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Car Culture

Cizeta-Moroder: o supercarro que tem sua própria música


Nós, que amamos automóveis profundamente, temos certa dificuldade de nos conformarmos com isso; mas a verdade é que eles são bens, e bens de valor considerável. Como qualquer bem, é contabilizado como parte de nosso patrimônio. Aprecia e deprecia, e a qualquer momento pode ser liquidado, para que nosso sagrado balanço financeiro não fique no vermelho. Sim, todo carro um dia vai ser de outra pessoa. Ou vai morrer numa bola de fogo gigante visível da mesosfera; a alternativa de venda, por este prisma, não parece tão ruim.

Imagine então um carro que leva seu próprio nome; um que foi um sonho particular que quase aconteceu. Um carro único que não tem par; intrinsicamente ligado à sua própria história de vida. Assim é o único Cizeta V16T que levou o sufixo de seu investidor principal: o compositor Giorgio Moroder. Claudio Zampolli, o CZ que foneticamente virou Cizeta, e o engenheiro à cargo de fazer do sonho realidade, faleceu em julho de 2021. Mas Moroder ainda está aqui, e o primeiro protótipo, o carro número 1, único Cizeta-Moroder, ainda é seu. E agora está à venda

 

Como apareceu o carro chamado Moroder

Giorogio Moroder é lendário no meio musical: um ítalo-alemão pioneiro da música eletrônica, e um dos inventores da disco-music. Ganhou um total de três Oscars e quatro prêmios Grammy ao longo de sua carreira. Nos anos 1980, seu sucesso faz dele um milionário na Califórnia; sua paixão por carros esporte o leva até a oficina de Claudio Zampolli.

Giorgio Moroder e seu bigode famoso.

Zampolli era um ex-piloto e mecânico da Lamborghini que abrira uma oficina em Beverly Hills. Seu forte sotaque italiano, sua habilidade para acertar carros, e seu jeito engraçado, o tornam figurinha carimbada entre o beautiful people daquele lugar. Entre um monte de gente cheia de dinheiro àvida por gastá-lo de forma inteligente, era o consultor mais popular quando se tratava de supercarros; o sábio na montanha para celebridades da música e cinema que frequentavam sua loja.

Edward Van Halen diz que conheceu Sammy Hagar na oficina de Zampolli; Claudio era quem afinava o Lamborghini Miura de Eddie. Ele mesmo, o carro que contribuiu com algumas notas musicais no meio da música “Panama”. Naquele momento da música em que ela se acalma, e “Diamond” Dave (Lee Roth, o vocalista) diz suavemente que reclina o banco e faz algo inexplicado “entre suas pernas”. O som estranho nesse ponto é tirado diretamente da admissão do Miura, estacionado dentro do estúdio especialmente para isso.

Hagar e Van Halen: amigos via Zampolli.

Sammy Hagar gostava tanto do seu maluquinho mecânico italiano que, quando usa sua Ferrari 512BB para o videoclipe de “I can’t drive 55!”, o narigudo Claudio aparece por um momento, e Sammy lhe diz: “O carro está fantástico nas curvas! O que você fez, Claudio??”. Ao que ele responde, cheio de sotaque: “Eu ajustei o cáster e o câmber, e acertei as pressões de pneu.”

Conviver com esse povo famoso, que o tratava como um cara famoso, não fez bem para o já amalucado Claudio. Certamente com o ego inflado pela adulação, pensa que pode fazer um supercarro italiano melhor que seus conterrâneos. E pior: seus amigos tinham o dinheiro necessário para financiá-lo.

Claudio Zampolli

Por um breve período de tempo, o Cizeta-Stallone foi uma possibilidade. Mas foi justamente Giorgio Moroder que acabou como sócio de Zampolli, 50/50%. A grana era toda de Moroder, claro, e a idéia e trabalho, de Claudio. Durante 1988, uma pequena fábrica em Modena começa, com um pequeno time de desertores da Lamborghini, a criar um novo supercarro. O desenhista? Decepcionado com a Lamborghini debaixo da Chrysler, Marcelo Gandini desenha o novo Cizeta-Moroder. Mas não sem influência do hiperativo Zampolli: existiram duas propostas para o carro, a primeira rejeitada por Zampolli. O desenho final é “colaborativo” entre Zampolli e ele, segundo o próprio Gandini.

 

O V16T

A grande diferença, a proposta única, o chamariz do novo carro, era o exagero. Um carro de dezesseis cilindros! Se doze cilindros era a norma agora em Modena, e em pouco tempo, até BMW e Mercedes-Benz teriam carros assim, Zampolli prometia maior e mais potente motor de rua já saído de Modena, um V16 de 6 litros e 600cv.

A turma que Claudio tira da Lamborghini era extremamente talentosa: os engenheiros Oliviero Pedrazzi (motor, e o engenheiro-chefe), Achilli Bevini (suspensão) e Lanose Bronzatti (chassi), além de Giancarlo Guerra, um técnico famoso, com 40 anos de experiência na região, e criador do primeiro chassi de Countach. Guerra foi o encarregado de fazer o protótipo, e quando veio da Lamborghini, trouxe o gato Ciccia, que vivia em sua oficina lá. Sim até o bicho de estimação da Cizeta foi “roubado” da Lamborghini.

Muita gente fala que o motor é na verdade dois V8 Lamborghini juntados. Não é verdade: apesar da influência clara e inevitável (Pedrazzi era o engenheiro do V8), é um V16 de verdade; compartilha com ele o diâmetro e curso de 86 x 64,5 mm, mas era um motor só, e novo: o bloco era uma enorme peça fundida única de 16 cilindros. Eram dois viras contra rotativos, acoplados por engrenagens no meio, onde também estavam as correntes de distribuição para os oito comandos no cabeçote. Diferente do lambo, eram quatro válvulas por cilindro, para um total recorde de 64 válvulas. O bloco também integrava a tomada de força para o transeixo ZF, ao meio, a 90°, fazendo o motor transversal e o câmbio longitudinal, um powertrain em “T”. Daí vem o V16T do nome.

O novo motor deslocava 5.995 cm³, e dava 540 cv a 8.000rpm, e 55,3 kgfm a 6.000 rpm. Números incríveis em 1988, quando foi apresentado. A suspensão era independente com braços triangulares e grandes freios a disco nas quatro rodas. Pneus enormes, Pirelli P-zero, nas medidas 245/40ZR17 e 335/35ZR17, em rodas O.Z. O chassi era um spaceframe em aço, revestido de alumínio. O carro era todo subcontratado para as pequenas oficinas de Modena, e apenas montado por uma pequena equipe na pequena fábrica.

Era, também, enorme. Media 2.106 mm de largura, bem mais largo que um Testarossa por exemplo, que já era considerado largo demais. Era também comprido a 4445 mm. Pesava 1.700 kg, hoje até normal, mas então um absurdo. Mesmo assim o desempenho era simplesmente incrível: 0-100 km/h em apenas 4,5 segundos, e velocidade final de  mais de 300 km/h.

Mas foi apenas o protótipo ficar pronto, que começaram os problemas. Um deles incrivelmente básico: o carro não estava homologado para venda nos EUA. Nem nunca seria. Hoje os que permanecem rodando são por isenção na regra de carros históricos, antigos. Além disso, a velocidade da produção, e a incompetência de Zampolli em fazer uma fábrica de verdade andar incomodavam Giorgio Moroder. A separação ocorre em seguida, Moroder ficando com o protótipo para si e mais nada; este carro passa a ser o primeiro e último Cizeta-Moroder V16T, e todos os outros viram apenas Cizeta V16T. Apesar do potencial, o carro de produção rapidamente morre depois disso.

 

A história do protótipo

Este primeiro protótipo acaba sendo algo diferente e único. Um exemplo fácil: o interior era totalmente diferente do modelo de “produção” (apenas seis carros foram feitos). Assim, tem duas unidades de injeção Bosch K-jetronic para V8. Os carros de produção usavam uma injeção independente, criada pela própria empresa usando componentes Marelli.

Moroder e seu carro

Obviamente também existe o nome, e os logotipos, todos diferentes dos outros Cizeta. O carro, assim que ficou pronto, esteve em eventos de gala: o salão de Genebra, e o lançamento oficial do carro na Califórnia. Como um carro concebido na Califórnia, para ser vendido aos californianos ricos e famosos não se preocupou em homologar a venda nos EUA, é inexplicável, mas mostra bem a cabeça de Zampoli.

O evento de lançamento é incrível, de qualquer forma. Acostumado ao Show Business, Moroder prepara uma festa digna da entrega dos Oscars, com tapete vermelho e traje black-tie, no dia 5 de dezembro de 1988, no Hotel Century Plaza, em Los Angeles. Prepara também uma música exclusiva para o evento e o carro; um carro chamado Moroder só poderia ser apresentado com uma música original composta por ele. O evento foi anunciado por um outro entusiasta da Califórnia: Jay Leno. Cheio de sotaque Moroder diz ao entrevistador: “agora todo mundo está fazendo 12 cilindros; depois do nosso carro tenho certeza que todos vão se juntar à nós com 16 cilindros!”

Leno depois se arrependeria disso: Zampolli o processa por difamação em 1998, quando já era claro que a empresa não existia mais, para todos menos Claudio Zampolli. O protótipo ficou com Giorgio Moroder depois da separação, mas ele não o usou: primeiro, não podia emplacá-lo, pois não estava homologado. Depois, reporta-se que não funcionava muito bem. Era afinal de contas, o primeiro carro.

Os anos se passam e o carro continua lá parado na garagem de Giorgio Moroder. Até que um dia em 2018 que, em conversa com Jay Leno, este lhe pergunta que fim levou o Cizeta original. Moroder se queixa; não sabe o que fazer com o carro que não funcionava bem nem mesmo novo, imagine agora, depois de tanto tempo parado.

Jay Leno recomenda uma oficina especial para reviver o carro: a Canepa Motorsport, acostumada e encarar coisas raras, especiais, e com expertise de desenvolvimento técnico profissional, a empresa de Bruce Canepa trás de volta a vida o carro de Moroder. O gerente de projeto na Canepa, Casper Van Der Schoot, diz: “o carro nunca foi operacional em 16 cilindros; no máximo 14. Posso dizer sem medo de errar que a primeira vez que os 16 cilindros funcionaram foi aqui dentro da Canepa Motorsport.” Aparentemente mais de 1000 horas de serviço foram cobradas para um carro que teoricamente andou quase nada desde novo.

A equipe de Canepa descobriu que vários detalhes que precisavam ser melhorados antes de ser usado seriamente. Por exemplo, proteção térmica adicional foi adicionada ao redor dos tanques de combustível e todo o carro agora funciona perfeitamente bem, testado pessoalmente por Bruce Canepa após a restauração para garantir que estava pronto. Ele mesmo diz: “Chega-se a 230 km/h nele com uma facilidade incrível. É liso como vidro, muito estável, muito confortável, e não é necessário ser piloto para dirigir: Eu apenas relaxei e acelerei. É muito previsível no comportamento, a troca de marcha é fantástica, tem potência decente, e um barulho maravilhoso. Achei muito melhor que o Diablo. Eu gosto do Diablo, mas este carro está num patamar bem mais acima. Faz a gente pensar…”

O carro está com Moroder , em condições de uso, desde o fim de 2018, mas agora será leiloado pela RM Sotheby’s, que espera uma oferta de no mínimo de 900 mil dólares para vendê-lo, em seu leilão dia 27 de janeiro próximo em Phoenix, Arizona. Um carro realmente único, com uma história única. Aos 81 anos, Moroder parece disposto a deixar outro manter este pedaço da história viva.

E como não poderia deixar de ser com esse pioneiro da música e executivo de sua indústria, Moroder vende o carro com uma novidade: seu próprio NFT (Non-Fungible Token). A literatura de venda diz que Moroder “quer fazer parte deste novo movimento de vanguarda de compartilhamento de arte digital e não apenas oferecer seu premiado Cizeta-Moroder V16T de 1988, mas combiná-lo com um NFT exclusivo que combina todas as suas paixões ao longo da vida: música original, tecnologia inovadora e automóveis de alto desempenho.”

O que vem neste NFT? Desenvolvido por Giorgio Moroder, Iconoclast, Jeremy Ian Thomas (também conhecido como “Soulajit”), NFT Pro e RM Sotheby’s., o tal NFT inclui um EP de música de quatro faixas de Giorgio Moroder exclusivo para o carro, uma renderização artística em 3-D do carro em colaboração com o artista digital “Soulajit”, uma digitalização 3-D do V16T , bem como documentação de proveniência digitalizada. Se alguma destas músicas exclusivas do NFT é a mesma do lançamento, não é esclarecido, mas provavelmente sim. Se você gosta de música eletrônica e de supercarros, não perca a chance!

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