos de estepe e ferramentas de bordo; era o último item da lista.

Sim, o RPO, são uma verdadeira, e divertidíssima bagunça. Isso porque são criados por motivos mais diversos possíveis, para facilitar a documentação e a burocracia, não para facilitar nosso entendimento aqui fora. E mais: algumas vezes, quando a utilidade inicial de um RPO desaparece, ele é reutilizado para outra coisa diferente. Um LS3 por exemplo, pode ser tanto um motor 1.0 turbo de 3 cilindros, ou o conhecido V8 de caminhonetes com 6,2 litros. Confuso? O 1.0 veio nos anos 1980 em um Suzuki Swift vendido pela GM nos EUA, e o V8 muito depois dele ser descontinuado, nos anos 2000. O RPO dos carros feitos em São Caetano do Sul é SCS, e em São josé dos Campos, SJC. O “SJD” que vem em seguida, significa: ACCESSORY MOLDING – TAILGATE / DECKLID. Existem 3 motores com o RPO “LT4”, e o RPO “LSX”, aqui no mundo real o nome fantasia de uma família de V8 preparados para o aftermarket, significa na tabela da GM: “POWER OPTION CATERPILLAR 3126, 7.2L, 210 GROSS H.P. @ 2400 RPM”. Ein?

Existem RPO’s para versões e nomes de carro, para carros idênticos vendidos em dois mercados diferentes. Quando se precisa de um novo por qualquer motivo hoje em dia, se pega um em desuso, literalmente qualquer um. Uma verdadeira salada confusa de números e letras. E nem falamos aqui dos COPO, os “Central Office Production Order”, os pedidos especiais. Estes foram criados para viabilizar compras de frotistas: algo como “1000 taxis com motor 3.8 litros e não 4.1 litros”, por algum motivo específico, sem bagunçar ainda mais os RPO. Mas virou uma saída para uma miríade de problemas estritamente burocráticos, e é outra bagunça em si só, que é melhor deixar para lá.

Camaro Yenko SC 427 1969: possível por meio do COPO.

Mas sim, o RPO é hoje uma tradição muito legal da empresa: nomear alguns carros especiais com o seu código de opcional, algo que os entusiastas da marca, por algum motivo, já faziam por conta própria, descobrindo por exemplo os códigos RPO do motor, câmbio e suspensão que desejavam ao pedir seu carro. Algo muito comum quando se encomendava carros em concessionários, ticando quadrados em opcionais em formulários enormes que listavam os disponíveis. Coisa como: “DUJ: ASHTRAY SMOKER’S PACKAGE – U$ 1,01.”

Mas nunca existiu um Camaro DUJ. Existiu um Camaro Z28. E é com ele que nossa lista começa. Com vocês, os mais famosos Chevrolet com RPO no nome.

 

Camaro Z/28

Camaro Z/28 1967: o RPO vira nome de versão.

Para combater os Mustang Shelby GT350 nas competições de “carro esporte” dos anos 1960, a Chevrolet desenvolve um novo Camaro de competição, que pusesse ser vendido nas ruas para homologação. Como a série  Trans-Am limitava a cilindrada a 5 litros para suas corridas, foi desenvolvida uma versão inédita do V-8 de bloco pequeno: usando o bloco da versão 327 cid ( 5,4 litros), com diâmetro de pistões de 101,6 mm, e o virabrequim do antigo 283, com curso de 76,2 mm: com isso o motor tinha exatamente 4.942 cm³, ou 302 cid.

De resto, era um “catadão” de todas as opções de alta performance já disponíveis no Camaro, somadas ao novo motor. Suspensão “heavy duty”(G31), freios dianteiros a disco e sapatas especiais para os tambores traseiros (J52), câmbio de quatro marchas com alavanca no assoalho (M22), e diferencial autobloqueante Positraction (G80), direção por esferas recirculantes de relação rápida 17:1 (N44) e rodas de aro 15 com largos pneus diagonais Firestone Sports Car 200. Mas na verdade, acabou por, devido ao desenvolvimento em competição, ser bem mais que isso, e se tornar um pacote único. A partir de 1968, já contava até com freio a disco nas 4 rodas opcional (JL8), e até uma suspensão independente traseira foi tentada, mas descartada por não se traduzir em tempos melhores na pista. Todos os RPO’s separados que faziam este pacote oram agrupados em um novo, o Z28, para facilitar a definição burocrática desse carro de homologação especial.

Não se sabe de quem resolveu colocar o nome do pacote como o nome do modelo, mas parece algo que foi resolvido pragmaticamente: soava bem, e o objetivo não era sucesso de vendas, apenas homologação para as pistas. Mas um sucesso ele foi.

Para homologação era necessária a venda de 1.000 carros por ano, mesmo assim a Chevrolet conseguiu homologá-lo em 1967 com apenas 602 carros produzidos no problemático ano inicial. Performance vendia naquela época, principalmente provada nas pistas, porém. Conta o gerente geral da Chevrolet, Pete Estes, em 1969:

“Nós planejamos vender apenas 400 Z/28 em 1968, mas ao invés disso tivemos 7.000 pedidos. Cara, como tem jovens lá fora, e como eles tem dinheiro… Quando eles souberam como Mark Donohue destruiu seus rivais na Trans-am com um Z/28, eles ficaram malucos para ter um. Em 1969, nós planejamos vender 27 mil. Você acredita nisso? Vinte e sete mil!”

O Z/28 se tornou o mais famoso dos Camaros, e o RPO interno definitivamente virou um símbolo de super-Camaro, uma versão mais forte dele, presente em toda geração do modelo.

 

Citation X11

O Citation foi a primeira tentativa da GM em se fazer um carro familiar com tração dianteira, lançado com muita fanfarra em 1979. A versão esportiva era o Citation X11, com o V6 de 2,8 litros e 135hp. Mas pegadinha aqui: não existe RPO com X. A plataforma do Citation era a plataforma X, e o esportivo, a variante 11. Quase!

 

Corvette ZR1 e Z06

1970: ZR1 é só uma opção.

O primeiro ZR1 era um pacote de desempenho especial nos Corvettes C3 equipados com o V-8 LT1 de 5,7 litros e alta performance, opcional. O pacote ZR1 adicionava uma transmissão manual de quatro velocidades, freios mais potentes, um radiador de alumínio e suspensão com molas, amortecedores e barras estabilizadoras melhores.  Mas era apenas um opcional, um RPO, não o nome do carro ou versão. Ainda mais raro era o ZR2 da mesma época: oferecido apenas com o magnífico V8 bloco grande LS6, o mais potente da época.

C4 ZR1: agora um nome.

Mas o ápice do Corvette C4 de Dave McLellan seria uma versão equipada com o motor V8 DOHC em alumínio de 5,7 litros desenvolvido pela Lotus sob contrato. O código da versão era, você adivinhou, o RPO ZR1, que desta vez se tornou também o nome dele. Nenhuma tradição nova parece possível depois de Zora, sabe-se lá o motivo.

Mas é claro que agora, ZR1 se tornou uma tradição novamente: seria o modelo Corvette mais veloz de todos. Na geração seguinte isso mudava tempórariamente: o Corvette mais rápido era agora o Z06, outro RPO. O motivo é filosófico, e veio com a mudança do engenheiro-chefe. Explico:

O Z06 original: só um RPO

Z06 apareceu nos Corvettes C2 Stingray em 1963. Era um pacote especial de opcionais que faziam do Corvette um carro pronto para competições, um catadão de peças de alta performance juntas, como seria depois o Z28. Criado por Zora Arkus-Duntov (óbvio) para ajudar os competidores amadores a especificar um Corvette correto para competição, não era um nome de modelo então, apenas um opcional, uma caixinha para ticar no concessionário ao comprar o carro. Mas é claro que se tornou uma lenda sussurrada por pilotos de alcova por anos.

Foi o que levou Dave Hill, engenheiro-chefe do Corvette C5, a tirar a poeira deste RPO em desuso e colocá-lo no SEU Corvette mega-rápido. Lançado em 2001, pretendia ser antes um carro rápido em pista, mais que apenas um motor gigante. Ainda que 385hp (depois 405hp) não fossem pouco numa época em que o Corvette normal tinha 350hp. Na verdade, potência do C4 ZR1, com um motor “normal”, OHV. Hoje, três gerações depois, se tornou uma escada de desempenho: Z06, depois ZR1.

 

Z24 e Z34: refletindo a glória do Camaro

A GM fica realmente saudosista nos anos 1980 e 1990; um sinal é esse, criar uma versão esportiva do Cavalier (nosso Monza) chamada Z/24. Equipado com o V6 do maior Citation, de 2,8 litros agora com injeção e 140cv, era um cupê interessante. Tão interessante quanto um Monza pode ser.

Mas melhor mesmo era o cupê esporte do Lumina de 1990. Chamado de Z34, tinha um powertrain interessantíssimo: o mesmo V6 pequeno Chevrolet de 60° entre bancadas, mas aqui com cabeçote DOHC/4 válvulas por cilindro, 3,4 litros e 210cv. Com câmbio de cinco marchas manual, fazia o cupê Lumina quase tão rápido quanto um Camaro contemporâneo no mundo real. Mas peraí, 34 é mais que 28, então devia andar mais, não? Ah! 34 era o deslocamento! Se você ainda não ficou confuso, confesso que já estou…

 

Camaro ZL1

O ZL1 era um motor: o V8 big-Block de alumínio criado secretamente para os Chaparral de Jim Hall. Um big block que pesava como small-block, por meio de um COPO (aquele “jeitinho” que comentamos) acaba por aparecer em alguns Camaros para corrida de arrancada em 1969. Em 2012, é revivido para o mais sensacional de todos os Camaro, um equipado com 550cv de V8 supercharged. Agora, nome da versão, claro. frequentemente aparece junto com outro RPO que não é nome de versão, mas toma importância durante os anos 2010 entre entusiastas: 1LE. Este designa, todos sabemos, o pacote para uso em pista do Camaro. Quer apostar que um dia 1LE vira modelo?

 

ZR2 e Z71: RPO’s fora de estrada.

Em 1994, certamente pegando carona no famoso Corvette ZR1, chega um novo tipo de modelo de alta performance da Chevrolet: a picape S10 ZR2. Aqui a alta performance era fora de estrada, não em asfalto: Bitola maior em 100 mm, chassi de perfil fechado mais rígido e diferente, rolamentos maiores nas rodas, pneus fora de estrada em enormes rodas de 31 polegadas, suspensão mais alta, amortecedores Bilstein e diferenciais mais parrudos, que podiam ser travados sob comando do motorista.

O nome e RPO durariam somente tanto quanto a picape S10; na nova Colorado que a substituiu nos EUA, reverteu para Z71: outro RPO em uso como nome de modelo off-road extremo nelas. Por sinal, o nome S10 não vem de um RPO, mas existe um RPO S10: significa “PACKAGE TRIM LEVEL 10”. Seja lá o que isso signifique…

Falta um pouco de criatividade aqui GM, e um pouco de ligação mais próxima com o zeitgeist. O que precisamos agora é de um camaro ou um Corvette ZR2, fora de estrada! Não? Tá parei.

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