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Car Culture

Audi A2: fracassado, mas à frente de seu tempo

A Audi é conhecida  por várias conquistas e qualidades: as vitórias dos Auto Union, os títulos do Audi Quattro no WRC, a humilhação promovida sobre os norte-americanos com o Audi 90 da IMSA, o domínio nas 24 Horas de Le Mans na últimas duas décadas, com nada menos que 13 vitórias. Seus carros de rua são igualmente adorados pelos entusiastas: hot hatches como o RS3, o superesportivo R8 e, claro, a linhagem de super peruas que começou na década de 1990 com a RS2 Avant. Mesmo os carros de luxo da Audi – A6, A8 e suas devidas variantes esportivas – gozam de uma reputação impecável.

Hoje, porém, viemos falar de um Audi que não deu muito certo, mesmo sendo um carro interessantíssimo – e tentar entender o motivo para isto.

Lembro perfeitamente da miniatura em die cast do Audi A2 que tive há muitos anos. Um carrinho curioso, com linhas arredondadas, perfil monovolume, vigia traseiro envolvente e capô curto. Extremamente simpático, e foi isto que me atraiu. Eu gostava de carros “fofos” quando era criança. Podem me julgar à vontade.

E não foi apenas o Dalmo de oito anos de idade quem curtiu o Audi A2 naquele 1999. O compacto recém-lançado também agradou aos britânicos da Autocar, que derreteram-se em elogios. “A melhor coisa a respeito do Audi A2 é que não se trata apenas de um mero exercício de design”, dizia a avaliação publicada na época. “Sim, ele é agradável aos olhos e ao toque, mas também é uma delícia de guiar.” Acontece que ele não vendeu nada, passou sete anos nas lojas para tentar recuperar um investimento bilionário, e acabou desaparecendo das ruas.

O que aconteceu, então?

O Audi A2 foi uma resposta velada ao Mercedes-Benz Classe A, primeiro compacto de tração dianteira feito pela estrela de três pontas – que, apesar do fracasso no “teste do alce”, foi retrabalhado e tornou-se um carro excelente. Ele foi apresentado como conceito em 1997 no Salão de Frankfurt – mesmo evento no qual o primeiro Classe A foi lançado. Dois anos depois a versão de produção estreava, em novembro de 1999. Foi completamente proposital.

O carro produzido em série era muito parecido com o conceito, que se chamava Audi AL2. Este foi projetado por Derek Jenkins sob a supervisão de Peter Schreyer, que na época era chefe do departamento de design da Audi – não por acaso, o A2 tinha sua identidade visual claramente inspirada pelo Audi TT, cujas linhas eram assinadas pelo próprio Schreyer. Ou seja: silhueta arredondada e detalhes retilíneos, quase industriais, com os faróis tão bem integrados às linhas da carroceria que pareciam ter sido estampados nela, e uma área envidraçada generosa.

O caimento do teto era suave, terminando em um corte abrupto – a famosa traseira Kamm – e as proporções eram harmônicas e agradáveis. Tudo arrematado pela construção sólida típica dos alemães, com o mesmo capricho no design e no acabamento que se via nos modelos mais caros do portfólio.

Colocando em perspectiva, o Audi A2 não se afastava tanto da identidade visual da marca. O que ele realmente revolucionava era o método de construção. A Audi utilizou uma enorme quantidade de alumínio na estrutura e na carroceria, o que tornava o A2 mais leve que modelos de porte semelhante – para se ter ideia, ele tinha entre 895 kg e 1.030 kg – para se ter ideia, o Classe A começava na faixa dos 1.300 kg. Para isto, a Audi apostava em uma construção do tipo space frame, inspirada pelo Audi A8, na qual a estrutura de alumínio extrudado era responsável por todo o estresse, enquanto os painéis da carroceria, também de alumínio, não eram estruturais.

O resultado era um carro com centro de gravidade baixo – algo que, somado à suspensão caprichosamente acertada (MacPherson na dianteira e eixo de torção na traseira, com vários componentes em alumínio), garantia uma dinâmica excelente para um compacto de tração dianteira.

Mas sportividade nunca foi o forte do A2 – seu mote era a economia de combustível. Notavelmente, o briefing do projeto dizia que o Audi A2 deveria ser capaz de levar quatro pessoas de Stuttgart a Milão – um percurso de mais de 500 km – com um tanque de combustível. E ele conseguia.

Houve quatro opções de motor – duas a gasolina e duas a diesel. Primeiro, vieram dois motores 1.4 – a gasolina e turbodiesel, ambos com 75 cv. Mais tarde, em 2002, foi lançada a versão com motor 1.6 turbo FSI de 110 cv, que era o único capaz de cumprir o zero a 100 km/h em menos de dez segundos. A versão mais impressionante, porém, era a chamada 3L.

 

Com motor 1.2 turbodiesel de 61 cv, o A2 3L passou a ser oferecido na Europa em 2001. Seu nome tinha a ver com o fato de ele consumir apenas três litros de combustível a cada 100 km, ou 33 km por litro. Sim, trinta e três quilômetros por litro. Além do peso reduzido e do câmbio escalonado para economia, o A2 3L tinha o menor coeficiente aerodinâmico (Cx) entre todos os carros novos da época: apenas 0,25.

Havia outros detalhes interessantes no projeto, porém. Como o capô que não abria – apenas a grade dianteira, a fim de permitir que se checasse o nível do óleo e do líquido de arrefecimento. Para ter acesso ao motor, era preciso remover o capô por completo.

O porta-malas era enorme para o porte do carro: 390 litros com o banco traseiro totalmente recuado – mais que o Audi A3 da época. Isto tinha a ver com a construção do tipo “sanduíche”, também usada pelo Mercedes-Benz Classe A, na qual a porção central da estrutura era usada para acomodar o tanque de combustível e os componentes eletrônicos, e permitia uma assoalho totalmente plano e melhor aproveitamento de espaço.

Por cima de tudo isto, o A2 também oferecia diversas opções de customização, sendo tratado pela Audi da mesma forma que seus modelos mais caros – incluindo a disponibilidade de diversas tonalidades especiais de pintura e materiais de acabamento interno, como tecidos de diversas cores, couro Nappa e até mesmo Alcantara. Hoje em dia existem outros compactos com pegada mais luxuosa mas, na época, este tipo de coisa era impensável.

E foi justamente por diferenciar-se tanto que o A2 acabou fracassando. Na percepção do público, ele era caro para seu porte e potência – custava bem mais que um VW Golf em sua versão de topo. Além disso, por mais que fosse bem resolvido, seu design não foi bem recebido pelo público na época. Os compradores que iam visitar uma concessionária da Audi acabavam optando pelo A3, que era maior, mais potente, mais tradicional e custava praticamente a mesma coisa.

A Audi colocou enormes expectativas no A2, e investiu um bocado no seu desenvolvimento. Contudo, acabou vendendo apenas 177.000 unidades em sete anos (de 1999 a 2005). No mesmo período, o Mercedes-Benz Classe A vendeu mais de um milhão. Consequentemente, o prejuízo estimado com o A2 foi de € 1,3 bilhão.

 

O Audi A2 é um carro surpreendentemente raro de encontrar hoje em dia. Em grande parte isto se deve à construção em alumínio: centenas de exemplares restantes são tirados de circulação todos os anos, pois o reparo na carroceria de alumínio exige um processo mais caro e especializado, com soldas TIG – e, com isto, mesmo unidades com danos pequenos após um acidente têm declarada sua perda total.

Em 2011, a Audi chegou a apresentar um novo A2 em versão conceitual – novamente com construção de alumínio, porém com peças em fibra de carbono e um motor elétrico. O projeto foi abortado, talvez por receio de um novo fracasso, e a Audi manteve bem mais tradicional A1, lançado em 2010, como modelo de entrada.