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Car Culture

A volta do Lotus Carlton 40 RA que despistou a polícia?

Data: 23 de novembro de 1993. A polícia do condado de West Midlands, no Reino Unido, recebeu um chamado intrigante: uma série de roubos nos comércios locais, no valor de mais de £ 20.000  (ou mais de £ 40.000 em valores atualizados), quase tudo em cigarros e bebidas alcoólicas, com um fator em comum: os malfeitores perpetravam seus crimes usando um Lotus Carlton cinza com a placa “40 RA”. Nascia a lenda do Lotus Carlton 40 RA.

O Lotus Carlton usava uma versão extensamente modificada do motor C30NE, o clássico CIH seis-em-linha de três litros que equipou o Omega CD em seus primeiros anos.

A receita era brutal: deslocamento ampliado de três para 3,6 litros, componentes internos forjados, cabeçote com mais fluxo, coletores feitos sob medida e dois turbocompressores Garret T25 operando a 0,7 bar. O resultado: 382 cv a 5.200 rpm e 57,9 kgfm a 4.200 rpm. A transmissão, claro, foi substituída por algo muito mais adequado ao novo desempenho: a ZF6-40 de seis marchas usada pelo Chevrolet Corvette ZR1.

O conjunto era capaz de levar o Lotus Carlton de zero a 100 km/h em 5,1 segundos, com velocidade máxima de 283 km/h. Ele era quase tão rápido quanto uma Ferrari Testarossa, e superava em velocidade máxima a Ferrari 348 e o Porsche 911 Turbo.

Não foi por acaso, portanto, que os bandidos britânicos tenham escolhido o Lotus Carlton para sua série de assaltos. Além disso, o Lotus Carlton já era popular entre ladrões de carros, tanto pelo alto preço — 48.000 libras esterlinas na época —, quanto pela raridade, pois foram feitos apenas 950 exemplares.

A série de roubos durou semanas, e eles sempre aconteciam entre meia-noite e cinco da manhã. O carro ficava escondido durante o dia. E eles até eram flagrados pela polícia, às vezes. Mas como você vai alcançar um dos carros mais rápidos do mundo usando um Vectra, um Sierra ou um Volvo 440?

Na época o policial responsável pelo caso chegou a declarar que seria “extremamente improvável” conseguir chegar perto do Lotus. E, segundo uma lenda urbana local, o Lotus “40 RA” conseguiu despistar até mesmo o helicóptero da polícia na rodovia M6 — que é mais ou menos como a nossa BR-101 em termos de extensão e relevância.

O que se sabe é que os roubos pararam de acontecer e o carro nunca mais foi visto… até alguns meses atrás.

Lotus Carlton 40 RA

Em novembro de 2021, um sujeito chamado “Riccardo Austini” publicou em um grupo de entusiastas do Lotus Carlton no Facebook a foto que ilustra o topo desta matéria. Com a foto, ele escreveu: “It’s official”. E só.

Isso deixou muita gente intrigada. O lendário Lotus que despistou a polícia e sumiu para sempre, de repente, estava de volta depois de quase 30 anos? O que aconteceu? O crime prescreveu? O carro foi encontrado?

Para responder esta pergunta, contratamos um sujeito que dizia ter relação com o MI-16 e que vasculhou as redes sociais do tal Riccardo Austini. Com os relatórios recebidos, conseguimos remontar boa parte da história.

 

Quem é o dono do Lotus Carlton 40 RA?

Para começar, Riccardo Austini é um pseudônimo. O nome verdadeiro do proprietário do 40 RA é Richard Austin, e ele está envolvido com o automobilismo desde os anos 1990. Notou que RA são as iniciais de Richard Austin, certo?

Richard Austin fez fortuna ao criar a Evesham Micros, uma das maiores fabricantes e revendas de computadores do Reino Unido nos anos 1980 e 1990. Foi o que o permitiu comprar um Lotus Carlton zero-quilômetro por nada módicas 48.000 libras esterlinas — algo em torno de 83.400 libras em 2022 ou R$ 530.000 em conversão direta.

Richard Austin em foto recente

Nessa mesma época, além de disputar corridas de clássicos com um Lotus 19, ele também decidiu se aventurar como piloto profissional e chefe de equipe com a Harrier Cars, uma parceria de Austin e seus sócios com a Ford britânica. Ele chegou a pilotar os carros da Harrier na GT1, mas antes do final da década passou para o outro lado dos boxes e permaneceu como chefe de equipe. Em 1999, devido a um problema contratual com a Ford, ele comprou a equipe e a rebatizou como Sintura — um anagrama de R. Austin.

A Sintura fez apenas um carro, o Sintura S99 GT1, que disputou a American Le Mans Series na virada do século. O carro foi todo desenvolvido por ele e seus sócios usando como base um monocoque Lola feito de compósito. Embalado por um motor Judd GV4 V10 de quatro litros e 700 cv a 11.000 rpm, combinado a uma caixa sequencial de seis marchas também da Lola, o carro completou cinco das oito corridas da temporada, chegando a quatro pódios, dos quais um foi a vitória no campeonato de GT Britânico em Silverstone.

Atualmente Richard é o chefe da equipe Rob Austin Racing, do piloto britânico Rob Austin — que, aparentemente, é seu filho. A equipe disputa o campeonato britânico de carros de turismo (BTCC), e Richard, recentemente, pilotou um Fórmula 1 Surtees TS19 em uma corrida de clássicos da categoria.

 

A fama do Lotus Carlton 40 RA

Segundo relatos curtos e superficiais que Richard espalhou pela internet, a história do Lotus Carlton 40 RA envolve “um carro roubado, um espancamento, um cara pelado, uma perseguição policial e um Renault Espace destruído”.

O carro estava estacionado na entrada da casa de Richard quando os ladrões o roubaram. Não ficou claro como Richard apanhou dos bandidos e acabou sem suas roupas na rua — só sei que foi assim, diria João Grilo.

O que aconteceu com o carro após os roubos é contado pelo próprio Richard: ele foi jogado em um canal na cidade de Knowle, a cerca de 50 km de sua casa. No canal, ele foi atingido pelo casco de uma embarcação e teve seu teto amassado.

Agora… Richard permanece muito misterioso sobre a história completa e o novo carro. Felizmente, no Reino Unido as placas de carro podem ser pesquisadas nos sites governamentais. E pesquisando a placa 40 RA, encontramos uma transferência em outubro de 2021 — ou seja: Richard comprou o carro no fim do ano passado.

Ali no final: “Date of last V5C” indica quando o carro foi transferido pela última vez.

Mas este é o carro original ou não? Há um tópico no Reddit que sugere que o 40 RA original foi encontrado, porém o código de chassi do carro que supostamente é o 40 RA não bate com o código conhecido do 40 RA. Além disso, Richard disse que o carro estava “terrivelmente danificado”. Portanto, tudo indica que, depois de quase 30 anos, Richard simplesmente comprou um Lotus Carlton e colocou sua velha placa, como se quisesse continuar a história que uns bandidos o impediram de escrever.

Note que 40 RA é uma placa personalizada — muito provavelmente com a idade de Richard na época e suas iniciais. Esse tipo de placa permanece com o proprietário. Richard deve tê-la mantido em outros de seus carros e, agora, depois de comprar um Lotus Carlton, simplesmente fez o que qualquer um de nós faria, se pudesse: colocou as placas de volta no carro.

 

Lotus Carlton, famoso na internet

Muitos acreditam que o Lotus Carlton 40 RA é o carro do famoso vídeo no qual a polícia tenta, em vão, capturar um fugitivo com um Lotus destes. Você certamente já viu este vídeo:

Acontece que nem é preciso investigar para saber que ele não foi gravado no Reino Unido, afinal, os carros estão no lado direito da pista. Além disso, as informações na tela aparecem em sueco, o que deixa claro que o vídeo é da… Suécia.

O carro de polícia era um Saab 9-3 com motor 2.0 turbo, à paisana, com 175 cv à disposição e velocidade máxima de 223 km/h. Rápido o bastante para a maioria das ocorrências, imaginamos. Para interceptar um Lotus Carlton? Não.

Segundo o que apuraram os membros do fórum Opel Club Sweden, o dono do Omega tinha uma bela coleção e provavelmente estava testando os limites do Omega em vias públicas. Embora tenha escapado dos policiais, ele acabou localizado e recebeu uma visita das autoridades em casa, mesmo.

Ele alegou que era outra pessoa que estava dirigindo seu carro, e que não sabia do ocorrido. Assim mesmo, as autoridades confiscaram sua carteira de motorista de forma preventiva. Durante o processo, a polícia não conseguiu provar que o homem era quem estava dirigindo. Por isso, ele foi inocentado e o caso encerrado. Ainda assim, ele exigiu uma cópia do vídeo e, dizem, foi assim que as imagens chegaram à internet, ajudando construir a reputação subversiva do Lotus Omega juntamente do Lotus Carlton 40 RA.