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A Kombi mais antiga do mundo e outras histórias

Goste você deles ou não, há um fato inegável sobre os Volkswagen arrefecidos a ar: eles têm carisma. Não é preciso procurar muito para ouvir centenas de histórias de pessoas que tiveram sua história marcada por um Fusca ou uma Kombi, citando o cheiro característico de combustão que invade a cabine, os passeios no “chiqueirinho” atrás do banco traseiro do Fusca, ou as viagens em família na Kombi.

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É por isso que muitos destes carros acabam se tornando “parte da família” e até recebem apelidos. Sofie, por exemplo, é o apelido da Kombi mais antiga de que se tem conhecimento. Uma das primeiras a sair da fábrica da Volkswagen em Wolfsburg, no mês de agosto de 1950, a a Kombi azul de chassi 20-1880 completou 70 anos – e está em plena forma.

Atualmente, Sofie faz parte do acervo da Volkswagen, dada sua importância histórica. Mas ela percorreu um longo caminho de volta para casa: primeiro, ela foi comprada pelo dono de uma empresa na cidade de Hildesheim – foi a primeira Kombi do lugar, e começou imediatamente a trabalhar como veículo de carga. O ramo da companhia e o nome de seu proprietário se perderam na história, mas sabe-se que ela ficou em posse da mesma pessoa por 23 anos antes de ser vendida a um colecionador alemão – o primeiro de vários donos que a Kombi teve entre 1973 e 1992.

O último destes donos tentou vender a Kombi através dos classificados de uma revista dedicada aos Volkswagen antigos, porém não conseguiu. Por dois motivos: primeiro, porque a Kombi mais antiga do planeta era apenas uma Kombi velha na época. Segundo, porque os anúncios não eram muito bons – sem fotos e com apenas duas ou três linhas de texto. Se você lia revistas de carro na época, certamente vai lembrar como era.

Foi um dinamarquês chamado Tonny L. quem apostou na Kombi. Ele viu um dos anúncios, ligou para o número informado e descobriu, por meio do antigo proprietário, que a Kombi tinha o número de chassi mais baixo conhecido na comunidade de entusiastas do modelo. Depois de uma breve visita para conferir a Kombi de perto, decidiu comprá-la sem pensar muito – ainda bem.

Tonny soube imediatamente que ficaria com a Kombi por muito tempo, e por isso decidiu dar um nome a ela – Sofie. Segundo ele, em homenagem à primeira Kombi registrada na Dinamarca, que também foi batizada Sofie por seu proprietário.

A ideia era trazê-la de volta à condição de nova, começando por uma restauração mecânica completa – afinal, a Kombi ficou 19 anos parada. Depois, veio a recuperação estética, incluindo pintura, estofamento e detalhes de acabamento internos e externos. Por questões pessoais, porém, Tonny só conseguiu dar início ao processo em 2000. Em 2003, a Kombi ficou pronta para sua estreia em um encontro de Volkswagen antigos na cidade de Bad Camberg, na Alemanha. Nos anos seguintes, Tonny rodou mais de 20.000 km ao volante de Sofie, participando de diversos eventos e encontros. Para ele, a Kombi mais antiga do planeta tinha de ser vista e admirada por todos.

Foi questão de tempo até que a própria Volkswagen descobrisse que a Kombi mais antiga do planeta estava na Dinamarca. Registros dos números de chassi disponíveis na fábrica confirmaram que Sofie era a Kombi mais antiga do planeta ainda circulando pelas ruas, e em 2014 Tonny foi contatado por email pelo Volkswagen Oldtimer Department, divisão que cuida do acervo de clássicos da VW na Alemanha. Tonny já havia recebido inúmeras ofertas nos eventos e concursos dos quais participava (em quase todos eles a Kombi era premiada como a mais bonita, e era sempre a mais antiga), mas sempre recusou.

Quando a VW o procurou, porém, Tonny já estava começando a sentir que estava velho demais para continuar sendo o guardião de Sofie – e, por isso, aceitou vendê-la de volta à Volkswagen. Segundo a fabricante, Tonny disse que preferia vê-la no acervo da Volks, onde tinha a certeza de que a Kombi seria bem cuidada e continuaria fazendo outras pessoas sorrirem, do que nas mãos de um colecionador particular.

É possível que existam outras Kombi mais antigas, mesmo que por poucos meses de diferença, escondidas em algum lugar do mundo. Mas inteira, rodando e reconhecida pela Volkswagen, só mesmo Sofie. Aliás, a Volkswagen até deu uma festa de aniversário para ela, com direito a bolo de aniversário com velinhas e tudo. Velinhas de ignição!

 

E o Fusca mais antigo do mundo?

Em 2015, fizemos uma matéria sobre o Fusca mais antigo em circulação no planeta – o carro de Otto Weyman, que em 1975 comprou um Volkswagen Käfer 1942 para usar no dia a dia… e nunca mais se desfez do carro.

Existe, porém, um entrave técnico, como descrevemos na ocasião:

De acordo com os registros oficiais, o veículo nasceu como um Kübelwagen, chassi nº 8032, produzido no dia 20 de maio de 1942 – ainda em meio à Guerra.

O Kübelwagen foi usado para fins militares por alguns anos. Primeiro, por um escritório das forças armadas na cidade de Kassel. Depois, pela Wehrmacht, as forças armadas do Terceiro Reich; e em seguida levado para a base aérea de Riem, em Munique. Então a Segunda Guerra acabou, os americanos venceram e confiscaram tudo o que os alemães tinham, incluindo o Kübelwagen. Os vencedores da guerra levaram o carro de volta para a fábrica da Volkswagen, onde recebeu uma nova carroceria, fabricada depois da Guerra – uma carroceria de Fusca.

É por isso que, para alguns especialistas, o carro não é um Fusca – como Manfred Grieger, historiador do museu da Volkswagen em Wolfsburg, Segundo ele, o número do chassi é o que conta e, por isso, não importa a carroceria: o carro é um Kübelwagen, e não um Käfer.

De lá para cá, porém, outro Fusca ainda mais antigo já foi localizado e restaurado – um KdF-Wagen (primeiro nome do Fusca, antes mesmo de Volkswagen) fabricado em 1941. Seu proprietário, o polonês Ondrej Brom, encontrou o carro em 1988, perto de sua casa, apodrecendo embaixo de uma árvore. Segundo conta em seu próprio site, Ondrej esperou nove anos até que o proprietário decidisse vendê-lo e fez questão de ser o primeiro da fila.

Na época, porém, Ondrej sequer sabia o que havia acabado de comprar. Quer dizer, ele sabia que era um Fusca muito antigo, mas não imaginava que era o mais antigo de todos. Quando foi iniciada a restauração, foi por uma radiografia do chassi que ele descobriu: seu KdF-Wagen era o exemplar de chassi nº 20. Até o presente momento, não há registro de outro chassi mais antigo nos arquivos da Volkswagen.

Mais tarde, Ondrej descobriu que o primeiro dono de seu Fusca foi o compositor de óperas alemão Paul Lincke, que possivelmente ganhou o carro de presente do governo alemão. O processo de restauração teve início em 2012 e levou seis anos – durante os quais foi feito um extenso trabalho de pesquisa para levantar as características originais do carro. Foi especialmente complicado, segundo Ondrej, porque diferentemente dos protótipos e dos exemplares de pré-produção, quase não existe documentação visual sobre as primeiras unidades vendidas ao público – exceto ilustrações, que nem sempre são precisas.

O carro ficou pronto apenas em 2018, e Ondrej chegou a publicar um livro documentando o processo de pesquisa e restauração de seu Fusca 1941. Ele sabe que, a qualquer momento, um Fusca mais antigo pode ser encontrado – mas diz que não se importa e não pretende vendê-lo nunca.

 

E os outros?

Quando se trata de outros Volkswagen a ar, as coisas ficam mais complicadas. Por sua significância histórica, Kombi e Fusca são os mais “fáceis” de rastrear – mas o mesmo não vale para variantes da plataforma a ar da Volks, como os sedãs, cupês e peruas da família Type 3 (Variant, TL e o sedã 1600). Destes, apenas o cupê Karmann Ghia recebe a mesma atenção – e, ainda assim, de forma menos intensa que no caso do Besouro e da Velha Senhora.

O Karmann Ghia começou a ser produzido em 1955, usando o chassi e a mecânica do Fusca com uma carroceria cupê projetada e fabricada pela Ghia. Os primeiros exemplares, fabricados entre 1955 e 1957, são conhecidos como “Lowlight” – isto porque os faróis ficam em uma posição mais baixa em relação aos para-lamas. A diferença entre os modelos posteriores é sutil, mas perceptível com atenção.

De acordo com o site Karmann Ghia Lowlight Registry, o exemplar mais antigo de que se tem conhecimento é o carro de chassi 1-0915580, fabricado em agosto de 1955 – exatos 65 anos atrás. O site diz se tratar do carro de nº 39.

Atualmente ele pertence a um médico alemão, e está na mesma família desde que foi comprado zero-quilômetro em uma feira promovida pela própria Volkswagen. O site também diz que o carro foi usado em fotografias do kit de plastimodelismo da Revell para o Karmann Ghia na década de 1990, e que um dos adesivos de placa fornecidos no kit era exatamente a placa do carro de verdade.

 

E no Brasil?

Ah, o Brasil… é incrível como é difícil encontrar informações precisas sobre carros brasileiros, mesmo modelos relativamente recentes, como esportivos dos anos 2000. Quem dirá, então, informações sobre os Volkswagen a ar mais antigos do Brasil?

O Fusca de Jorge Cirne, que já apareceu no FlatOut Classics, é a exceção – seu carro, um exemplar de 1949, é o Fusca mais antigo ainda circulando pelo Brasil e livre de modificações. Conhecido dos antigomobilistas, Cirne comprou o carro porque estava interessado no motor, mas acabou descobrindo que o Fusca todo era ainda mais interessante. Ele só conseguiu convencer o dono anterior a vender o carro depois de bastante insistência, no início dos anos 2000. O processo de restauração levou três anos, e o Fusca hoje está exatamente como era quando saiu da fábrica da Volks em Wolfsburg.

Entretanto, existe outro Fusca ainda mais antigo em nosso País: um exemplar de 1946 que pertence ao colecionador André Beldi, de Sorocaba (SP).

Foto: André Beldi/Arquivo pessoal

André encontrou o Fusca em 2016, abandonado em um terreno na cidade de Taubaté (SP), apodrecendo no tempo. Ele se interessou depois que viu os emblemas da Volkswagen com engrenagens, como era na década de 1940. Foi preciso consultar o arquivo da Volkswagen na Alemanha para constatar que o Fusca havia sido produzido em 1946.

O carro estava totalmente descaracterizado, com a carroceria encurtada, para-lamas modificados, sem portas e sem teto. André descobriu depois que o Fusca havia sido comprado por um circo alemão em 1948 e recortado para se tornar parte de um número de manobras. Poucos anos depois, em 1951, um capitão do exército alemão veio para o Brasil e trouxe o carro junto, bem como toda a estrutura do circo. Assim, o Fusca continuou participando de espetáculos no Brasil até a década de 1970.

Em vez de restaurá-lo à originalidade, André decidiu apenas recuperar o Fusca para as condições que ele tinha quando se apresentava na Alemanha – afinal, as modificações também fazem parte da história do carro.

Foto: André Beldi/Arquivo pessoal

A Kombi e o Karmann Ghia mais antigos do Brasil, porém, são assunto mais complicado. Como não existe um registro confiável como na Alemanha, o que se tem são os anos de fabricação. De acordo com Jorge Cirne, que participa ativamente da comunidade de VW clássicos no Brasil, existem alguns exemplares de 1950 da Kombi – têm-se notícia de ao menos cinco, em diferentes condições de preservação.

A Kombi 1950 de Maurício Marx – muito parecida com a Sofie, aliás

O mesmo vale para os Karmann Ghia. Jorge diz que os mais antigos do Brasil foram fabricados em 1962 – já utilizando o chassi dos Type 3, que era mais largo. “Existem vários exemplares circulando no Brasil, mas é difícil definir qual deles é o mais antigo de todos”, comenta o colecionador.

 

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