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Automobilismo

O que aconteceu com a Ferrari depois de “Ford vs. Ferrari”?

Você conhece a história da batalha Ford vs. Ferrari muito bem: Henry Ford II prometeu se vingar pelo papel de bobo que fez na Itália, durante a negociação para comprar a Ferrari. Depois de tentar vencer os italianos em 1964 e em 1965, a Ford finalmente conseguiu derrotá-los em 1966 e repetiu a dose em 1967, 1968 e 1969. E a Ferrari nunca mais voltou a vencer em Le Mans.

Isso tudo é muito fiel à realidade. A Ford brigou mesmo com a Ferrari por causa de uma intriga pessoal de Henry Ford II e Enzo Ferrari, e a Ferrari nunca mais venceu as 24 Horas de Le Mans depois de ter sido derrotada pela Ford. Só que esta é apenas uma parte da história — a parte em que a Ferrari se deu muito mal. A outra parte, menos conhecida, não foi tão ruim assim.

Na verdade, ela sequer pode ser considerada ruim. O problema é que ninguém se pergunta…

…o que aconteceu com a Ferrari depois das derrotas para a Ford em Le Mans?

A temporada de 1966 foi mesmo desastrosa para a Ferrari. Ela não conseguiu vencer nenhuma prova do Campeonato Mundial de Carros Esporte (WSC), e perdeu o Campeonato Internacional de Construtores (IMC) por apenas dois pontos. Os dois, claro, foram vencidos pela Ford.

Já em 1967, o WSC começou com as 24 Horas de Daytona e a Ferrari deu o troco na Ford, conquistando a vitória, o segundo e o terceiro lugar na casa dos americanos. Depois, em Sebring, a Ford venceu com o GT40, mas em Monza, a terceira etapa, deu Ferrari mais uma vez.

ferrari

Os italianos não voltariam a vencer na temporada, mas em todas as provas, exceto Le Mans, eles terminaram à frente da Ford. Com mais consistência que a Porsche, a Ferrari levou o título de construtores de 1967 com dois pontos de vantagem sobre os alemães e 10 pontos de vantagem sobre a Ford.

Em 1968, nos protótipos do WSC só deu Ford e Porsche — a Ford pela John Wyer, que assumiu a operação após a retirada da fábrica. A Ferrari ficou em último no campeonato, mas não por falta de competitividade e sim por sequer ter disputado o título. Em protesto contra à mudança do regulamento, que limitou os motores dos protótipos a três litros — e baniu sua família de protótipos P de quatro litros, a Ferrari se retirou da competição. O título de construtores ficou com a Ford na classe dos protótipos e com a Porsche na classe GT.

A temporada seguinte, de 1969, viu a ascensão da Porsche com seus 908. O protótipo com motor flat-8 superou tanto o agora obsoleto GT40 quanto as 312P, que ficaram em segundo e quarto, respectivamente, na classe dos protótipos. Na classe GT a Porsche também superou os rivais, enquanto a Ferrari terminou em terceiro, atrás da… Chevrolet!

Em 1970 e 1971 houve um novo domínio da Porsche no WSC, tanto entre os protótipos quanto na classe GT. Mas a Ferrari ainda teria uma temporada inigualável em 1972. Naquele ano a Scuderia venceu nada menos que 10 das 11 etapas do WSC.

José Carlos Pace na Ferrari 312P em Le Mans, 1973

A corrida não vencida, claro, foi a 24 Horas de Le Mans, que viu a Matra-Simca vencer com seu MS670 conduzido por Henri Pescarolo e Graham Hill. Foi esta vitória, aliás, que deu a Graham a tríplice coroa do automobilismo, um feito que somente ele conquistou em toda a história — embora Fernando Alonso esteja tentando desde 2017. Apesar de não ter vencido Le Mans, ela venceu sua Classe, a GTS de até 5 litros, e mostrou que ainda era a Ferrari de sempre.

A Scuderia ainda disputaria a temporada seguinte, um campeonato equilibrado, que viu tantas vitórias suas quanto da Porsche, mas, na reta final, teve o domínio da Matra-Simca, que foi a grande campeã daquele ano. Ao final da temporada, a Ferrari se retirou da competição de protótipos, mantendo apenas os GT, para se concentrar na Fórmula 1.

 

Enquanto isso, na Fórmula 1…

A Ferrari teve um período difícil entre 1965 e 1974. No mesmo período em que disputou as 24 Horas de Le Mans contra a Ford, depois contra a Porsche e contra a Matra, ela também encarou um jejum de títulos na Fórmula 1. Seu último de pilotos e construtores fora conquistado em 1964 com John Surtees (usando azul e branco), e nos dez anos seguintes ela chegou perto do título três vezes, ficando com o vice-campeonato em 1966, em 1970 e 1974.

O título, não por acaso veio em 1975, justamente quando a Scuderia abandonou o WSC para se concentrar na Fórmula 1. A equipe foi campeã de pilotos e construtores naquele ano, com Niki Lauda e Clay Regazzoni, depois repetiu a dose com a dupla, porém perdendo o título de pilotos para James Hunt na McLaren, em 1976, voltou a fazer a dobradinha de títulos em 1977 com Lauda bicampeão e Carlos Reutemann trazendo uma vitória e cinco pódios, foi vice em 1978, e voltou a ganhar os títulos de pilotos e construtores de 1979 com Jody Scheckter e Gilles Villeneuve trazendo três vitórias e quatro pódios.

A Ferrari ainda venceria os títulos de construtores de 1982 e 1983, antes de entrar em outro jejum de títulos que duraria 15 anos. Em 1999 ela iniciou sua inigualável série de seis títulos consecutivos de construtores, que só foi encerrada em 2005. Os dois últimos títulos vieram em 2007 e 2008, quando se iniciou o atual jejum de 14 anos.

 

A Ferrari volta a Le Mans

Outro fato menos contado da história ferrarista em Le Mans é que ela não abandonou a prova em 1974. Sua ausência durou menos de dez anos — entre 1984 e 1992 como construtora. Desde então, ela conseguiu uma vitória na Classe IMSA GTX em 1981, uma vitória na Classe LMP1 em 1998, na GTS em 2003, na GT2 em 2008 e 2009, na GTE Pro em 2012, 2014, 2019 e 2021, e na GTE Am em 2015, 2016, 2017 e 2021.

Ironicamente, em 2016, quando a Ford inscreveu os novos GT para celebrar os 50 anos da vitória em Le Mans sobre a Ferrari, eles voltaram a derrotar a Ferrari na classe GTE Pro. Diferentemente dos anos 1960, a Ford não repetiu a dose nos anos seguintes, e a Ferrari levou em 2019. A história não precisa se repetir.

Agora, com o novo regulamento dos Le Mans Hypercars (LMH) e sua unificação com os protótipos de Daytona, a Ferrari anunciou que irá voltar à categoria com um LMH que será operado pela AF Corse, que atua como equipe oficial da marca nas classes GTE do WEC. Ainda não há detalhes sobre o carro, apenas uma imagem escurecida que não revela nada além de parte dos faróis e do cavalinho rampante.