FlatOut!
Image default
Car Culture

Cinco carros entusiastas que deviam ser importados


O que debilita mais rapidamente do que trabalhar, pensar, sentir sem uma necessidade interna, sem uma profunda escolha pessoal, sem alegria, como um autômato do dever? É a receita para a decadência de mente e espírito.” – Friedrich Nietzsche

Todo mundo sabe que o mundo lá fora é cruel e implacável. A maioria das pessoas corre o máximo que pode, o dia inteiro todo dia, para pagar suas contas e garantir seu telhado, sem muito tempo para pensar como. Muitas vezes, não fazendo o que quer, mas o que pode e consegue naquele momento, e por isso mesmo, não é educado julgar ninguém por isso. Existem trabalhos que ninguém quer, mas tem que ser feito, e graças a Deus pelas pessoas que os fazem. Não me entendam mal: todo mundo já teve que apenas aturar um emprego ou ocupação. É a vida.

Mesmo assim, é triste ver um mundo atual tão fixado em retorno financeiro para o que se faz na vida. Dinheiro é bom, mais que isso, essencial, e todos queremos ele. Mas precisamos mais que dinheiro. Precisamos fazer algo na vida que seja importante para nós mesmos. Não é “fazer o que se gosta”. Se fizéssemos só o que gostamos, todo mundo estaria na praia, jogando bola ou deitado debaixo do cobertor; precisamos fazer algo que nos seja importante, nem que seja difícil, chato, trabalhoso, ou até perigoso.

Existe algo dentro de nós que nos move para frente, que age em cada pessoa de uma forma única, um chamado que deve ser respondido se uma pessoa quer ter a satisfação e a realização pessoal que formam a real felicidade, aquela que aplaca a eterna ansiedade da existência. Um mecânico tem que resolver um problema difícil de descobrir, um pedreiro tem que construir uma casa, um bombeiro tem que entrar com coragem em um prédio envolvido em chamas, e sair de lá vivo e com seu dever cumprido. Nada disso é fácil ou divertido, mas só assim se amansa a voz dentro de você, preenche-se aquele vazio incômodo na boca do estômago, e tranquiliza-se a existência. Mesmo se nada de material venha disso. Melhor que venha, claro, mas um potencial realizado é sua própria recompensa.

2017 Chevrolet Camaro SS 1LE

Por isso me espanta profundamente o estado da indústria automobilística mundial, e especialmente a brasileira. Uma pessoa poderia pensar que as pessoas que trabalham nela acham carros algo importante, que vale a pena o imenso trabalho necessário para projetá-los, fabricá-los, vende-los, mantê-los. Mas não é assim. Dentro dela, as pessoas agem como se traficassem drogas ou matassem carneirinhos fofos para viver; um reflexo de décadas de campanhas que colocam o automóvel, este incrível ampliador da liberdade individual, como o vilão do mundo, fonte e causa de todos os males. Gente interessada em fazer carros interessantes estão cada vez mais raros. Ainda existem, mas são uma espécie em perigo de extinção.

O resultado disso é que não somente o conselho diretor das empresas estão ali somente para ganhar dinheiro; todo mundo, de cima abaixo, está ali apenas pelo salário. Ou pelo menos, age assim, para não se meter em fria num ambiente avesso ao entusiasmo. Como resultado, nenhuma vontade interna existe para ir mais além e trazer algo interessante, diferente, nem que as vezes seja pouco interessante financeiramente, ao mercado. E sem uma indústria que deseja ser vista, que goste do que faz e quer se mostrar ao mundo, o entusiasmo pelo automóvel aqui fora dela também definha.

Steve Jobs dizia que “o cliente”, essa metafísica entidade sobre a qual poucos entendem no mundo dos negócios, é super fácil de entender: ele é você mesmo, sua família, seus amigos. Se é algo que te dá vontade de mostrar para eles, explorar, curtir junto, é um bom produto. O que ele queria dizer é que se deve fazer algo que se tenha orgulho do resultado, que cause espanto e satisfação. Você não quer que sua esposa ou amigo use algo de má qualidade, ruim, sem graça ou cafona, não é mesmo? Então não crie coisas assim. Simples, e genial.

Uma indústria de automóveis tem que fazer carros normais, bons, mas que vendam bem e façam muito dinheiro, para sobreviver. Mas nenhum engenheiro vai ao trabalho animadão para criar um Cobalt/Virtus/Logan mais cheio de custo-benefício, nenhuma criança (um consumidor futuro) sonha em marcas que produzem só esses carros. Um pouco desse lucro que vem deles tem que ser gasto em oferecer carros especiais, diferentes, maravilhosos. Coisa que brilhe os olhos de entusiastas. Nem que seja para melhorar o moral interno, para provar que sabe fazer eles, para levar adiante a tecnologia da companhia, para arriscar um sucesso inesperado. Para criar boa vontade externa para com a marca. Sem o passional, a vida é muito chata, mesmo a vida de pessoas jurídicas.

A Renault hoje parece ser a única aqui no Brasil, com o sensacional Sandero R.S., a fazer algo assim. E ela criou este carro do zero, gastou em projeto e certificação. O que me espanta não é que não existem mais projetos assim; é que as marcas não importem mais carros interessantes. Se você tem em seu portfolio coisas adoradas mundialmente, sucessos de público e crítica, em produção e certificados, por que não importar? Claro que há custo envolvido, e muitas vezes, a resposta é que as contas foram feitas, e “não se pagam”.

O “não se paga” é algo confortável. Antigamente, a indústria arriscava mais, não há dúvida disso, é só ver quanta coisa veio para cá desde a abertura de importações. Claro que as condições econômicas eram outras, que este ano foi terrível, sabemos disso tudo. Claro que validar carro nos CONTRANs da vida custa grana. Desculpas para continuar fazendo nada existem aos montes. Mas a verdade é que falta mesmo vontade interna, sistemicamente, de ser maior que apenas mais um. Parece incrível que tenhamos que pedir que a indústria de automóvel nos ajude a criar entusiasmo pelo automóvel, mas é a realidade hoje.

Por isso resolvemos hoje listar alguns carros que. Importados para cá, poderiam fazer muito bem para as marcas instaladas aqui no Brasil. Coisas sensacionais vendidas lá fora que adoraríamos ter aqui, e que certamente se fossem importadas, pelo menos se pagariam. Ou no mínimo, empurrariam adiante o entusiasmo pelo automóvel aqui em nosso país, fornecendo matéria prima básica para mais uma geração de manicacas. Algo, que em si só, para gente que realmente se importa com o futuro deste produto industrial, já é valor suficiente.

Subaru BRZ / Toyota GT86

Temos aqui uma oportunidade dupla de duas companhias aqui instaladas, com produtos praticamente iguais, mas nenhuma delas o traz para cá. Muito aqui é porque o “toyobaru” é um carro controverso: muita gente não o entende, mesmo em mercados desenvolvidos.

A maior crítica centra em desempenho: pedem-se turbos e rodas maiores. Mas o mundo está cheio de carros com turbos e rodas maiores, e poucos carros tão cirurgicamente perfeitos para diversão em estradas truncadas como este. Rodas e pneus menores pedem freios menores, e assim dão menor massa não suspensa: mais sensibilidade ao volante, controle mais preciso de rodas. O carro tem mais de 200cv, ainda que se tenha que esgoelá-lo a altas rotações para achá-los: mais que suficiente para um carro de 1270 kg.

É um carro feito para o prazer de dirigir, sem olhar números, e a um preço baixo. A Toyota trouxe duas unidades para avaliação aqui no Brasil, mas parece que desistiu. Andei num deles certa vez, nos Romeiros, e ainda é um dos carros mais sensacionais que guiei: é leve aos comandos, tem muito grip, mas escapa de forma totalmente controlada. Senta-se baixo, pernas esticadas, pedaleira perfeita. Um carro com massa bem distribuída, girador, nervoso como todo bom carro esporte deveria ser. Simplesmente sensacional.

Uma nova geração está para ser lançada lá fora, e parece que se manterá fiel a fórmula aspirada, e prazer com esforço, não com velocidade apenas, do carro atual. Uma boa oportunidade para repensarem a decisão de não trazê-lo: num mercado onde não existe Mazda Miata, estaria sozinho. O que nos leva ao segundo carro desta lista.

Fiat 124 Spider Abarth

Se não temos uma Mazda aqui para pedir um Miata, temos a Fiat para pedir o seu clone italiano. O 124 Spider é produzido pela Mazda na mesma fábrica do Miata, essencialmente baseado nele mas com estilo e motor Fiat.

A Fiat já foi uma marca adorada pelo entusiasta por aqui. Todo Uno original é apaixonante, mas tivemos também o Turbo. De Tempra Turbo a Marea, de Tipo Sedicevalvole a Stilo Abarth, sempre tivemos Fiat para entusiastas aqui no Brasil. Mas hoje, não mais. Um buraco visível a todos, esperando ser preenchido.

E já que será caro mesmo, que venha na versão Abarth: com um quatro em linha turbo de 1,4 litros e 167 hp, é algo que fala também para as tradições Fiat de performance no Brasil. É um Miata italiano com mais torque em baixa, e por isso menos nervoso, mas não menos veloz. Com um câmbio manual excelente de seis marchas, este pequeno roadster certamente teria um público aqui, ainda que limitado. Mas o que ela ia fazer mesmo é algo que a Fiat parece estar realmente precisando: colocá-la novamente no coração dos entusiastas.

Chevrolet Camaro SS 1LE

A Chevrolet teve muito sucesso com seu Camaro por aqui. Mas hoje, a novidade parece arrefecida, e o mercado de carros desse tipo parece olhá-lo como algo já meio passado, mesmo que uma nova geração e um conversível tenham aparecido a pouco.

Minha sugestão é dar credibilidade entusiasta para o carro. Trazer a versão 1LE com câmbio manual faria do que é percebido hoje apenas como um carro para chamar atenção, comprado basicamente por esportistas e músicos com imagem duvidosa, algo realmente sério. Traria o Camaro para track-days, onde ia fazer muito carro exótico europeu comer poeira.

O pacote opcional 1LE, reconhecido por fora pelo capô em preto-fosco, faz do Camaro uma verdadeira arma para as pistas. Rodas exclusivas de alumínio forjado calçando gigantescos Goodyear Eagle F1 SuperCar 3, nas medidas 285/30R20 dianteira e 305/30R20 traseira. Enormes discos de freio ventilados Brembo, com seis pistões na frente, e quatro atrás. Suspensão acertada para pista, bancos Recaro mais leves e diferencial de bloqueio eletrônico terminam a configuração de primeira em um carro que mesmo sem este pacote, já é bem veloz em curva.

Nos EUA é famoso por fazer tempos de volta inacreditáveis pelo seu preço, de pouco menos de 45 mil dólares. Lá pode-se ter este pacote com o V6 de 335 cv também, ainda mais barato. Trazer este carro para cá faria maravilhas com sua imagem. Ao mesmo tempo que também levaria alguma boa vontade para uma empresa que parece querer abandonar o entusiasta por aqui. Ein? O quê? Não está nos abandonando? Prove então, ué.

Alfa Romeo Giulia e Stelvio

Essa é mais difícil, eu sei. Ia necessitar uma nova rede de concessionários exclusivos, e um investimento numa marca que por duas vezes já morreu no Brasil. A gente entende o medo da FCA em fazer isso. Mas eu vejo diferente. Se Audi, Mercedes-Benz, BMW, Volvo e até Jaguar estão aqui, com rede independente, por que não a Alfa Romeo? A marca goza de uma imagem única por aqui, no meio de gente com dinheiro para comprar uma. Mesmo tendo sido abandonados pela Fiat duas vezes seguidas, o que beira o incrível.

Além disso, um Giulia moderno é sensacional; um concorrente à altura de qualquer alemão. Com versões que vão do normal 2.0 turbo ao supersedã Quadrifoglio Verde, com seu Ferrari V6 (Dino?) turbo de mais de 500cv, são carros magníficos, comparáveis favoravelmente aos alemães. Eu sonho com elas vindo também com o câmbio manual que é opcional na Europa, mas se vier só auto, já está ótimo. Acreditem, precisamos de mais carros assim em nossa vida. Brasileiro AMA Alfa Romeo. Vamos lá FCA, acorda!

Peugeot Partner Patagônica

Tá, esse é mais difícil de justificar. A maioria dos entusiastas nem liga para isso, e é um carro já em fim de vida. Mas tem uma legião de fãs, o autor incluso, órfãos desde que parou de vir da Argentina para cá. É um carro sensacional, bom em praticamente toda situação de uso que se pode imaginar, incluindo, pasmem, direção esportiva.

E, ainda fabricado na Argentina, e exportado para cá em versão furgão, é o mais fácil e barato de se trazer. A pergunta não deveria ser “porquê?”, e sim “por que não?”. Cobrem caro se for o caso; ainda assim ia penhorar minhas calças para comprar um zero km. Prometo que um vende! Um carro dos anos 1990, que adoro, ainda zero km. Como perder isso?

ESTE Gol GTS 1.8
PODE SER SEU!

Clique aqui e veja como