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Técnica

GT4 RS vs GT3: as semelhanças, as diferenças e por que um é mais rápido que o outro


Em seus tempos de Porsche-hating, Jeremy Clarkson costumava dizer que o problema dos carros da marca era que eles nunca eram o melhor que poderiam ser, porque a Porsche “amarrava” os carros para criar nichos. Qualquer um que olhasse a tabela de preços e versões do 911 ou do Cayman na época certamente concordaria com essa afirmação.

Essa impressão era reforçada especialmente com a primeira geração do Cayman GT4, lançada em 2015, Afinal, apesar do motor 3.8 do 911 Carrera S, ele não tinha os mesmos 400 cv do Carrera S. E mesmo com os 15 cv a menos, o GT4 era 0,3 segundo mais rápido para chegar aos 100 km/h e apenas 9 km/h mais lento — graças ao seu conjunto aerodinâmico voltado à geração de downforce.

Uma boa olhada para a ficha técnica dos 911 ao lado da ficha técnica do Cayman GT4, levantava a dúvida que jamais será respondida: onde o GT4 estaria com aqueles 15 cv que lhe foram tomados? Ele teria empatado com o 911 GTS, capaz de chegar aos 100 km/h em 4 segundos cravados? Teria entrado no território do 911R, que vai aos 100 km/h em 3,8 segundos? Jamais saberemos.

O que posso dizer é que, ao menos para a equipe do FlatOut, o GT4 sempre deixou a sensação de que não foi melhor para não atrapalhar o pessoal do andar de cima. Mesmo com o atual Cayman GT4, que tem um 4.0 aspirado como o GT3, essa sensação continuou pairando sobre nossas cabeças. Afinal, o 4.0 não era um motor da linha Porsche GT, mas um 3.0 turbo que teve seus turbos removidos e seu deslocamento ampliado. Com 420 cv ele certamente era um motor potente, mas não tinha a noblesse dos motores 4.0 da linha GT.

Quando o GT4 RS apareceu pela primeira vez, no final de outubro, com um vídeo mostrando um tempo de volta insano para um Cayman GT4 em Nürburgring Nordschleife, contudo, essa impressão começou a mudar. A Porsche, pelo jeito, havia se livrado da prática de manter o GT4 a uma distância segura do 911 GT3. Estaria ela finalmente explorando todo o potencial do Cayman?

A resposta chegou nesta manhã de quarta-feira, 17 de novembro de 2021: sim. A Porsche finalmente está explorando todo o potencial do Cayman. E a maior prova disso é que ela instalou no modelo o mesmíssimo motor 4.0 usado pelo 992 GT3 — ou você acha que aquelas tomadas de ar no lugar das janelas traseiras são apenas racing style?

A decisão da Porsche em colocar no Cayman o mesmo motor do GT3 acabou contradizendo a própria Porsche que, na época do lançamento do GT4 com o motor 4.0 baseado no 9A2EVO, disse que o Cayman não poderia usar o 4.0 do GT3 porque o sistema de cárter seco não encontraria espaço no cofre central-traseiro do Cayman.

Mas tudo bem, Porsche. A gente entende que vocês precisavam segmentar o GT4 e também entende que uma mudança drástica como a que vocês fizeram no motor do GT3 para que ele coubesse no GT4 precisaria ser justificada por um preço de venda mais elevado. O que interessa de verdade é que o GT4 RS tem todos os ingredientes para se tornar um clássico instantâneo como o 911R foi há alguns anos.

Afinal, ele é praticamente um GT3 em uma carroceria mais leve, mais compacta e teoricamente mais equilibrada, já que seu motor está posicionado entre os eixos, e não pendurado na traseira.

Agora… note que eu falei “praticamente” um GT3. Porque se você parar para comparar os dados técnicos do GT4 RS com os do GT3 e seu tempo de volta, verá a materialização daquela expressão sobre o diabo estar nos detalhes.

O Cayman GT4 RS tem 500 cv, apenas 10 cv a menos que o GT3. Os dois, equipados com câmbio PDK, vão de zero a 100 km/h em 3,4 segundos. Os dois usam pneus Michelin Pilot Sport Cup 2 R. O GT4 RS pesa 1.463 kg; o GT3 pesa 1.435 kg. Nos dados a briga é acirrada. Em Nürburgring, a diferença chegou aos 10 segundos — o GT3 completou a volta em 6:55,34; o GT4 RS ficou nos 7:04:511 — um tempo insano, mas um tanto distante do GT3, ainda que 10 segundos em Nürburgring sejam pouca coisa.

A diferença pode soar estranha para muita gente — eu mesmo fiquei confuso por um instante. Mas isso aconteceu porque eu estava olhando para as semelhanças. E para entender o porquê desta diferença razoável no desempenho em pista, você precisa olhar para as diferenças. Elas são pequenas, mas cada uma delas contribuiu com um grãozinho retirado das areias do tempo.

 

O motor

Começando pelo coração pulsante dos GT, temos o mesmo flat-6 aspirado de 4 litros nos dois carros. O motor é baseado no flat-6 MA1.75 dos Porsche Carrera 991, porém tem virabrequim e trem de válvulas próprio, bielas de titânio e pistões forjados, e o sistema de admissão usa corpos de borboleta individuais. A lubrificação é feita por um sistema de cárter seco.

A diferença é que no Cayman, a admissão foi modificada devido ao posicionamento no chassi. Como é um carro de motor central-traseiro, o motor é girado 180 graus para ficar à frente do câmbio, enquanto no 911 o motor fica atrás do câmbio. Isso exigiu a modificação dos sistemas de escape e admissão, além de uma modificação no reservatório de óleo do sistema de cárter seco.

Lembra que o GT4 não tinha esse motor porque não havia espaço para o sistema? Pois aqui o investimento na modificação do motor aparentemente se paga. Com os coletores de admissão e escape diferentes, o motor 4.0, no GT4 RS, acabou com 10 cv a menos.

 

Suspensão

Quando lançou o GT4, a Porsche disse que ele usava o eixo dianteiro do GT3. Só que isso foi em 2019, quando o GT3 ainda estava na geração anterior (991) e usava suspensão McPherson na dianteira e multi-link na traseira. Por isso o GT4 compartilhava com ele o eixo dianteiro completo: manga de eixo, braço inferior, barra estabilizadora, caixa de direção, pinças de seis pistões e discos de freio — sejam eles de ferro fundido (381 mm) ou carbono-cerâmica (409 mm). Na traseira a suspensão é a mesma do Cayman GTS, porém com amortecedor invertido.

Só que… em 2021, o GT3 ganhou uma nova geração (992) e um conjunto completo de suspensão vindo do 911 RSR, que usa double wishbone nas quatro rodas. Como o GT4 RS usa a mesma suspensão do GT4, apenas com carga de molas e barra estabilizadora modificadas, sua suspensão é completamente diferente da usada pelo GT3.

Outra diferença está em um detalhe do qual pouca gente lembra, mas que afeta significativamente o handling do carro: a largura das bitolas. A bitola dianteira do GT4 RS é sutilmente mais larga que a do GT4 (6 mm a mais, chegando a 1.545 mm) enquanto a traseira é a mesma do GT4 regular (1.535 mm). Como comparação, o 911 GT3 tem bitola dianteira de 1.600 mm e traseira de 1.551 mm. Se você assistir ao vídeo acima, verá o efeito prático dessa bitola maior do GT3: a dianteira aponta com muita precisão.

Para encerrar o departamento de suspensão, Andreas Preuninger apontou outros dois detalhes que ajudam com alguns grãos do tempo: o GT3 tem eixo traseiro esterçante, que traz a traseira do carro para dentro da curva e permite carregar mais velocidade para dentro dela, resultando em uma maior velocidade de contorno; e o GT3 tem controle eletrônico do deslizamento limitado do diferencial, enquanto no GT4 ele é eletrônico. Isso, porque o GT4 RS não tem espaço para o conjunto hidráulico do diferencial eletrônico.

 

Projeto aerodinâmico

Aqui os dois carros levam essa história dos detalhes ao extremo. Os dois têm splitters, dutos NACA, difusores, asa traseira suspensa por suportes tipo “swan-neck” e assoalho aerodinâmico. Contudo, o 911 tem uma asa maior, um splitter mais proeminente que o do GT4 RS. Seu difusor traseiro também é mais largo, embora o do GT4 RS seja mais longo por não ter o motor “atrapalhando” na traseira.

A Porsche não divulgou exatamente quanta downforce o GT4 RS é capaz de produzir, limitando-se a dizer que ele produz 25% mais downforce que o GT4. Como o GT4 produz até 122 kg de downforce, um aumento de 25% significa 152,5 kg. O GT3, por sua vez, produz até 385 kg de downforce — uma diferença brutal em um circuito como Nürburgring.

 

Pneus

Por último, não podemos esquecer dos pneus: além das bitolas mais largas no GT3, ele também usa pneus mais largos. O modelo é o mesmo nos dois carros: Michelin Pilot Sport Cup 2 R, mas no GT3 eles medem  255/35 (20 polegadas) na dianteira e 315/30 (21 polegadas) na traseira. No Cayman GT4 RS há menos espaço para pneus e rodas maiores, então eles medem 245/35 na dianteira e 295/30 na traseira, ambos com 20 polegadas.

 

Concluindo e resumindo…

Para encerrar, não podemos esquecer que a Porsche não está fazendo uma competição de configurações mecânicas. Não se trata de uma briga de layout central-traseiro versus traseiro. O Cayman foi concebido para ser o esportivo de entrada da Porsche e ele cumpre este papel até hoje, ainda que tenha sido transformado em um legítimo Porsche GT com versão RS.

Sua própria natureza o torna um carro tecnicamente mais simples que um 911 e seu porte mais compacto não permite que ele tenha soluções como as do 911, conforme vimos ao longo desta matéria. A Porsche já tem o 911 GT3 para ser tudo o que o Cayman GT4 não pode ser. Além disso, a Porsche já mostrou o potencial de um 911 GT3 com motor central-traseiro quando inverteu o motor do 911 RSR para abrir espaço para um difusor maior, há cerca de cinco anos.

Qual o sentido de fazer um Cayman melhor que um 911, afinal?

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