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Lista de compra

Cinco carros de R$35.000 a R$ 40.000 para o dia-a-dia | Guia FlatOut de Usados 2020

A crise financeira dos últimos anos foi cruel com o nosso sempre maltratado dinheiro. Entre 2014 e 2020 — apenas seis anos, veja bem — a inflação oficial acumulada foi de 35%. Na prática, isso significa que os R$ 23.990 cobrados pela Fiat para te vender um Palio Economy em 2014, quando ele era o carro mais barato do Brasil, equivalem hoje a R$ 32.405.

Um ponto em que sempre toco nestas discussões sobre preços aqui no FlatOut é que a longevidade do Real afetaram um pouco da nossa noção de inflação — especialmente porque ela esteve razoavelmente contida nos anos 2000 e primeira metade dos anos 2010. Então quando encontramos o Fiat Mobi zero-quilômetro por R$ 38.000, ele parece mesmo caro demais — especialmente porque a renda média não acompanhou o aumento da inflação. E ainda que o assunto aqui não sejam os carros zero-quilômetro, essa escalada inflacionária e a crise daquele período impactou diretamente o mercado de usados. Afinal, os usados um dia são novos.

O que aconteceu foi uma redução drástica no volume de vendas e, como consequência, uma incômoda falta de variedade entre os usados nos segmentos abaixo dos R$ 45.000. Isso já foi algo notado na lista anterior, com os carros de R$ 30.000 a R$ 35.000, mas ainda persiste nesta lista, embora com um impacto um pouco menor.

Como nas listas anteriores de usados para o dia-a-dia, esta lista tem como critérios : os carros precisam ter, no máximo, 10 anos e 80.000 km (ou uma quilometragem média de 8.000 km/ano). Isso por duas razões: carros com mais de dez anos já começam a sofrer com escassez de peças, e a quilometragem média dos usados fica demasiadamente elevada. Então limitamos a dez anos e 80.000 km. Depois, os carros precisam ter airbags, ABS e ar-condicionado. Há carros interessantes que poderiam ter entrado na lista, mas acabaram ficando fora pela ausência destes equipamentos.

Com estes critérios, a lista de R$ 35.000 a R$ 40.000 ficou da seguinte forma:

 

Nissan Versa Unique – 2016 a 2017

Quanto custa? Entre R$ 38.000 e R$ 41.000

Um dos carros preferidos dos taxistas e motoristas de aplicativo, o Nissan Versa é um dos raros casos de usados que ainda estão em produção praticamente sem alterações estéticas ou mecânicas. Nesta faixa de preço você pode levar o Versa em sua antiga versão de topo Unique, que tem praticamente a mesma configuração do V-Drive (atual nome do Versa) zero-quilômetro em sua configuração de topo.

Bancos de couro, ar-condicionado digital, rodas de liga leve, comandos do áudio no volante e sistema multimídia (com tela de 5,8 polegadas, mas ao menos é um multimídia), câmera de ré, cintos de três pontos para todos os ocupantes, vidros elétricos nas quatro portas e GPS integrado são os principais itens da lista.

O carro também é espaçoso, o que faz dele uma opção racional para as famílias: o porta-malas tem 500 litros, o assoalho é praticamente plano na traseira e os 2,60 metros entre os eixos ainda são bem atuais para seu segmento.

O motor é o mesmo do V-Drive e quase o mesmo do Logan — o Renault tem start-stop e um alternador que varia a carga sobre o virabrequim para economizar energia —, mas ele tem um padrão de economia bem adequado mesmo para 2020. Segundo os testes do Inmetro, na época, o 1.6 de 111 cv era capaz de rodar 11,8 km/l com etanol em percurso rodoviário e 14,8 km/l com gasolina no mesmo tipo de trecho. Isso sem deixar o carro apático, porque ele ainda vai de zero a 100 km/h em 11 segundos.

Os pontos fracos aqui são o acabamento pouco refinado e pouco inspirado e seu visual externo, que também não faz ninguém sonhar com um Versa. Se isso te impediria de comprar um carro bem-equipado e confiável como este, pule para o próximo da lista. Talvez ele seja mais adequado ao seu gosto.

 

Chevrolet Cruze/Cruze Sport6 LT – 2012 a 2014

Quanto custa? Entre R$ 35.000 e R$ 40.000 (sedã) / Entre R$ 37.000 e R$ 40.000 (hatchback)

Se você precisa de espaço mas não consegue gostar do Versa, aqui vai o outro carro espaçoso da lista: o Chevrolet Cruze. Nesta faixa de preço você encontra tanto o sedã quanto o hatchback Sport6, embora este último em menor número que o primeiro, porém alguns anos mais novo que o irmão de três volumes.

Mesmo na versão básica LT, ele tem airbags frontais e laterais, sistema de áudio com comando no volante e bluetooth, computador de bordo, controles de tração e estabilidade, isofix, ar-condicionado automático e, na maioria dos carros, bancos de couro.

Os dois também usam o mesmo motor, um Ecotec 1.8 com comando duplo variável e 144 cv (com etanol; 140 cv com gasolina), combinado ao câmbio manual de seis marchas ou automático, também com seis marchas — é possível encontrar as duas versões nesta faixa de preço. Os dois também compartilham o entre-eixos de 2,68 metros, mas começam a se diferenciar no porta-malas, que tem 402 litros no hatchback e 450 litros no sedã.

A principal diferença aqui, contudo, é o ano de fabricação. Nesta faixa de preço você encontra os sedãs de 2012 a 2013 em sua maioria, enquanto o Sport6 chega ao modelo 2014 por menos de R$ 40.000 se você escolher o câmbio manual.

Quanto ao desempenho, o Cruze tem um bom equilíbrio entre conforto e esportividade, ergonomia clássica de sedãs/hatches médios e espaço para os ocupantes do banco traseiro. Os pontos de atenção aqui são o câmbio automático, que pode apresentar um problema relativamente comum, que o mantém em modo de emergência no modelo 2012, e a linha de combustível dos modelos 2013 e 2014, que passaram por um recall para reparar uma falha que poderia causar vazamentos no filtro.

 

Ford Ka SEL 1.5 – 2015 a 2018

Quanto custa? Entre R$ 36.500 e R$ 40.000

Com alguma sorte você até consegue encontrar um Ka 1.5 mais recente, com o moderno motor 1.5 Dragon de 137 cv, mas eu recomendo fortemente que você não faça isso porque este motor usa correia de sincronização banhada em óleo, o que é uma tentativa de combinar a durabilidade do sistema de corrente à suavidade do sistema de correia dentada. Acontece que, mesmo reforçada com kevlar, esta correia ainda é feita de borracha, material que libera partículas à medida em que se desgasta. Com isso, as partículas de borracha podem entupir o pescador de óleo do cárter, comprometendo a lubrificação e levando o motor à perda total.

Antes do 1.5 Dragon, o Ka era equipado com um motor bem mais confiável, o bom e velho Sigma 1.5. Embora tenha chegado ao Brasil com este nome somente a partir de 2012, trata-se de uma atualização do antigo Zetec-S dos anos 1990, oferecido por aqui entre 1996 e 1999 no Fiesta CLX e na Courier como opção mais potente ao Endura-E 1.3.

São “apenas” 110 cv, mas a 5.500 rpm, o que significa que você terá uma potência máxima mais utilizável que no Dragon, onde os 137 cv aparecem a 6.500 rpm. Além disso, o motor também foi compartilhado com Focus, Fiesta e EcoSport, o que deve garantir o fornecimento de peças por um bom tempo.

O principal aqui é que ele é exatamente o mesmo carro que o atual Ka, porém com um motor que não corre o risco de fundir por falta de óleo. A plataforma é a mesma, assim como os itens de série e acabamentos internos — somente a versão com sistema multimídia se diferencia pela tela espetada no topo do painel, mas você pode resolver isso com um sistema aftermarket. Não será original, mas ao menos ela estará em um carro cujo motor funciona.

 

Hyundai HB20 – 2015 a 2017

Quanto custa? Entre R$ 35.000 e R$ 40.000

Um dos carros mais populares nesta faixa de preços é o Hyundai HB20. Tão popular que eu sequer pude escolher uma versão para indicar. Com qualquer ponta desta faixa, você consegue comprar um modelo 1.6 com todos os opcionais possíveis, ou um 1.0 espartano. Pode escolher um intermediário mais novo, um modelo de topo mais antigo. Câmbio manual? Tem. Automático também.

O que você precisa saber é que o HB20 é um carro muito bem acertado como os dois anteriores desta lista, que seu motor 1.6 Gamma ainda está em produção e equipa o Creta e o próprio HB20, mas já esteve no cofre do Hyundai Veloster, do Hyundai i30 de segunda geração, e também dos primos Kia Cerato desde 2006, do Kia Soul desde 2009 e, mais recentemente, do Kia Rio. É um motor que se tornou muito popular no Brasil e, portanto, deve garantir um pouco de sossego a quem se preocupa com a disponibilidade de peças — e você pode até dar um tapa nesse 1.6 para curtir por aí, se quiser.

O acabamento do HB20 está pouco acima da média do segmento, especialmente se comparado aos rivais da mesma época como o Ka, citado logo acima. Todos eles terão ao menos direção com assistência elétrica, ar-condicionado, travas elétricas e vidros elétricos. Os mais equipados também terão vidros elétricos nas portas traseiras, rodas de liga leve e sistema multimídia.

Pessoalmente eu ficaria com o HB20 Comfort Style 1.6 2016, que tem tudo isso citado acima mais rodas de liga leve, comandos no volante e câmbio manual. Mas pelo mesmo preço também dá para levar o Comfort Plus 1.0 Turbo (o modelo antigo, com injeção indireta) 2016/2017, ou então o 1.6 Premium 2014, que tem sistema multimídia e couro por todos os lados. As opções e variações são tantas que será como se você pudesse personalizar o carro.

Evidentemente ele tem seus pontos negativos e o mais conhecido deles é a qualidade da pintura, que pode apresentar defeitos ou ser frágil demais. Outra crítica comum dos proprietários aponta para problemas na ignição e injeção, além do curso e altura da suspensão, muito baixa e curta para as irregularidades mais extremas.

 

Toyota Corolla GLi 1.8 – 2011 a 2012

Quanto custa? Entre R$ 36.500 e R$ 40.000

Por essa você não esperava, não é mesmo? Ao selecionar os carros da lista fiquei em dúvida entre o Etios e o Corolla, porque o compacto, apesar de ser feio e mal-resolvido ergonomicamente (e de ter embreagem por cabo, o que provoca o tal desgaste prematuro do disco), é um carro robusto e confiável, econômico e tem uma dinâmica correta, além de ser razoavelmente ágil, mesmo na versão 1.3.

Mas então você procura um pouco mais e descobre que, pelo mesmo preço, pode levar um Corolla tão conservado e tão rodado quanto o Etios, porém três ou quatro anos mais antigo. A ideia aqui não é ser racional? Pois a racionalidade está aqui: comprar mais carro com o mesmo valor.

O Corolla que você leva para casa é o GLi 1.8, mas dá para encontrar até mesmo o Altis 2011 procurando com calma e negociando com algum talento. O 1.8, embora fosse das versões mais baixas do Corolla, era equipado com ar-condicionado digital, rodas de liga leve de 16 polegadas, câmbio automático, bancos de couro e o básico da dignidade a bordo no século XXI. E ele ainda é robusto e confiável como o Etios, além de ter um bom apelo na hora de revender.

E mais: se você não gostou da ideia de ter um Cruze, talvez o Corolla seja o carro para você. Seu 1.8 também produz 144 cv, seu porta-malas tem 470 litros (20 litros a mais que o do Cruze), embora seu entre-eixos seja o mesmo do Nissan Versa.