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História

Alfa Romeo 2300: o único Alfa que não é italiano

 

Tudo começou na verdade com o sonho da indústria nacional. Numa época em qual ainda sonhávamos em ser grandes, e sabíamos que para isso acontecer uma indústria forte era essencial. Ainda me parece que é. Mas ninguém parece se importar com ela, com a produção de bens de consumo que sempre foi a base de uma nação próspera. Existe alguma outra maneira de gerar a riqueza necessária para o progresso de um país? Me ajudem aqui; não sei o que queremos, ou esperamos como nação sem uma política de fomento dela. alfa romeo 2300

Mas divago; o que interessa aqui é que foi este sonho levou a criação de uma pequena utopia na base da serra e da estrada que ia do Rio de janeiro a Belo Horizonte, a BR040. Ali mesmo no brasilianisticamente nomeado distrito de Xerém, em Duque de Caxias, estado do Rio de Janeiro, tentamos criar algo grande.

A FNM, Fábrica Nacional de Motores, pretendia ser não apenas uma fábrica, mas o motor tecnológico e inicial para transformar uma nação agrária numa industrial. Um centro de aprendizado e geração de riqueza. Um projeto nacional de cidade Industrial auto-sustentada – a “Cidade dos Motores”.

Nela, em torno do parque industrial, foram também erguidas vilas habitacionais para 25.000 habitantes, e todo o resto necessário para a vida deles: escola, assistência médica, comércio, igreja, clubes. Um cinturão agropecuário, administrado pela própria empresa, supriria todas as necessidades alimentares dos trabalhadores e suas famílias. Uma utopia de desenvolvimento que previa um futuro brilhante.

Hoje, visitar Xerém é uma tristeza; a decadência, a sujeira, e o pior: a desesperança num futuro melhor, é o que marca fortemente a paisagem. A fábrica, sob a administração da Marcopolo, mas em decadência desde o seu abandono pela Fiat em 1985, fechou definitivamente em 2020.

Mas durante o tempo que esteve funcionando, foi algo único. Começou estatal, sim, mas por um tempo foi o braço brasileiro de uma marca que, fora esta fábrica especificamente, nunca realmente produziu fora da Itália. A Alfa Romeo. Esta é a história do único carro Alfa Romeo a ser produzido ao sul do Equador: o 2300

 

Origem técnica: o tipo 102

A Alfa Romeo, antes, mas principalmente durante a segunda guerra mundial, era um fabricante de motores aeronáuticos, que produzia alguns ultra sofisticados carros esporte e de competição, a preços estratosféricos. No meio do automóvel, era o equivalente ao que é a Ferrari no pós-guerra, quase exatamente. Mas a sua importância estratégica na indústria bélica italiana a fez emergir do conflito uma empresa estatal.

1900 Berlina, 1950.

O fim da guerra foi tenso para a empresa, com a maioria de sua diretoria fugindo do país ou, como o Presidente Ugo Gobatto, encontrando um fim trágico. Como uma boa história italiana, essa começa com violência: Gobatto foi assassinado, crivado de balas de metralhadora, bem na frente do portão da fábrica.

A Alfa-Romeo do pós-guerra seria diferente, com planos diferentes então. O corpo técnico permanecia, dando aos carros o verniz de alta tecnologia e amor à máquina que a manteria famosa, mas agora a história era bem diferente: a Alfa Romeo produziria carros de forma seriada, em alto volume. Seriam projetados pela equipe de Orazio Satta Puliga, o real mentor da Alfa Romeo que conhecemos hoje. E o primeiro dos Alfa Romeo deste tipo é justamente o que foi a inspiração básica para os nossos Alfa Romeo sulamericanos: o 1900 Berlina de 1950.

O tipo 102, 2000, 1958

Como todo Alfa dali em diante, era um carro de alta produção, mas sofisticado; na verdade no topo da tecnologia da época. No caso do 1900 isso significava um sedã monobloco quando a maioria ainda tinha chassi separado; uma suspensão dianteira independente e um eixo traseiro rígido, mas fabricado na Alfa para ser extremamente leve, além de bem localizado pela suspensão traseira.

O advento de um Alfa Romeo monobloco quase causou uma síncope na indústria de Carrozzieri italiana da época; por causa disso a Alfa fornecia monoblocos incompletos para que ela pudesse continuar trabalhando.

Debaixo do capô, um motor que se tornaria um velho conhecido nosso: o quatro em linha com bloco de ferro fundido, e cabeçote em alumínio DOHC com duas válvulas por cilindro e vela central que seria usado aqui do FNM JK até o último Alfa Romeo 2300 em 1986. Era um motor moderníssimo em 1950: a maioria dos motores então tinha válvulas laterais ainda.

No 1900, eram 82,55 mm x 88 mm, para um total de 1.884 cm³, e 90 cv. O 1900 TI tinha mais taxa e carburador duplo para 100 cv, e em 1952, as versões mais potentes ganhavam um diâmetro de pistão maior de 84.5 mm, para 1975 cm³ e 110 cv.

Em 1957, o 1900 Berlina, um carro fortemente inspirado nos americanos, tinha ficado velho; de novo inspirado no desenho americano aparecia uma nova carroceria, e um novo nome que refletia a unificação da cilindrada maior do quatro em linha: o Alfa Romeo 2000.

A sigla interna do 2000 era tipo 102. Na Itália, seria oferecido além da carroceria sedã de seis lugares (banco inteiriço viabilizado pelo câmbio de cinco marchas sincronizado com alavanca NA COLUNA), como Spider (Touring) ou Sprint (cupê, Bertone, desenho do jovem Giugiaro).

O 2000 continuava um carro moderníssimo, mas agora a marca tinha um outro ainda mais avançado: as novíssimas Giulietta, e depois o famoso Giulia tipo 105, com seu novo e avançado motor todo em alumínio. Tanto que em 1962, apareceria um novo motor para o tipo 102: um seis em linha da família do Giulia; com 2,6 litros, era agora o Alfa Romeo 2600.

 

A FNM

Enquanto isso acontecia na Itália, muito longe dali no trópico e agrário Brasil, o governo do presidente Juscelino Kubitschek fomentava a instalação de uma indústria automobilística local. Com participação pequena da Alfa italiana, e grande da família Matarazzo, aparecia uma empresa que pretendia fabricar o 1900 por aqui sob licença: a Fabral – Fábrica Brasileira de Automóveis Alfa.

O negócio não deu em nada, mas a licença e o plano para produzir Alfa Romeo aqui foitransferido, em 1958, para a FNM em Xerém. Neste ponto, o plano já era trazer o mais moderno 2000, o que foi feito pela FNM.

O FNM 2000 JK era um carro inacreditavelmente avançado para o Brasil de 1960 onde foi lançado. Como fora lançado na Europa em 1958, e lá estava no estado da arte, imaginem aqui onde recebíamos ferramentais rejeitados do primeiro mundo como o Aero Willys e os Simca V8.

Era o primeiro carro aqui a contar com pneus radiais, caixa de cinco marchas sincronizadas, tambores de freio aletados de alumínio, embreagem de acionamento hidráulico, sistema elétrico de 12 V, luzes indicativas de nível baixo de combustível e ventilação forçada. Até molas helicoidais nas quatro rodas eram uma novidade. Aos 160 km/h de seu motor de duplo comando, era também o mais veloz carro nacional.  E o mais caro: cheio de luxos inimagináveis então, como banco reclinável, ar quente e desembaçador, luzes no porta-malas e capô e espelho de cortesia no para-sol. Oh, o luxo!

Muito depois do seu fim na Europa, o FNM 2000 continuaria a evoluir por aqui. Mas claro que não foi um passeio no parque: qualidade de fabricação e rede de assistência reduzida eram problemas constantes. A produção também nunca decolou, ficando estacionada ao redor de 400 carros por mês.

Em 1968, depois de anos e anos sem saber o que fazer com a fábrica, o governo militar entregou a FNM para a Alfa Romeo italiana, num negócio sem licitação e até hoje não muito bem explicado. O 2000 vira 2150 com alterações que elevam a potência para 110 cv; mas a situação em Xerém permanece mais ou menos como sempre esteve. Especulava-se a vinda das Giulia, depois do Alfasud, mas não passou disso: especulação. Mas a Alfa Romeo fez algo diferente: desenvolveu um carro novo para o Brasil.

 

O Alfa Romeo 2300

Desenvolvido na Itália exclusivamente para o Brasil, o Alfa Romeo 2300 foi em seu lançamento em 1974, de novo, facilmente o carro mais avançado em produção por aqui. O Alfa Romeo 2000 ara o projeto 102, o FNM era o projeto 102-B, e este, o 102/12, mostrando suas origens no carro de 1958.

Seu motor era ainda o antigo quatro em linha do 1900, sim, mas ainda assim, agora com 2.310 cm³ e 140 cv, continuava o único motor DOHC aqui no Brasil. Somado ao câmbio de cinco marchas, aos freios a disco nas quatro rodas, era algo muito acima do resto em especificação. Logo, o Alfa Romeo 2300 TI teria dois carburadores duplos!

O carro tinha uma nova carroceria moderna, que contava inclusive com ancoragem para cintos de três pontos, novidade por aqui. Era muito parecido em estilo com o Alfetta italiano, embora fosse maior, e totalmente diferente mecanicamente. Lançado inicialmente com um carburador duplo, tinha a potência aumentada para 149 cv SAE brutos a 5700 rpm, e 23,5 mkgf a 3500 rpm na versão com dois carburadores duplos horizontais, a TI. Chegava a mais de 170 km/h, o que era bem veloz para sua época e país.

Alfa Romeo 2300

O carro era grande, medindo generosos 2730 mm de entre-eixos, e um comprimento próximo de 4700 mm. Tinha um espaço interno excelente, e porta-malas gigante. E diferente de seus concorrentes como o Landau, era um carro com estabilidade fora do normal. Sua suspensão dianteira independente, e o eixo traseiro localizado por braços inferiores, e o acerto italiano, o fizeram ganhar fama de um dos mais estáveis carros nacionais, lado a lado com o Passat TS.

Alfa Romeo 2300

Mas a aventura da marca no Brasil acabaria logo: em 1976, vendia as suas operações aqui para a Fiat, então em processo de criação de uma fábrica própria em Betim-MG para produzir o 147. Inicialmente a Fiat manteve a fábrica de Xerém como produtora de caminhões Fiat Diesel, e dos Alfa Romeo 2300, que continuariam em produção. Mas citando problemas de qualidade insolúveis na planta, moveu a produção do carro para Betim em 1978. A nova origem e responsabilidade pelo carro foi registrada numa placa afixada no pára-lama dianteiro esquerdo, dizendo: produzido pela Fiat. A qualidade, de fato, melhorou muito, principalmente em pintura e proteção à corrosão.

Alfa Romeo 2300

A Fiat continuava melhorando o carro, que era agora o veículo de passeio mais caro do pais. Em 1980, o novo Alfa Romeo 2300 Ti 4 receberia algumas novidades que passavam a ser praxe em carros de luxo: direção assistida progressiva, cintos dianteiros retráteis, vidro térmico traseiro com cortinas de enrolar e antena impressa no para-brisa. O acabamento interno foi melhorado, e por fora, um pequeno facelift.

Apesar das dificuldades, principalmente derivadas da rede de assistência limitada e da produção pequena, foi um sucesso: representava 25% das vendas dos carros de luxo, e vendia ao redor de 2000 carros/ano.

O Alfa Romeo “Rio”

Em 1981, uma tentativa de exportação para a Europa aconteceu. Foi exportado para Holanda, Suíça e Alemanha sob a designação Alfa Romeo 2300 Rio. Cerca de 600 carros foram enviados para a Holanda. Os carros provaram ser quase impossíveis de vender e graves problemas de qualidade deterioraram ainda mais a imagem da Alfa Romeo, com os importadores sendo eventualmente forçados a comprar de volta a maioria dos carros. Os que restaram são procurados para fornecer motores melhores e mais novos às velhas 1900 e 2000 europeias.

Mas essa exportação rendeu um sem fim de propagandas brasileiras que igualavam o Alfa Romeo 2300 à Mercedes-Benz e BMW, aqui no Brasil. Antes da internet, pouco se sabia do que acontecia lá, e engolíamos felizes as mentiras.

Quando chega 1983, o Landau deixa de ser fabricado, e apenas o Opala Diplomata e o Del Rey eram concorrentes do 2300. E quer saber? Mesmo sendo o mais antigo dos três, ainda era competitivo, e tecnologicamente perfeitamente contemporâneo. Um testamento de como os Alfa Romeo estavam a frente de seu tempo.

Em 1985, um último face-lift e modernização, mas que amoleceu sobremaneira a suspensão para enfatizar o luxo, e não o desempenho; o carro era realmente bem mais silencioso e macio, ainda que por isso ficasse mais pesado: 1410 kg, de um mínimo histórico de 1300 kg em 1974. Ao fim de 1986, encerrava-se a sua produção, e a aventura do único Alfa Romeo tupiniquim.