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FlatOut Classics & Street

O Toyota Paseo do Dr. Gino Brasil | FlatOut Classics


O quadro FlatOut Classics se dedica ao antigomobilismo e aos neocolecionáveis (youngtimers) estrangeiros e nacionais, dos anos 20 ao começo dos anos 2000. Carros originais ou preparados ao estilo da época.
São matérias especiais, feitas para serem saboreadas como as das clássicas revistas que amamos.
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Eu tenho pena das pessoas que enxergam o automóvel apenas como uma ferramenta, tão inerte como uma geladeira ou um computador. Pena é um sentimento a se evitar, mas eu tenho nesse caso, é inevitável, fazer o quê? Pena também é a única forma de expressar como me sinto a respeito das pessoas que veem o automóvel como um símbolo de sua posição social, por mais alta que ela seja. Isso pelo simples fato que essas pessoas perdem muito ao não conhecer as reais qualidades desta máquina maravilhosa, e como essas qualidades melhoram nossas vidas.

Carros, como criações humanas complexas, levam em si muito da alma de seus criadores, como obras de arte. Assim, são pessoais, diferentes uns dos outros, variados. Desta forma se tornam assunto: material de análise, estudo, conhecimento, discussões tanto técnicas quanto filosóficas e metafísicas. Emoção também se torna uma parte disso: amamos uns e odiamos outros, e com isso conversas interessantíssimas acontecem.

Sem falar nos superpoderes que o carro nos dá, a custa somente de algum dinheirinho e mais nada: o de ir mais longe e mais rápido levando mais gente ou carga, na maioria dos casos (sim, Puma conversível, você não) protegidos do tempo, chuva e sol. Ao dirigi-los, outras emoções, outras análises, outras conversas. Dizem que o álcool é o lubrificante social; pode ser para alguns, mas o automóvel é a cola de todas as minhas relações humanas. Me deu amigos, colegas, trabalho. Me deu vida na definição mais pura do termo, com as adversidades, as felicidades, as tristezas, as perdas, as conquistas, as surpresas e alegrias supremas que fazem nosso tempo aqui neste plano valer a pena.

Vejam o caso deste carrinho que ilustra esta matéria de hoje. Conheci o seu dono, o ilustríssimo e douto Dr. Gino Brasil, advogado renomado e pai de família responsável, um senhor com uma careca proeminente que ilustra sua idade e posição social, quando era apenas o Gino. Mais um jovem fissurado por automóveis que passava o dia conversando com uma turma via grupo de e-mail. Que é uma espécie de protótipo de grupo de Whatsapp, para os mais jovens que não sabem o que é isso. Ficamos amigos remotos, sem nos conhecer pessoalmente, há vinte anos quase. Uma coisa hoje normal, mas mais rara então. Depois, viramos amigos no mundo real também.

Eu não sabia então, mas o Paseo já era parte da vida do Gino. Este modelo, além da raridade hoje, e seu estado de novo depois de tanto tempo, aparentemente não tem nada de muito especial. Mas como todo carro, tem uma história e uma vida própria. Muitas vezes, se torna especial justamente por esta história, e a vida que ele levou.

Um carro, como nós humanos, vai a lugares diversos, mora em diversas casas, conhece pessoas diferentes e vive aventuras, felicidades e tristezas. Um carro envelhece e pode morrer como nós; embora possa ser reformado completamente e viver para sempre se bem cuidado, coisa que não conseguimos fazer. Uma máquina que se assemelha, em sua jornada pelo mundo, ao seu criador, ao mesmo tempo que pode ser, em casos mais raros, um legado a ser passado de geração a geração. Quem não percebe a beleza do automóvel como parte integrante de nossas vidas, realmente perde um pedaço sensacional dela. Ter um interesse especial tão vasto quanto o mundo do automóvel nos dá algo que todos desejam, mas poucos conseguem: um propósito.

 

O Toyota Paseo

Raro hoje aqui no Brasil, este pequeno e belo cupê da Toyota foi criado basicamente para o mercado americano, apesar de ter versões exclusivas para o mercado japonês também (os JDM de verdade, exclusivos para o mercado japonês), e ser vendido mundo afora na versão americana.

Parece incrível hoje no mundo-SUV, mas no fim dos anos 1980 e o início dos anos 1990, carros esporte ou com veia esportiva eram as notícias, o que todos desejavam. A Toyota tinha já o magnífico Supra de altíssimo desempenho; o delicioso MR2 com motor central-traseiro, e o cupê Celica de tração dianteira (ou, raramente, nas quatro rodas permanente). Mas ainda assim, sentiu a necessidade de mais um carro, para ser realmente barato e acessível, para o mercado dos EUA. Este carro seria o Paseo.

O significado da palavra Paseo é exatamente o que parece: “passeio” em espanhol. Aqui no sentido de calçada, local onde se anda despreocupadamente como o calçadão de praia. O carro foi um desenvolvimento bem simples, em cima da plataforma da quarta geração do subcompacto Tercel. O objetivo era fazer um cupê bonito, aerodinâmico, e com desempenho empolgante (mas não extremamente alto), a um preço bem baixo: U$ 10.000. Lançado em 1991, durou até 1995. O carro das fotos é 93/94.

O objetivo de preço baixo decretou poucas modificações em relação ao Tercel, mas todas bem efetivas. A carroceria era realmente bonita para um carro tão pequeno: 4145 mm num entre eixos de 2380 mm. Era também realmente eficiente aerodinamicamente, com um Cx de apenas 0.32. Os gaps de carroceria eram minúsculos para a época, um salto de qualidade japonesa. O carro era anunciado como 4 lugares, mas na realidade era um 2+2; os bancos traseiros basculavam para aumentar o porta-malas. Pesava apenas 950 kg, distribuídos 63/37% frente/trás.

O motor era só dele: um moderno quatro em linha com injeção multiponto, 74 x 87 mm para um total de 1497 cm3. Os dois comandos no cabeçote eram acionados por uma combinação de correia dentada e engrenagens, e acionavam 4 válvulas por cilindro por tuchos hidráulicos que dispensavam ajuste de folga, numa câmara de combustão triangular pentroof. O pequeno motor era o ponto alto do carro, principalmente quando pareado ao câmbio manual de cinco marchas (opcional automático de quatro marchas com travamento automático do conversor): girava solto e alegre até 6800rpm. Dava 101 cv a 6400 rpm, e 12,6 mkgf a 3200 rpm.

A suspensão básica era do Tercel, mas o Paseo tinha barras estabilizadoras na frente e atrás, e um ajuste mais esportivo. As rodas e pneus também eram melhores: 185/60 R14, em rodas de alumínio. A revista Car & Driver americana adorou o motor e o cambio manual, mas achou o carro barato demais em seu acabamento; conseguiu um 0-96 km/h em 9,2 segundos e uma velocidade máxima de 181 km/h.

Um carro simples e barato, e derivado de um simples Toyota de frotista, sim; mas um desenho inspirado, um cupê de duas portas e motor mais forte. Carros interessantes e baratos é uma coisa que o tempo levou embora e não traz mais de volta.

 

O Paseo do Gino

A primeira coisa que se nota no carro do Gino é que, como sempre foi no mercado brasileiro, se há opção de câmbio automático, a maioria das pessoas o escolhe. Com o câmbio automático, muito da esportividade do carrinho desaparece. Mas não significa que é uma porcaria.

Conheci este carro em 2006, quando voltei a morar em São Paulo, e eu e o Gino fomos até o encontro do sambódromo numa quinta de noite. Fomos com o Paseo, eu dirigindo, e pegamos a mãe e o pai de todos os congestionamentos para chegar lá. Facilmente ficamos mais de uma hora no anda e para da cidade. Enquanto a gente batia papo tranquilo, o carrinho tirava tudo de letra; ar condicionado geladinho, visibilidade para todos os lados, teto solar aberto (guardado em lugar próprio no porta-malas, em sacola própria), motor suave e com resposta para pegar aquela fila que de repente andou mais rápido, bancos confortáveis, posição de dirigir boa. O interior era de couro, de qualidade. Um carro cheio de coisa boa e poucas ruins. Como um vira-lata feio, mas simpático: gostei dele de cara.

Mas como foi que o Gino acabou com um Paseo automático? Esta é a parte interessante da coisa: o carro é uma herança familiar. Não escolheu ou desejou ele, mas está em sua vida, de uma forma ou outra, desde novo. E de alguma forma, parece não querer sair nunca da família, apesar de ameaças de vende-lo aparecerem de tempos em tempos.

Engraçado como essas coisas acontecem. Toda vez que ele diz que está pensando em vender, respondo: ah, tá. Ainda não vi acontecer, nem acho que um dia verei. O fato é que, se não excitante, é um carrinho gostoso, algo que não causa nenhum sentimento a não ser alegria ao andar. E hoje, depois de tanto tempo, se tornou algo raro de verdade. Principalmente pelo estado.

E é um carro que escolheu a família do Gino, não foi escolhido, mesmo antes dele ficar com ele. O que faz sua longevidade na família ainda mais incrível. Em 1994, uma vizinha de prédio amiga, comprou dois carros numa batelada só: uma Toyota Previa, e um Paseo. O Gino, cabeça de engrenagem que é, notou a garagem interessante, mas nada mais que isso. Passa o tempo, e ao redor do ano 2000, o pai do Gino estava procurando um carro para a irmã dele, que acabara de fazer 18 anos. A melhor amiga da irmã do Gino era justamente parte desta família Toyota vizinha, e as duas amigas lembram de andar muito tanto de Previa quanto de Paseo, durante a adolescência.

Entre a Camila, a irmã do Gino, e seu pai, a ideia do primeiro carro ser um Paseo se formou; começaram a procurar um. Mas aí, conversando com a amiga, uma surpresa: o pai dela interrompe a conversa. Diz: Camila, se você quer comprar um Paseo, para de procurar já. Pode comprar o nosso, te vendemos ele.

O carro tinha então apenas 40 mil km, e era, para todos os efeitos, novo: um segundo carro que era usado esporadicamente em trajetos curtos. Compram o carro, e a irmã do Gino começa a usá-lo. Diz o Gino: “Graças a Deus que não bateu o carro no tempo que usou. No caso de minha irmã, é um verdadeiro milagre”. Um ano depois, ela convence seu pai que precisava de outro carro: um Honda Fit de primeira geração.

E o Paseo? A mãe do Gino ficou usando. Mas uns dois anos se passam, e ela também ganha o seu Honda Fit zero. Neste ponto, o pai do Gino pensa seriamente em vender o Paseo. Mas ao tentar fazer isso descobre que o carro valia muito pouco dinheiro a esta altura. Como tem garagem para ele, e o custo de manutenção era muito barato, resolve “deixar ele aí. Se precisar, temos um carro de reserva.”

O tempo, como costuma fazer, vai passando, e o Paseo ainda lá, usado muito esporadicamente, mas em uso. Os filhos saem de casa, e o pai do Gino muda para um apartamento menor, sem garagem para ele. Resolve colocar o carro na casa de campo que tinha no interior. O carro ficou lá por mais pelo menos cinco anos. Mas não totalmente parado: quando alguém ia passar uns dias na casa de campo, usava ele para ir ao supermercado, em restaurantes etc. Não ficou abandonado; só rodando pouco.

O Gino, por outros problemas então, tem que vender seu Golf e fica sem carro. Claro que a solução estava na mão: por três anos usa o Paseo como seu carro de dia a dia. Mas eventualmente a situação melhorou, o Gino comprou outro Golf para si, e o carro ficou parado. Desta vez, parado de verdade; ninguém mais o usava, e o pai do Gino pensa, de novo, em vende-lo. Isso foi a coisa de quatro anos atrás.

Agora, o tempo tinha passado, e carros dos anos 1990 eram uma nova mania. Todo mundo queria, e procurava carros assim. O Gino estava nessa, vasculhando furiosamente relíquias interessantes de todo o tipo. De novo, algo que entendemos perfeitamente: gente de nosso tipo é assim. É o que fazemos.  Ao ouvir seu pai anunciar em voz alta que ia vender o Toyotinha, imediatamente uma luz em forma de cupê japonês de 1993 apareceu em cima da cabeça de meu amigo. “Poxa, eu já tenho um carro dos anos 1990. E está em perfeito estado de conservação!”

O carro acaba com o Gino, e ele começa a cuidar dele. As vezes usa como segundo carro, mas na maior parte do tempo, cuida. Agora é um carro antigo, uma raridade, quase por acidente! O Gino fez alguns cursos do SENAI de mecânica automotiva, por pura diversão: usa seus conhecimentos para ele mesmo consertar o que quebra, arrumar o que precisa. Não é nenhum supercarro. Não vale lá nenhuma fortuna se for vendido, mesmo hoje. Mas ainda é um carrinho ótimo, útil, bonito, usável. Bonito! Confortável! Tem um valor ainda, como carro mesmo! E ainda mais, como raridade que é, agora.

É, na verdade, um órfão.  Como qualquer pessoa, tem seu valor. Mas poucos conseguem ser adotados, e viver uma vida plena. Se a família Brasil não o tivesse adotado, hoje estaria num ferro velho, efetivamente morto. Pelo simples fato que eles o mantiveram em uso, está aqui ainda, fazendo tudo que outros carros novinhos fazem, existindo e nos lembrando de quando era novo, reluzente, desejado. Agora parte de uma família, com uma casa e um dono. Uma raríssima joia, quase impossível de se ver igual em tão bom estado. E tudo quase por acidente.

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