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Carros Antigos

Green Hornet: a história do valioso protótipo do Shelby GT500

Carroll Shelby está entre os imortais da indústria automotiva. Se a Ford criou o conceito de pony car com o Mustang, cobrando pouco por um carro estiloso, potente e altamente colecionável, Shelby foi quem aperfeiçoou esta ideia e deu o primeiro passo para transformar o Ford Mustang em um esportivo com apelo mundial, e não apenas uma moda passageira. O Mustang era um carro competente, claro, mas a Shelby e suas variações não existiriam até hoje se não fossem algo realmente especial. A Shelby e o Mustang são inseparáveis.

Por conta disto, é natural que os Ford Mustang mais desejados, cultuados e lendários que existam sejam os que foram fuçados por Shelby ou por sua equipe – ainda mais se estivermos falando de um dos últimos Mustang em que Carroll Shelby trabalhou pessoalmente.

Trata-se do Mustang EXP500 CSS, também conhecido como “Black Hornet” – um carro fabricado em 1968 e modificado pelo próprio Shelby em 2008. O carro foi criado para promover a instituição beneficente do preparador texano, a Shelby’s Children’s Charity. O carro é um cupê hardtop preto, equipado com um motor V8 428 Cobra Jet de 340 cv, e câmbio manual de quatro marchas. O carro ficou com Carroll Shelby até sua morte, em mai de 2012, aos 89 anos de idade. Depois disto, foi cedido a um museu dedicado ao Ford Mustang nos EUA. Agora, ele está à venda por nada menos que US$ 850.000 (cerca de R$ 3,5 milhões em conversão direta).

No entanto, além de ser um carro especial pelas circunstâncias em que foi criado, o “Black Hornet” tem outra característica notável. Seu nome não foi escolhido ao acaso: ele foi inspirado por um dos carros que serviu como protótipo para o primeiro Shelby GT500, de 1967. Mais especificamente, o Shelby EXP500 “Green Hornet”, e ele é um dos Mustang mais valiosos do mundo. Sim, ele vale mais de R$ 3,5 milhões. Neste post, nós vamos conhecê-lo melhor.

Como acontece hoje em dia, nos anos 1960 o ano-modelo de um carro começava antes do ano de fato. Assim, já em meados de 1967 a Ford começou a fabricar o Mustang 1968 – que era um carro diferente. Os fãs do pony car já sabem: a partir dali, foram realizadas algumas mudanças no projeto para acomodar melhor motores V8 big block – como resultado, o Mustang ficou visivelmente mais largo e robusto, com bitolas maiores e, mais importante, um cofre mais espaçoso.

O Mustang de “Bullitt” foi uma bela promoção para o modelo 1968

Até então, o Ford Mustang mais nervoso da linha era o Shelby GT350, que era derivado de um projeto de competição, e apostava em um V8 Windsor HiPo de 4,7 litros, massageado por Shelby para passar dos 300 cv, girar mais alto e fazer mais barulho. Itens como banco traseiro, rádio e câmbio automático eram opcionais, mas não faziam parte da filosofia do carro. Suspensão ajustável, barras estabilizadoras e um sistema de escape bem mais solto (e barulhento), sim.

No entanto, com o passar do tempo, Shelby notou que havia certa demanda por um Mustang mais potente, porém mais elegante na proposta. Um carro mais confortável e bem equipado, com um motor maior e mais torcudo, que naturalmente fizesse bonito em arrancadas e pegas de semáforo, mas também fosse um automóvel competente para longas viagens e para rodar pela cidade com conforto e estilo. Era este o briefing do GT500. (O que não impediu, claro, seu uso como project car desde o início – e hoje existem projetos matadores no estilo pro touring baseados no GT500. Mas isto é outra história.)

A parceria de Carroll Shelby e da Ford, até aquele momento, era tratada com extrema importância por ambas as partes – afinal, o envolvimento de Shelby foi crucial para o sucesso do programa do Ford GT40 entre 1966 e 1969, e o dinheiro da Ford ajudava a manter as contas da preparadora em dia. Era bom para todo mundo.

Assim, Shelby colocou as mãos em alguns exemplares do Mustang 1968 antes de todo mundo – até onde se sabe, um convesível, um fastback e dois hardtop (com carroceria fechada de três volumes). Todos eles se tornaram protótipos para o Shelby GT500.

O conversível trocou de mãos várias vezes ao longo das décadas, e hoje é considerado o Mustang mais raro do planeta – não existem outros GT500 1967 conversíveis, pois o projeto foi adiado para 1968. O fastback foi comprado por seu atual proprietário, um colecionador americano, em 1979, e nunca mais deixou a garagem dele (dá para entender o motivo, não dá?).

Já contamos a história de um dos hardtop há pouco mais de um ano, quando ele finalmente emergiu depois de cinco décadas desaparecido. O carro, apelidado “Little Red” pelo próprio Carroll Shelby na época, foi encontrado por Craig Jackson, fundador da agência de leilões Barrett-Jackson, que chamou o carro de “a descoberta de uma vida”. O Mustang está sendo restaurado neste momento, e ficará no acervo permanente de Craig – que, apesar de ser dono de uma das maiores agências de leilão do mundo, já deixou bem claro à imprensa que jamais venderá o Little Red, pois sabe o quanto ele vale.

E tem de saber mesmo, afinal, Craig também é o proprietário do “Green Hornet” – o outro hardtop. Craig o comprou em 2010, e o Little Red será seu companheiro de estábulo assim que ficar pronto.

Tanto o Little Red quanto o Green Hornet foram usados por Shelby para fazer diversos experimentos, a fim de definir o que seria utilizado no GT500 (como o motor big block 428), e o que seria inviável (por exemplo, a própria carroceria hardtop). O “Little Red”, como contamos antes, foi modificado por Shelby com a ajuda do engenheiro-chefe da empresa, Fred Goodell – que, entre outras modificações, instalou um supercharger Paxton no motor Cobra Jet e um câmbio automático de três marchas C6 da Ford.

Isto posto, as modificações do Green Hornet foram ainda mais radicais. O carro também foi equipado com o V8 Cobra Jet, e também recebeu uma caixa automática C6 – esta, refeita pela Shelby. Mas, além disso, ele foi equipado com um sistema experimental de injeção mecânica Conelec, e recebeu um arranjo de suspensão traseira independente ainda rudimentar, usando a porção central do eixo rígido (incluindo o diferencial de 9” com relação final de 3.0:1), molas helicoidais (no lugar das semi-elípticas) e uma barra estabilizadora. Além disso, foram adotados freios a disco na traseira, outra coisa incomum no Mustang.

Esteticamente, o Green Hornet trazia mudanças como o capô com scoop, uma grade dianteira modificada para receber dois faróis auxiliares, teto de vinil preto, lanternas do Ford Thunderbird 1965, e entradas de ar nas laterais. O nome oficial do carro era “EXP-500”, mas sua carroceria pintada de verde com flocos dourados deu origem ao apelido “Green Hornet” – que também era uma referência ao Besouro Verde (ou Green Hornet, em inglês), herói dos quadrinhos na década de 1930.

O motor 428 Cobra Jet era uma unidade experimental denominada CJ-X – um motor que, além da injeção mecânica, também tinha o deslocamento ampliado para cerca de 7,2 litros. Com isto, a potência chegava a estrondosos 460 cv – sendo que o GT500 de série tinha 100 cv a menos.

Com isto, apesar de seus quase 1.600 kg (o interior revestido em couro monocromático estava longe de ser depenado, com direção assistida, ar-condicionado e acabamento de madeira), o Green Hornet ia de zero a 100 km/h em 5,7 segundos, e tinha máxima de 252 km/h, conforme testado no campo de provas da Ford em Detroit. Colocando em perspectiva, o Shelby GT500 que eventualmente veio a ser lançado era capaz de cumprir o zero a 100 km/h em 6,5 segundos, e tinha velocidade máxima de 205 km/h.

Pouco se sabe a respeito do histórico do Green Hornet depois de sua construção – em 1969, a colaboração entre a Ford e a Shelby para preparar o Mustang foi encerrada, e tanto o GT350 quanto o GT500 saíram de linha. Entretanto, o atual dono e cuidador descobriu que ele foi vendido em um leilão interno da Ford em algum momento entre as décadas de 1970 e 1990. Em 1993, ele foi colocado aos cuidados de um restaurador chamado Martin Euler, que trouxe o carro de volta a um estado apresentável.

Em janeiro de 2018, anos depois de comprar o Green Hornet do proprietário anterior, Craig Jackson decidiu dar início a uma segunda restauração, a fim de torná-lo mais fiel ao que era quando saiu da oficina da Shelby. Na verdade, este é um trabalho que ainda está em curso: no site onde mantém algumas informações sobre os hardtops, tanto o Little Red quanto o Green Hornet, Craig diz que qualquer informação que possa ajudá-lo a conhecer mais detalhes sobre os carros será bem-vinda e útil.