FlatOut!
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Car Culture História

O que este piloto de corridas tem em comum com o Black Sabbath?

Never Say Die!, lançado em 1978, foi o oitavo e último trabalho de estúdio da formação clássica do Black Sabbath – e, por décadas, o último com Ozzy Osbourne nos vocais. Na época e hoje em dia, o álbum é largamente considerado pela crítica uma mistura de ideias recicladas dos álbuns anteriores com inovações deslocadas e sem propósito. Claro, embora seja considerado fraco para um álbum de uma das bandas mais influentes e importantes da história, Never Say Die ainda é um registro muito bom do rock pesado setentista – e uma das várias faces que o heavy metal, seu gênero afilhado, ainda desenvolveria.

Mas calma: o FlatOut ainda não virou um site de música. Mas acontece que, em Never Say Die!, uma série de fatos isolados converge – e sim, tem a ver com carros e corridas.

Melhor ainda: de uma era distante na história dos automóveis e do automobilismo, na qual carros com carroceria aberta e formato de torpedo e motores de dezenas de litros eram conduzidos por pilotos que usavam capacetes de couro, óculos, cachecóis e agasalhos. Verdade seja dita: no começo do século 20, o esporte a motor era bem mais perigoso do que agora. Era quase uma sentença de morte.

Para um cara chamado Eddie Rickenbacker, porém, o trabalho de piloto de corridas não era arriscado o suficiente: ele também lutou na Primeira Guerra Mundial como ás da força aérea. Ele foi um dos militares mais condecorados na história dos EUA, com 26 vitórias contra aviões inimigos; sete Cruzes de Serviços Distintos, por bravura em combate; e uma Medalha de Honra (a mais alta decoração militar dos EUA). Eddie Rickenbacker é reconhecido como herói de guerra, e frequentemente é considerado um dos maiores pilotos de guerra em todos os tempos.

Antes de entrar para a aeronáutica, porém, Eddie Rickenbacker já era completamente louco por carros. Nascido em 1890 na cidade de Columbus, Ohio, Ele trabalhou como aprendiz de mecânico em uma empresa chamada Oscar Lear Automobile Company, em Ohio – o que o levou, em 1906, a estrear como mecânico de corrida. Cinco anos depois, em 1911, seu mentor e chefe Lee Frayer, engenheiro da Oscar Lear, o levou para correr nas 500 Milhas de Indianápolis como piloto reserva.

O primeiro grande contrato de Eddie Rickenbacker foi com a Duesenberg – na qual ele ganhou o apelido “Fast Eddie” por sua pilotagem. Em 1915, ele migrou para a Peugeot, onde ficou por apenas um ano antes de ser atraído pela americana Maxwell – um arrependimento que ele levou para o resto da vida, afinal a Peugeot se tornou uma gigante do automobilismo e a Maxwell simplesmente desapareceu em 1925, com seus escombros ajudando a formar a Chrysler.

Foi durante seu curto período na Peugeot, porém, que Eddie Rickenbacker fez uma contribuição interessante para o automobilismo – um sistema de intercomunicação entre piloto e mecânico, permitindo que os dois pudessem ouvir um ao outro em cima de um carro em movimento.

O sistema consistia em duas máscaras de couro ligadas por um tubo de borracha. O funcionamento era simples e direto – as ondas sonoras percorriam o tubo e os dois podiam se ouvir. A foto abaixo, parte da Coleção Eddie Rickenbacker da livraria digital da Universidade de Auburn, mostra Eddie Rickenbacker (à direita) e seu mecânico Fred McCarthy usando o dispositivo.

Segundo a descrição no site da universidade, o verso da fotografia diz o seguinte:

Os mais novos astronautas da Genesis? Não, não se trata do nosso próximo voo espacial, mas sim de outra era. Os dois cavalheiros atrás das máscaras são Eddie Rickenbacker e Fred MaCarthy, piloto e mecânico da Peugeot durante uma corrida em Corona, na Califórnia, no ano de 1914. O uso de máscaras de couro para proteger o rosto contra os pedregulhos tornava necessário o uso de tubos para se comunicarem. Com capacetes e óculos escuros, a aparência deles é mesmo “de outro mundo”.

Mas sabe o que a foto também lembra? Sim: a capa do oitavo álbum do Black Sabbath.

E é aqui que as coincidências ficam interessantes – e meio nerds. Geezer Butler, o baixista e principal letrista do Black Sabath, sempre utilizou um baixo Fender Precision, primeiro contrabaixo elétrico produzido em série com corpo sólido. Mas em 1978, durante as gravações de Never Say Die! e na turnê correspondente, Geezer adotou o modelo 4001, da Rickenbacker. Dá para vê-lo no vídeo abaixo:

Isto é relevante porque Eddie Rickenbacker era primo de Adolph Rickenbacker – que, ao lado de George Beauchamp, fundou a fabricante de instrumentos musicais com seu sobrenome. Eles eram primos distantes, na verdade – até mesmo seus sobrenomes eram diferentes. De origem suíça, a família originalmente assinava como Richenbacher.

Quando a Rickenbacker foi fundada, em 1931, Eddie Rickenbacker já era conhecido. Adolph, então, decidiu anglicizar a grafia de seu sobrenome para capitalizar sobre a popularidade do primo – algo que deu certo e foi assumido pelo próprio Adolph Rickenbacker em sua autobiografia publicada em 1967.

Os baixos e guitarras da Rickenbacker são sensacionais e foram utilizados por uma multidão de músicos ao longo das décadas, dos Beatles ao Motörhead. Mas, de certa forma, se não fosse por Eddie Rickenbacker e seus feitos durante a Primeira Guerra, talvez eles não tivessem ficado tão conhecidos.

Eddie Rickenbacker não se importou com isto – ele tinha uma vida bastante agitada. Depois de ser dispensado do serviço em 1919 como capitão, o ex-piloto seguiu trabalhando no exército e no automobilismo.

Em 1927 ele comprou o circuito de Indianápolis, que operou por quase 15 anos – e foi responsável por diversas melhorias em sua infraestrutura. Ele também trabalhou com a venda de carros da Cadillac e, quando a investida da GM no mercado aeronáutico fracassou, na virada da década de 1930, ele decidiu por conta própria envolver-se no negócio da aviação e tornou-se diretor da Eastern Air Lines, uma das primeiras companhias aéreas dos EUA.

Eddie Rickenbacker cumprimenta um dos pilotos da Eastern Airlines em 1935

Durante a Segunda Guerra Mundial, Eddie Rickenbacker apoiou a atuação dos Aliados em uma posição interna, como consultor. Além de supervisionar tropas e equipamentos, ele trabalhava como porta-voz do exército e era uma das figuras responsáveis pela propaganda de guerra – sua função era a de aumentar o apoio da população norte-americana às tropas dos EUA.

Foi durante suas viagens na Segunda Guerra Mundial que Eddie Rickenbacker quase morreu duas vezes – muito depois de se aposentar das pistas e dos cockpits dos aviões de guerra. Em fevereiro de 1941, o Douglas DC3 da Eastern Airlines em que ele estava caiu depois de acertar a copa de uma árvore enquanto se preparava para pousar no aeroporto de Atlanta. Apesar de ferido gravemente, Eddie Rickenbacker ainda ajudou a socorrer algumas vítimas – o que é impressionante, já que ele tinha fraturas pelo corpo todo, um ombro esmagado, várias costelas quebradas e o olho esquerdo expelido da órbita. Ele recuperou-se totalmente em poucos meses (incluindo a visão do olho esquerdo) e voltou a trabalhar.

Em outubro de 1942, o secretário de guerra dos EUA, Henry L. Stimson, enviou Rickenbacker para inspecionar a base dos EUA no Oceano Pacífico.

Por uma falha de navegação, o avião  B-17D Flying Fortress no qual Rickenbacker estava caiu no mar – e, sem serem avistados pelos patrulheiros japoneses, os náufragos passaram 24 dias à deriva antes de serem resgatados pelas tropas norte-americanas – e Rickenbacker tomou a liderança, encorajando os colegas e tentando mantê-los calmos e em segurança.

Depois de tanta ação, Eddie Rickenbacker manteve-se até 1959 na posição de CEO da Eastern Airlines – e se aposentou logo em seguida, tornando-se palestrante e viajando pelo mundo com sua esposa. Ele morreu de causas naturais, incrivelmente, em 1973, aos 86 anos de idade.

Never say die, realmente!

(Dica do Flatouter Felipe Wosniak)