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História Projetos Zero a 300

La Misión Argentina 2: Oreste Berta e o Torino 380W retornam a Nürburgring – junto com Horacio Pagani

O nome de Oreste Berta é muito respeitado entre os entusiastas brasileiros, especialmente o pessoal da velha escola. O Ford Maverick preparado pelo mecânico argentino e financiado pela marca de cigarros Hollywood – não por acaso, batizado Maverick Berta-Hollywood – é um dos nossos carros de turismo favoritos. O motor, com bloco 302 modificado, cabeçotes Gurney-Weslake iguais aos do Ford GT40, componentes internos forjados e quatro carburadores Weber 48 IDA, tinha mais de 400 cv e carroceria alargada para acomodar largos pneus de Fórmula 1.

Horacio Pagani, por sua vez, é um engenheiro respeitado mundialmente. Goste você ou não do visual extravagante de seus supercarros fabricados na Itália, é de se admirar que Pagani, também nascido na Argentina, tenha sido o cara que tentou sem sucesso convencer a Lamborghini a usar fibra de carbono (um erro absurdo da marca italiana) e depois tenha partido para criar seus próprios superesportivos, começando pelo incrível Zonda – que, de tão bem resolvido, foi fabricado por 15 anos, de 1999 a 2014 (ainda que nos último anos a fabricação tenha sido limitadíssima, sob encomenda), e conviveu com seu sucessor, o Huayra, lançado em 2011.

Como conta o Argentina Autoblog, no último mês de maio os dois se encontraram em Nürburgring Nordscheife para algo especial: celebrar os 40 anos de La Misión Argentina – como ficou conhecida a equipe que, por inciativa do Automóvil Club Argentino (ou simplesmente ACA, maior entidade do automobilismo no país dos hermanos), aventurou-se em uma das corridas de longa duração mais… longas já realizadas: as 84 Horas de Nürburgring. Sim, 84 horas, ou três dias e meio, correndo.

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A prova aconteceu entre os dias 19 e 22 de agosto de 1969. Seu nome oficial era Le Marathon de la Route, e sua origem remonta à década de 1930, quando ainda era um rali de regularidade, o Liège-Rome-Liège Rally, realizado em vias públicas entre as cidades de Liège, na Bélgica, e Roma, na Itália; com ocasionais desvios para Spa, também na Bélgica, e Sofia, em Portugal. Depois de quase 30 anos sendo disputada em vias públicas, porém, a prova migrou para Nürburgring (que, tecnicamente, também é composta por vias públicas, mas enfim), mantendo o formato de rali de regularidade. Foram promovidas sete edições no Inferno Verde entre 1965 e 1971, com duração variando entre 80 e 96 horas (!).

Participaram do evento naquele ano carros 64 carros, entre eles alguns Alfa Romeo Giulia Spider, Renault R8 Gordini, BMW 2002, Lancia Fulvia, Porsche 911, Mazda R100… e três exemplares do IKA Torino 380W, o carro esportivo argentino mais emblemático de todos os tempos.  E boa parte de sua reputação se deve justamente ao quarto lugar do Torino 380W na Marathon de La Route de 1969. Você pode conhecer os detalhes desta história neste post.

 

Uma breve história do IKA Torino

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Para falar do Torino 380W é preciso falar brevemente do IKA-Renault Torino, o carro que lhe serviu de base. Em 1951 o governo da Argentina enviou marcou uma reunião nos Estados Unidos, a fim de comunicar às fabricantes norte-americanas a intenção de firmar uma parceria para produzir carros em solo argentino. A maioria das companhias, incluindo as gigantes de Detroit, recusou a proposta por considerar nossos vizinhos um mercado pequeno e pouco promissor. Apenas uma fabricante levou a ideia a sério: a Kaiser Motors. Mas nada foi acordado na ocasião – “vamos dar uma pensada e qualquer coisa a gente se fala”, deve ter sido a mensagem dos executivos da Chrysler para os argentinos.

A Kaiser tinha seus próprios problemas nos Estados Unidos. Era uma companhia relativamente jovem, fundada em 1946, pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Seus primeiros modelos fizeram sucesso no início graças à enorme demanda do público por qualquer automóvel que fosse depois do conflito, mas já em 1948 ficou claro que a pequena companhia de Ypsilanti, no Michigan, não tinha recursos para manter os preços competitivos das rivais maiores de Detroit.

No ano de 1953, em uma manobra ousada, a Kaiser Motors fundiu-se à Willys-Overland, que na época havia começado a operar no Brasil, e também fabricava a versão civil do Jeep. Toda a produçãono complexo de Willow Run, em Ypsilanti, que pertencia à Kaiser, foi transferido para Toledo, Ohio, na sede da Willys.

Agora, enquanto o Jeep (que agora era feito pela Kaiser e se chamava Kaiser Jeep) era um sucesso, a demanda pelos carros de passeio diminuía ano após ano. Para a Willys era a oportunidade perfeita de dar início a suas atividades no Brasil – a subsidiária Willys Overland do Brasil foi fundada em abril de 1952 – começando pela montagem do Jeep Willys em 1954. Em 1959, após um parceria com a Renault, seria lançado o pequeno Daphine e, em 1960, era a vez do Aero Willys – cujo ferramental já havia sido trazido dos EUA havia alguns anos.

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A Kaiser decidiu fazer a mesma coisa e, em 1954, decidiu dar aquela chance que havia, de certa forma, “prometido” à Argentina. Assim como fez a Willys no Brasil, a Kaiser enviou seu ferramental para Córdoba, na Argentina. Foi fundada uma nova companhia, a Industrias Kaiser Argentina, ou simplesmente IKA, que tinha como um dos acionistas a IAME, ou Industrias Aeronáuticas y Mecánicas del Estado – que, como o nome dizia, pertencia ao governo.

Os primeiros carros vendidos eram importados, mas uma nova fábrica da IKA começou a ser construída em março de 1955 e começou a operar no ano seguinte. Lá, eram montados o IKA Jeep, o IKA Estanciera (a versão argentina da Willys Rural), e o IKA Bergantin, carro compacto de origem Alfa Romeo. E as coisas foram seguindo seu curso, enquanto as atividades da Willys/Kaiser nos EUA continuavam concentradas no Jeep. Aliás, o utilitário foi o grande responsável por manter também as operações das marcas na América do Sul.

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Ika Estanciera, a “Rural argentina”

Agora, enquanto no Brasil a Willys estava às voltas com o Aero e seus problemas de carro antiquado (o que culminou em uma compra pela Ford em 1968), em 1962 a Kaiser procurava um carro que tivesse mais identidade para o mercado argentino. E eles resolveram fazê-lo… importando um projeto norte-americano e dando a ele desenho italiano.

Como já falamos, as operações da Willys/Kaiser nos Estados Unidos continuavam, focando-se principalmente na produção do Jeep e suas variações. No início dos anos 60, a companhia começou a comprar motores da American Motors Corporation, outra fabricante dos Estados Unidos que lutava para achar seu espaço ao lado das gigantes de Detroit. Esta parceria, mais tarde, acabou com a compra da Kaiser pela AMC. Antes disto, porém, a conexão permitiu que a IKA levasse para a Argentina projetos da American Motors.

A ideia era colocar no mercado um carro mais refinado, que unisse a confiabilidade dos norte-americanos ao estilo dos europeus.

Em vez de usar apenas um modelo da AMC como base, a IKA decidiu utilizar elementos de dois deles, ambos projetos bastante atuais: o compacto (para os padrões americanos) AMC Rambler American e o médio AMC Classic. Não se preocupe se não lembrar de cara quem são eles – a AMC não é exatamente famosa no Brasil.

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Em cima, o Rambler American; embaixo, o Classic

O resultado foi um carro que tinha a porção central da carroceria e a suspensão traseira do Classic e a linha do teto, o cofre do motor e o porta-malas do Rambler American. Os engenheiros da IKA incorporaram ao projeto longarinas reforçadas, emprestadas do Classic conversível, e um entre-eixos ligeiramente maior que no American – 2.723 mm em vez de 2.692 mm. Desse modo, o carro argentino era bem mais rígido e robusto do que suas contrapartes norte-americanas.

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O estilo do carro era a grande sacada: a dianteira e a traseira eram exclusivas do carro fabricado na Argentina, e foram desenhadas pelo estúdio italiano Pininfarina, assim como o interior do carro. Embora as linhas gerais fossem parecidas com o Rambler, a grade, os faróis e lanternas tinham desenho próprio.

O carro foi batizado como IKA Torino, inspirado pela cidade de Turim. E ele recebeu um emblema próprio – um torino rampante, fazendo referência ao cavallino rampante da Ferrari (que, como bem sabemos, teve a maioria de seus modelos desenhados pela Pininfarina).

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O carro foi apresentado em 1966 no Autódromo Municipal de Buenos Aires, e foi muito bem recebido pelo público e pela imprensa, que se referiu ao IKA Torino como “O Carro Argentino”. Até porque as Industrias Kaiser de Argentina não revelaram, no início, sua verdadeira origem.

O motor do IKA Torino, diferentemente do restante do carro, não era de origem AMC – era o seis-em-linha Tornado, originalmente desenvolvido pela Kaiser para a família Jeep. A versão básica, o sedã Torino 300, tinha uma versão de três litros e 120 cv chamada Tornado “Special”, com câmbio de quatro marchas e alavanca na coluna. O modelo “intermediário” era um cupê com motor de 3,7 litros, o Torino 380, com motor de 3,8 litros, carburador Holley e 155 cv, acoplado a uma caixa manual de quatro marchas da ZF com alavanca no assoalho.

A estrela da festa, porém, era o Torino 380W. O motor era basicamente o mesmo do Torino 380, mas a letra “W” indicava que ele era alimentado por não um, não dois, mas três carburadores Weber 45 DCOE. Com isto, o seis-em-linha entregava 180 cv a 4.500 rpm, com 33 mkgf de torque a 3.500 rpm.

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Pois bem: naturalmente, foi esta a versão escolhida pelo Automóvil Club de Argentina para inscrever-se nas 84 Horas de Nüburgring naquele ano para mostrar ao mundo a qualidade do “Automóvel Argentino”, e a empreitada contou como envolvimento até mesmo de Juán Manuel Fangio, pois o pentacampeão de Fórmula 1 era membro não-executivo da IKA, e por isso se envolveu nas atividades automobilísticas da fabricante. Ele até conduziu um dos carros – e já estava perto de completar 60 anos de idade quando o fez.

Documentário completo sobre “La Misión Argentina”

A IKA levou quatro carros para a Alemanha, mas apenas o carro nº 3 conseguiu concluir as 84 Horas de Nürburgring. Na 80ª hora de prova o carro estava na liderança da prova, seguido de perto por um Lancia Fulvia. No entanto, um pit stop de 14 minutos para trocar o escapamento, que fazia barulho demais, rendeu uma penalidade de 13 voltas e custou três posições aos argentinos, que terminaram a prova na 4ª posição. Apesar de não vencerem, os membros da Misión Argentina voltaram para casa como heróis, como se tivessem vencido. E o carro nº 3 hoje descansa no museu Juán Manuel Fangio, em Buenos Aires.

 

De volta à Alemanha

Horacio Pagani e Oreste Berta são amigos. O preparador argentino até já construiu uma réplica do Torino nº 3 para Pagani – uma recriação exata, nos mínimo detalhes. O carro foi montado na Argentina e lá permanece, por opção do próprio Horacio Pagani. Ele ficou pronto em 2014, sendo que Pagani e Berta até já participaram de eventos com ele, como a 1000 Millas Sport, realizada em Bariloche naquele ano.

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Fotos: Argentina Autoblog

Foi por isto que o colecionador argentino Ricardo Zeziola decidiu convidar a dupla para uma viagem até a Alemanha, onde poderiam conduzir seu recém-restaurado Torino 380W no Nördschleife, como uma celebração à conquista do modelo em 1969.

O carro foi todo restaurado nos padrões originais, mas a ideia de Zeziola era criar outra réplica do Torino nº3. Acontece que, ao desmontar o carro, os mecânicos viram que seu estado geral era tão bom que fazer modificações radicais seria um sacrilégio.

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Fotos: Argentina Autoblog

O Torino 380W teve a carroceria recuperada de quaisquer imperfeições, foi repintado na cor prata original e o motor foi todo refeito nos padrões de fábrica. Depois de pronto, o Torino 380W foi premiado no Autoclásica, maior evento de clássicos realizado na Argentina. Em seguida, foi levado para a Itália para fazer uma visita à Pagani Automobili.

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Fotos: Argentina Autoblog

Pagani e Berta foram pilotar no circuito como participantes de um Touristenfahrten comum – não foi um evento especial exclusivo para o Torino 380W. O pessoal do Autoblog Argentina publicou as primeiras fotos do carro no Inferno Verde na época, mas só agora foi divulgado o vídeo oficial do reencontro de Oreste Berta (acompanhado de Horacio Pagani) com Nürburgring ao volante do Torino restaurado.

Oreste Berta é muito respeitado no Brasil graças ao Maverick Berta-Hollywood, e Horacio Pagani tem uma reputação mundial graças a seus supercarros. É natural que os argentinos sintam orgulho deles, assim como sentem do pentacampeão mundial Juan Manuel Fangio. Deixemos nossa rivalidade natural com os hermanos de lado para apreciar este momento histórico.