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O renascido Ford Focus Turbo de Gus Loeffler | FlatOut Street


O quadro FlatOut Street se dedica aos carros preparados e customizados estrangeiros e nacionais, de todas as épocas e estilos.
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Um caminho diferente

O motor EA827 da Volkswagen é uma instituição brasileira. Como o small block da Chevrolet, ele nasceu pela necessidade de uma renovação e se tornou extremamente popular. O sucesso trouxe na bagagem uma combinação de confiabilidade e disponibilidade de componentes. O caminho para se tornar a primeira opção dos entusiastas e preparadores brasileiros foi natural. Se não ele, qual outro?

Bem… Gus Loeffler até começou com os Volkswagen AP — primeiro um Passat GTS Pointer, depois um Gol GT — mas, quase que por acaso, acabou tomando um caminho diferente em seu segundo projeto. O Ford Focus que ele comprara para ser seu carro de uso diário foi se revelando, pouco a pouco, a base ideal para o que costumamos chamar de “track toy” — e uma grande homenagem a um de seus heróis das pistas: Colin McRae.

O caminho diferente tomado por Gus neste seu segundo grande projeto, contudo, foi também um caminho ainda não desbravado. Até então eram poucos os que se aventuravam no território de preparação dos Ford — especialmente um modelo pouco popular e equipado com um motor ainda menos comum, o Zetec-E.

 

O Ford Focus Mk 1

Lançado na Europa em 1998, o Focus chegou ao Brasil dois anos mais tarde com duas opções de motorização: o Zetec 1.8 16v de 115 cv que também equipava seu antecessor, o Escort, e o Zetec 2.0 16v de 132 cv que já era conhecido por aqui no cofre dos Ford Mondeo.

Apesar das qualidades como o motor multiválvulas e, principalmente, o acerto dinâmico primoroso obtido em parte pela suspensão multilink traseira, ele enfrentou uma concorrência acirrada naquele que foi o momento mais prolífico para os hatches médios no Brasil. Durante seu tempo de produção — entre 2000 e 2009 — ele dividiu as ruas com Citroën Xsara e C4, Peugeot 307, Chevrolet Astra e Vectra GT e Fiat Stilo.

Em 2003 o motor 1.8 deixou de ser oferecido em favor do 1.6 Rocam, que não tinha o comando duplo de válvulas nem quatro válvulas por cilindro, mas oferecia uma curva de torque mais alta em baixas rotações, uma preferência dos brasileiros. Na linha 2005 foi a vez do motor 2.0 Zetec-E se aposentar. Em seu lugar entrou o novo Duratec, um 2.0 de 147 cv que deu ao Focus uma dinâmica renovada para os últimos anos de sua carreira.

Ainda hoje o Focus é um fornecedor dos motores Duratec para projetos, geralmente envolvendo o Fiesta. Mas, por alguma razão inexplicável, o Focus raramente é usado como base para projetos de rua ou de pista. O que torna a escolha de Gus ainda mais inusitada.

 

Quase por acaso

O Focus chegou para ser um carro de uso diário. Gus certa vez fez sua lista de carros que gostaria de ter: Lancia Delta Integrale Evo2, Ford Escort RS Cosworth, Subaru Impreza 22b, Toyota Celica GT-Four, Mitsubishi Lancer Evo V, e Ford Focus, todos em trajes de rally.

Quando um daqueles acasos da vida permitiu, ele foi logo procurar um destes em suas versões sociais, que foram vendidos no Brasil. Entre Subaru Impreza e Focus, ele optou pelo último. Um exemplar branco, pronto para receber as cores da Martini Racing. Por sorte, o carro o estava esperando na loja de um amigo, que ainda concedeu um desconto na compra. O visual original durou dez quilômetros — foi o caminho entre a concessionária e a loja onde foram instaladas as molas Eibach e as rodas TSW que o carro calçou em sua primeira versão com Gus.

O carro chegou para ser usado diariamente, mas nós, entusiastas, sabemos que esse tipo de coisa não se escolhe. Alguns carros parecem pedir um destino diferente. O Focus implorou.

Ele começou conquistando Gus com as rodas e as molas. Depois ganhou amortecedores Bilstein e mostrou do que era capaz. Gus entendeu o recado. Era para ser um carro de uso diário.

Era.

 

Saída à inglesa

Convencido do potencial, Gus decidiu ir além. O ano era 2007. Não havia praticamente nenhuma preparação baseada no Focus que servisse de referência para Gus. Ao menos não no Brasil.

Saída à inglesa é o jeito que os franceses chamam a saída à francesa. No caso de Gus, a saída à inglesa ganhou outro significado: na ilha regida por Elizabeth II, os motores Ford são o Volkswagen AP e o Chevy small block. São eles a opção natural para os projetos britânicos. Se quer saber como um Ford preparar, é para os ingleses que você deve perguntar.

E foi o que Gus fez. Sessões diárias e intensas no eBay o levaram a um novo mundo de peças e componentes de performance para o Focus. As receitas estão prontas, testadas, provadas e aprovadas. Gus decidiu que faria um projeto completamente diferente, algo com a performance de um RS e o visual de um carro de rali.

O visual começou com um modesto quadro de instrumentos do Focus RS, um raro quadro com unidades do sistema métrico. Foi o primeiro de tantas peças e componentes que cruzaram o Atlântico — mais tarde viriam desde a manopla de câmbio até o bodykit e um motor de competição. Curiosamente, este motor jamais foi instalado no Focus. Em vez disso, Gus optou por uma preparação turbinada no motor 1.8 original.

A sobrealimentação, ainda modesta (0,4 bar), trouxe um desempenho mais condizente com o visual já agressivo. Em outro daqueles acasos da vida, Gus acabou colocando o Focus para disputar a 1ª Subida de Montanha de Campo Largo. Empolgado com o desempenho — e com o visível potencial do carro — Gus foi atrás de um elemento fundamental para evoluir o projeto: um carro para uso diário. Ele permitiria que o Focus finalmente fosse transformado em uma recriação do carro de rali.

 

O sonho abreviado

Livre para ser transformado em um “track toy”, o Focus ganhou um novo motor Zetec-E 2.0, um novo turbo, um novo câmbio, um novo bodykit com saias laterais e o para-choques dianteiro do Focus RS europeu, bancos esportivos e novas rodas. A potência saltou para 200 cv e depois para 330 cv, usando sempre como base o Zetec de dois litros.

Já com o visual de um carro de rali — com direito à livery da Martini — Gus inscreveu o carro na segunda edição da Subida de Montanha de Campo Largo e conseguiu uma honrosa terceira colocação em sua categoria… com a traseira do carro em chamas. Uma pane no motor causou a quebra do bloco e o subsequente incêndio. Felizmente, o carro escapou praticamente ileso — apenas o para-choques traseiro e as lanternas foram danificados — mas o projeto acabaria ainda durante a investigação do incidente.

A terceira edição da Subida de Montanha de Campo Largo acabou adiada enquanto o carro estava na oficina, desmontado para os reparos. Sem ter onde correr, Gus decidiu mudar a direção do projeto mais uma vez.

 

Renascido das cinzas

Em sua terceira iteração o Focus de Gus voltou a ser um carro de rua voltado ao uso diário. O tipo de carro de uso diário que um fã de Colin McRae — ou talvez o próprio McRae, quem sabe — gostaria de dirigir todos os dias de casa para o trabalho.

Sem o visual de rali, mas com uma preparação cuidadosa, ele é o exemplo perfeito de sleeper. Um Focus Mk1 aparentemente original, com uma suspensão pouca coisa rebaixada, mas com uma (over)dose de potência pronta para ser despejada nas rodas dianteiras.

Agora com um novo 2.0 turbinado, ele produz cerca de 250 cv para as ruas e estradas. O motor foi montado com válvulas de aço inoxidável Yamashita, polias ajustáveis para os comandos de válvulas, correia dentada da Cosworth feita em Kevlar, pistões com revestimento cerâmico na cabeça e turbo Mitsubishi TD04 operando com 0,8 bar de pressão máxima. O câmbio não poderia ser outro se não o robusto MTX-75,  usado nas versões esportivas do Focus no exterior, combinado a uma embreagem de seis pastilhas e 850 lb da Displatec.

Ainda resta algo da suspensão anterior: os amortecedores Pro Damper da Eibach, agora combinados às molas H&R Sport e a um kit de buchas de poliuretano da Energy Suspension. As rodas lembram o desejado modelo de 16 polegadas do Fiesta Mk 7, porém são as brasileiras Mangels Naja, também com 16 polegadas, mas com tala de 7,5 polegadas, as quatro calçadas em pneus Yokohama A.drive 205/50.

A cabine, mesmo deixando o radicalismo de lado, não abriu mão das referências esportivas que o pedal alongado da direita inspira: os bancos são do Focus americano, com o tecido do Focus XR brasileiro, e o painel tem um kit de acabamento tipo fibra de carbono para quebrar o visual sisudo e honrar seu passado recente. A alavanca de câmbio original nem sonhou em voltar para o lugar: em vez dela o short shifter M2 Performance foi mantido — uma decisão sensata, considerando a origem do projeto.

Ainda que não tenha mais o visual do carro de Colin McRae, o Focus Turbo de Gus não deixa de ser uma impressionante homenagem ao lendário piloto escocês. Diante da incerteza do início do projeto, Gus sempre acelerou diante das dúvidas. Como um piloto de rali guiado pelas pacenotes, na dúvida, Gus acelerou por um caminho imprevisível para criar um carro diferente de praticamente tudo o que havia até então. Usá-lo no dia-a-dia é a melhor homenagem possível a um piloto que sabia que a solução era sempre acelerar.

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