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Car Culture

O que você precisa saber para fazer a manutenção do seu carro por conta própria


Sabe aquele tipo de motorista saudosista, que dirige seu carro de 35 anos diariamente porque acha que ele funciona bem e não gosta da qualidade dos carros novos? Então. Eu sou assim com minha secadora de roupas.

Ela já tem 35 anos. Feita de lata dura e pesada, com um motorzão barulhento. Não é essas plastimáquinas de hoje em dia, cheias de componentes eletrônicos loucos para oxidar com a umidade da área de serviço e acabar condenada pelo técnico porque não se acha mais a placa de controle. Pra cima de mim não, cara-pálida. Essa secadora é praticamente um Panzerkampfwagen branco e retangular. Seca quase 10 kg de roupa em pouco mais de 45 minutos. E nem gasta tanto.

Mas mesmo os Panzer tinham seu ponto fraco, e minha máquina de secar roupas também o seu: a fiação antiga e os plásticos ressecados às vezes não resistem ao trabalho e deixam de conduzir eletricidade, fazendo com que a máquina não esquente o ar. Quando isso aconteceu pela primeira vez, há alguns anos, chamei o técnico e pedi para que me explicasse as causas e soluções. Como o circuito é simples, a explicação foi um mini-curso intensivo de pouco mais de 20 minutos. Com uma noção básica de elétrica, ferramentas adequadas e a explicação do técnico, pude consertá-la sozinho nas duas vezes em que ela parou de esquentar nos últimos dois ou três anos.

Com o portão eletrônico foi parecido: o técnico nunca tinha peças ou tempo para me atender no dia. Lembrei que em uma das visitas ele leu o manual da placa e resolvi que faria o mesmo. Não deve ser difícil.

E não era mesmo: comprei duas placas — uma substituta e uma reserva, e sentei com o manual de instalação/programação. Estava tudo lá — até mesmo a programação que o “técnico” dizia não estar disponível. Acabei consertando os três motores daqui de casa, com direito a fechamento suave e desaceleração progressiva. FlatOut Portões ao seu dispor, madame. 

Decidi contar estas duas pequenas histórias porque já faz algum tempo que os leitores do site nos pedem matérias sobre manutenção dos carros por conta própria, e acho que, antes de fazer qualquer matéria explicando o processo, seria legal explicar o que você precisa fazer antes de começar a sujar as mãos debaixo do capô do carro.

 

A teoria

Não dá pra pensar em mexer no carro sem saber o básico de seu funcionamento. Como o ar entra no motor, por que as válvulas precisam ser sincronizadas com o virabrequim, por que motor gira mais quando você acelera, como os freios freiam, como a gasolina chega ao motor, o que acontece quando ela não é usada na injeção. Como funciona o arrefecimento do motor, para que serve o fluido de freio, pra que serve a válvula termostática, quais são os acessórios ligados ao virabrequim e para que cada um deles serve. É preciso ter ao menos a noção básica de como funcionam esses sistemas do carro.

Não tão básico…

Um bom começo é o curso de noções básicas de mecânica automotiva do Senai de São Paulo. Ele serve para quem não entende muito bem como tudo isso funciona, explica de maneira simples e resumida e te dá uma boa noção de todos os sistemas do carro. É gratuito e feito à distância, e você recebe até um certificado no final.

Depois disso, você tem algumas opções para: fazer um curso mais avançado (o próprio Senai tem dezenas de opções), acompanhar de perto a manutenção do seu carro em uma oficina, se possível, ou, em último caso, negociar um valor extra com seu mecânico de confiança para que ele te ensine o básico da manutenção regular.

Como funciona a injeção eletrônica?

O YouTube também pode ser uma opção: há milhares de vídeos que explicam processos básicos de reparo e manutenção. Eles podem ser muito bons para fortalecer sua base teórica porque você verá as diferenças entre os carros, saberá identificar as variedades de componentes e sistemas mecânicos e ficará familiarizado com os componentes.

 

Saber o que não fazer

Se você não sabe dizer em qual sentido um parafuso se aperta, nunca instalou o sifão da pia ou trocou uma torneira simples, ou então usa alicates para soltar parafusos, chaves de fenda para apertar parafuso philips, ou ainda tenta soltar o parafuso da roda do carro puxando a chave para cima, é melhor desenvolver mais suas habilidades com ferramentas. Seu carro não será um bom lugar para aprender essas coisas.

Caso você tenha uma habilidade mínima, pode começar tentando fazer coisas fáceis — mas sempre com as ferramentas certas. Da mesma forma que você não corta um bife com uma colher, não tente usar um alicate para soltar um parafuso. É importante até  mesmo saber o quanto apertar e o quanto não apertar um parafuso (uma boa dica é se perguntar se você terá que soltá-lo em breve).

Mas, acima de tudo, o mais importante é conhecer e reconhecer seus limites. Nenhum técnico em mecânica começa abrindo cabeçotes. Mesmo com o treinamento formal, eles normalmente começam com os processos simples e como auxiliares em processos mais complexos. Se você observar o que precisa ser feito e se sentir inseguro, é melhor desistir e chamar alguém que saiba fazer — e aí aprender ou simplesmente entregar a tarefa a esta pessoa —, do que quebrar seu carro.

Fazendo uma auto-referência como exemplo, eu evito qualquer reparo/manutenção que permita acessar a parte interna do motor. Mesmo a troca de velas é algo que não me sinto à vontade para fazer pois, ao retirá-las, você deixa uma porta de entrada para o cilindro. Além disso, é preciso ajustar os eletrodos e, para terminar, não é difícil posicioná-las incorretamente, forçar o aperto e acabar amassando a rosca do cabeçote. Saber o que não fazer é tão importante quanto saber o que fazer.

 

O equipamento

Com um macaco, um jogo completo de chaves de fenda, philips e chaves combinadas, alicate comum, chaves allen e uma chave de roda você consegue resolver boa parte da manutenção básica do seu carro. Até mesmo a troca do fluido de freio, se você tiver paciência de repetir a alavancagem do carro quatro vezes para sangrar as quatro rodas.

Se quiser trocar o óleo do motor, o negócio complica. Primeiro porque você precisa de uma rampa ou de um elevador. O carro precisa ficar plano — ou muito perto disso. Você até pode usar cavaletes, mas é trabalhoso demais para algo tão simples. O segundo complicador é que você não pode jogar o óleo no ralo; é preciso descartá-lo corretamente.

À medida em que você começa a desenvolver a prática, começará a entender quais ferramentas facilitariam seu trabalho, quais são realmente necessárias e quais são dispensáveis. Resista à tentação de comprar um jogo completo de ferramentas sem nem saber onde usá-las ou se terá que usar todas elas. Comece com o básico e vá comprando aos poucos, à medida em que for necessário. Aqui deixo uma única dica: ferramentas multiuso/multifunções ou chaves ajustáveis normalmente não funcionam como deveriam e podem te atrapalhar mais do que ajudar.

 

Concentre-se no seu carro

Eu não sei consertar máquinas de secar roupa. Eu sei consertar apenas a minha máquina de secar roupas. Com os portões é igual: sei consertar e programar os meus portões. Com seu carro é o mesmo: você não quer ser mecânico, quer apenas cuidar do seu carro. Então concentre-se no seu carro.

A internet, apesar da quantidade de gente chata que se acha especial, palpiteiros e reclamantes crônicos, é uma fonte inesgotável que deixa boa parte do conhecimento humano a meia-dúzia de cliques de distância. Há milhares de páginas com manuais de serviço, folhetos de manutenção, manuais usados e novos e tudo o que você precisa saber para consertar o seu carro. Quando comprei meu A160, ganhei o manual de manutenção do modelo, original da Mercedes, de um amigo que trabalhou na concessionária. Quando comprei meu Focus, encontrei o guia completo de manutenção usado pelas autorizadas Ford.

Claro, muitos sistemas do carro são análogos em diferentes modelos. Toda roda se solta do mesmo jeito, tenha ela prisioneiros, parafusos ou cubo rápido. Toda vela se solta do mesmo jeito, todo filtro de ar se encaixa de forma parecida e você irá entender isso com o tempo. Mas concentre-se nos sistemas do seu carro, em como fazer bem feito apenas no seu carro e do jeito que seu carro exige.

 

Os tipos de reparo e manutenção

Todo carro tem sua manutenção básica que deve ser feita pelo proprietário periodicamente: verificar calibragem dos pneus, nível do óleo, nível do reservatório do lavador do para-brisa, checagem de lâmpadas, nível dos fluidos de freio e de arrefecimento, calibragem do estepe (lembra dele?) e checagem das palhetas dos limpadores de para-brisa.

Comece por aí. Se você não faz metade dessa lista — por desleixo ou por falta de habilidade — melhor nem seguir adiante. Essa lista é o equivalente ao “arrumar a cama, escovar os dentes, tomar banho, lavar a louça, varrer a casa e lavar as roupas”. Se você sequer faz isso, o que pretende fazer?

Depois você pode começar com coisas leves: aprenda a trocar as lâmpadas dos faróis, lanterna e quadro de instrumentos. Aprenda a trocar o filtro de ar do motor e filtro de cabine, que são os mais fáceis. Aprenda a trocar as palhetas. Aprenda a verificar os fusíveis (leia o mapa de fusíveis e para que serve cada um, lembre-se de verificá-los quando acontecer uma pane elétrica).

Dominando isso você pode passar para outros serviços mais trabalhosos: trocar pastilhas e discos de freio, fluido de arrefecimento, fluido de freio, filtro de combustível e bomba de combustível. A maioria dos sensores acessíveis pela parte de cima do motor também é relativamente fácil de trocar. Se o carro for carburado, aprenda a regular o carburador. Aprenda a ajustar os cabos de acelerador e freio de mão (e de embreagem, se for o caso). Aprenda a trocar os cabos de vela e a bobina de ignição, terminais de direção e buchas da suspensão, e também aprenda a trocar as correias de acessórios.

Quer fazer reparos e manutenções mais complexos e extensos? Aí é recomendável fazer um curso mais aprofundado de mecânica. Algo que te ensine na prática a abrir um motor, a trocar bombas, correia dentada, juntas, rolamentos e polias, coletores, a limpar injetores etc. Mas aí você já terá o conhecimento quase de um profissional e, sinceramente, não acho necessário para alguém que só quer curtir os carros no fim de semana.

Por último, você deve ter notado que eu não falei em troca de óleo. O processo é simples, mas tem dois fatores de complicação. O primeiro é que você precisa acessar o cárter do carro. Não dá para simplesmente levantar a dianteira do carro com o macaco e se meter embaixo dela porque o carro precisa estar plano durante a drenagem do cárter e não se enfia embaixo de um carro suspenso por macaco ou jacaré. Você poderia até usar cavaletes, mas seria trabalhoso demais. Também poderia usar aquelas rampas portáteis de revendas de carros, mas também não vale a pena.

E não vale a pena por uma única razão: todo revendedor de óleo oferece o serviço gratuito de troca. Faz parte do modelo de negócio dele. Ninguém vai te dar desconto por não trocar o óleo na loja. Além disso, você não pode jogar o óleo usado no ralo. É preciso guardá-lo em um recipiente adequado e, veja só, voltar à loja que te vendeu o lubrificante para descartá-lo — eles têm a responsabilidade legal de coletar o lubrificante usado. Simplesmente não vale a pena e não faz sentido tentar fazer isso em casa se você não tem um elevador ou uma rampa/fosso.

Por último, em qualquer reparo — seja uma troca de lâmpada ou uma troca de junta — você precisa ter organização e disciplina. O carro não é apoio para ferramentas — use uma mesa auxiliar, um banco ou um carrinho de ferramentas. Os parafusos devem ser guardados sempre em potes ou caixas, sempre separados por conjunto, preferencialmente na ordem em que você os removeu. As peças que você retira também devem ficar apoiadas em qualquer lugar que não seja o carro. E, claro, você precisa saber que terá que terminar o serviço se começá-lo.

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