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O Fusca Cal-look 1.9 | FlatOut Street

O quadro FlatOut Street se dedica aos carros preparados e customizados estrangeiros e nacionais, de todas as épocas e estilos. São matérias especiais, feitas para serem saboreadas como as das clássicas revistas que amamos.
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Um carro barato, para fazer pela Alemanha o que aquele outro famoso anti-semita tinha feito para os EUA com o Ford modelo T. Devia, como o T, ser produzido em larga escala numa fábrica enorme, e ser extremamente básico e simples. Mas Adolf Hitler era um entusiasta de alta tecnologia, e queria um pouco mais: o carrinho deveria ser capaz de andar o dia todo a 100 km/h, carregando uma família de quatro pessoas, nas novas Autobahnen que construía.

O carrinho que a empresa Dr. Ing. h.c. F. Porsche GmbH, Konstruktionen und Beratungen für Motoren und Fahrzeugbau criou para o governo nazista de Hitler era então a soma do pensamento avançado centro-europeu, circa 1935: motor traseiro contraposto refrigerado a ar, chassi plataforma estampado, carroceria “aerodinâmica” e suspensões independentes bem simples, com barras de torção como molas.

Era um carro leve e ágil, sim, mas de início ninguém poderia imaginar um carro esporte, ou veloz, saindo daquilo. Era um veículo utilitário, simples, frugal e ascético como o país que o criou. Mas uma guerra interveio, e uma que sabemos, foi perdida pelos criadores do Fusca.

Olhe hoje porém: até agora, em pleno 2022, o Fusca é matéria prima de mais carros velozes e interessantes que quase nenhum outro carro. Venceu corridas no deserto, em ovais, em estradas e pistas mundo afora. O mercado de peças de preparação e personalização dele é imenso, menor apenas que o do Chevrolet V8. A Porsche, uma marca que nasceu basicamente fazendo hot rod baseado em Fusca, continua uma das mais importantes empresas atuais. Como isso foi acontecer?

Primeiro, é um caso de popularidade. Vinte e dois milhões de fuscas foram feitos até o fim de sua produção, então existem muitos deles por aí. Coisas assim impulsionam uma indústria de peças, e uma indústria de peças, impulsiona uma indústria de peças melhoradas. Mecânicos mundo afora o conhecem bem, e como repará-lo de olhos fechados. Seu próprio sucesso e onipresença o tornam matéria prima básica para preparação e personalização.

Há motivos técnicos também: como mostrou s sua versão jipe militar Kübelwagen, sua leveza, motor traseiro, suspensões independentes e assoalho plano o fizeram um carro extremamente veloz e controlável no deserto. Depois da guerra, americanos criaram buggys de duna a partir dele, e eles ganhavam corridas off-road com facilidade, fomentando uma indústria de preparação. A Porsche mostrava como alguma preparação fazia do motorzinho, em carros leves bem pilotados, um matador de gigantes nas pistas de corrida também. Logo, essas idéias todas de mais velocidade iam para as ruas.

Mas nada disso teria acontecido, tenho certeza, se o VW não tivesse sido adotado como a solução de transporte mais sensata por uma multidão de americanos nos anos 1960. Uma geração que nos deu a contracultura, os jovens americanos dos anos 1960 não queriam dirigir os enormes carros americanos de seus pais, e adotaram os Fuscas e Kombis como sua montaria favorita.

Como um carro barato estatal, e nazista ainda por cima, se tornou um ícone da geração “Paz e Amor”? Como? Existe na história da humanidade um caso de rebranding tão efetivo como esse? De suásticas até pinturas psicodélicas, sem nenhum passo intermediário no meio?

O que aconteceu foi propaganda. No final da década de 1950, a Volkswagen havia feito progressos nos EUA, mas o Fusca ainda era uma curiosidade em comparação com os carros americanos convencionais da Ford ou Chevrolet. O chefe de operações americanas da Volkswagen decidiu que precisava de uma campanha publicitária que chamasse a atenção. Contratou uma agência nova chamada Doyle Dane Bernbach, ou DDB.

O primeiro anúncio que a DDB criou foi radicalmente diferente dos anúncios automotivos da época.

A DDB comprou uma página inteira na revista Life para seu primeiro anúncio da VW. Em seguida, colocou uma pequena fotografia de um pequeno Fusca no canto superior esquerdo do anúncio. Em vez de uma grande ilustração de um carro grande, e em vez de muita prosa florida sobre especificações técnicas, a maior parte da página do anúncio foi deixada em branco. Na parte inferior havia um slogan surpreendente: “Pense pequeno”. O anúncio parece moderno mesmo agora.

O “bom senso sobre rodas” se iniciava. Esta série de propagandas era exatamente o que os jovens esperavam na época: exortava qualidades técnicas e lógicas, derrubava a ilógica lógica do “quanto maior, melhor”, denunciava desperdício, desafiava o status quo. O Fusca era o carro de gente inteligente, sem medo de mudar, de fazer diferente, de desafiar o que se imaginava certo. O Fusca era um carro jovem.

Empresas como a Empi, na Califórnia, ajudavam ele a ficar além disso, veloz, mais estável, ou até mesmo transformá-lo em um novo carro de praia da moda. Categorias de competição para Fuscas, coisas que deveriam ser impensáveis, começam a aparecer por todos os lados. Arrancada. Pista. Rally. Raide de deserto. Para todo lugar que se olhava, um Fusca estava competindo.

Nas ruas também, eram preparados e personalizados das mais variadas formas. Essas formas, que iam do Euro-look que imitava Porsches e outros carros do tipo, até as formas de preparação nativas da Califórnia, como a arrancada e o Dune-Buggy, garantiam que, qualquer uma que fosse sua inclinação, existia uma forma de se personalizar um Fusca do seu jeito.

O fusca estava tão intimamente ligado aos jovens americanos que, quem diria, tal qual os Fords e Chevrolets de uma geração anterior à sua, o VW se tornou também matéria prima para hot-rods. Do carro de Hitler para o carro dos hippies e dos hot-rodders. Está aí o poder de uma propaganda bem feita, claro para quem quiser ver.

 

O Fusca Cal-Look do Rhelberth

Rhelberth Souza é a prova de que a onipresença e quantidade de um carro barato influencia gente até hoje. Em 2007, quando completou 18 anos, seu primeiro carro foi justamente um que tinha como principal qualidade o preço baixo e a manutenção fácil: um VW Fusca Ano 1981, branco paina, motor 1300 de carburador simples.

Sua jovem mente influenciada pelos filmes da franquia “Velozes e Furiosos” viajava longe nas coisas que pretendia fazer no fusquinha, enquanto a realidade de dinheiro curto o fazia rodar com ele original por quase dois anos, fora algumas pequenas mudanças como lanternas e coisas do tipo.

Mas o Fusca precisava de reparos, e o dinheiro mal dava para abastecê-lo. Acaba vendendo-o para um frentista de um posto perto de sua casa. Mas o carro parecia não querer abandoná-lo: dois anos depois é oferecido de volta à Rhelberth, exatamente do jeito que vendeu. O que significa que nem as manutenções que o fizeram vende-lo foram feitas… Comprou o carro por um motivo simples: estava realmente barato.

O carro estava em péssimo estado e foi pouco usado, até que, em 2012, ele resolve pará-lo para uma pequena reforma de algumas coisas essenciais e um banho de tinta nova. Mas como sempre acontece nesses casos, a pequena reforma foi lentamente escalando. Um assoalho aqui, um pedaço de carroceria ali… Se transformou num restauro completo.

Rhelberth decidiu que iria fazer o Fusca de seus sonhos então. Um carro como os carros de arrancada californianos dos anos 1960-1970: simples ao extremo, com apenas o minimamente necessário para rodar nas ruas. Os jovens da época usavam o Fusca no dia a dia e corriam no fim de semana; devia poder ser emplacado, com equipamento mínimos, mas só isso.

A reforma completa duraria 3 longos anos. Durante este tempo, pacientemente também fazia o que seria o centro do projeto: o motor. Um 1700 cm³ com pistões de 88 mm, comando w100, cabeçotes 40×32, dupla carburação original aberta para 34 mm.

O carro imediatamente foi colocado em competição. Em 2018, porém, num evento de arrancada, o câmbio veio a falecer em vários pedacinhos variados. Procurando o câmbio novo, nosso amigo acaba por achar uma pérola a venda: um motor ainda mais forte com um câmbio reforçado. Estava num projeto ambicioso de uma Brasília de pista, que, como acontece as vezes, parou por falta de grana. Rhelberth arrematou a mecânica para seu Fusca.

O Fusquinha ficou realmente sério agora. Um motor de 1915 cm³ (69 x 94mm), comando Engle W125, cabeçotes com válvulas 40 x 35,5 e balanceiros 1.25, molas de válvulas duplas Scat, taxa de 13,1:1, e dois Weber 40 duplos (na verdade, reproduções). O escapamento é 4×1 de inox da Empi e abafador modelo FatBoy. O câmbio agora era a prova de quebra:  dentes retos forjados, diferencial Torsen, e coroa, pinhão e pontas de eixo forjadas. A embreagem é uma ceramic Power de 980 lb.

 

Com esta configuração, os freios, ainda originais, eram claramente insuficientes. Além disso, como o carro vivia parado, saindo só para eventos, limpar carburador virou algo constante na vida do dono. Assim, resolveu dar mais um passo adiante: um módulo de injeção programável, com injeção sequencial, bicos Bosch 42lbs e bobinas individuais do Onix. Quatro ITB no estilo dos carburadores Weber completaram a configuração.

Além disso, muito foi feito no chão: freios a disco Empi de maior diâmetro na dianteira com pinças de Santana, e freio a disco de C4 com pinças de Golf na traseira. As rodas mudaram também: passaram a ser as BRM 5 furos seguindo o padrão dos Fuscas antigos com tala 5 na dianteira e pneus 155/60R15, e talas 6,5 na traseira para pneus 205/65R15.

O carro é exatamente como os carros de arrancada americanos antigos, não fosse a injeção e seu painel escondido atrás da grelha direita do painel no Fusca. Os parachoquinhos individuais leves, o interior espartano, o motor forte, as rodas, tudo no tema californiano. A tampa do motor tem dobradiça com offset, mas permite que seja facilmente desmontada também, para rodar em corrida sem ele. O volante esportivo também tem quick-release, e uma alça no teto para pendurá-lo.

A cor sem brilho demasiado e o estilo limpo do exterior combinam com o santantônio interno, os bancos concha e o interior depenado para fazer deste fusquinha, além de uma declaração de estilo e cultura próprio, uma clara arma para pistas de arrancada.

 

Um carro de corrida, saído de um commuter alemão dos anos 1930. Quem poderia imaginar?