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Car Culture História

Hannu Mikkola e Audi Quattro: uma combinação matadora

Hannu Mikkola morreu no último dia 26 de fevereiro de 2021, três meses antes de completar 79 anos de idade, em decorrência de um câncer. Seus filhos, Vesa e Juha Mikkola, confirmaram a morte dos pais nas redes sociais, e foram recebidos com muito apoio de fãs e amigos. Hannu Mikkola era um nome muito querido no meio dos ralis – um homem carismático, acessível e sorridente, indo contra o estereótipo frio e antissocial dos finlandeses. Sempre aparecia nos eventos de macacão e capacete, pronto para acelerar um clássico em algum evento histórico, e tinha muito orgulho de sua bem sucedida carreira.

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Não é para menos: Hannu Mikkola foi, ao lado de Timo Mäkinen, um dos Flying Finns (“Finlandeses Voadores”) originais do rali, conforme mostrado pelo documentário The Flying Finns, que mostrava a rivalidade entre os dois pilotos na edição de 1968 do Rali dos 1000 Lagos, na Finlândia. Ambos tornaram-se lendas do WRC por seus próprios méritos, mas apenas Mikkola veio a se sagrar campeão – ainda que só muito tempo depois, quando já era um veterano.

Nascido em Joensuu, Finlândia, em 24 de maio de 1942, Hannu Mikkola começou a correr profissionalmente em 1963, quando ainda era praticamente um garoto. Seu carro era o Volvo PV544, um improvável sedã dois-volumes lançado no fim dos anos 1950. Pode não ser o primeiro carro que vem à mente quando se pensa em rali, mas um deles até venceu o Safari Rally de 1965.

A Volvo continuou sendo a marca favorita de Hannu Mikkola nos anos seguintes, mas isto mudou na década de 1970, quando o piloto passou a usar com mais frequência Ford Escort, em suas diversas encarnações. Com o Escort Twin Cam ele venceu o Rali dos 1000 Lagos três vezes seguidas, em 1968, 1969 e 1970; e também foi o primeiro piloto estrangeiro a vencer o Safari Rally, em 1972. Com o RS1600 ele conquistou sua primeira vitória no recém-criado WRC, novamente vencendo o Rali dos 1000 Lagos.

 

Na época, Mikkola mostrava imenso talento, classificando-se com frequência entre os primeiros colocados e vencendo ocasionalmente – como em 1975, quando venceu o Rali do Marrocos com o Peugeot 504 (com ninguém menos que Jean Todt como navegador) e o Rali dos 1000 Lagos com o Toyota Corolla. Mas foi só em 1977, quando juntou-se ao navegador Arne Hertz, que Mikkola conseguiu vencer campeonatos. Primeiro, foi o Campeonato Britânico de Rali de 1978. Depois, em 1979, a dupla foi vice-campeã no WRC, ficando atrás de Stig Blomqvist e seu Saab 99 Turbo por apenas um ponto.

Por mais que a experiência com a Ford fosse boa, Hannu Mikkola nunca havia sido totalmente fiel a uma única marca. Ao longo dos anos ele correu com outros Volvo (como o 122 e o 142), com o Toyota Celica e até com Fiat 124 Abarth e Opel Kadett – além do próprio Escort. Mas aquilo mudaria em breve.

 

 

A década seguinte trouxe consigo a revolução na forma do Audi Quattro – o monstro com turbo e tração integral que elevou a barra e obrigou todas as equipes que disputavam o WRC a adotar, também, a força nas quatro rodas. Depois de ficar com o segundo lugar mais uma vez em 1980, desta vez atrás de Walter Röhrl no Fiat 131 Abarth, Mikkola foi um dos pilotos contratados pela Audi para estrear a novidade.

Logo de cara ficava evidente que aquela era uma combinação explosiva. O finlandês só não venceu a primeira prova que disputou com o Audi Quattro porque sofreu um acidente, mas liderou a maior parte do tempo. A vitória veio logo em seguida, porém, no Rali da Suécia, segunda prova da temporada de 1981. Naquele ano, Mikkola ainda venceu o RAC Rally do Reino Unido e foi o terceiro colocado no Rali dos 1000 Lagos, o que lhe garantiu a terceira posição no campeonato.

 

No ano seguinte, seu desempenho ajudou a Audi a chegar ao segundo lugar no campeonato de construtores. Hannu Mikkola venceu o Rali dos 1000 Lagos mais uma vez, conseguiu mais uma vitória no RAC Rally, porém ainda não estava no lugar mais alto do pódio – o vencedor foi Walter Röhrl, da Opel, seguido de Michèle Mouton, colega de equipe de Hannu Mikkola, na segunda posição. O próprio Mikkola ficou em terceiro mais uma vez.

Apenas em 1983 as coisas mudariam. Walter Röhl mudou-se para a Lancia, onde ficou encarregado de domar o selvagem Lancia 037. Era um carro absurdo, mas ainda tinha tração traseira e não era exatamente confiável – vencia quando tudo ia bem, mas nem sempre tudo ia bem, e o italiano acabou deixando Röhrl na mão mais vezes do que ele gostaria. Por sua vez, Mikkola havia tido bastante tempo para dominar o Audi Quattro e deixou isto bem claro. Quatro vitórias –Argentina, Portugal, Suécia e Finlândia garantiram a ele o título dos pilotos.

Àquela altura, ele já tinha 41 anos de idade. Com isto, tornou-se o piloto mais velho a conquistar um título no WRC – e ainda não foi superado.

No ano seguinte Mikkola ainda conseguiu o vice-campeonato, com uma vitória em Portugal e pódios em todas as outras etapas de que participou (com exceção do Rali dos 1000 Lagos, em casa, no qual um acidente o forçou a abandonar a prova).

Seus anos na Audi fizeram de Hannu Mikkola uma verdadeira lenda, e renderam alguns dos mais icônicos registros fotográficos do Quattro. Como a foto abaixo, utilizada pela Audi na década de 1980 para a publicidade do sistema de tração integral nos carros de rua.

Não se sabe exatamente onde ela foi tirada, nem quando – Mikkola chegou a dizer que pode ter sido no Rali da Finlândia de 1983, mas ele mesmo não tinha certeza. O que se sabe é que a foto se tornou famosa, ficou gravada para sempre no subconsciente coletivo e ajudou a fomentar a imagem de alta performance dos Audi de tração integral, mesmo os que não tinham inclinação esportiva.

Curiosamente, porém, Hannu Mikkola não curtia muito o Quattro. Ele dizia que o carro se comportava como um tração-dianteira em determinados momentos, como se o carro estivesse querendo levá-lo para esta ou aquela direção, e não o oposto. Ele gostava muito mais do Ford que conduziu nos anos 1970. “Acho que o Escort foi o melhor. Ele combinava mais com meu estilo de pilotar e era tão divertido!”, disse Mikkola em entrevista a John Davenport, navegador que dividiu com ele o cockpit do Escort RS1600 em sua primeira vitória, lá em 1974. “O Audi Quattro sempre saía um pouco de frente quando faltava aderência, e o carro parecia mesmo ter tração dianteira em certos momentos. Nunca me senti à vontade com ele. Especialmente na neve.”

Com o fim do Grupo B em 1986 e a saída da Audi do WRC, Hannu Mikkola decidiu diminuir o ritmo e competir por prazer. Correu com o Mazda 323 por alguns anos e, em 1993, juntou-se à Subaru para dividir um pouco de sua experiência com o jovem e promissor Colin McRae.

A verdade é que Hannu Mikkola nunca se aposentou de verdade – até seus últimos anos ele participou de eventos, muitas vezes ao lado do filho Vesa, pilotando carros de rali clássicos do jeito que eles merecem ser pilotados. Veja o homem aqui, em 2017, ao volante de um Escort RS1800 de 1980, arrepiando com Vesa Mikkola de navegador. Vendo de fora, você diria que ao volante estava um senhor de 74 anos?

Leia mais:

A venerável carreira de Walter Röhrl, o meister dos ralis – parte 1 | Lendas do WRC

A venerável carreira de Walter Röhrl, o meister dos ralis – parte 2 | Lendas do WRC

Markku Alén: o primeiro finlandês a se tornar campeão mundial de rali | Lendas do WRC

 

 

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