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Viagens e Aventuras

“Bala de canhão”: os roteiros para cruzar o Brasil de carro

Você já conhece a Cannonball Run. Aquela “corrida informal” criada pelo jornalista Brock Yates nos anos 1970 como forma de protesto contra os limites de velocidade demasiadamente baixos. Ela atravessava os EUA em sua maior distância, de costa a costa, de Nova York a Los Angeles, para provar que motoristas habilidosos poderiam viajar em altas velocidades através do país sem grandes riscos ou prejuízos — mais ou menos como acontecia e acontece até hoje na Alemanha, que rejeita veementemente o controle de velocidade nos trechos ilimitados de suas autobahnen.

Além da Cannonball, há um outro roteiro culturalmente impactante nos EUA, que também atravessa o país, porém à moda antiga, em velocidades mais relaxadas, nas quais se aprecia o caminho — que é muito mais importante que o destino: a famosa Rota 66. A rodovia não chega a cruzar todo o território americano, mas se estende por quase 4.000 km, o que a levou a ser conhecida como “a rua principal da América”.

As duas rotas, apesar de suas diferenças, são semelhantes na representação daquele que é considerado o principal valor americano: a liberdade. Na Cannonball Run a liberdade está na transgressão; na Route 66 ela é metafórica, simbolizada pelo longo caminho que te leva a todos os lugares e a qualquer lugar — o auge do escapismo motorizado.

O que me levou a pensar: o Brasil está logo atrás dos EUA nas listas de maiores países do planeta. Temos o quinto maior território, eles têm o quarto (ou terceiro, dependendo da fonte) — mas somos maiores em terras contínuas porque a área dos EUA inclui o Alasca, o Havaí e outros territórios insulares. Como os americanos, o transporte ferroviário não é muito presente e os grades deslocamentos tendem a ser feitos de carro, mesmo. Temos longas rodovias, enormes corredores rodoviários, mas nenhum tem a relevância cultural do roteiro da Cannonball Run ou da Route 66.

Um dos motivos, creio, está justamente na variedade: temos ao menos duas rodovias que cortam o país de Norte a Sul e outras duas de Leste a Oeste. O outro tem a ver com nossa geografia. Os EUA são pouca coisa menor que o Brasil em terras contínuas (isto é: sem considerar os territórios insulares), mas enquanto eles têm 4.800 km separando a costa Leste da costa Oeste, a distância de Norte a Sul é de apenas 2.660 km, e seu território atravessa o continente, ligando-se aos dois Oceanos. Só faz sentido cruzar o país de costa a costa, não?

No Brasil são 4.400 km de Norte a Sul, mas 4.320 km de Leste a Oeste (lembra daquela decoreba das aulas de geografia: “o Brasil é um país equidistante?”). E não temos saída para o Pacífico. Então ficamos todos concentrados na única costa, e há dois sentidos de travessia: você pode cruzar o país “do Oiapoque ao Chuí”, mas também da Ponta do Seixas, na Paraíba, a Mâncio Lima, no Acre.

Isso, claro, se você tiver o veículo off-roader mais poderoso do planeta, porque é impossível chegar ao extremo Norte e ao extremo Oeste sobre rodas. Nos EUA há cidades costeiras nos dois lados, por isso é possível cruzar o país inteiro mesmo — e é por isso que a Cannonball Run parte de Nova York até Los Angeles.

Se considerarmos apenas os municípios mais extremos do Brasil, o maior roteiro rodoviário de Norte a Sul do Brasil liga as cidades de Uiramutã, em Roraima, a Chuí, no Rio Grande do Sul. São 6.000 km que se iniciam próximo à fronteira com a Guiana, cruza o estado de Roraima inteiro, corta o Amazonas, atravessa Rondônia, passa pelo sul do Mato Grosso, corta o Mato Grosso do Sul ao meio, passa pelo extremo oeste do Paraná e de Santa Catarina, cruza o centro do Rio Grande do Sul e segue até a fronteira com o Uruguai, na cidade de Chuí — que é cortada pela fronteira.

Além de ser o roteiro de travessia Norte-Sul, ele também é o maior roteiro direto que se pode fazer sobre rodas no Brasil — ainda que inclua uma travessia de balsa ao longo de 12 km e 50 minutos sobre o Rio Negro e o Rio Amazonas.

Se você quiser seguir a rota do Sol, de Leste a Oeste, a viagem começa na Ponta do Seixas, em João Pessoa, que é o ponto mais oriental de toda a América e se estende por 5.400 km até o município de Mâncio Lima, o mais ocidental do Brasil, a cerca de 100 km da fronteira com o Peru.

Neste roteiro você sai do litoral paraibano, atravessa o norte de Pernambuco, o Piauí, o sul do Maranhão, o norte de Tocantins, o Pará inteiro e segue para o sul do Amazonas pela problemática Transamazônica, o extremo norte de Rondônia e o Acre inteiro ao longo de 5.400 km.

Para evitar os atoleiros da Transamazônica, há um outro roteiro de 5.950 km. Os quase 600 km a mais se devem ao fato de você precisar ir para o Sul antes de rumar para o Oeste. De João Pessoa/PB o trajeto segue para Recife/PE, de onde você segue para a Bahia e continua descendo até Sussuarana, no Sul do estado. Dali a viagem segue o rumo do Oeste passando por Brasília/DF, pela região metropolitana de Goiânia/GO, por Cuiabá/MT, e aí segue para o Noroeste, passando por Ji-Paraná/RO e Porto Velho/RO, Rio Branco/AC e enfim cruza o Acre até Mâncio Lima.

O problema destes roteiros é que, diferentemente dos dois roteiros americanos, eles não têm relevância cultural. São apenas os trajetos que você deve seguir se quiser viajar de carro entre os pontos extremos do Brasil. Culturalmente — e economicamente — não há muita razão em ir de um extremo ao outro como nos EUA ou mesmo no Cone Sul.

A história brasileira, o desenvolvimento demográfico e econômico deram aos nossos deslocamentos rodoviários uma dinâmica bem diferente dos EUA. Como a maioria da população, da história e dos estados brasileiros estão todos próximos da costa, a travessia nacional mais comum é a viagem entre as regiões Sul e Nordeste, principalmente pela BR-116, o principal corredor rodoviário do País.

Ela começa em Fortaleza, capital cearense, e segue até Jaguarão, no Rio Grande do Sul, sem interrupções e totalmente pavimentada, estendendo-se por 4.486 km. Ela cruza nove estados, passa pelas três capitais da região Sul, duas do Sudeste (RJ e SP), além de Fortaleza. Se o Brasil tivesse uma Cannonball Run (não estou sugerindo nada, ok?), creio que seria este o roteiro a ser seguido.

Agora… o roteiro rodoviário brasileiro que traz alguma semelhança com a Route 66, se isso for possível, certamente é a BR-101. Não porque ela remete à liberdade ou permite conhecer todo o Brasil, mas porque ela margeia o litoral, tem a maioria de sua extensão com pista simples, e tem mais apelo turístico — principalmente no Nordeste, onde liga as capitais Salvador, Aracaju, Maceió, Recife, João Pessoa e Natal.

Seu percurso completo tem pouco mais de 4.765 km, passando por doze estados e sete capitais, e ligando as cidades de Touros/RN a São José do Norte/RS.